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domingo, 10 de abril de 2022

Os Pilares de Melkart: Nova Campanha no Catarse

          Gente amiga, chegou a hora de compartilhar algo que venho preparando há muito tempo.

          Os livros de Athelgard têm ambientação medieval, mas vocês devem saber como sou fascinada, também, por Mitologia e pelos épicos antigos. Alguns talvez já conheçam os personagens que criei em cenários da Antiguidade e trouxe para os meus contos: Balthazar, o pirata e capitão mercante fenício, e o sonhador heleno Lísias. Agora, estou pronta para publicar um primeiro volume contendo as histórias da dupla, que vai levá-los a diferentes épocas e cenários do Mundo Antigo, desde a Creta de Minos à Jerusalém do Ano Um, passando por Tartessos e pelos bastidores do teatro grego.


        Junto com a Editora Draco, preparei uma campanha onde explico tudo sobre o projeto. Vocês poderão perceber que é um trabalho bem elaborado, que requereu muita pesquisa, mas também contou com a minha imaginação e o meu desejo de, antes de tudo, contar boas histórias repletas de fantasia, aventura e um pouco de humor.

        Convido vocês a visitar nossa página no Catarse e, se curtirem, a apoiar, não apenas com a aquisição do livro ou dos combos (o que, claro, seria fantástico!), mas também com divulgação, compartilhamentos, boca a boca...  Tudo para levar nossos navegadores o mais longe possível.

        Que as Musas nos sorriam, pois aqui vamos nós!

terça-feira, 23 de junho de 2020

Duendes : Vencedor do Prêmio Le Blanc

Pessoas Queridas,

No dia 20 de junho aconteceu a live que anunciou o Prêmio Le Blanc, organizado pela ECO/UFRJ e pela UVA - Universidade Veiga de Almeida.

Após os votos populares terem determinado os finalistas, um júri técnico ligado a cada área entrou em ação. Foram premiadas várias categorias de quadrinhos, tirinhas, trabalhos de animação e, ainda, o melhor romance e a melhor coletânea de Literatura Fantástica publicados em 2019. Eeeee...


Sim! Duendes levou o prêmio!

Quero agradecer muitíssimo ao Erick e ao Raphael, da Editora Draco, aos autores que colaboraram com o livro e aos apoiadores que o adquiriram no Catarse, bem como a todo mundo que leu, divulgou, resenhou e se interessou de alguma forma. A vitória é de todos esses e não apenas minha.

Para os que quiserem assistir à cerimônia, conhecer os outros vencedores e me ver pagar mico online, a live está disponível no Instagram.

Aqui, uma prévia do livro, com seu interior e alguns trechinhos dos onze contos, no site do Omelete

E como eu seu que você gostou e vai querer comprar, aqui vão os links para a obra no site da Editora Draco e na Amazon.

Espero que vocês gostem, e... Ai, como estou feliz!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Datas Festivas em Athelgard



Para falar dos dias festivos em Athelgard, é preciso lembrar que lá existem várias culturas: a dos humanos, com muitas variações, inclusive influência élfica nas Terras Férteis; a dos Elfos Brilhantes no sul e nas cidades que fundaram no Norte; as dos Elfos das florestas, diferentes de tribo para tribo.
Nesse contexto, cada povo e cada localidade tem suas próprias festas, embora algumas ocasiões sejam lembradas por praticamente todos os habitantes de Athelgard. Isso vale especialmente para o início das estações, marcadas por celebrações que variam de rituais mágicos a cultos celebrados pelos Prestes do Deus Único, passando por autos teatrais, festas da colheita, reuniões com bebida e troca de presentes... ou, em lugares de confluência como o Castelo das Águias, um pouco de todas essas coisas juntas.

A religião adotada pela maior parte dos povos humanos (e mestiços de elfos criados na cultura humana) cultua heróis como Woden, Thonarr, Freya e Bragi,  e cada qual tem o seu dia ou período de festa específico. O dedicado a Freya coincide com os últimos dias de um ano e os primeiros do seguinte, quando muitas mulheres fazem peregrinações aos locais de culto para orar pelas bênçãos da Senhora do Amor e do Casamento; o de Bragi, no meio do ano, costuma ser a ocasião para grandes festas e cultos que incluem muita música e cantos sacros. Por essa mesma época, os Elfos Brilhantes têm o Festival do Fogo, em que é costume recorrer aos magos da alma para uma consulta sobre a melhor atitude a tomar frente às probabilidades do futuro vislumbrado nas chamas. E, em todas as tribos das florestas, os xamãs têm um período de recolhimento durante a última lua nova de outono.

Os festivais populares, menos associados às religiões e mais aos labores cotidianos, também têm sua vez em Athelgard. É assim que em Pwilrie, famosa por seus vinhedos, o ano se inicia com um grande Festival do Vinho, com desfiles organizados pelas guildas de artistas e comerciantes e onde se fazem os maiores negócios envolvendo a bebida; no Oeste, as cidades se revezam ao longo da primavera, verão e parte do outono para organizar grandes mercados, com festas e comemorações na maioria das noites; em todo o Norte há festas da colheita de trigo, do início da temporada de caça e que comemoram o rompimento do gelo nos mares, lagos e rios.

E quanto a Vrindavahn? Lá, como vimos, a Mestra de Sagas do Castelo das Águias faz questão de honrar diversas tradições nas comemorações de solstício, quando os aprendizes encenam uma peça; mas as tradições do Templo são levadas muito a sério na cidade com maioria de humanos, especialmente as festas de seu Herói patrono, Bragi. Além dos cultos musicais, é nessa época do ano – o auge do verão – em que famílias e amigos trocam presentes, sendo o mais tradicional um poema ou canção, que pode ser composto, cantado, recitado, bordado num pano de linho ou escrito sobre pergaminho decorado.

Alguém sugere um presente para a Anna dar ao Kieran, e vice-versa, no próximo Festival de Bragi?
Fico à espera... para usar num próximo conto. ;) 

...

Ilustração: Bragi, deus nórdico (e Herói em Athelgard) que inspira os bardos e a eloquência. Imagem do Pinterest, não encontrei a autoria. 



domingo, 4 de agosto de 2019

Athelgard e os Reinos Invisíveis


Pessoas Queridas,

Em primeiro lugar, quero agradecer, muito, a todos os leitores deste blog e da nossa série pelo apoio à campanha de financiamento de Duendes: contos sombrios de reinos invisíveis. Arrecadamos bem mais que a meta inicial e, com isso, não apenas garantimos que o livro chegasse a mais leitores (nada menos que 175!) mas também que ele fosse incrementado com brindes, descontos e dois textos extras, entre os quais um conto inédito do Eduardo Massami Kasse. Tenho certeza de que vocês vão gostar!




Aproveitando o ensejo, decidi falar um pouco sobre os Reinos Invisíveis de Athelgard, que não apareceram muito na trilogia do Castelo nem nos primeiros contos publicados. Claro, o universo é habitado por elfos e seus descendentes, e deve ter ficado claro que existem seres, digamos, fantásticos, como dragões e unicórnios. Também temos os espíritos animais que aparecem com mais força em Anna e a Trilha Secreta. Mas fadas, duendes... Será que o Povo Pequeno existe em Athelgard?

A resposta começou a ser descortinada no conto De Poder e de Sombras, publicado na coletânea Magos: histórias de feiticeiros e mestres do oculto. Kieran, então um jovem mago, tem de agir (meio a contragosto) em parceria com seus colegas para enfrentar elementais do fogo, que são conjurados através de um ritual mágico e nem sempre se comportam como previsto. No ano seguinte, foi a vez de Orlando, futuro aluno do Castelo das Águias, e seu falcão Vesgo adentrarem os domínos de Turnedil, nas Colinas Negras – onde, para seu espanto, ficam sabendo da existência de um Reino Invisível composto por vários territórios, cada qual com suas próprias regras e certamente nem todos amigáveis.

Vemos, dessa forma, que existem criaturas como trolls, ogros e anões (SIM! Há anões em Athelgard!), além de outros seres que podemos considerar como pertencentes a raças feéricas. Algumas delas serão mostradas em histórias por vir, bem como seus reinos, e eu me arrisco a dar um pequeno spoiler lembrando que, no final de A Fonte Âmbar, fomos apresentados a alguém que não apenas traz a Magia nas veias mas foi concebido em condições especiais, num lugar mágico. Isso faz com que essa pessoa tenha facilidade em transitar entre as dimensões e visitar os Reinos Invisíveis, além de outros lugares até agora inacessíveis. Esperemos que cause mais Bem do que Mal...!

Até a próxima, grande abraço a todos!

....

A imagem é de um dos postais que serão enviados aos apoiadores de Duendes, com arte de Arthur Rackham. Falo um pouco sobre ele no blog Estante Mágica; ficarei feliz com sua visita!

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Duendes : campanha no Catarse


Pessoas queridas,

Venho apresentar o meu novo projeto na Editora Draco. Trata-se da coletânea Duendes : contos sombrios de reinos invisíveis.

O livro reúne dez (talvez venham a ser onze!) dos melhores autores nacionais de fantasia, cujas narrativas mostram o Povo Pequeno em seu aspecto mais sinistro. Algumas são ambientadas no mundo contemporâneo, outras se inspiram em histórias tradicionais de várias culturas: a britânica, a eslava, a japonesa, a latino-americana e, claro, a brasileira. Muito mais do que simplesmente histórias bem contadas, trazemos um sólido trabalho de pesquisa em mitologia e folclore, que serviu para embasá-las e alinhavá-las.

A capa do livro, ainda não finalizada. Não está ficando o máximo?

Teço esta rede com minha experiência de vários anos pesquisando de mitos e contos de fadas. Os fios se estenderam pelas mãos de Aya Imaeda, Cristina Pezel, Daniel Folador Rossi, Diego Guerra, Isa Próspero, Luiz Felipe Vasques, Sid Castro, Silas Chosen  e Simone Saueressig (se atingirmos as metas extras, haverá mais um – surpresa!).

