domingo, 16 de fevereiro de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 7)


-- Viu só, Mestre Theoddor? Eu disse que não ia ficar bom! Até aquele homem, que deve ser um artesão ou coisa parecida, consegue perceber isso!
Cyprien, com as faces em fogo, se voltou para a mesa deles. A pessoa que falava era uma elfa de sangue puro – ele supôs por sua aparência, e teria mais certeza se soubesse quão mais aguçados que os humanos são os ouvidos de um elfo --, e não uma menina como Pardalzinho, mas uma garota mais velha, zangada e de mãos na cintura. Seus companheiros, outra moça e três ou quatro rapazes que deviam ser todos mestiços, e o próprio Theoddor a fitavam, constrangidos, sem saber como fazer frente àquele desabafo.

-- Já no começo eu disse que não daria certo. Ninguém conversa assim! – Ela repetia exatamente o que Cyprien tinha pensado. – Ninguém parte de uma brincadeira, um jogo de palavras, para se exibir com tudo que sabe a respeito de símbolos!
-- Ela tem razão – disse um dos rapazes, coçando a cabeça. – Se meus amigos fossem assim, eu não acharia divertido jogar com eles,
-- Mas amigos não são... Quer dizer, isso é teatro, é algo imaginado. Não é como na vida real – argumentou Theoddor. – Não tem que parecer o que vocês fariam de verdade.
-- Não é a vida, mas tem que ter mais vida – a elfa insistiu. – Foi o que eu li no livro que Mestre Camdell me emprestou. O que se faz num palco tem que ter por trás a emoção dos atores, e provocar também a do público. E nem eu sinto qualquer emoção ao dizer essas palavras, nem acho que o público vai sentir, como aquele homem disse com tanta clareza.
Seus olhos se voltaram para Cyprien, e com eles os de todo o refeitório: mestres e aprendizes tinham parado de comer para prestar atenção àquilo. O saltimbanco baixou a cabeça, respirando fundo, e esperou por uma resposta de Theoddor; esta, porém, não veio, e ele compreendeu que o silêncio não era mais que a sua deixa.
-- Senhoras e senhores, uma vez que sua atenção foi atraída para mim, começo por me apresentar – disse, e se levantou devagar, criando efeito. – Sou Cyprien, um artista de Pwilrie. Estou nas Terras Férteis há uma lua, e faz apenas três dias que cheguei em Vrindavahn. Vim acompanhando um amigo, sobrinho do Mestre Hector, o marioneteiro; essa é uma das artes com as quais trabalho, além de malabarismo, que me fez ser contratado para ajudar no treino dos aprendizes. E, como sabem, o teatro de bonecos tem bastante em comum com o que os atores de carne e osso representam nos palcos, portanto... Com o meu pedido de desculpas, se isso os ofende... Por tudo que sei, o teatro deve agradar ao público, e o que ouvi dificilmente agradaria.
-- Como sabe? – A pergunta veio de longe, dos lábios da elfa mal-humorada que ele supunha ser uma das mestras da Escola. – Pode ter experiência com o público, não duvido, mas certamente só com o público comum, gente que vaia e aplaude os saltimbancos na praça do mercado. Aqui são todos mestres e aprendizes das Artes Mágicas, e as peças não são para entreter a assistência. Elas têm um propósito e um significado, que nem você, nem qualquer outro leigo são capazes de entender.
Thalia de Erchedel

-- Compreendo, senhora – disse Cyprien, trincando os dentes. – Peço desculpas, mais uma vez, pela ofensa. Não cabe a mim dizer como uma história deve ser contada.
-- E ainda assim... – Agora quem falava era o elfo ao lado dela, com a tiara nos cabelos, inclinando-se sobre o prato intocado. – Ainda assim, Thalia, nosso mestre artista tocou num ponto interessante. É verdade, o teatro tem um significado, não se trata apenas de entreter o público ou, como ele disse, de agradá-lo; mas, ainda assim, a peça busca contar uma história. E, como Elina nos fez lembrar, ainda que um pouco exaltada demais, ao ponto de ser rude com Theoddor...
-- Peço perdão – disse a elfa, corando violentamente. – Perdoe-me, Mestre Theoddor, e o senhor também, Mestre Camdell. É só porque desde o início venho insistindo nesse ponto, e ninguém me deu ouvidos. Mas não queria ser rude com ninguém. Eu juro.
-- Nem eu – disse Cyprien.
-- Sabemos. Fiquem tranquilos. – Camdell ergueu a mão esguia, onde brilhava um anel de rubi. – Mas, deixando de lado esse tom um tanto brusco, Elina teve uma boa lembrança. O livro que lhe emprestei foi escrito por um dos maiores mestres que já discorreram sobre a arte teatral, e ele reforça a importância de manter o interesse do público, a fim de transmitir o que se deseja. Faz até menção à Magia – acrescentou, pensativo --, embora seja a praticada pelos xamãs, que passam ensinamentos para a tribo por meio de histórias. Também fazemos isso, mas muitas vezes nos limitamos a explicar, ou apenas ler um livro em voz alta. Já eles, ao narrar, mexem com as emoções, trabalham a Magia... com arte. É isso que eu quero tentar fazer em nossa escola.
-- Escola de Artes Mágicas – disse o meio-elfo ao seu lado, que até então estivera em silêncio. – É só pensar nisso, e o que você disse faz sentido.
-- Ah, é mesmo, Finn? Muito bem, então – disse Thalia, cruzando os braços. – É sua vez de ajudar, porque eu já fiz minha parte, e Theoddor fez o que podia. Quem sabe um mestre de Magia da Forma, que entende tanto de rituais, possa obter mais sucesso?
-- Ou... um mestre de arte? – indagou Camdell, e entrelaçou as mãos sob o queixo, olhando em cheio para Cyprien. – O que acha de ajudar a tornar a peça melhor?
-- Eu? – Foi um choque; ele quase engasgou. – Mas eu não...
-- Sim, sim, sim, sim, sim! – gritou Pardalzinho, pondo-se de pé e ao seu lado num único salto. – Mestre Camdell, Cyprien entende tudo de arte, e é muito divertido. Aposto que a peça vai ficar ótima com ele!
-- Eu também acho – disse Theoddor, abrindo um sorriso calmo. – O que me diz, Cyprien? Os aprendizes sabem tudo que tem de estar na história; você só precisa sugerir um jeito mais interessante de contá-la. Sei que conhece a melhor maneira... de evitar a chuva de nabos – acrescentou, e algumas pessoas ao redor soltaram risadinhas. Finn, o mestre de Magia da Forma, e a meio-elfa ao seu lado também acharam graça, mas Thalia não; e quando Cyprien, sem saber como agir diante daquilo, finalmente concordou em ajudar com a peça, ela se levantou e se afastou com brusquidão.
-- Façam o que quiserem, da minha parte eu sei que cuidei, e espero que não seja conspurcada. E que seja a última vez – advertiu, com o dedo no ar. – Precisamos de um Mestre de Sagas de verdade. Você me autoriza a buscá-lo, Camdell? Já que sua amiga preferiu viver na Floresta dos Teixos?
-- Sim, Thalia. Pode escrever em meu nome; você sabe as condições – disse Camdell, com um suspiro. – Agradeço muito se conseguir alguém.
-- Oh, de nada, de nada – respondeu ela, já de saída do refeitório. Suas longas vestes deslizaram pelo mosaico do chão, produzindo uma espécie de silvo. Cyprien sentiu sua pele arrepiar, mas, no instante seguinte, a voz de Finn o devolveu à verdadeira dimensão daquilo.
-- Acho que Thalia não volta – disse ele, dirigindo-se a Camdell. – E ela nem tocou no pudim. Pode passá-lo para cá?

