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domingo, 4 de agosto de 2019

Athelgard e os Reinos Invisíveis


Pessoas Queridas,

Em primeiro lugar, quero agradecer, muito, a todos os leitores deste blog e da nossa série pelo apoio à campanha de financiamento de Duendes: contos sombrios de reinos invisíveis. Arrecadamos bem mais que a meta inicial e, com isso, não apenas garantimos que o livro chegasse a mais leitores (nada menos que 175!) mas também que ele fosse incrementado com brindes, descontos e dois textos extras, entre os quais um conto inédito do Eduardo Massami Kasse. Tenho certeza de que vocês vão gostar!




Aproveitando o ensejo, decidi falar um pouco sobre os Reinos Invisíveis de Athelgard, que não apareceram muito na trilogia do Castelo nem nos primeiros contos publicados. Claro, o universo é habitado por elfos e seus descendentes, e deve ter ficado claro que existem seres, digamos, fantásticos, como dragões e unicórnios. Também temos os espíritos animais que aparecem com mais força em Anna e a Trilha Secreta. Mas fadas, duendes... Será que o Povo Pequeno existe em Athelgard?

A resposta começou a ser descortinada no conto De Poder e de Sombras, publicado na coletânea Magos: histórias de feiticeiros e mestres do oculto. Kieran, então um jovem mago, tem de agir (meio a contragosto) em parceria com seus colegas para enfrentar elementais do fogo, que são conjurados através de um ritual mágico e nem sempre se comportam como previsto. No ano seguinte, foi a vez de Orlando, futuro aluno do Castelo das Águias, e seu falcão Vesgo adentrarem os domínos de Turnedil, nas Colinas Negras – onde, para seu espanto, ficam sabendo da existência de um Reino Invisível composto por vários territórios, cada qual com suas próprias regras e certamente nem todos amigáveis.

Vemos, dessa forma, que existem criaturas como trolls, ogros e anões (SIM! Há anões em Athelgard!), além de outros seres que podemos considerar como pertencentes a raças feéricas. Algumas delas serão mostradas em histórias por vir, bem como seus reinos, e eu me arrisco a dar um pequeno spoiler lembrando que, no final de A Fonte Âmbar, fomos apresentados a alguém que não apenas traz a Magia nas veias mas foi concebido em condições especiais, num lugar mágico. Isso faz com que essa pessoa tenha facilidade em transitar entre as dimensões e visitar os Reinos Invisíveis, além de outros lugares até agora inacessíveis. Esperemos que cause mais Bem do que Mal...!

Até a próxima, grande abraço a todos!

....

A imagem é de um dos postais que serão enviados aos apoiadores de Duendes, com arte de Arthur Rackham. Falo um pouco sobre ele no blog Estante Mágica; ficarei feliz com sua visita!

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Fanfic de Angelina, leitora de Anna e a Trilha Secreta!


Pessoas Queridas,

Uma das coisas que mais me dão orgulho é ver meus livros lidos, amados e comentados por jovens leitores.

Este ano, pela segunda vez, "Anna e a Trilha Secreta" foi adotado pelo Colégio Salesiano Santa Rosa para o 6o ano do Ensino Fundamental, e ontem eu fui conversar com os alunos e tive a oportunidade de ler alguns textos produzidos por eles com base nos personagens da história.

(Estavam ótimos! Se vocês, alunos do Salê, chegarem a ler isso, saibam que adorei!)

Bem, como costumo fazer, disse aos alunos que poderiam enviar os textos para eu publicar no blog, mas não achei que algum deles realmente fizesse isso. Qual não foi a surpresa quando a Angelina me enviou o e-mail com seu conto caprichosamente digitado?

A professora Josilene escreveu a primeira frase, que vai em negrito, e a Angelina prosseguiu bem dentro do espírito de paz e harmonia que buscamos na tribo. Aí vai:

Fazendo as pazes

Há muito tempo, quando as árvores eram jovens, Corvo e Lobo se desentenderam...