Para incrementar a pré-venda, a Editora Draco deu início a uma campanha no Catarse, através da qual a obra pode ser adquirida com desconto, brindes, como postais e marcadores de página, e ainda em conjunto com os outros livros de fantasia da editora, tais como as demais coletâneas organizadas por mim: Excalibur, Medieval (coorganizada com Eduardo Kasse e Prêmio Argos de Ficção Fantástica em 2017) e Magos (Prêmio Argos de 2018).

Neste momento, além de ter batido a meta inicial, já desbloqueamos duas metas extras. Atingindo as próximas, teremos um posfácio escrito pela Flávia Gasi, doutora em Semiótica, sobre o imaginário dos duendes, e um conto extra pelo Eduardo Kasse, unindo uma imortal da série Tempos de Sangue, uma personalidade da história da Arte e, claro, um duende bem sinistro! 

Se você curtiu a ideia, não hesite: dê um passo à frente, acesse o link do Catarse. Se não é muito fã de duendes e folclore, ou de fantasia sombria, tudo bem – mas ficaremos muito gratos se compartilhar o link, esta postagem ou os nossos posts em redes sociais. 

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Contos Fantásticos de Avós Extraordinários: Novo Livro com o Projeto Pegaí

Pessoas Queridas,

Acabo de voltar do Paraná, onde aconteceram muitas coisas incríveis.

Antes da Literatiba, que eu tinha anunciado aqui e que também foi bem legal, estive na cidade de Ponta Grossa, sede do Projeto Pegaí Leitura Grátis. Lá visitei duas escolas -- o Colégio Bom Pastor e a Escola Desafio -- e, ainda, o Hospital de Livros que funciona na Penitenciária Estadual da cidade. Mas devo confessar que o momento mais emocionante se deu na noite de 31 de outubro, quando foi lançado "Contos Fantásticos de Avós Extraordinários", meu segundo livro a sair pelo Projeto Pegaí, com parceria da Editora Draco.

No lançamento, feliz da vida!

Para quem não sabe, em 2015 já tinha sido lançado um título, O Tesouro dos Mares Gelados, que teve 3.000 exemplares disponibilizados de graça nas estantes do Projeto. Agora, com o Pegaí Leitura Grátis indo de vento em popa, foram nada menos de 5.000 exemplares, que trazem quatro contos sobre avós e netos. Dois se passam em Athelgard, com o jovem saltimbanco Zemel (de Pão e Arte) e seu avô Thiers e nossa conhecida Anna de Bryke e sua avó Kyara; um é de Balthazar, dos Contos da Clepsidra, com suas netas adotivas Nikka e Jeza; o último se passa no espaço sideral, no universo Medistelara, que os leitores passam agora a conhecer.

Escola Desafio

A capa é ilustrada por Vilson Gonçalves e o projeto gráfico foi do Erick Sama, da Editora Draco, que, assim como eu, não recebeu nem um centavo pelo trabalho ou pelos exemplares. Nossa recompensa foi apenas a divulgação da marca e, claro, a satisfação de levar literatura fantástica a um círculo cada vez maior de leitores.


Colégio Bom Pastor

Nós receberemos alguns exemplares para divulgação, que serão prioritariamente doados a escolas, bibliotecas públicas e projetos de leitura. Uns poucos podem ser dados de brinde a quem adquirir meus livros. Mas quem não conseguir não precisa ficar triste! Em breve, "Contos Fantásticos de Avós Extraordinários" sairá em e-book pela Draco, e até lá todos os contos podem ser lidos gratuitamente acessando meu outro blog.

Só não se esqueçam de deixar um feedback nos comentários!







domingo, 1 de julho de 2018

Grimmagauhr e os Dragões de Athelgard


A existência de dragões é um capítulo à parte em Athelgard.

Nos tempos em que decorrem O Castelo das Águias e suas sequências, os habitantes da Ilha Exterior não têm nenhuma dúvida de que eles existiram. Isso é comprovado não apenas por antigos relatos, desenhos e esculturas, mas pela presença de ossadas, geralmente em lugares de difícil acesso, como cavernas situadas em montanhas e pequenas ilhas (entre as quais a famosa Ilha dos Ossos). A maioria das pessoas, porém, acredita que os dragões desapareceram há centenas de anos – e por isso o ovo meio petrificado encontrado pelos navegantes de O Tesouro dos Mares Gelados é motivo de assombro, tal como o é o pequeno dragão avistado por Anna e Kieran, anos depois, durante uma tempestade.

Aliás... Seria o mesmo dragão?

A resposta a essa questão parece ficar evidente quando, pela primeira vez, os visitantes desse universo são convidados a conhecer a Ilha Interior. Lá, eles descobrirão que os dragões pertenciam a três estirpes distintas – a branca, a rubra e a negra, cada qual com suas particularidades, que iam além da cor – e que, assim como boa parte dos descendentes dos elfos egressos de Alfheim, deixaram essa localidade protegida para viver na Ilha Exterior, onde foram exterminados pelos homens ou pelos próprios elfos na luta pela posse do território. Um, porém, foi deixado para trás: o orgulhoso e mal-humorado Grimmagauhr, descendente da estirpe rubra, capz de assumir a forma de um homem ruivo e desajeitado.

A jornada de Grimmagauhr e o que ele descobriu pode ser acompanhada no conto O Último Dragão de Athelgard, que está disponível em e-book solo e na versão digital da coletânea Dragões, da Editora Draco.

Grim, em sua forma humana, e o seu “ego” draconiano foram retratados pela talentosa Evelyn Postali especialmente para o blog do Castelo.

O autor Cristiano Konno também trouxe dragões a Athelgard no conto O Elfo das Terras Além, que se passa nesse universo.



sábado, 7 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr: Os Três Xamãs (4)

Pessoas Queridas,

Cá estamos com mais um trechinho da história dos Três Xamãs, espero que gostem!

Não sei se já comentei, mas planejo que esse conto seja o terceiro de um projeto semelhante ao Contos Fantásticos de Avós Extraordinários. Só que, nesse caso, o que os contos têm em comum é se passarem em sequência uns aos outros, numa mesma floresta -- os atos dos personagens de cada conto têm consequências para os contos seguintes. É quase um fix-up, vá.

O que acham da ideia?



– Homens costumam temer e odiar o que não conhecem, e a maior parte deles não conhece nada. Mesmo esse mago, que transformou o troll em pedra, pelo jeito é assim. Por que ele fez isso? Com que direito?
-- São perguntas demais, minha amiga. – Vivani partiu com cuidado um pedaço do favo de mel, ofereceu-a à xamã mais jovem. – Por ora, vamos resolver o que é urgente. E é claro que vou tomar cuidado com os caçadores. Se vir algum, ou se pressenti-los por perto, vou me esconder, não deixarei nem que desconfiem da nossa presença. Quanto a vocês, mesmo em suas formas de ave, procurem não chamar atenção. Não são tão atraentes aos olhos dos homens quanto uma raposa – acrescentou, em tom brincalhão --, mas, quando vêm para a floresta com arcos e cães...
-- Sabe-se lá o que estão pensando e onde podem chegar – completou Kemi.
Com essas recomendações, e após terem chamado os vizinhos para aproveitar as sobras da carne – um jovem casal de arminhos muito simpáticos --, os três se separaram. Kemi e Zendak murmuraram um rápido encanto para retomar suas formas aladas e, por algum tempo, ficaram pousados no galho alto de uma árvore, olhos brilhantes e observadores sobre Vivani enquanto ela se afastava pela trilha. Seus passos eram resolutos, mas não muito rápidos. Kemi entortou o pescoço e interpelou o amigo, mas o seu “hu?” dolorido não teve resposta a não ser um encolher de ombros. A nenhum deles cabia interferir na marcha das estações.

***

A imagem que ilustra este post é "Wise Fox", pintura sobre tela de Aimee Stewart. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr : Os Três Xamãs (3)

Oi, Pessoas Queridas,

Aqui vai nossa terceira postagem, com um trecho do que foi escrito esta manhã. Espero que o dia renda mais, quem sabe no universo de Balthazar e Lísias!



          – Acho que devemos encontrar o unicórnio, antes que os caçadores o façam, e devolvê-lo à família. Esse é o primeiro ponto. Se foi criado um elo com o menino, talvez possamos ajudar, talvez não, mas por enquanto o mais importante é mantê-lo a salvo.
          -- Digo o mesmo – falou Kemi. – Mas também precisamos agir em relação aos homens. Eles avançam sobre todas as florestas, em toda a ilha, isso é verdade, e não há muito que se possa fazer, mas... esta não é uma floresta qualquer. É um refúgio, um lugar que nos cabe defender. Depois de o pequeno estar a salvo...
         -- Sim – concordou Vivani, grave. – Depois que ele estiver com a família, poderemos pensar em interferir. Nós viemos aqui tantas vezes, devemos tanto a esta floresta e a seus habitantes... Chegou a hora de nos doarmos também.
         -- Em nome da beleza e da harmonia – disse Zendak.
         -- Em nome do equilíbrio – disse Kemi, e pegou as mãos de ambos, olhando para cada um antes de concluir:
          -- E, se isso exigir sacrifícios, então que seja assim.


*****

Uhhh... Parece que nossos Três Xamãs estão prestes a se meter em confusão por causa do unicórnio... E Kemi é a mais afoita!

Eu não tenho ilustração da xamã coruja das neves. Para este post, usei a bela imagem "Owl Mother", de Antler Thorn, que se baseia no xamanismo celta (já devem ter percebido que o de Athelgard é mais coisa de nativo americano). Já o Zendak ganhou uma ilustração da Carol Mancini, que pode ser conferida aqui.

Até a próxima!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr: Os Três Xamãs (2)

Oi, Pessoas,

Eis a nossa segunda postagem no desafio Writertoberbr. Aqui o conto se liga com outro chamado "O Potro Dourado", protagonizado pelo menino Zemel, aprendiz de saltimbanco que já fez muitas piruetas por estas páginas.