Cyprien e Thalia retratados por Angela Takagui

Parte 1

Parte 6

***

Pessoas Queridas, vou me ausentar por cerca de dez dias. Nesse meio-tempo, além de passear aqui pelo Castelo, convido vocês a visitar o blog da Editora Draco e saber um pouco mais sobre o processo de criação do Cyprien e as outras histórias sobre ele já disponíveis. Basta clicar aqui.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 6)



Os aprendizes se entreolharam por um momento antes de assentir. Cyprien repassou algumas explicações sobre o manuseio das bolas coloridas, que todos dominavam em teoria, e passou as próximas duas horas corrigindo os erros práticos. Deu uma demonstração também, embora sem os floreios do dia anterior, pois ali o que interessava não era mostrar o que sabia, e sim fazê-los observar e repetir seus movimentos. As crianças se comportaram como o esperado, errando mais do que acertavam, ficando frustradas e irritadas por causa dos erros e se animando quando percebiam ter feito algum progresso. Cyprien as encorajou, até distribuiu um elogio para cada um – neste a concentração, naquela a firmeza do pulso, na pequena, que nunca reclamava das repetições, a atitude --, mas deixou claro que só melhorariam com muita prática e muito esforço, e tinham que treinar um pouco nas horas vagas, de forma a ter o que mostrar quando ele voltasse a vê-los.
-- Vamos treinar, sim. Treinamos todos os dias – disse o menino de rosto comprido. – Não melhoramos muito porque o mestre que tivemos antes não explicou onde estávamos errando. Só disse para a gente praticar até acertar, e mais nada.
-- Onde ele está agora? – perguntou Cyprien, e balançou a cabeça ao ouvir que não estava mais no Castelo. Melhor assim: faria do seu jeito, que transformara dezenas de crianças em artistas pelo menos razoáveis. Nunca tivera um aprendiz só seu, mas os mestres de Pwilrie sempre o preferiam para ajudar a treinar os mais novos. E, ao contrário do que temera, o fato de esses de agora terem sangue de elfo não foi nenhum empecilho.
Um sino badalou, duas, três, inúmeras vezes, de forma que ninguém deixasse de saber que era meio-dia. Os operários interromperam o trabalho e começaram a se retirar, enquanto a aluna menor de Cyprien o puxava pela mão.
-- Vamos comer! – Suas faces estavam coradas, e ela continuava a saltitar feito um pardalzinho. – Se a gente chegar logo ao refeitório, todo mundo consegue sentar junto!
-- Todos aqui comem no mesmo lugar? – perguntou ele, só para confirmar; não era assim tão estranho, era inclusive a prática nos castelos do Norte, onde senhores e servos comiam juntos no mesmo salão. Esperava encontrar algo parecido no Castelo das Águias, mas o refeitório ao qual os aprendizes o guiaram era, como logo percebeu, mais semelhante àqueles que se encontravam nos templos: em vez de uma mesa grande, com assentos elevados para os castelões, e outras laterais para acomodar os convivas em ordem de importância, aqui havia duas fileiras de mesas paralelas, com bancos onde cabiam quatro pessoas de cada lado – ou cinco, se fossem crianças – e uma pouco maior na lateral. Estivessem num templo e essa mesa pertenceria ao Preste Superior, ao Mestre do Coro e aos demais religiosos graduados; aqui, porém, era o lugar onde se sentavam os mestres da Escola de Magia, todos do mesmo lado, de frente para os aprendizes, artesãos e trabalhadores do Castelo.
Cyprien deu uma olhada discreta enquanto passava por eles, a certa distância, para ocupar uma mesa junto com Pardalzinho e seus colegas. Dois eram elfos: uma mulher carrancuda, que nunca terminava de passar manteiga num pedacinho de pão, e um sujeito de cabelos compridos usando uma tiara de bronze. Esse tinha à frente um prato cheio de verduras, que não estava se animando a comer. Ao lado estava um casal de meio-elfos, entretidos um com o outro e também sem muito apetite, ao que parecia. Faltava Theoddor – mas o primeiro relancear de olhos pelo salão bastou para vê-lo, sentado com um grupo de aprendizes mais velhos, enquanto um rapaz e uma moça se revezavam para declamar poemas em voz alta. Se é que eram poemas. Depois de algum tempo, tornou-se claro, para Cyprien, que se tratava de uma peça de teatro.
E, embora os dois tivessem boas vozes, as falas eram incrivelmente ruins. 
A comida chegou: travessas de verduras, grãos cozidos e carne já fatiada trazidas por duas mulheres. Cyprien se serviu, aceitou uma caneca de cerveja fraca e comeu em silêncio, prestando atenção à peça com as falas forçadas e praticamente sem história. Tratava-se de um mestre – de Magia, ele supôs – cujos aprendizes deviam cuidar da casa na sua ausência, mas que, em lugar de fazer uma festa ou qualquer coisa divertida, preferiam passar o tempo com um jogo de adivinhações. O jogo era pretexto para desfiarem conhecimentos sobre símbolos mágicos e a natureza do inverno. Era tão aborrecido que, a certa altura, o artista não foi capaz de disfarçar o que sentia.
-- Que cara é essa? – indagou Brenan, o menino de rosto comprido. – O pudim até que está gostoso.
-- Está mesmo. Fiz essa cara por causa do ensaio, ali no fundo. Para que estão fazendo aquilo?
-- Para a festa de solstício de inverno. Sempre tem uma peça – explicou o garoto.
-- Sim, vejo que a ideia é ser uma peça, mas parece mais uma aula ou coisa parecida. Se estão representando um grupo de jovens, de aprendizes, por que falam desse jeito? E o público, o que vai achar? Em Pwilrie, se alguém apresentar uma peça assim, pode esperar uma chuva de nabos podres – disse Cyprien, terminando a cerveja. Tinha falado em voz baixa, para ser ouvido apenas por Brenan ou, no máximo, pelas outras crianças na mesa, por isso levou um momento para ligar suas palavras àquilo que se seguiu.
Primeiro, uma espécie de vácuo, um corte brusco em meio à fala de uma das garotas.
E, logo após, a voz da mesma garota, cheia de acusação.