As suas tribos brigaram, e o desentendimento foi tão sério que formou-se até uma tal de profecia: dizia essa profecia que para serem feitas as pazes, precisariam de uma menina muito corajosa, especial e inteligente, Anna.
A profecia dizia que para o Corvo e Lobo se entenderem novamente, Anna teria que conversar com Lobo, e não provocar nenhuma discórdia com batalhas.
A corajosa humana andou pela bela floresta cheia de árvores, até chegar ao destemido Lobo, e então se explicou:
-Lobo, eu acredito que seja lá qual for o motivo do desentendimento, nossas tribos não precisam batalhar, vivemos em conjunto, precisamos ajudar uns os outros.
Lobo então confiou em Anna, que pediu para ele se entender com o Corvo, assim os dois se desculparam e, finalmente e de uma vez por todas, tudo voltou ao normal.


...

Nem preciso dizer, né? Meu espírito dançou de alegria quando li, e mais ainda quando recebi o trabalho. Espero que venham outros, mas, ainda que não, fico feliz só por saber que o livro foi bem recebido, a mensagem foi ouvida e muitos esperam por novas aventuras de Anna.

Abraço grande a todos! Logo, espero, voltarei a estar com vocês!

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Mais uma vez na Feira Medieval!


Pessoas Queridas,

Mais uma vez estarei na Feira Medieval na Quinta da Boa Vista (a quinta edição da Feira!). Será no domingo, dia 8 de julho, das 10 às 18 h. Levarei os livros de Athelgard e as coletâneas "Magos", "Medieval" e "Excalibur", e vou autografar a coletânea "Histórias Fantásticas do Guardião", de que participei a convite dos editores. Também está prevista uma minipalestra sobre as raízes medievais da Literatura Fantástica e o sorteio de um exemplar de "Medieval".

Apareçam, vai ser mágico!

domingo, 11 de março de 2018

Concluída a Primeira Versão de "O Escudo da Coragem"




Então, terminei O Escudo da Coragem. Bom, a primeira versão. Tenho um monte de coisas a esse respeito borbulhando na minha cabeça, e muitas eu gostaria de partilhar, a começar sobre como foi complicado desvencilhar esse livro do primeiro infantojuvenil de Athelgard, Anna e a Trilha Secreta. 
      Eu queria algo do mesmo estilo, planejei uma estrutura semelhante, mas depois tive que mudar algumas coisas à medida que a história crescia na minha cabeça e soluções iam aparecendo para cada impasse. Ajudou muito ter finalmente percebido que a história do Orlando não é, como a da Anna, uma jornada xamânica, está mais para um conto de cavalaria que, no fundo, segue a boa e velha jornada do herói. O simbolismo dos animais persiste, principalmente o do falcão, mas as qualidades relacionadas a eles não são tão evidentes em O Escudo da Coragem
      Por outro lado, Orlando é menino, e a questão da sororidade, que é forte no livro da Anna, não aparece neste. Em vez disso, o que aparece é a ideia de que ele pode provar seu valor de forma gentil, mostrando empatia, recusando-se a matar, tentando conciliar antes de chegar às vias de fato. Anna empreendeu sua viagem sozinha, enquanto Orlando é o tempo todo um menino entre homens -- e um menino sensível, diferente dos demais e, aos olhos de todos, menos importante que seu irmão, aquele que irá herdar o título e as terras do pai. 
      A forma como ele encara as provas e obstáculos, os vínculos que possui com sua família e seu falcão e, especialmente, aqueles que constrói com as pessoas que conhece nas Colinas Negras foram se revelando para mim à medida que eu escrevia, muito mais do que no caso da Anna, já que ela é uma personagem com a qual eu tinha trabalhado em dois livros (A Fonte Âmbar, último da trilogia, saiu depois de Anna e a Trilha Secreta) e cuja personalidade já conhecia. Orlando, ao contrário, tinha tido uma breve aparição em A Ilha dos Ossos, e além da grande força de vontade e ligações familiares eu não sabia nada sobre ele. 
     Assim, a bem dizer, o herói nasceu junto com o livro, e com ambos uma nova perspectiva do universo Athelgard. Talvez parecesse que não, mas ele ainda guardava algumas surpresas. Espero que os leitores se interessem por descobri-las.  