        Vivani respirou fundo e assentiu, com uma espécie de culpa. Não era guardiã da Floresta Mágica, menos ainda dos unicórnios, mas poderia ter feito algo para impedir aquilo. Se ao menos houvesse pensado nas consequências!
        -- Ele encontrou um menino que passava pela floresta. – A voz incerta, cheia de dúvida e arrependimento. – Não era um menino comum; eu também o vi e pude sentir. Estava zangado, confuso, machucado, e ainda assim caminhava em beleza. Eu o guiei até o rio, para que ele pudesse matar a sede, e depois disso fui em busca de alguém que pudesse socorrê-lo. Vi o pequeno unicórnio se aproximando do lugar, por uma trilha diferente, mas não pensei... nunca poderia imaginar que ele se acercasse do menino. Menos ainda que o menino, ao vê-lo, pudesse reconhecê-lo pelo que ele é.
      -- Talvez não tenha reconhecido – disse Zendak. – Talvez ele imagine que viu apenas um potrinho.
      -- Não, não. Ele viu o chifre. Ou, se não viu, ao menos o tocou. – A xamã-raposa mantinha os olhos baixos. – Drenou um pouco de energia... não toda, felizmente, pois tinha um ferimento na mão, mas muito leve. O unicórnio está bem. Acontece que, ao se deixar tocar, ele ligou seu espírito ao desse menino, e agora é atraído por ele e pelos seus sonhos. Ele não foi se reunir à família no coração da floresta. Em vez disso, trilha um outro caminho, o mesmo da criança humana, que viaja com parentes rumo ao leste. Eu não duvidaria que o pequeno unicórnio o esteja seguindo... que este elo seja mais forte e duradouro do que seria de se esperar.
    -- O que não é bom – disse Kemi.
    -- O que talvez não seja bom. Ainda não podemos afirmar – ponderou Zendak. – Vivani acaba de dizer que esse menino não era comum. Quem sabe ele nasceu com o Dom da Magia? Quem sabe não é um dos poucos humanos que têm acesso às trilhas secretas?

****

E aí? Mágico ou não?

Se vocês ficaram curiosos sobre o Zemel, podem ler um conto dele bem aqui, e ainda ver a bela ilustra do Vilson Gonçalves.

Se quiserem conhecer uma criança (quase) humana que de fato andou pelas trilhas dos xamãs, conheçam a Anna!

Por fim, se quiserem saber um pouco mais sobre os unicórnios (não que tenhamos seguido exatamente esses simbolismos em Athelgard, visitem a Estante Mágica.

Até a próxima!

(OBS: Imagem de unicórnio do Pinterest. Se alguém souber a autoria, avise que dou os créditos)

domingo, 27 de novembro de 2016

A Grande Noite das Sagas - Epílogo


      -- Andi, você fez uma coisa fabulosa! – exclamei, parando de tocar e batendo palmas com entusiasmo; a audiência foi atrás, e os aplausos quebraram a catarse, de forma que o garoto se desgrudou dos amigos e me olhou com o rosto lavado de lágrimas. – Desde nossos primeiros encontros, quando quase era preciso obrigá-lo a falar, até esta noite, na qual contou uma história que mexeu desse jeito com todos... Como você mudou!
       -- Graças a você – disse ele, com a voz embargada. – E a meus amigos, e aos outros mestres, e à Escola de Artes Mágicas. E Mestre Kieran, o senhor estava certo – acrescentou, dirigindo-se a meu marido, que ostentava seu famoso sorriso torto. – Eu tinha mesmo que enfrentar esses demônios e dizer a eles que sou mais forte. E agora digo a vocês o que vou fazer: amanhã cedo vou escrever à minha família pedindo que venham me buscar, não para voltar a Kalket, mas para fazer uma visita a Hyldor em seu solar nas montanhas. Vou contar a ele o que aconteceu e encorajá-lo a cantar diante de um público. Posso até estar no palco ou na arena com ele, como Mestra Anna estava aqui comigo. E se ele não quiser, se não acreditar em si mesmo, não vou me sentir culpado nem deixar que isso atrapalhe mais a minha vida. Vou voltar a ser o Príncipe, e, quem sabe? Talvez um dia até o Rei das Canções.
      -- Muito bem, garoto! – exclamou Urien, e várias taças e vivas se ergueram na audiência. Era o momento de entrar mais uma vez em cena, mas Finn tomou a iniciativa, agradecendo pelas ótimas histórias que Andi e eu tínhamos contado juntos. Também pela presença de todos, uma vez que a noite ia avançada, e muitos já mostravam disposição de se recolher ou partir. Gurion, o intendente, entrou então em cena, oferecendo hospedagem para os visitantes que preferissem pernoitar no Castelo, e as pessoas estavam começando a se mexer quando, inesperadamente, Camdell bateu com uma colher numa taça de bronze, solicitando a atenção de todos.
      -- Caros amigos, queridos aprendizes, não posso deixar que se despeçam sem dizer algumas palavras, ainda mais depois do que presenciamos esta noite – disse ele, visivelmente emocionado. – Em nossa Escola, a Magia costuma despertar através da Arte, mas hoje vimos que o inverso também acontece: que a Magia trouxe de volta a voz e as canções que haviam se calado no coração de um menino. Não sei se Andi continuará conosco ou se voltará para a escola bárdica, mas uma coisa eu sei e digo com segurança: não apenas o seu propósito, mas o meu e o desta escola, foram reafirmados nesta Grande Noite de Sagas. Pela Magia e pela Arte!
      -- Pela Magia e pela Arte! – bradaram todos, erguendo as mãos e as taças; o estrondo de vozes que brindavam logo foi emendado pelas primeiras estrofes da Canção do Mago Violeta, uma espécie de hino da Escola de Artes Mágicas, e a noite terminou em meio a um coro de pessoas que cantavam abraçadas, tocadas pela emoção das histórias e, em alguns casos, pela boa cerveja e vinho que não tinham deixado de correr.
        Mais tarde, depois de eu ter abraçado cada um dos presentes e de ter ouvido todo tipo de comentário sobre os meus dotes como alaudista -- quase todos piedosos, felizmente –, Kieran e eu voltamos ao aconchego da nossa torre, onde acendemos a lareira e nos abraçamos também. Eu queria fazê-lo admitir que tinha articulado tudo aquilo com Urien – que eles tinham me feito de boba, como Theoddor fizera com Netta, décadas atrás --, mas sabia de antemão que Andi não podia fazer parte de uma trama como aquela, exceto talvez de forma involuntária, como no caso de Hyldor o Belo. Tanta emoção e tanta luta contra os próprios receios não podiam ter sido calculadas. Kieran, porém, continuou a afirmar que não houvera qualquer entendimento com o Mestre de Música para aquela noite; ele apenas lhe revelara saber que eu estava tendo aulas de alaúde, já fazia um bom tempo, e Urien dissera que eu estava indo bem e que gostaria de me ver tocar diante de alguém além dele mesmo.
      -- Não pensamos numa plateia tão grande, nem falamos sobre isso hoje, mas a situação de Andi veio a calhar. Foi importante você estar lá com ele – disse Kieran.
      -- Você também – repliquei. – Ele gostou da ideia de lutar contra os demônios interiores. E teve forças para isso, mesmo sendo tímido.
      -- Sim. Eu me surpreendi com a história dele. Já tinha percebido que o garoto tem uma vontade muito forte, mas o que ele fez em Kalket mostra que o Dom é bem mais poderoso do que pensava. Talvez eu devesse... Mas não. – Sacudiu a cabeça, afastando seus próprios desejos. – Se ele precisa falar com o tal Hyldor para ir em frente, que fale, e se precisa voltar para a escola bárdica, que volte. Esse é mesmo o caminho que deve seguir. Só não duvido de que a Magia vá alcançá-lo mais à frente, como aconteceu com Lara.
-- E comigo – falei; ele sorriu, supondo que eu estivesse brincando, mas o encarei tranquilamente e com olhos sérios. – O que Camdell disse no fim é uma verdade para mim também. Aqui reafirmo todos os dias o meu propósito, que é partilhar histórias, e vejo a Magia acontecer através delas. E hoje estou especialmente feliz, pois muita gente esteve aqui e vai levar consigo um pouco dessa Magia para suas vidas.
      -- É verdade – disse ele, com um suspiro. – E ouvir isso de você me faz supor que esta Noite de Sagas não será a última. Na verdade, me arrisco a dizer que teremos outra em breve. Estarei errado?
      -- Talvez na próxima lua – respondi, e franzi a testa. – Mas eu pensei que você tinha parado de ler meus pensamentos.
      -- E eu parei – Kieran garantiu, afastando uma mecha de cabelo que me caíra no rosto. O fogo tremulou, realçando o brilho em seus olhos, e eu fechei os meus enquanto ele me abraçava, devagar, seus lábios roçando minha orelha para sussurrar as palavras que não dissera a mais ninguém, em toda a sua vida.
      E elas terminaram de tecer o encanto que me envolvera e transformara durante aquela Noite de Sagas.

*****

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

Parte 6

Parte 7

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A Grande Noite das Sagas - Parte 7

       