Imagem: Refeitório de um monastério franciscano em Katovice, Polônia (Wikicommons)

Parte 1

Parte 5

Parte 7

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 5)


A expectativa de trabalhar na Escola de Artes Mágicas manteve Cyprien acordado boa parte da noite. Era a segunda na casa de Hector, numa cama confortável, ainda que improvisada, que já levara embora a fadiga da viagem. No dia anterior, pela manhã, ele fora se apresentar ao Conselho, acompanhado por Tomas e família; fizeram muitas perguntas, mas no fim lhe entregaram uma permissão de residência e trabalho, selada com as duas trombetas de Vrindavahn e com uma assinatura cheia de volteios. Dali foram almoçar com velhos amigos de Tomas, e todos se mostraram cordiais, mas Cyprien não conseguia tirar da cabeça a ideia de que o julgavam em silêncio, por sua origem, por seu ofício, pela cor de sua pele. Tinha uma dúzia de respostas na ponta da língua para dar a quem o insultasse. O julgamento, porém, ficou apenas nos olhos das pessoas, e ele aprendera muito cedo as duas maneiras possíveis de reagir a isso. Podia sustentar o olhar, permanecer altivo, manter-se sério ou até fechar a cara, de forma a deixar claro que não estava para brincadeira; ou, ao contrário, podia sorrir, mostrando que era um bom sujeito, sem nada a esconder, e não fazia jus à fama que acompanhava os saltimbancos de Pwilrie. Na verdade, todas as pessoas de Pwilrie, quando se vinha para as Terras Férteis. Pelo que vira em Madrath, até o prefeito de sua cidade seria olhado com desconfiança ao cruzar a fronteira.
O senhor do Castelo das Águias não se mostrara desconfiado, embora houvesse demonstrado alguma surpresa ao conhecê-lo. Cyprien se inclinava a pensar que era um homem bom, ou pelo menos decente, e algo lhe dizia que voltariam a se ver dentro em breve. Quanto às pessoas a quem ensinaria malabarismo, eram uma incógnita; vira alguns jovens no Castelo das Águias, mas não sabia se eram aprendizes, e estavam distraídos e distantes demais para sequer reparar nele. Toda a experiência ficara para o dia seguinte.
Hoje.


Quando os sinos do templo de Bragi anunciaram a nona hora, Cyprien se pôs a caminho, calculando o tempo que suas pernas jovens levariam em comparação ao passo descansado da égua de Hector. O velho artesão tinha ficado em casa, empenhado em organizar o anexo que lhe servia de oficina a fim de que Tomas reassumisse seu antigo lugar. Stela preparara o desjejum para todos e fora ao mercado com duas vizinhas, cada qual com um filho pequeno e mais que dispostas a acolher e aconselhar a moça estrangeira. Por sua vez, ela parecia contente em se ocupar apenas de Aryan e das tarefas de uma dona de casa. Talvez nem mesmo ajudasse nos próximos espetáculos, isso se chegassem a fazer algum, já que o trabalho no Castelo das Águias tinha rendido algumas economias. Um inverno tranquilo, pensou Cyprien, olhos presos às torres enquanto caminhava. Um inverno sem contar cada moeda, sem ter que passar o chapéu. Até onde se lembrava, essa seria a primeira vez.
-- E o amigo, quem é? – Os portões do castelo estavam abertos, e uma carroça entrou, carregada com sacos de trigo, enquanto o porteiro assentia ao ouvir seu nome. – Ah, sim, o artista que começa hoje a ensinar malabarismo. Sabe onde deve ir?
Cyprien fez que sim e rumou pelo caminho que fizera na véspera. Com o sol da manhã, o castelo parecia mais claro, mas o espaço exterior estava quase vazio, a não ser por umas poucas pessoas ocupadas em cuidar de uma horta. Ele passou por um tanque de peixes e um cercado de aves domésticas antes de virar à esquerda e chegar à ala tomada por tijolos e operários, além de um grupo de crianças praticando malabarismo diante do galpão de trabalho. Faziam-no muito mal, mesmo o garoto louro que era o único a conseguir manter três bolas no ar; nunca haveria uma quarta se ele não aprendesse a economizar os movimentos. A menina a seu lado mal conseguia cruzar duas bolas na altura do nariz. Era a menor de todas, onze ou doze anos talvez, com traços élficos bem pronunciados, como aliás todo o resto do grupo. Cinco pares de olhos oblíquos, cinzentos ou azulados, que não tardaram a perceber a presença de Cyprien.
-- Ih, olha. – O lourinho tocou o amigo mais próximo com o cotovelo. – Acho que ele chegou.
-- Você é malabarista? – perguntou, sem cerimônia, a menina mais nova; tinha uma voz bem infantil, e saltitou sobre os pés ao falar, fazendo-o pensar num passarinho. – Se for, é o nosso novo mestre. Somos do Primeiro Círculo.
-- Sou malabarista – disse Cyprien, sorrindo para ela. – E acho que sou seu mestre, mas não sei o que significa Primeiro Círculo.
-- Aprendizes iniciantes. Que ainda não praticam Magia, só fazem exercícios preparatórios e estudam muito – esclareceu um garoto de rosto comprido. – Até o Terceiro Círculo, se é considerado aprendiz. Sairemos da escola como magos, iniciados do Quarto Círculo, mas para ir adiante precisaremos achar um mestre, ou ser aceitos na Escola de Magia de Riverast.
-- Outra das Onze Cidades, não é? Bom, eu venho do Leste, de uma cidade chamada Pwilrie – disse Cyprien. -- Não entendo nada de Magia, mas – fez um gesto, pedindo que lhe entregassem as bolas pintadas --, de arte entendo bastante, pelo menos algumas. Vi a prática de vocês, enquanto me aproximava, e vamos ter que corrigir certos problemas na base, voltar um pouco atrás nos exercícios. Se não, irão em frente cometendo erros, e logo será quase impossível progredir.
-- Mas a gente... – o de rosto longo começou, mas fechou a boca, parecendo envergonhado.
-- A gente o quê? Pode falar – Cyprien o encorajou.
-- A gente não precisa progredir na arte. Com todo respeito – acrescentou o menino. – Não vamos ser malabaristas. Isso é só para aprendermos concentração.
-- É? Como assim? – Cruzou os braços, disposto a ouvir; talvez não tivesse entendido. – O Mestre Theoddor disse que vocês fazem outros exercícios, que aprendem com os magos, ao mesmo tempo que praticam. Mas mesmo assim têm que se aperfeiçoar nisso aqui, certo?
-- Certo. Precisamos fazer isso sem pensar – disse o de cabelos louros. – A ideia é que nos concentremos tanto que não pensemos mais nas mãos. E depois não vamos precisar das mãos. Só da vontade mágica.
-- Vontade mágica? A... a Magia vai mover os objetos para vocês? – Cyprien franziu a testa; parecia difícil de crer, mas todos estavam assentindo com entusiasmo, como se o cumprimentassem por ter entendido rápido. – Querem fazer malabarismo sem usar as mãos?
-- Isso mesmo! Mestre Finn consegue – disse o lourinho. – É o mestre de Forma e Pensamento aqui da Escola. Ele ainda não dá aula para a gente; antes disso, entre outras coisas, temos de aprender a jogar três bolas sem errar.
-- Logo, progredir na arte – disse Cyprien, com alívio; tinha encontrado o fio da meada, e não iria perdê-lo. – Se têm de fazer malabarismo com perfeição, não importa se é para ser magos ou artistas, devem parar de cometer erros. E eu estou aqui para ajudá-los. Vamos lá?