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Anna, O Castelo e Muitos Outros Livros em Grande Sorteio!

Pessoas Queridas,

O blog Acervo do Leitor fará em breve um grande sorteio de livros de fantasia e terror, entre os quais Anna e a Trilha Secreta e )O Castelo das Águias.

Para saber mais, cliquem aqui. Boa sorte!

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr: Os Três Xamãs (7)



    -- Um de nós tem que ir a pé. Com ele – indicou o pequeno unicórnio. – O outro pode voar na frente, para contar a Vivani...
    -- Ou pode voar até os caçadores e despistá-los. Eu acho que consigo – disse Zendak. – Posso fazê-los seguir um rastro que não leve a nada. Ou posso apenas assustá-los, mas isso não é bom. Se virem algo que os deixe com medo, eles vão fugir, mas vão retornar depois, em maior número, mais cegos, mais violentos...
    -- Sim – concordou a elfa mais jovem. – Sim, é isso que acontece. Voe, então, até onde estão esses homens, procure desviá-los do caminho, afastá-los da floresta. Eu irei para lá, acompanhando o pequeno. Você deve ir também, depois que se livrar dos caçadores.
    -- Está certo. – Zendak pôs as mãos sobre os ombros dela, aproximou-se para encostar a testa à testa de Kemi, coberta por uma franja de cabelo repicado. – Que você caminhe em segurança, Kemi dos Penhascos Gelados, e que Coruja a abrigue sob suas asas.
    -- Que Corvo lhe empreste sua astúcia, Zendak da Floresta dos Teixos – Kemi retribuiu. – E que o Grande Espírito envie bons ventos para guiá-lo até o coração da floresta.

***


A linda imagem que ilustra este post é de Francene Hart.

Saiba mais sobre o Zendak  e curta a ilustra do xamã, por Carol Mancini.

Leia uma história em que Kemi se envolve com outras criaturas mágicas clicando aqui.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr: Os Três Xamãs (6)


       
        -- Nós temos que tirá-lo desse sonho, Kemi – disse Zendak, com o rosto contraído. – Temos que tirá-lo daqui e levá-lo para junto dos outros. E tem que ser o quanto antes.
       -- Então você viu...?
       -- Vi. São homens. Caçadores, eu acho, mas não caçadores quaisquer; suas intenções vão além disso. Podem estar procurando trolls, mas também podem estar atrás dos próprios unicórnios, embora não me pareça haver algum mago entre eles.
      -- Não é preciso ser mago para ter ouvido falar.
      -- Eu sei.
      -- Nem para deduzir que um potro dourado, vagando pela floresta, é aquilo que procuram, se alguém tiver lhes explicado que o chifre é invisível para a maior parte das pessoas.
     -- Eu sei – Zendak tornou a dizer, e estremeceu, com o que as franjas de couro em sua roupa se agitaram feito penas. – Temo que eles estejam atrás disso mesmo. Vamos chamá-lo, precisamos tirá-lo daqui.
      Kemi assentiu e se ajoelhou diante do animalzinho, correndo suavemente as mãos por sua crina. Um novo canto brotou de seus lábios, baixo, tranquilo, destinado a despertá-lo e a trazê-lo para junto deles, num vínculo de confiança. Tinha que ser assim, precisava criar um elo, ou o unicórnio continuaria a caminhar para o leste, onde estava o menino saltimbanco. Mesmo agora, vendo os olhos negros começarem a se abrir, e vendo sua própria imagem refletida neles, Kemi não tinha certeza de que o faria acompanhá-la. Mas daria o melhor de si para isso.

domingo, 15 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr: Os Três Xamãs (5)