          Muitas luas atrás, tendo finalmente compreendido qual a minha função no Castelo, eu conseguira que os aprendizes do Primeiro Círculo contassem suas próprias histórias. Algumas eram divertidas, outras um pouco tristes; várias, em princípio, pareciam corriqueiras, mas juntos havíamos conseguido encontrar o sentido e resgatar a Magia contida nas pequenas coisas.
         Isso também acontecera com Andi, embora ele houvesse preferido deixar de lado alguns episódios. Eu tinha certeza de que neles estavam as raízes de sua inibição. No entanto, a Noite de Sagas era um momento descontraído, um momento em que ele podia contar qualquer história, mesmo uma que houvesse escutado ou lido num livro, e o desafio se limitava a fazê-lo diante de todos. Era como eu, com o alaúde do qual tirava as primeiras notas, tentando não olhar diretamente para ninguém a não ser Urien e Kieran. Muitas pessoas estavam sorrindo, e várias continuariam a fazê-lo ainda que eu errasse ou hesitasse. Mas o que quer que estivesse nos olhos daqueles dois me falaria de carinho e orgulho verdadeiros.
         Fiz um sinal com a cabeça para Andi. Ele engoliu em seco mais uma vez, respirou fundo, depois assentiu também e se dirigiu ao público, a voz um pouco trêmula de nervosismo – como esperar que fosse diferente? –, mas alta e clara o bastante para que todos pudessem ouvi-lo bem.
         -- Em nome de Woden, Thonarr e Loki, e em nome de Bragi, o Trovador, abram bem seus olhos e ouvidos! Esta é a minha história – começou ele, e tornou a respirar profundamente. – E ela começa num dos momentos mais importantes: quando, no primeiro encontro com nossa nova Mestra de Sagas, ela nos disse que toda vida tem batalhas que precisamos travar e vencer.
Fez uma pausa, controlando a tensão, e então falou como se aquilo o desafogasse:
         -- E Mestre Kieran me fez ver que o maior inimigo está dentro de nós mesmos.
         Um breve murmúrio percorreu os convidados: ninguém imaginava que ele iria citar o Carrasco. O próprio Kieran tinha franzido as sobrancelhas e se inclinado para a frente, como se esperasse o que iria sair dali, ao passo que meus dedos tropeçaram em meio a um acorde. Mas Urien foi o único a dar mostras de haver percebido.
         -- Então, amigas e amigos, eu tenho um nome – o meio-humano prosseguiu, nervoso, mas sem gaguejar. – Andi ap Llyr, é claro, mas também Andi de Kalket, pois é minha cidade, de onde vim aos doze anos, abandonando um aprendizado que começou quando eu era pequeno demais para me lembrar. Era esse nome que eu esperava tornar famoso por meio da arte. E, de fato, quando tinha apenas dez anos de idade, eu era conhecido como o Príncipe das Canções ou o Herdeiro de Hyldor. Alguém terá ouvido falar dele?
         -- Hyldor, o Belo? – As sobrancelhas de Urien se ergueram. – Se é ele mesmo, trata-se... Bem, tratava-se... de um bardo muito famoso.
         -- É verdade. Todos o requisitavam, festas eram marcadas de acordo com o lugar onde ele estaria. Mas não sei o que é feito dele hoje – comentou Mestre Tomas, e os olhares retornaram a Andi: estava claro que ele sabia. – Ouvi dizer até que estava morto.
        -- Não – fez o menino, com um gesto enfático. – Não está morto. Mas suas canções se calaram, como... como...
         -- Como as suas não irão se calar! Continue, Andi! – exclamei, num impulso. Ele me olhou, aflito, mas se lembrou de respirar bem fundo e fechar os olhos, como eu havia lhe ensinado em caso de pânico. Estou com você, querido, pensei, e repeti os poucos acordes que sabia o mais suavemente possível. Acalme-se. Vai lhe fazer muito bem contar essa história.
         E aos poucos – bem aos poucos – a língua do jovem meio-humano começou a destravar. Para recobrar a segurança, ele usou outro dos truques que eu ensinara, voltando atrás na história e contando como tinha sido seu aprendizado com uma mestra de Kalket; como fora à procura de Hyldor, numa visita deste à cidade, e como o grande bardo não lhe dera atenção, até que, por um golpe do acaso, viu-se na contingência de contar com o menino para acompanhá-lo ao longo de uma noite de sagas. Foi Hyldor que deu a Andi os apelidos de Príncipe e Herdeiro das Canções, deixando claro, antes de mais nada, que o Rei era ele próprio e que o menino teria mais chances de se tornar grande ao seguir seus passos. Ele insistiu para se tornar uma espécie de mentor de Andi, embora vivesse noutra cidade, e os dois passaram a trocar correspondência e se encontraram várias vezes ao longo dos três anos seguintes. No entanto, vaidoso como era, Hyldor começou a reclamar da interferência da mestra que o garoto ainda tinha em Kalket, e a se zangar quando ele aceitava convites que considerava menores, e a dar conselhos que, analisados de perto, mostravam que pretendia manter Andi para sempre sob a sua sombra. E como acreditar que seja um bom mestre aquele que teme ser superado pelo aprendiz?
         -- Foi assim que chegamos a um impasse – disse Andi, com a respiração rápida, mas a voz firme. – E, por menos que eu quisesse, os argumentos de meus pais e minha mestra falaram mais alto, portanto eu disse a Hyldor que nosso vínculo estava desfeito. E ele pareceu ter aceitado. Mostrou-se um pouco sentido, mas de um jeito gracioso, de forma que eu não percebi o que existia por trás.
         A essa altura, eu estava tão envolvida com aquilo que mal sabia como continuava a tocar, mas de alguma forma meus dedos continuavam reproduzindo os mesmos acordes, e a generosidade do Grande Espírito me fez lembrar que era o momento de imprimir-lhes um ritmo mais marcado. Andi respirou algumas vezes, seguindo o mesmo compasso, e correu o olhar pela audiência, perguntando-se talvez o que estariam pensando da história. Ou o que pensariam dele, quando finalmente chegasse ao ponto que lhe causava tanta dor.
         -- Então, nosso vínculo se desfez, mas achei que continuássemos amigos. E eu ainda o admirava, como o grande bardo que era – disse Andi, ainda em voz alta, mas em tom reflexivo. – Quando voltou a Kalket, fui ver sua apresentação no Anfiteatro Máximo; ele tinha me escrito dizendo fazer questão de que eu estivesse num lugar de honra. E lá estava eu, com minha mestra, com mais dois alunos de música...
         -- Aí vem – resmungou Urien, balançando a cabeça.
        -- ... quando Hyldor o Belo anunciou uma canção composta para um dos presentes – prosseguiu o menino. – E começou a cantar, jamais dizendo meu nome, mas desde os primeiros versos deixando claro para todos que me conheciam. Era de mim que ele falava... E me chamava de ingrato e Príncipe dos Traidores.
         -- O quê? -- disparou Freydis, sem conseguir se conter. – Traidor, você? Porque não quis mais jogar o joguinho dele?
         -- Que idiota! – Orm cerrou os punhos.
         -- Deixem-no falar! – exclamei, vendo que Andi hesitava. -- Quero muito saber como terminou esse espetáculo no Máximo de Kalket!
         -- Bem, aí é que está – respondeu o menino. -- Não terminou como deveria, ou, pelo menos... não como Hyldor queria. E não foi nada do que todos esperavam. Porque ao ouvir aquilo, mesmo com minha mestra, meus amigos e muitos outros indignados, eu não consegui dizer nem fazer nada. Fiquei sem ação e sem palavras -- só que com muita, muita, muita, muita raiva! Tanta raiva que poderia explodir, e o anfiteatro junto comigo, do mesmo jeito que o Ruivo explodiu aquela chaleira!
         -- Foi acidente! – defendeu-se o rapaz, mas os risos foram breves. Ninguém queria perder o que vinha em seguida.
         -- Então, enquanto ouvia Hyldor cantar com aquela voz linda, tocar a harpa com mestria, mas ao mesmo tempo dizer coisas tão injustas, eu senti minha cabeça doer como nunca antes. – A voz de Andi se firmara, ao contrário das minhas mãos. – Doía e doía e eu tive que segurá-la, e quanto mais doía mais uma ideia tomava conta da minha mente: é que ninguém devia poder cantar uma canção tão mentirosa. Eu não sabia de onde essa ideia tinha saído, mas era o que eu sentia... Era o que eu queria, não sei como, que acontecesse. E de repente...
        -- O quê? – Um coro de vozes, um rumor de corpos se deslocando para a ponta dos bancos e se inclinando sobre as mesas.
         -- De repente, todos no anfiteatro estavam gritando de surpresa, e Hyldor estava segurando a garganta, apavorado – respondeu o menino, fazendo um grande gesto com as mãos. – Correram para socorrê-lo, achando que estivesse sufocado, mas ele respirava muito bem e até podia falar. Só quando tentava cantar a voz falhava. Foi o fim de sua apresentação. Claro que eu também fiquei assustado, e não consegui comer nem dormir direito durante muitos e muitos dias. Tinha certeza de que tinha sido eu... mas, ao mesmo tempo, não fazia ideia de como. E minha raiva passou, e agora eu só sentia pena e muita culpa por ter feito Hyldor ficar sem suas canções.
         -- Ele mereceu! – exclamou o Comandante Owen, dando um tapa na mesa.
         -- Ele é um bardo! – replicou Urien, parecendo afrontado. – Não poder mais cantar... Que destino!
         -- Sim! Ele não devia! Haveria outras maneiras – as vozes se cruzaram e se confundiram entre as mesas, até que Andi conseguisse se fazer ouvir.
         -- Mas depois ele pôde cantar de novo. Aquilo só durou por algum tempo – explicou, apaziguando a maior parte dos ânimos. – Ele ainda não tem coragem de cantar em público, mas conseguiu na presença dos físicos e magos que procurou para ajudá-lo. Mas antes de saber disso eu me senti tão mal que puni a mim mesmo, ainda que sem querer. Eu também não conseguia mais cantar diante de uma plateia. Nem cantar, nem contar histórias, nem mesmo tocar, embora continuasse praticando quando estava sozinho. E, sendo assim, fui obrigado a deixar a escola bárdica. E ninguém mais voltou a me chamar de Príncipe das Canções.
         Um novo murmúrio tomou conta da audiência, mas esse tinha um tom diferente: os lamentos não eram por Hyldor, mas sim pelo menino. Ele causara mal ao bardo, porém mais ainda a si mesmo, e nada disso tinha sido premeditado. Foi o que ele mesmo disse, ao prosseguir com sua história, após um breve intervalo de que precisou para se munir de coragem.
         -- Durante algum tempo, não contei nada a ninguém, mas todos sabem o que acontece quando se tem o Dom da Magia. De um jeito ou de outro ele vem à tona, e eu não conseguia mais usar a arte para expressá-lo. Coisas estranhas começaram a acontecer comigo, em minha casa, nos lugares onde eu estava, e finalmente alguém alertou os magos da cidade, que confirmaram o Dom. Um deles se ofereceu para ser meu mestre, mas outro, sabendo que eu tinha abandonado um aprendizado na música, sugeriu que procurasse a Escola de Artes Mágicas do Mentor Camdell. Talvez aqui eu me desenvolvesse de um jeito melhor, ele disse. Eu relutei, no começo, mas depois decidi tentar, e... o que é que eu posso dizer agora? – acrescentou, com as faces vermelhas, a voz novamente trêmula, mas não de timidez. -- Este lugar... e meus amigos, e Mestra Anna, que está aqui comigo, enfrentando o julgamento de todos... isso me devolveu o... o meu propósito...
         Sua voz diminuiu à medida que a emoção o dominava. Ele parou de falar e se inclinou para a frente, cobrindo o rosto com a mão. Foi quando Freydis correu para o tablado e o abraçou com força. Orm estava com eles no momento seguinte, um garoto maior e mais largo de ombros, abarcando os dois. Outras pessoas se levantaram, o murmúrio crescendo com palavras de elogio e encorajamento, mas a maioria ficou onde estava, esperando para ver onde aquilo iria chegar.
        E, antes que o clímax começasse a se tornar longo demais, segurei minha própria vontade de abraçá-los e de chorar e retomei o controle da história.