Imagem: Crianças dançando em livro medieval (cerca de 1500)

Parte 1

Parte 4

Parte 6

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Um Artista no Castelo (parte 4)

O velho marioneteiro estava de costas para a porta e mostrava alguma coisa ao rapaz arruivado, que olhava atentamente para suas mãos. Assim, só o moreno viu o senhor bem-vestido entrar no galpão de trabalho, e na mesma hora assumiu uma postura defensiva. O sorriso apareceu no instante seguinte, um sorriso claro e fácil de artista, de quem depende da simpatia do público para comer. Esse rapaz deve ter passado maus bocados na vida, pensou Theoddor.
-- Mestre. – O jovem tocou o ombro de Hector, alertou-o com os olhos.
-- O quê? Ah, Theoddor! – O artesão se voltou, sorrindo, ele também, porém sem reserva. – Não imagina a alegria que o dia de ontem me trouxe! Veja, este é meu sobrinho, Tomas... Já lhe falei sobre ele, não?
-- Sim, sim! Sobrinho e aprendiz de ofício, certo? – Estendeu a mão para o ruivo, que a apertou com firmeza, a expressão séria. – É um prazer conhecê-lo. Vai ficar na cidade?
-- Ele não sabe – Hector respondeu pelo rapaz --, mas vai passar o inverno, e me dará uma boa mão na oficina. Se decidir ficar, talvez possa me auxiliar na Escola. Já o amigo dele está vindo hoje porque, além de trabalhar com fantoches, é malabarista. Ouvi, por esses dias, os aprendizes dizendo que precisavam de um.
-- Pois precisamos – disse Theoddor, e olhou dentro dos olhos do rapaz. Estavam inquietos, mas eram límpidos e sustentavam seu olhar: ele não escondia nada além da desconfiança. E, ao perceber os traços de tinta em seu pulso, Theoddor teve uma boa ideia do motivo.
-- Cyprien de Pwilrie – repetiu, ao lhe apertar a mão. – Veio de longe, Cyprien. É sua primeira visita às Terras Férteis?
-- Pode apostar – disse o rapaz, e completou com um instante de atraso: -- Senhor Theoddor.
-- Hum, bom, não vou dizer para me chamarem pelo nome, como Hector, porque vocês são quase crianças perto de nós. Mas, se é para ter cerimônia, prefiro que me chamem de Mestre. É o que sou, na Escola de Artes Mágicas... onde, suponho, você pretende trabalhar.
-- Sim, meu tio pensou nisso, mas só se houver trabalho para mim – disse Tomas, com seu jeito sério. – Se não, ficarei na oficina, em Vrindavahn, e ajudarei nos espetáculos. Não se incomode conosco.
-- Não é incômodo! Seu tio Hector é excelente artesão; combinamos que ele voltaria logo após o solstício, e se você estiver com ele será bem-vindo. Já seu amigo... Bem, malabarismo é uma das artes mais usadas para ajudar na concentração, e nossos meninos e meninas mais novas continuam precisando de um mestre. Alguém que seja paciente e bom no que faz.
-- Cyprien é muito bom – afirmou Tomas, e se voltou para o amigo. – Mostre a ele.
-- Oh, não. Isso pode ficar para... – começou Theoddor, mas se calou ao ver o rapaz moreno se pôr em movimento. Ele nunca estivera naquele galpão, mas foi direto a um canto onde ficavam algumas bolas usadas no malabarismo e, mesmo agachado, atirou cada uma para cima e as sopesou nas mãos para escolher as que lhe convinham. 


Ao se levantar – aos poucos, com movimentos fluidos como os de um gato --, já tinha começado sua demonstração, as bolas de madeira pintada saltando sem esforço de suas mãos e girando no ar, cinco seis, sete, um círculo completo que se repetiu três vezes antes que Cyprien introduzisse uma variação. Suas mãos não hesitavam, o olhar agora suavizado, atento às bolas que fazia cruzar sobre sua cabeça, passar por baixo do braço ou da perna, quicar no chão antes de retomá-la e devolvê-la ao círculo multicor que girava à sua volta, como se o artista fosse o sol. Perfeito, preciso, concentrado, pensou Theoddor. O que Camdell não poderia ter feito por esse rapaz, se ele fosse dez ou doze anos mais jovem?
-- Er... Cyprien, acho que já chega. – A voz de Hector quebrou o encanto. – Mestre Theoddor já viu que você é bom nisso.
-- Sou? – Um sorriso encurvou os lábios do rapaz, as bolas ainda no ar, os olhos voltados para Theoddor.
-- Certamente! O melhor que já vi – foi a resposta sincera. Cyprien assentiu e, a partir daí, foi retendo as bolas coloridas e as deixando uma a uma sobre uma mesinha, enquanto Theoddor voltava a falar.
-- Se quiser trabalhar conosco, e espero que queira, sua função será orientar tanto iniciantes quanto jovens que já têm alguma prática. Esses, durante o treino, vão fazer alguns exercícios propostos pelos Mestres de Magia, e você deve ser tolerante com o tempo e as necessidades deles. Pagamento, seis peças de bronze a cada quarto de lua, e todas as refeições no castelo. Temos um trato?
-- Seis de bronze, mais a comida? Nem tenho o que pensar – sorriu o rapaz. Parecia outro, mais confiante, mais aberto, mais amigável, como se mostrar o que sabia o houvesse feito baixar suas defesas. Se lhe perguntassem, Theoddor diria que tinha gostado dele.
-- Então está certo. Pode vir amanhã cedo, ao nascer do sol, se quiser tomar o desjejum; ou pela décima hora, se preferir dormir um pouco mais e só chegar para o treino. Os aprendizes serão avisados para vir à sua procura. E, Tomas, após o solstício, você é bem-vindo para se juntar a nós, na qualidade de ajudante de seu tio. O pagamento dele aumentará em três bronzes, e eu tenho certeza de que ele será justo com você.
-- Serei, sim! Vou até puxar a orelha dele como antigamente – brincou o velho.
-- Posso apostar que ele merecia – Theoddor riu junto. – Bem, tudo encaminhado. Mandem dizer se precisarem de alguma coisa.
Os três assentiram, deixando claro, pela expressão em seus rostos, que nada tinham a acrescentar para o momento. Um pouco mais e ficariam constrangidos, por isso Theoddor se despediu e deixou o galpão de trabalho. Continuou a caminhar pela ala, inspecionando as obras do anfiteatro e tomando notas para futuras providências, mas volta e meia se descobria pensando nos recém-chegados. Ou melhor, em Cyprien de Pwilrie, que na verdade não vinha de tão longe, mas cuja presença nas Terras Férteis era no mínimo inusitada.
Fosse quem fosse, ele devia ter boas histórias para contar.


*****

Imagem: malabarista, retratado no Gradual de Saint-Etienne de Toulouse, coleção Europeana da British Library.

Parte 1

Parte 3

Parte 5


segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 3)