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Imagem retirada desta página.

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Parte 1

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Parte 4

Parte 5

Parte 6

Epílogo


domingo, 30 de outubro de 2016

A Grande Noite das Sagas - Parte 6


     -- Ah, então pelo menos para tocar ele sobe ao tablado, não? Bom, já é alguma coisa! – disse Urien, erguendo as sobrancelhas de um jeito cômico. – E é ótimo para mim. Se estou mesmo dispensado, posso beber à vontade. Esse vinho é excelente. Você não sabe o que está perdendo.
     -- Pois é, mas hábitos são hábitos. Ninguém da minha família bebe ou jamais bebeu vinho. É verdade que também não comem queijo, uma coisa que eu adoro. Mas queijo de cabra era o que mais me ofereciam em Bryke.
     Apertei os lábios, lembrando-me das várias coisas que existiam na vila Odravas, mas não no interior da floresta onde eu vivia com minha tribo. O intercâmbio crescera ao longo dos anos, mas algumas coisas continuavam a ser consideradas apenas “nossas” e outras pertencentes só a “eles”.   Isso criava alguns problemas, às vezes, para ambos os lados.
     E um deles resultara na história que finalmente eu me propusera a contar.
     -- Atenção, amigas e amigos! Nossa querida Anna atenderá a seus pedidos e nos brindará com outra narrativa! – exclamou Finn, e o aviso foi recebido com palmas e assovios. – Andi ap Llyr, aprendiz do Segundo Círculo, irá acompanhá-la ao alaúde, e... Conan, você também?
     -- Não, mestre. É que Orm veio dizer que Mestra Anna queria o tambor emprestado – explicou o mais velho dos meus ex-alunos, que se juntara a outros colegas para tocar nos intervalos das sagas.          Agradeci e peguei o tambor de couro e a baqueta, lembrando-me – e sorrindo por isso – da primeira vez que o usara para contar histórias da tribo em minhas aulas no Castelo. Jamais um Mestre de Sagas deve ter sido olhado com tanta estranheza.
     Andi pegou o alaúde e se juntou a mim no tablado. Não falou mais, apenas olhou nos meus olhos e assenti quando lhe disse que contava com ele. Sua garganta se moveu, mostrando que engolia em seco, e eu me dirigi em pensamento aos Guardiões da minha tribo, pedindo que ficassem do nosso lado.
     Se nada desse certo, que ao menos soubessem que eu fizera o melhor que possível.
     -- Hey-heya! Pelas presas do Lobo, as penas do Corvo e os bigodes da Lontra! – proferi, em alto e bom som; e então me detive por um instante, observando o espanto em vários olhares. – Um jeito diferente de começar uma saga, não é mesmo? Eu deveria evocar os Heróis, já que sou humana, ou me referir ao Fogo Primordial, se fosse contar uma história como os bardos élficos. Não é assim?
     -- Acho que é. Sim. É o que se espera – disseram vozes desencontradas em meio à audiência. Quase todas vinham de pessoas que me conheciam pouco, mas três ou quatro aprendizes e até Mestre Tomas entraram no jogo, embora com expressões diferentes, sorrindo com o canto da boca e piscando para mostrar que sabiam do que eu estava falando. Pisquei também, em reconhecimento, e prossegui, fixando-me ora em um, ora em outro olhar repleto de assombro.
      -- Pois abram bem os olhos e os ouvidos. – Era o sinal para que Andi começasse a tocar, bem discretamente, criando uma atmosfera de segredo e de aconchego. -- A história que vou contar é a de alguém que estudou durante anos para ser uma Mestra de Sagas, mas cujo aprendizado decorreu de forma diferente do comum, dentro dos princípios do sábio Odravas. Alguém sabe dizer qual seu preceito fundamental?
     -- Da terra – começou Rydel, mas estacou quando desferi um sonoro golpe no tambor. Sorri, fazendo um sinal para encorajá-lo, mas um dos aprendizes já prosseguia:
     -- Junto à terra... – Nova batida do tambor.
     -- E com os filhos da terra! – concluiu um pequeno coro, igualmente brindado com uma batida.
     -- Exato. Era o que dizia Odravas. E seus seguidores criaram muitas vilas, como a de Bryke, junto a florestas onde viviam tribos como a minha. Os resultados foram muito diferentes de lugar para lugar, mas de quase todas saíram pessoas como eu: com sangue das tribos, porém educados por elfos brilhantes. E para não ferir os princípios de Odravas, a educação e o aprendizado sempre respeitavam ao máximo as tradições da tribo hospedeira. Imaginam como era?
    -- Devia ser divertido! – exclamou o aprendiz conhecido como Ruivo.
    -- Eu iria adorar – disse Freydis.
    -- Um pouco confuso, não? – perguntou, timidamente, o mais moço dos Prestes que viera do templo de Bragi. Era a resposta que eu esperava para imprimir entusiasmo à minha voz.
    -- Sim! – exclamei, batendo duas vezes no tambor e erguendo a baqueta, para que todos me encarassem como se eu fosse uma louca. -- Era confuso, e divertido, e um desafio constante. Todos os livros que tínhamos para ler falavam de coisas que nunca tínhamos visto, e as que víamos tinham sempre mais importância. Só aprendíamos a ler os mapas do céu dos elfos brilhantes depois de provar que sabíamos nos orientar na floresta; só aprendíamos a história de Athelgard depois de conhecer a da tribo, dos nossos antepassados. E o jeito da tribo de contar histórias é diferente do jeito como se conta nas Terras Férteis. Então, embora minha mestra tocasse bem a harpa e o alaúde, ela não fez questão de que eu aprendesse desde o início. Para quê? Eu era da tribo! Eu podia muito bem usar...
     -- O TAMBOR! – gritaram várias vozes, assombradas e divertidas. Assenti, e então comecei a percutir ritmadamente o tambor, os acordes de Andi se ajustando em uma harmonia perfeita. Éramos um duo, mas não estávamos cantando, e sim contando uma história da qual a próxima parte ainda era minha. Mas só a próxima parte.
     -- Eu me concentrei em contar e escrever histórias – continuei, ante a fascinação da audiência. -- Registrei todas que conhecia da tribo e escrevi um livro que foi enviado a vários Mestres de Sagas. Um deles chegou às mãos do Mentor Camdell, e começou a correspondência que, ao fim de poucos anos, acabaria por me trazer ao Castelo das Águias. Mas o que aconteceu? Esse convite nos pegou de surpresa! Maryan ainda ia começar a me ensinar um instrumento, pois só depois de alguns anos eu deveria passar pelos testes da escola bárdica! Então o que fazer? Alguém tem ideia?
     -- Você aprendeu? – perguntou Amina, completamente arrebatada pela história e o som.
     -- Não aprendeu! Ela sempre tem um harpista ou alguém tocando alaúde ao fundo – disse um dos mestres da Ala Violeta.
     -- É mesmo? Mas então ela não poderia... – começou o jovem Preste, logo silenciado por vários olhares zangados. Inclusive do seu superior, Preste Drusius. No entanto, mais uma vez ele me dera a deixa que eu esperava, por isso sorri e o encarei, detendo as batidas no tambor e elevando minha voz acima da plateia.
     -- O que eu não poderia, Preste? Fale sem medo!
     -- Eu... Eu não quis...
     -- Você está sem graça – disse Urien, sorrindo lentamente. – Mas seu engano é comum. A escola bárdica forma Mestres de Música, como eu, que têm de dominar pelo menos dois instrumentos; e Mestres de Sagas, como Anna, que devem ter de cor um repertório de histórias. A maioria deles toca harpa ou alaúde, para fazer o acompanhamento, e eu brincava com Anna dizendo que ela devia aprender, mas isso não é uma exigência da escola no caso dela. Estou falando a verdade – acrescentou, erguendo a taça. – Olhem, tem vinho aqui, ainda não estou completamente bêbado.
     -- Que bom! – exclamei, entre as gargalhadas do público. -- Assim vai se lembrar de como lhe agradeci... e do quanto nunca poderei agradecer o bastante por sua ajuda, por seu tempo, até por sua implicância, que me fizeram finalmente começar a aprender. Você também, Kieran – acrescentei, olhando para meu marido. – Eu queria que fosse uma surpresa, mas pelo jeito você sempre soube que eu estava tendo aulas de alaúde com Urien. Os calos nos meus dedos me traíram, não foi mesmo? E você não disse nada, só me apoiou... do jeito que faz sempre, me desafiando a ir além do que é fácil e confortável para mim.
      Respirei fundo, olhando dentro dos olhos dele, e soltei:
     -- E é o que vou fazer agora, trocando de lugar com meu aprendiz, para que ele termine a minha história e conte a sua.
     A garganta de Andi se moveu mais duas vezes, e seus olhos me fitaram cheios de receio, mas mesmo assim ele deu uns passos duros à frente e me entregou o alaúde. Empunhei-o, meus dedos correndo sobre a madeira, e sorri para o menino, mas minha expressão estava séria: eu não queria pressioná-lo, mas ele aceitara a proposta, e agora tinha de fazer o que prometera. Ia contar uma história, possivelmente a mesma que ensaiara diante de Freydis e Orm; podia ser que se engasgasse um pouco, mas os meus dedos também estariam atrapalhados nas cordas do alaúde, de forma a fazê-lo sentir que não estava sozinho. Era o jeito que eu tinha encontrado de fazê-lo quebrar sua barreira.
      E, ao tocar os primeiros acordes, não fazia ideia de como aquilo iria acabar.

*****

Talvez a maneira de contar histórias acompanhada apenas de tambor pareça estranha a quem pensa (acertadamente) em skalds nórdicos e bardos celtas quando falamos das sagas do Castelo. Mas o que a tribo da Anna faz é algo como isto aqui. Eu, pelo menos, acho legal.