À sua esquerda, um grupo de operários passou carregando tábuas, e mais à frente se erguia a pilha de tijolos que a olaria entregara na véspera. Somando tudo, estavam indo bem, até adiantados na construção do anfiteatro, onde mestres e aprendizes da Escola de Artes Mágicas passariam a se reunir para festas e cerimônias. Outro grupo se empenhava em ampliar a ala destinada a hospedar os aprendizes, providência urgente em vista das cartas que não paravam de chegar. Vinham de todas as cidades e muitas aldeias das Terras Férteis: cartas de magos dando notícias de jovens promissores, a quem por alguma razão não podiam ensinar; cartas de conselheiros, de letrados e até mesmo de Prestes esclarecidos, com teor semelhante, mas escritas num tom cauteloso, indagando o que fazer com aqueles rapazes e moças cuja simples presença bastava para que a louça despencasse das prateleiras. Por fim, havia cartas enviadas pelos próprios jovens, uns orgulhosos, outros aflitos, muitos simplesmente esperançosos, pedindo ajuda para lidar com o Dom recém-descoberto da Magia ou manifestando o desejo de aprendê-la, ainda que todos ao seu redor afirmassem que seria impossível. Essas eram as preferidas de Theoddor, e ele prometera a si mesmo não medir esforços para receber e instruir os postulantes. Nem todos se tornariam magos – isso podia acontecer até mesmo com os que tinham o Dom inato --, mas em muitos a Magia iria florescer, alimentada pelo sonho e pela Arte. Talvez até nos três espertinhos que tinham se juntado, julgando-se escondidos por trás da pilha de tijolos, para jogar conversa fora em vez de praticar como deveriam.
Eles estavam no castelo havia mais de um ano, cada qual com seu talento, com seu sonho, com sua dificuldade. Donovan, o rapaz de nariz arrebitado, não conseguia cantar no tom. Elina de Herrien tinha dificuldade para se concentrar, e Marla de Kalket era tão desajeitada que tudo lhe caía das mãos, mas, desde que insistissem e fizessem os exercícios, todos iriam melhorar. Todos estavam ali por um propósito, assim como a Escola. E, sendo elfos e meio-elfos, e ainda por cima tão jovens, tinham todo o tempo do mundo para aprender.
Mesmo assim, era preciso que o usassem melhor.
-- Muito bem... Pegos em flagrante! – exclamou Theoddor, surgindo por detrás dos tijolos; os três se encolheram, e o mestre não disfarçou um sorriso. – Ou muito me engano ou há uma aula sendo dada neste momento, na qual todos vocês deveriam estar. Não é verdade?
-- Hum, não tenho certeza. – Donovan fez cara de inocente, olhou para a amiga mais próxima. – Tínhamos algo marcado para hoje?
-- Não estou bem lembrada – disse a moça de Kalket, entrando no jogo. – Deixe-me ver...
-- Ah, parem com isso! Tem uma aula com Mestra Thalia – disse a outra, e olhou para Theoddor, com ar constrangido. – Desculpe, Mestre. Nenhum de nós estava... inspirado para ouvir falar de símbolos e correspondências.
-- Oh! E o aprendizado depende apenas de inspiração? – Theoddor cruzou os braços, forjou uma expressão severa, que levaram mais ou menos a sério. – Lembrem-se, vocês três: a intenção está por trás de todo ato de Magia, e ela começa por querer fazer alguma coisa. Mesmo quando tudo que apetece é estar com os amigos, jogando conversa fora.
-- Mestre... Não era isso que estávamos fazendo. Não fomos à aula, é verdade, mas tínhamos que acertar detalhes sobre a peça do solstício de inverno – disse Elina de Herrien, uma elfa de cabelo prateado e olhos cor de violeta. – Mestre Camdell nos deu um roteiro, mas estamos com dificuldade.
-- Mas ainda têm bastante tempo antes da cerimônia. E uma excelente mestra para ensinar os princípios e as leis da Magia, que aliás podem lhes ser de boa ajuda – lembrou Theoddor. – Não entram símbolos na peça? Cores, aromas, representações? Em tudo isso Thalia pode orientá-los.
-- Sim, mas é que... nosso problema não é esse. É a peça em si – disse Donovan, coçando a ponta do nariz. – A história que vamos contar. Precisa ter os símbolos, mas... mas não é só isso.
-- Não sabemos o que e como fazer – explicou Marla de Kalket, meio-elfa como o rapaz. – Mestre Camdell sugeriu uma porção de livros, mas não temos tanto tempo assim. Queríamos algo mais direto.
-- Entendo – disse Theoddor, com um suspiro. – É, eu sei, ainda não conseguimos um Mestre de Sagas. Mas, olhem: por enquanto, se quiserem, posso ouvir as ideias de vocês e tentar ajudá-los.
-- Ótimo! Por mim, podia ser agora mesmo! – afirmou Marla. Os colegas assentiram sem muito entusiasmo, como se soubessem o que Theoddor diria em seguida.
-- Agora, de jeito nenhum, porque vocês estão perdendo uma aula importante. Já para a torre, sem discussão! – Resmungos dos três: eles tinham que representar seu papel até o fim. – Cheguem ao refeitório uma hora antes do jantar, e então conversaremos.
Mais resmungos, dessa vez em concordância, enquanto os jovens se punham a caminho da Ala Azul. Theoddor os acompanhou com o olhar, consciente de que havia mais uma questão a ser resolvida. A Escola não podia seguir sem um Mestre de Sagas, nem, por mais que houvesse músicos excelentes em Vrindavahn, sem um mestre de Música que entendesse de ritos e cerimônias mágicas. Ele partilhara sua preocupação com Camdell, que prontamente escrevera a seus amigos em Kalket pedindo indicações; recebeu algumas respostas, mas sua intuição de mago e mentor da Escola o fez recusar todos os candidatos, à exceção de uma jovem Mestra de Sagas que seguia os ensinamentos do sábio Odravas. Queria estar mais próxima da natureza, e, embora Vrindavahn ficasse a um pulo de distância, o Castelo das Águias e sua floresta pareciam uma boa opção. No fim, porém, acabou se mudando para uma aldeia lá no Norte distante, de onde enviava longas cartas contando sobre o frio, a gentileza dos elfos da tribo local e as conversas sempre curiosas que mantinha com o xamã.
Ao menos não tivemos problemas com os mestres de Magia, pensou Theoddor, enquanto retomava a caminhada. Finn e Sophia, Thalia e Camdell, além dele próprio, responsável pelas Ciências da Terra, que sempre tinham sido sua paixão – ali estava uma ótima equipe, mesmo que ainda não fosse a ideal. Quanto aos mestres das Artes, não poderiam estar mais bem servidos do que em Vrindavahn. A menos, talvez, que tivessem ido a Madrath, onde havia a Escola de Teatro, os estúdios de grandes pintores e escultores, a Arte mais sublime das Terras Férteis... Mas seria ingênuo supor que uma proposta como a de Camdell seria bem aceita em Madrath ou em qualquer das Onze Cidades.
-- Senhor Theoddor! – Um operário acenou a curta distância, um homem de meia-idade que crescera em Vrindavahn, acostumado a olhar com deferência para os membros de sua família. – O velho Hector, o dos fantoches, estava à sua procura um pouco mais cedo. Deve estar no galpão de trabalho, ele e dois rapazes que vieram junto. E me pediu para avisar se o senhor aparecesse por aqui.
Theoddor agradeceu e deu meia-volta rumo ao galpão. O antigo depósito fora reformado para comportar um espaço amplo, com mesas de trabalho, ganchos e prateleiras para guardar as ferramentas de vários ofícios. Era o local onde estocavam boa parte dos suprimentos, onde os mestres artesãos preparavam o material para suas aulas e às vezes recebiam os aprendizes, principalmente quando chovia. A área pertencia a eles, franqueada por Theoddor desde que os convidara a trabalhar na Escola; mas seu uso devia obedecer a uma infinidade de regras, e Hector dera prova de estar cumprindo uma delas.
Parentes, ajudantes, artistas ou operários em busca de trabalho: qualquer pessoa trazida ao Castelo das Águias pela primeira vez devia ser apresentada ao anfitrião.


Imagem: construtores, retratados em pintura de livro medieval

Parte 1

Parte 2

Parte 4


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 2)