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Parte 3

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Parte 5

Parte 7

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A Grande Noite das Sagas - Parte 5


       Os fornos já estavam apagados, mas o aposento guardava o calor e o cheiro bom da comida. Ao me aproximar, ouvi o som de vozes animadas, várias delas falando ao mesmo tempo, mas – por estranho que fosse – não parecendo dizer alguma coisa. Era uma linguagem sem sentido, embora melodiosa, e só entendi do que se tratava ao entrar na cozinha e ver quatro pessoas se derretendo diante de um bebê.
      -- Olhe quem chegou, querido! A Mestra Anna! – exclamou Netta, que segurava a criança nos braços. – Ainda não conhece o pequeno Nils, não é? Ele teve que aprender a se sentar para vir ao Castelo, visitar a avó e o avô!
      -- Não conhecia, não, mas o imaginava bem assim, pelo que você e Nils contavam dele. – Sorri, passando um dedo pela bochecha do menino; ele devolveu o sorriso, arrancando de todos um ooooh cheio de ternura.
      -- Ele gostou da senhora, Mestra – disse timidamente a mulher de Holger.
      -- Todas as crianças gostam – declarou Netta, fazendo-me sorrir outra vez. – Precisava ver aqueles três, quando vieram nos chamar para a Noite de Sagas. Disseram que essa tinha que ser a melhor festa de aniversário de todas.
      -- Está sendo – assegurei.
      -- Desculpe não termos ido para lá, Aisleen e eu – disse Netta, referindo-se à nora. – É muita gente, muito barulho, e Nils não está acostumado, precisa de sossego. Quer dizer, o pequeno Nils – acrescentou, olhando para o marido. – Aquele ali, o grande, é um farrista. Quanto mais comida e bebida, mais ele gosta.
       -- E a culpa é sua. Quem mandou me dar aquela poção? – perguntou o cocheiro, rindo com gosto.
       -- Poção? - indaguei, quase sentindo minhas orelhas empinarem. – Isso tem a ver com aquela história do outro dia?
       -- Que história? Não sei de nada – disse Netta, fazendo-se desentendida. Eu ia lembrar o que ela me contara, mas me contive a tempo. Não sabia até que ponto eles queriam falar sobre aquilo. Para minha surpresa, porém, Holger ficou animado, querendo que sua mulher também se inteirasse do episódio.
       -- Acho que nunca lhe contei, Aisleen – disse ele. – Meu pai, antes de ser forte assim, era magro e vivia com dor de barriga. Ele comia muito pouco, e minha mãe achava que quanto mais comesse mais lhe faria bem, principalmente se fosse a comida caprichada que ela faz. Só que ele recusava, por medo de a barriga doer mais ainda...
       -- Você não imagina a agonia que era aquilo! – afirmou Nils.
       -- ... e minha mãe ficava cada vez mais danada. Até que pôs na cabeça que ele não gostava dela, que recusava de propósito a comida, pois assim ela iria desistir e se afastar.
       -- Como assim? Nada disso! Eu era discreta, não dava a entender que estava interessada – protestou Netta, meio rindo.
       -- Pois é! Eu achava que ela só queria ser gentil. – O cocheiro piscou, pousou a mão sobre a da mulher, que afagava lentamente as costas do pequeno Nils. – E é verdade que ela achava que a boa comida iria me curar. Mas eu morria de medo de comer qualquer coisa mais temperada, e em vez de explicar isso a ela só dizia que não, que não queria, que me satisfaria com umas frutas e um pouco de caldo. E assim foi durante uma, duas, três luas...
       -- Ela oferecendo e você recusando? – perguntei, divertida. – E logo Netta, que se ofende quando a gente não repete pelo menos duas vezes?
       -- Isso mesmo, até que ela ficou magoada – disse Nils. – Parou de oferecer comida e nem falava mais comigo. Fiquei surpreso, e também triste, porque a essa altura já tinha começado a gostar dela, mas não sabia o que fazer. E não sei se teríamos ficado nisso se não fosse – adivinhe quem? Nosso patrão, Mestre Theoddor.
       -- Sério? Ele fez vocês se entenderem? – Ergui as sobrancelhas, com surpresa. – Como aconteceu?
       -- Ah, Nils, não conte! Fui uma grande boba nas mãos dele – disse Netta, com as faces vermelhas.
       -- Mas essa é a melhor parte! Veja, Aileen, naquele tempo a Escola de Artes Mágicas ainda não tinha sido fundada – explicou Holger. – O Castelo das Águias era propriedade de Mestre Theoddor, que tinha estudado Ciências da Terra e um pouco de Artes da Cura. Mas todos sabiam que ele era amigo de vários magos, que estavam sempre trocando cartas, ideias...
       -- Às vezes algum deles se hospedava aqui – lembrou Netta. – Havia um quando isso aconteceu. Um elfo, não me lembro do nome. Até achei que Mestre Theoddor tinha falado com ele.
       -- Sobre o quê? Você e Nils?
       -- Sim, mas principalmente sobre o problema de saúde do meu pai – Holger respondeu. -- Mestre Theoddor notou que minha mãe andava triste, e ela contou a história; disse que estava tentando ajudar meu pai, mas ele não se importava nem com ela, nem com o que ela cozinhava com tanto carinho. Vai daí, Mestre Theoddor fez com que ela acreditasse que meu pai precisava tomar uma poção. Uma poção do amor, que ia fazê-lo ver o quanto ela gostava dele...
       -- Nem gostava tanto assim – disse Netta. -- Era só uma quedinha!
       -- ... e a partir daí ele passaria também a apreciar sua comida – completou Holger, com uma risada. – Era tudo que ela queria que meu pai fizesse.
       -- E como ela conseguiu que ele tomasse a poção? – indagou Aisleen, com olhos de assombro. – Ele sabia o que era?
       -- Na verdade, sim – disse Holger. – Mestre Theoddor não perguntou diretamente a meu pai, mas percebeu que ele estava gostando da minha mãe e andava aflito com o que pensava ser a indiferença dela. Então, ele recomendou a minha mãe que disfarçasse; que não dissesse a meu pai que era uma poção, e sim o que de fato era, ou seja, um remédio dado pelo patrão para ajudar com o problema dele. De forma que, mesmo sem saber da trama, ele sabia o que estava tomando, enquanto minha mãe acreditou piamente que fosse uma poção do amor; e quando meu pai melhorou da barriga e começou a comer o que ela oferecia...
       -- Ela achou que a poção tinha funcionado! – exclamei, rindo. – É uma história genial!
       -- Não deveria ter contado. Eu me sinto uma grande tonta – Netta resmungou, mas não parecia ofendida de verdade. – Mestre Theoddor sempre gostou de pregar peças, mas essa foi a maior de todas. E durou uns bons anos! Holger já era crescido quando ele nos contou o que tinha feito!
       -- Mas, no fim, isso acabou sendo bom para nós, não é, minha mulher? Ou pelo menos para mim – riu Nils. -- Faz quase trinta anos que você atura este velho fanfarrão!
       -- E aposto que tem muito mais para contar – falei. – Não vou descansar enquanto não ouvir todas as histórias!
       -- Mas agora seria melhor ouvir as que estão contando na festa, não é, Anna? – disse Kieran, entrando de repente na cozinha. Sua chegada provocou certo impacto, especialmente em Holger e Aileen – não estavam acostumados com ele, e sua fama de Carrasco o precedia --, mas a tensão foi quebrada pelo bebê, que lançou um olhar como que fascinado para meu marido e riu estendendo as mãozinhas.
       -- Ora, vejam, ele gostou do senhor! – exclamou Netta, uma das poucas pessoas no Castelo a não fazer cerimônia com Kieran. – Também riu assim para Mestra Anna. Sinal de que serão bons pais, quando se resolverem... sabiam?
       -- Espero que com meu filho eu seja bom. Com os aprendizes, esses mais novos, quase nunca acerto – resmungou ele. – Amina mal tinha voltado para a mesa quando aqueles três voltaram a cochichar, e fui saber o que era. Freydis e o neto do Comandante até falaram comigo normalmente, mas o outro parecia estar com medo de que eu o mordesse. Com muito custo consegui entender que estava se recusando a contar uma história.
       -- Muita gente acha que você morde. Mas é isso mesmo. – Suspirei, voltando-me para a família de Netta. – Preciso retornar ao salão, mas foi muito bom ver vocês e conhecer o pequeno Nils. E obrigada pela história da poção. Vocês se sairiam bem, narrando todos juntos, se fossem uma família de saltimbancos.
       -- Imagine! Eu só saberia guiar a carroça! – riu Nils, com as bochechas rubras. Fiz um carinho nos cabelos do bebê e deixei a cozinha, com Kieran logo atrás, a mão em meu ombro me impedindo de ir tão rápido quanto gostaria.
       -- Vai insistir com o menino? – ele perguntou.
       -- Com Andi? Não sei. Queria que ele superasse isso, afinal não tem medo quando se trata da harpa ou do alaúde, mas não posso forçá-lo.
       -- É verdade. Ele não tem medo de tocar, assim como você não tem medo de contar histórias – disse Kieran.
O tom foi casual, mas nele havia uma nota dissonante, e eu me detive para olhar bem dentro daqueles olhos estreitos.
      -- O que você quer dizer com isso? – perguntei, incisiva. – Onde está querendo chegar?
      -- Pense um pouco. Vai descobrir – disse ele, no mesmo tom.
Seus dedos roçaram de leve as pontas dos dedos da minha mão esquerda. Na mesma hora, lembrei-me de como ele também fizera isso, três dias antes, ao falarmos pela primeira vez sobre a Noite de Sagas – e então a compreensão iluminou minha mente como um relâmpago.
Ele sabia...!
     -- Tudo bem, eu também tenho receios – falei, puxando a mão que ele segurava e cruzando os braços. – Ainda mais porque sei que não estou pronta.
      -- Urien acha que está – disse Kieran, sem tirar os olhos dos meus.
      -- Ah, então você falou com Urien? – rebati, zangada. – É uma conspiração?
      -- Não, só estou constatando um fato. Urien diz sobre você o mesmo que você diz sobre o menino, e o menino parece sentir o mesmo que você a esse respeito. É curioso, nada mais.
      Fitei-o, pensando numa boa resposta, mas no final achei melhor não dizer nada e segui em frente. Os sons da festa nos alcançaram após alguns passos, culminando numa salva de aplausos dirigidos a Arnak, o Conselheiro meio-humano. Ele deixava o tablado quando Kieran e eu entramos no salão.
      -- Acredita que a história dele não teve mais que umas vinte frases? Foi divertida, mas nem deu gosto – disse Urien, vindo ao nosso encontro com uma harpa sob o braço. – Anna, ninguém se ofereceu para contar a próxima, e muita gente está pedindo que você nos brinde mais uma vez. Pode fazer isso?
      -- Sim, é claro – respondi, mas minha atenção se voltava para a mesa onde estavam as crianças. Orm e Freydis se sentavam cada qual de um lado de Andi e lhe falavam em voz baixa, tentando animá-lo e – provavelmente – convencê-lo a ocupar o tablado; o meio-humano estava cabisbaixo, mas, em meio ao silêncio, notei que olhava de soslaio para Kieran. Seria medo? Ou só aquela espécie de temor respeitoso que a maior parte dos aprendizes sentia por ele no Segundo Círculo?
      -- Espere um pouco, Urien – pedi, e caminhei até a mesa deles. Freydis se calou à minha aproximação, e em seguida foi a vez de Orm, mas eu sentia que a tensão ali era quase palpável.
    -- Ei, Andi. Kieran veio falar com você? – perguntei, tentando aliviar os ânimos. – Espero que não tenha pressionado muito.
     -- Mestre Kieran foi um amor – afirmou Freydis, de cenho franzido. – Ele disse que Andi devia tentar, que ele não era o único a ter medo, que todo mundo em algum momento passa por isso. E nós estamos dizendo o mesmo, só que ainda assim ele não se convence.
      -- Eu me convenci. Quer dizer, eu sei que vocês têm razão – disse o meio-humano. – Mas tem alguma coisa que me impede.
      -- Medo de errar – afirmou Orm.
      -- Medo de todos rirem de você – contrapôs Freydis. – Mas, Andi, isto é uma festa para a Mestra Anna. As pessoas de fora do Castelo são amigas dela. Você vai se sair bem, e, mesmo que erre um pouco, ninguém vai levar a mal. Somos todos aprendizes, não é?
       -- Isso! – exclamei; e então me senti estremecer. Aquelas palavras tinham acendido uma nova luz, tinham-se somado àquilo que eu ouvira pouco antes de Kieran e me aberto os olhos. Eu era uma mestra, sim, ou pelo menos tinha conhecimento bastante para ensinar às crianças do Castelo das Águias. Mas, em outras coisas, também era uma aprendiz. E com receios semelhantes aos de Andi, embora talvez por outras razões.
       E, se minha intuição estivesse certa, acabara de pensar em algo que poderia ajudar a nós dois.