-- Nem posso acreditar, Tomas! Você, de volta... Depois de todos esses anos! – A emoção mal permitia que Tio Hector falasse; ele fitava intensamente o sobrinho, a ponto de não enxergar as outras pessoas ali paradas, de pé, a menos de dez passos. – Era um menino, mal tinha começado a fazer a barba, e agora, agora... Olhe só para você!
-- Nem tanto, tio. Eu já tinha dezessete – sorriu Tomas. – Claro que mudei, mas o principal é... Bom, melhor que você os veja por si mesmo.
-- Quem? Oh, claro, seus amigos. – Hector se voltou para o casal que aguardava em silêncio, a moça de cabelo castanho e o rapaz moreno com o bebê dormindo no ombro. – Sejam bem-vindos, caros... hum, como se chamam?
-- Eu sou... – Cyprien começou a falar, mas Tomas interveio, sorridente, ao mesmo tempo que puxava Stela para junto de si.
-- Olhe bem para o menino, tio! Não pode ser filho deles dois, pode? – indagou, sorrindo ao ver o espanto, logo transformado em ternura, nos olhos do velho tio. – Esta é minha mulher, Stela. Eu a conheci no País do Norte. E esse é nosso filho, Aryan...
-- Como seu pai!
-- Sim, tem o nome dele. O próximo será Hector – afirmou Tomas, cheio de certeza. – E agora lhe apresento Cyprien de Pwilrie, meu grande amigo e parceiro de estrada. Ele nunca tinha vindo às Terras Férteis, e não teve boa impressão do que já viu, por isso peço que me ajude a desfazê-la nos próximos dias.
-- Sim, claro! O que eu puder fazer por seu amigo! – exclamou Hector, ainda emocionado. – Seja bem-vindo, Cyprien. E você também, é claro, Stela! Bem-vinda à família! Entrem, fiquem à vontade!
-- Obrigado, senhor, mas... temos que acomodar o cavalo – disse Cyprien. Fez isso de propósito, porque não haveria problema em deixar o animal ali fora por uma hora ou duas, mas aquele era um momento de reencontro, de família. Tio Hector hesitou, mas logo compreendeu seus escrúpulos e explicou onde ficava o estábulo mais próximo, enquanto Stela pegava o bebê e Tomas retirava da carroça a bagagem de uso mais imediato. Então entraram na casa atrás do velho, e Cyprien esperou que fechassem a porta antes de conduzir o veículo até a rua seguinte.
Ao regressar, encontrou todos à mesa, ao redor de uma torta de carne temperada e copos de cerveja. Falavam sobre gente de Vrindavahn – vizinhos, conhecidos, companheiros de infância de Tomas, vários dos quais também já eram pais de família --, mas, ao mencionar outros artesãos, a voz de Hector abandonou o tom saudoso e se tornou animada, um prenúncio às boas novas que tinha para dar.
-- Você se lembra, é claro, de Theoddor, o ricaço que herdou o Castelo das Águias. – Era o castelo que Cyprien vislumbrara a distância, sobre a montanha. – Lembra como todos na cidade diziam que ele era excêntrico?
-- Lembro, é claro – Tomas confirmou. – Diziam que era um bom homem, muito generoso, mas só vivia colhendo flores e lendo livros e não regulava bem.
-- Sim, isso mesmo. Pois bem: ele resolveu fundar uma escola no castelo, mas não uma escola comum. – Fez uma pausa, aguçando o interesse dos três, e prosseguiu em tom solene: -- Ele fundou... uma escola de Magia.
-- O quê? – A exclamação foi uníssona.
-- É o que ouviram – declarou Hector, satisfeito com a reação. – Não entendam errado, Theoddor não é um... um feiticeiro ou coisa parecida. Ele explicou a todos, inclusive no Conselho, que a Magia pode servir para fazer o bem; para ajudar a curar doenças, para proteger a cidade, para conhecer as plantas e saber quando chove. E os Conselheiros fizeram algum acordo com ele sobre o Castelo das Águias, que tem a ver com impostos, e aí tudo começou. Um mago veio morar aqui – um elfo chamado Mestre Camdell --, e depois veio outra maga, e em seguida um casal, e cada um desses últimos trouxe meia dúzia de aprendizes. Agora já deve haver uns trinta ou quarenta vivendo lá, jovens e até crianças a partir dos doze anos. Mas o melhor vocês não sabem. – Inclinou-se, buscando cada um daqueles pares de olhos incrédulos. – Além de Magia, essa escola também oferece aprendizado em algumas artes. Música, pintura, teatro...
-- Teatro? – Cyprien se retesou no assento; aquilo lhe interessava. – Pensei que só se pudesse aprender em Madrath.
-- E que a única Escola de Magia fosse em Riverast – disse Tomas, corroborando o que tinham lhe dito sobre as leis da Liga das Terras Férteis. – Não sabia que podiam fundar outras.
-- Nem eu, mas pelo jeito é possível, tanto que o fizeram. E ensinam artes, como eu disse. Com isso, alguns de nós, artistas e mestres artesãos de Vrindavahn, fomos convidados para ir lá e oferecer esse aprendizado.
-- Quê...! – Tomas ergueu as sobrancelhas, sem fôlego. – Então você, Tio Hector, foi ensinar os magos a... a fazer fantoches?
-- Os magos, não. Os aprendizes. Garotos, com dezessete ou dezoito no máximo, e umas poucas meninas. Todos de orelha comprida, e alguns com o nariz em pé, como seria de se esperar. Mas, no geral, gosto deles, são inteligentes, esforçados... Gosto de Theoddor e do Mestre Camdell, que me tratam com respeito. E, é claro – riu, de um jeito que o fez parecer mais novo --, gosto do bom dinheirinho que isso me traz a cada quarto de lua. É bem melhor que depender do que pinga no chapéu.
-- E ainda faz apresentações? – Tomas, de repente parecendo apreensivo. – Teve dificuldades, nesses anos em que estive fora?
 -- Dificuldades? Ah, meu filho, qual o artista que não tem? Não se sinta culpado. – Sorriu, de novo transformado em velho tio, rugas de bonomia em torno dos olhos, sobrancelhas espessas. – Sempre consigo ajuda aqui e ali, e não se esqueça de que sou o primeiro a ser procurado quando se trata de fazer ou consertar bonecos. Passei a ter muitos prontos, com ou sem cordéis, e as crianças já os conhecem, sempre vêm comprar. Nunca faltou um prato de comida ao velho Hector.
-- Fico feliz por saber disso, tio. Eu... sei que agi mal, deixando-o tanto tempo sozinho – disse Tomas, contraindo a boca. – Mas agora vou ajudá-lo, vou retomar meu lugar na oficina, nos espetáculos, vou... bem, fazer o que houver para ser feito. Stela também. Não pretendemos viver às suas custas, pode ter certeza.
-- Oh, eu sei, eu sei, mas então... Vieram para ficar? De vez, não só para uma visita?
Pousou a mão sobre a de Tomas, os velhos olhos brilhando, marejados. Cyprien relanceou um olhar para Stela, viu-a também comovida, respirou fundo. Com um tio tão querido e uma casa confortável, ainda mais tendo esposa e filho a quem devia prover, eram mínimas as chances de que seu parceiro quisesse voltar às estradas. Mas quem poderia culpá-lo?
-- De vez, não posso afirmar, Tio Hector – disse Tomas, porém seus olhos transbordavam de promessas. – Mas vamos passar o inverno aqui com você, nós três. Quer dizer, nós quatro. Espero que Cyprien...?
-- Claro! Eu já não disse? Seu amigo é bem-vindo. Há trabalho de sobra na oficina, se ele tiver jeito para isso. No Castelo, por ora, as coisas estão um pouco paradas, pois estão se preparando para as festas do solstício de inverno. A não ser... Bom, pelo que você contou, entendi que ele domina outras artes. E lá precisam muito de malabaristas que treinem os aprendizes mais novos.
-- Mesmo? Então eles têm sorte: eu trouxe o melhor! – exclamou Tomas, batendo nas costas de Cyprien. – Viu só? Eu disse que em Vrindavahn você seria bem recebido!
-- É verdade. – Voltou-se para o velho, disfarçando sua inquietação com um sorriso. – Obrigado, Mestre Hector.
-- Que é isso, rapaz. Um amigo de Tomas também é meu amigo. Além disso, somos todos artistas. Não se deixa um companheiro de ofício na mão, não é mesmo?
Cyprien assentiu, mas, pelo resto da noite, não conseguiria ficar inteiramente à vontade. A ideia de tratar mais uma vez com elfos, como pareciam ser as pessoas do Castelo das Águias, não lhe agradava nem um pouco, e ainda por cima aqueles eram praticantes de Magia. Poderiam lançar feitiços sobre ele e dominá-lo; ou, pior ainda, podiam amaldiçoá-lo, de forma que nada, nunca, desse certo em sua vida.
A não ser que fosse mais forte do que isso. E que fizesse seu próprio destino, como até agora.
E, enquanto os outros brindavam ao reencontro e a um futuro ensolarado, Cyprien de Pwilrie cerrou os lábios, decidido a não permitir que os magos do Castelo das Águias lhe causassem qualquer mal.