Imagem: ilustração medieval alemã representando Tristão e Isolda

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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A Grande Noite das Sagas - Parte 4


       -- Então, quando pensávamos que seríamos vendidos como escravos ou remaríamos o barco do pirata pelo resto da vida – e que, com o tratamento que nos dariam, nossas vidas seriam bem curtas --, uma coruja branca, enorme, pousou perto de nós na praia. E adivinhem no que ela se transformou, bem diante de nossos olhos! Uma elfa, amigos! Sim! Vocês estão certos em se espantar, pois nós também mal podíamos acreditar naquilo, mas é a verdade, e se não confiam neste velho perguntem a Mestre Thorold! Ele estava junto!
      -- É a mais pura verdade! – afirmou o Conselheiro, arrancando ainda mais exclamações da audiência. Joot lançou a todos um olhar triunfante, depois continuou a narrativa, tendo ao fundo os acordes discretos do alaúde tocado por um aprendiz do Castelo. Não precisava de muita mestria, nem sequer de grandes variações; a música servia apenas para realçar os momentos mais emocionantes da história. E que história! Que narrador! Eu precisava trazer Joot mais vezes ao Castelo para contar aquelas sagas das Terras Geladas!
      -- Ele é bom, hem? – soprou Urien, ao meu lado. – Melhor ainda que o careca, com toda a sua experiência.
      -- Ah, mas Mestre Tomas contou uma história engraçada dos seus tempos de saltimbanco. Não há como comparar com uma de piratas e naufrágios – ponderei. – Ele também foi ótimo. E ajudou muito, aceitando o convite para falar logo depois de nós e de Freydis.
      -- É mesmo. O tagarela do Arnak já disse que quer contar uma história, e olhe os filhos do Naheen persuadindo a mãe a fazer o mesmo. Sua Noite de Sagas é um sucesso – declarou o Mestre de Música, após o que fez uma pausa, olhando-me com atenção. – Mas acho que você está inquieta com alguma coisa.
      -- Não estou inquieta, só... pensando em como resolver um impasse – respondi, e me voltei para as pessoas no salão. Depois de duas horas, durante as quais fora servido um excelente jantar, todos pareciam relaxados e à vontade. Muitos haviam mudado de lugar e iniciado conversas animadas, que, no entanto, cessavam quase completamente durante as histórias. Até as crianças paravam para ouvir, voltando a brincar e a explorar nos intervalos, quando os adultos retomavam a conversa e os empregados passavam servindo mais bebida. Comida não era mais necessária: estavam todos satisfeitos, as últimas bandejas de doces e frutas quase intocadas nas mesas. Isso queria dizer que a cozinha fizera um bom trabalho, Netta podia se desobrigar... Mas por que ela não tinha vindo até o salão?
       Meus olhos se detiveram sobre uma das mesas mais afastadas. Ali estavam o marido dela, Nils, e o filho de ambos, Holger, alto como o pai e com a mesma tendência a ficar com o rosto vermelho. Netta me contara que ele tinha sido um adolescente rebelde, mas isso mudou com a chegada de Camdell, que na primeira conversa percebeu o pendor de Holger para os estudos e o encaminhou a um mestre em Vrindavahn. Três anos depois, ele entrou como aprendiz para o comércio, e agora trabalhava numa das maiores casas mercantis na cidade. Os pais o visitavam com frequência, mas ele raramente vinha ao Castelo, e nunca havíamos trocado mais que algumas palavras. Era uma surpresa vê-lo ali, na minha comemoração de aniversário. Ou talvez ele tivesse vindo apenas por gostar de ouvir histórias. De qualquer forma, se alguém sabia de Netta, essas pessoas eram ele e Nils, por isso decidi falar com eles e pedir que fossem chamá-la. Só precisava esperar que Joot concluísse sua narrativa.
        As notas do alaúde soaram mais agudas, como se alarmadas, quando o pescador descreveu o conflito entre Thorold e os tripulantes do seu barco. As pessoas se inclinaram para a frente, bebendo cada palavra, e foi quando percebi um leve rumor de conversa na mesa mais próxima à nossa.
        -- Você tem que parar com isso. – A voz abafada de Freydis, dirigindo-se a um Andi silencioso e acabrunhado. – Vamos treinar nossa vontade como magos, aprender a mexer com as forças da natureza e até com a mente das pessoas, e você não consegue contar uma história? Como vai avançar nos estudos desse jeito?
       -- É mesmo, Andi – disse Orm. – Ainda por cima, hoje é uma noite de festa, não uma competição. Ninguém vai exigir que você seja perfeito.
      -- Silêncio! – Thalia se voltou para eles com o cenho franzido e o dedo sobre os lábios. Os três se encolheram, ressabiados, e senti que devia ir até eles antes de mais nada.
       Meus aprendizes precisavam de mim.
       Joot arrematou sua história com uma frase de efeito e se inclinou para os aplausos. Finn esperou alguns instantes para deixar que ele os saboreasse e anunciou um novo intervalo, que um grupo de alunos mais velhos se encarregou de preencher com música. Várias pessoas se levantaram, e eu me aproximei da mesa onde estavam as crianças.
       -- Discutindo de novo? – perguntei, em tom brincalhão. – E pelo motivo de sempre?
       -- Mestra Anna, Andi é impossível! – declarou Freydis, abanando a cabeça. – Hoje, mais cedo, ele havia prometido que contaria uma história. Até treinou depois do almoço, e eu achei muito bom. Mas agora...
       Encolheu os ombros, olhando para o amigo como se esperasse uma explicação. Andi também se encolheu, sustentando aquele silêncio cada vez mais incômodo. Por fim, murmurou:
        -- É que não fico à vontade com tanta gente. Minha língua tropeça. Se aqui estivesse só o pessoal do Castelo, ou se as histórias de Mestre Tomas e Joot não fossem tão boas, eu... talvez...
        -- Deixe de bobagem! Você vai se sair tão bem quanto eles – Orm insistiu.
        -- Eu também acho, Andi. Acho que podia tentar quebrar essa barreira. Mas não vou forçar – acrescentei, fazendo os outros dois fecharem a boca. – Espere a próxima história, que deve ser a da mãe de Hakim... Perceba que cada narrador tem seu próprio jeito, que nada tem que ser executado à perfeição... E logo mais me diga – concluí, olhando para o lugar onde tinham estado Nils e seu filho. Eu não os vira sair, nem sabia onde tinham ido, embora fizesse uma boa ideia.
        E assim que as crianças assentiram, uma canção se iniciando para indicar que tinha algum tempo até a narrativa de Amina, rumei com passos apressados em direção à cozinha.

Continua...

Quer saber que história foi essa contada pelo Joot? Clique aqui.