***


Imagem: torta medieval, feita com carne de caça. Leia mais a respeito aqui

Parte 1

Parte 3


terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 1)


Pessoas Queridas,

Hoje começo a postar um (longo) conto sobre a passagem de Cyprien de Pwilrie pelo Castelo das Águias, pouco tempo após a fundação da Escola de Artes Mágicas. Espero que vocês gostem e joguem uma moeda para o saltimbanco. 
Sem esquecer a do bruxo, é claro. ;) 


-- Pronto, meu amigo! Aí está a cidade que vai fazer você mudar de ideia sobre as Terras Férteis!
Tomas segurava as rédeas com uma das mãos enquanto a outra apontava para o horizonte. Cyprien olhou e viu uma aglomeração de casinhas, uma nesga do Mar Interior a curta distância e, mais afastada, uma montanha sobre a qual se erguiam as torres de um castelo. Tinha muralhas, mas não eram grande coisa -- o que, segundo Tomas, se devia ao fato de as guerras terem ficado num passado longínquo.
-- Já não sofremos cerco, ou mesmo ameaça de invasão, há pelo menos duzentos anos, por isso a cidade cresceu fora das muralhas – explicou. – Mas isso não quer dizer que não haja algum controle. Quem vem pelo mar, sendo estrangeiro, deve se registrar na Casa dos Nautas; os que chegam por terra têm que se apresentar no prédio do Conselho. É coisa simples – garantiu, vendo os olhos do amigo se estreitarem. – Você procura um funcionário, diz quem é e o que veio fazer em Vrindavahn. Podemos ir amanhã cedo, você vai ver como é rápido.
-- Certo – disse Cyprien, com um suspiro. – Se não me arranjarem mais uma pulseira, prometo não reclamar.
Tomas o encarou por um momento e ficou em silêncio. Cyprien afagou o pulso, que ainda conservava traços de tinta azul, e olhou para a frente, onde a cidade se desenhava cada vez mais nítida. Uma curva do caminho, um declive – e de repente se encontravam nela, as rodas da carroça abrindo sulcos na ruazinha de terra. As casas de ambos os lados eram simples, ainda esparsas, entremeadas a pequenas hortas e, algumas vezes, um galinheiro ou cercado com duas ou três cabras.
-- Este é um bairro mais pobre – explicou Tomas. – Alguns trabalham nos campos, em torno da cidade; outros são operários, carregadores, empregados de gente abastada. Os mestres artesãos, como meu tio, vivem melhor, embora, é claro, estejam longe de ser ricos. Você vai ver quando chegarmos lá. Ah, não vejo a hora de abraçar o velhote! E quando ele conhecer Stela e Aryan – aposto que vai precisar se conter para não cair no choro!
Cyprien fez que sim, com um breve sorriso. Claro que o velho iria se emocionar ao rever o sobrinho que fora seu aprendiz, homem feito após uma ausência de vários anos, trazendo junto a esposa e um filhinho adorável. Possivelmente o acolheria também, com gosto, ao menos no início, pois Tomas não deixaria de falar bem do jovem saltimbanco que conhecera em Pwilrie e se tornara o mais leal dos companheiros de jornada. Quanto à cidade, com seus outros habitantes... Isso ele ainda estava por comprovar.
Percorridas duas ou três daquelas ruas de terra, a carroça passou a rodar sobre uma calçada de pedras, mais regulares e polidas pelo uso à medida que progrediam. As casas se tornaram menos espaçadas; logo surgiram os primeiros sobrados, oficinas de couros e selas, a loja modesta de um sapateiro. Stela, que vinha na parte coberta da carroça com Aryan, se aproximou para espiar entre os ombros do marido e do amigo, e foi a primeira a avistar e apontar o que, segundo Tomas, demonstraria que tinham chegado.
-- Um cata-vento! – E era mesmo, plantado sobre as telhas que cobriam uma casinha de tijolos. – É aí que vive o Tio Hector?
-- Isso mesmo. Fizemos juntos... bem, não esse, mas os primeiros cata-ventos, quando eu ainda era menino – disse Tomas, e em sua voz havia uma nota emocionada. – Com as chuvas e tudo mais, ele acaba se estragando, e o trocamos por um novo. Esse de agora ainda está bom, pelo menos está girando... Ah! Espero que meu tio esteja em casa!
Seus olhos cintilavam, úmidos, quando puxou as rédeas. Cyprien saltou primeiro e recebeu Aryan, quente do sono, dos braços de Stela. Tomas ajudou a esposa a descer enquanto contemplava a casa de sua infância: tijolos sólidos, caiados de branco, telhado diagonal, pás coloridas do cata-vento fazendo crer que ali vivia gente de coração alegre. Talvez eu faça algo assim, pensou Cyprien, quando finalmente voltar para casa.
Tomas precisou de mais alguns momentos lidando com suas emoções antes de avançar e bater na porta. Por algum tempo não houve resposta, e já ia pegar a aldrava de novo quando alguém se fez ouvir lá dentro.
-- Quem é? – A voz de um homem de idade, um pouco rouca, mas não alquebrada.
-- Sou eu, Tio Hector! – De onde estavam, Stela e Cyprien quase podiam ouvir o coração de Tomas aos saltos. – Seu aprendiz fujão está de volta!
-- Meu... Ah, meu Deus, Tomas? – Som de metal batendo em pedra lá dentro, chaves tilintando antes de entrar na fechadura: o velho homem devia estar tremendo, emocionado. – Espere, filho, espere! Já vou conseguir... Ah, Tomas! – exclamou o Tio Hector, por fim abrindo a porta e os braços para o sobrinho. Tomas caiu neles sem hesitar, e demorou um bom tempo até que os outros pudessem ver direito o rosto do velho, de faces escanhoadas, bochechas um pouco flácidas e olhos azuis repletos de lágrimas.

***

Imagem do post, de uso livre: reprodução de carro medieval


Parte 2