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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A Grande Noite das Sagas - Parte 3




      -- Nervosa? – perguntou Urien, com o jeito malicioso de sempre, mas querendo demonstrar que me apoiava. – Não fique. Todo mundo vai adorar a noite de hoje.
      -- Tomara. Já era para mais gente haver chegado – respondi, tamborilando com os dedos na mesa. – Quer dizer, os aprendizes, quase todos, estão aqui, mas eu queria que os outros também viessem. Pelo menos parte deles.
      -- Os outros, em grande parte, são artesãos e empregados do Castelo e estavam ocupados até meia hora atrás. Não vão se apresentar no salão com roupas de trabalho. Dê tempo a eles para se lavarem e vestirem alguma coisa melhor – disse o professor de Música.
      Assenti, pois suas palavras faziam sentido, e percorri mais uma vez o salão com os olhos. Estava decorado à moda do inverno, com pinhas e guirlandas de folhas, além de estandartes que representavam o brasão de armas de Vrindavahn, o da família de Theoddor e as sete cores da Escola de Artes Mágicas. A disposição das mesas fora mudada de forma que todos os olhares pudessem convergir para um espaço no centro, e ali havia um tablado de madeira trazido dos galpões da Ala Violeta. Era onde as histórias seriam contadas naquela noite. E, se tudo corresse bem, seria ocupado por várias pessoas além de mim.
      -- Duvido que muita gente tenha coragem de narrar alguma coisa. – Às vezes o mestre de Música também parecia ler meus pensamentos. – Você precisa ter em mente que os empregados do Castelo são pessoas humildes. Ficam envergonhados diante de nós. E os aprendizes, de quem talvez você consiga bons resultados nas aulas, podem não ser tão desembaraçados na frente de outros mestres e de colegas mais adiantados. Quem talvez se anime é gente como aquele velhote ali – ergueu a voz --, que está entrando em cena, com seu cabelo ruivo puxado por cima da careca... Veja só!
     -- O que é melhor, ser meio careca ou ter uma barba de bode como a sua? – Tomas, o mestre de fantoches da Ala Violeta, devolveu o insulto bem-humorado e avançou em meio às risadas dos aprendizes. – E ainda me chama de velhote, como se fosse um jovenzinho!
      -- Pois você vai ver que o barba de bode tem mais fôlego que todos esses moleques juntos! – riu Urien, enquanto apertavam as mãos. Por minha vez, abracei Flora, nora de Tomas e uma de minhas melhores amigas em Vrindavahn, e seu marido, Aryan, um rapaz arruivado, de temperamento tranquilo. Estava feliz por eles terem vindo, e fiquei mais ainda quando vi outros artistas da Ala Violeta entrando no salão e se dirigindo a Freydis, que estava junto à entrada servindo de mestra de cerimônias.
      -- Por aqui, podem se acomodar. Não há lugares marcados – disse ela, mas, como era de se esperar, eles se sentaram todos juntos numa mesa ainda vazia. Ida, a postos, ofereceu-lhes pão e cerveja aquecida, fazendo-me pensar que talvez fosse preciso dar um pulo à cozinha para trazer Netta e Lori. Não agora, é claro, pois o jantar seria servido antes de começarem as sagas, e eu tinha certeza de que Netta não deixaria o comando sem ter a certeza de que tudo estava correndo bem. Mas, depois disso, alguma coisa me levava a fazer questão de que ela estivesse ali conosco.
      -- Mãezinha! – A voz de Freydis, evocando o modo de falar do Oeste, me despertou daquela cisma. Seus pais, Thorold e Tatyana, acabavam de entrar no salão, um homenzarrão de barba loura de mãos dadas com uma mulher baixinha. Atrás deles vinham os imprescindíveis Bran e Joot. E quem era o segundo grupo, pelo menos dez pessoas lideradas pelo que parecia um anão encapuzado?
      -- Salve, salve! – O capuz foi retirado, deixando ver não um anão, mas o rosto sorridente e cheio de rugas de Mestre Angus, o comerciante que partilhara nossa aventura na Ilha dos Ossos. – Então este é o famoso Castelo das Águias! Pensei que minha vida chegaria ao fim sem ter estado aqui!
      -- Todos os cidadãos de Vrindavahn podem visitar o Castelo, esse é um acordo firmado entre a Escola de Artes Mágicas e o Conselho – disse Arnak, atrás dele. – Mas uma noite como esta não acontece sempre, não é mesmo, Anna? Obrigado pelo convite!
      -- Não há de quê – respondi, um pouco aturdida. Não fazia ideia de quem havia convidado o Conselheiro e sua família, inclusive as duas filhas pequenas, que olhavam maravilhadas para as paredes do salão. Dentro de alguns instantes começariam a explorá-lo. E não estariam sozinhas, pois alguns artesãos e – finalmente – quatro ou cinco empregados do Castelo estavam chegando acompanhados das famílias, ao passo que Naheen, nosso mestre de Ciências do Céu, apareceu todo encapotado, vindo da cidade onde fora buscar a esposa, os filhos e dois sobrinhos.
      -- Anna, minha querida, muito obrigada por nos convidar. Não fizemos nossa reunião habitual na noite do crescente, porque choveu muito, o jardim ficou encharcado e desconfortável. Mas esta é uma ótima oportunidade para estarmos juntos – disse Amina, mulher de Naheen, de rosto suave e cabelos sempre envoltos por um lenço de seda. Suas filhas adultas e um dos sobrinhos, que era casado com a mais velha, se sentaram com a família de Tomas, enquanto Hakim, o filho mais novo, se misturava aos aprendizes junto com o outro primo. Dali também era capaz de sair alguma história, acompanhada ao fundo por alaúde ou até cantada em tom dolente como era comum no Leste de Athelgard.
      -- Bom, se você estava com medo de as pessoas não virem, acho que já pode relaxar – disse Urien, enquanto mais e mais lugares eram ocupados. – Eu não sabia que tinha convidado toda essa gente de fora, mas...
      -- Não convidei! Foi coisa dos meninos. – Balancei a cabeça, cada vez mais incrédula ao presenciar a entrada do Preste Drusius, líder do Conselho de Vrindavahn, e mais três religiosos do templo de Bragi. – E isso deve ter sido coisa do Padraig. Ah, não falei? A mãe dele veio junto!
      -- Isso quer dizer que ela fechou sua estalagem por uma noite. E A Espada e o Lírio não fecha nunca! – declarou Urien. -- Viu só o prestígio que você tem?
       A essa altura, eu só podia concordar, porque havia mais gente no salão do que eu tinha previsto. Algumas pessoas seriam de se esperar, pois eram ligadas aos mestres – a família de Naheen, a esposa de Algias, o namorado de Rydel, que tinha uma oficina de marchetaria no bairro élfico --, mas eu não fazia ideia do porquê de terem chamado certas outras. O que os Prestes, por exemplo, estavam fazendo ali? E o Conselheiro Arnak, e Mestre Angus?
      -- Os Prestes não fomos nós que chamamos. É que Freydis comentou sobre a noite de hoje com o Padraig e contou que ia convidar os pais. Com isso, ele decidiu chamar também a mãe dele, e ela achou que era uma espécie de festa oficial do Castelo, com as pessoas importantes – explicou Orm, que acabara de acomodar numa mesa não apenas o avô, Comandante Owen, mas também a avó, os pais e dois primos. – E, para ela, as pessoas mais importantes do mundo são os Prestes.
      -- Pelo menos só chamaram os Conselheiros simpáticos. Não queria olhar para a cara azeda daquele Colum – resmungou Urien, e em seguida revirou os olhos. – E, por falar em azedume, prepare-se! Aí vem seu marido, com aquele belo sorriso que Deus lhe deu.
      -- Mas ele está sorrindo mesmo – disse eu, perguntando-me até que ponto isso também era estranho. Kieran já havia se posicionado a favor da noite de sagas, mas eu achava que não iria gostar de ver o salão tão cheio e imerso em balbúrdia. Aquilo era prenúncio de resmungos e cara fechada. Em vez disso, no entanto, ele estava andando entre as mesas, cumprimentando os Conselheiros e outras pessoas da cidade. Parou até para falar com alguns aprendizes antes de vir para a mesa onde estava a maior parte dos mestres do Castelo.
      -- Estamos lotados – disse, sentando-se à minha direita e se servindo da cerveja que Ida trouxera em uma jarra. – Se isso aqui fosse uma taverna, ficaríamos ricos.
      -- Mas o que foi que aconteceu? Por que tanta gente de Vrindavahn? – sussurrei, para que só os mais próximos ouvissem. -- Isso era para ser entre nós, com uns poucos convidados de fora. Foi o que eu disse a Camdell, quando lhe falei sobre os meus planos.
      -- Não se preocupe comigo, Anna – sorriu o Mentor. Ele chegara pouco antes dos Prestes e se sentara duas cadeiras à minha esquerda, entre Lara e Thalia, que ostentavam o mesmo ar tranquilo. Franzi a testa, sentindo uma espécie de desconfiança em relação a tudo aquilo, e foi quando Finn deu três pancadas fortes em sua taça.
      -- Caros amigos e aprendizes, peço sua atenção! – A voz se sobrepôs ao soar do bronze. – É com prazer que os recebemos aqui no Castelo das Águias. A ideia do encontro foi da Mestra Anna de Bryke, a qual, como muitos já sabem, fará vinte e um anos dentro de um quarto de lua. Ela não mencionou esse fato ao sugerir uma noite de sagas, mas nós pensamos: que melhor maneira de comemorar esse aniversário?
      -- Ah, então era isso? – exclamei, sentindo minhas faces esquentarem. Urien, à minha esquerda, soltou uma risadinha, mas Kieran se limitou a afagar minha mão, com uma expressão que não deixava dúvidas sobre ele estar a par daquela trama. As pessoas no salão também me olhavam com ar cúmplice, e eu não tive o que fazer a não ser agradecer a todos. Ainda meio envergonhada, mas feliz. E envaidecida, embora de um jeito bom. O que mais poderia sentir diante de tanto carinho?
      -- Então, amigos, vamos abrir esta noite com um brinde a Anna de Bryke. – Finn ergueu a taça, e os convidados o imitaram. – Estamos felizes por ela estar conosco, por ter retornado sã e salva de tantas aventuras temerárias...
      -- Foi uma só – murmurei, mas ele não ouviu.
      -- ... e por trazer tantas histórias, tanta alegria, tanta vida ao nosso Castelo. Um viva a Anna de Bryke, e que comece o jantar!
      -- VIVA! – exclamaram todos, e o coro desembocou em risadas alegres. Sob o comando de Ida, as jarras e travessas começaram a circular, e assim teve início o que ficaria conhecido como a Grande Noite das Sagas.
      E muito haveria de acontecer antes que terminasse.

Continua...

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