Os olhos de Zendak se desfocaram, permitindo-lhe enxergar dimensões ocultas, invisíveis para um corvo comum. Em todas as florestas havia vibrações sutis, resquícios deixados pelos viajantes, trilhas secretas que levavam ao mundo dos espíritos, mas a Floresta Mágica superava a todas elas. Ele se concentrou, sentindo a energia nas linhas fosforescentes, entrecruzadas, para tentar achar o rastro do pequeno unicórnio. Kemi, enquanto isso, mantinha a visão de coruja, com a qual poderia divisar até mesmo um roedor oculto entre talos de grama. Seus olhos sérios, severos, escrutinaram cada polegada da floresta que ela sobrevoava, lugares onde Vivani poderia ter estado numa viagem de sonho, mas que não visitara nos últimos dias, quando estivera sob a forma de raposa. Por fim, depois de ter se enganado com um filhote de cervo e quase dado um alarme falso, ela vislumbrou a espiral reluzente do chifre – ao mesmo tempo que Zendak, que parecia estar seguindo uma das trilhas ocultas, batia as asas com força e crocitava para chamar sua atenção.
Pelo poder do Grande Espírito do Mundo, tinham chegado antes dos caçadores.
O unicórnio estava dormindo, deitado sobre um lado do corpo, a cabeça apoiada sobre uma pedra chata, pouco acima do chão. Quando os xamãs se aproximaram, ele agitou um pouco as patas, o corpo esguio e dourado estremecendo como se estivesse em meio a um pesadelo. Eles aterrissaram sem ruído, a pouca distância, e esperaram que sua transformação se completasse, voltando a seus corpos de elfo antes de começar a discutir os próximos passos. 

*****

Ilustração: "Dreaming of the Before Times", de Azdra, encontrado em pesquisa na rede.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Orlando, o Falcoeiro

Pessoas Queridas,

Dou uma pausa nas postagens do Writertoberbr para lhes apresentar um novo personagem. Novo, exatamente, não, porque ele já apareceu em A Ilha dos Ossos, e foi citado numa conversa entre Anna, Kieran e Doron em A Fonte Âmbar: o jovem Orlando, filho do Thane Herrin de Leighdale e de sua esposa Alana, portanto membro da família governante da chamada Terra dos Falcões.


Em A Ilha dos Ossos, Orlando tem apenas oito anos de idade, mas já se percebe que possui o Dom da Magia, possivelmente relacionado às habilidades dos xamãs -- como Anna, ele tem um pinguinho de sangue das tribos das florestas, é muito ligado ao mundo onírico e tudo leva a crer que tem um forte elo com os falcões que sua família adora. Nessa ilustra do Alan Antunes, ele aparece com doze anos de idade, acompanhado por seu falcão preferido (que tem uma particularidade muito especial) e se preparando para viver uma nova aventura... que, se tudo correr bem, resultará num livro infantojuvenil, como Anna e a Trilha Secreta.

Os planos eram de já estar com a escrita a pleno vapor, mas estou muito enrolada com outras coisas. Isso, porém, não significa que não estou trabalhando, reunindo referências, alinhavando ideias, portanto vocês vão ouvir falar bastante do Orlando nos próximos meses.

Espero que gostem de me acompanhar em mais essa jornada!

sábado, 7 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr: Os Três Xamãs (4)

Pessoas Queridas,

Cá estamos com mais um trechinho da história dos Três Xamãs, espero que gostem!

Não sei se já comentei, mas planejo que esse conto seja o terceiro de um projeto semelhante ao Contos Fantásticos de Avós Extraordinários. Só que, nesse caso, o que os contos têm em comum é se passarem em sequência uns aos outros, numa mesma floresta -- os atos dos personagens de cada conto têm consequências para os contos seguintes. É quase um fix-up, vá.

O que acham da ideia?



– Homens costumam temer e odiar o que não conhecem, e a maior parte deles não conhece nada. Mesmo esse mago, que transformou o troll em pedra, pelo jeito é assim. Por que ele fez isso? Com que direito?
-- São perguntas demais, minha amiga. – Vivani partiu com cuidado um pedaço do favo de mel, ofereceu-a à xamã mais jovem. – Por ora, vamos resolver o que é urgente. E é claro que vou tomar cuidado com os caçadores. Se vir algum, ou se pressenti-los por perto, vou me esconder, não deixarei nem que desconfiem da nossa presença. Quanto a vocês, mesmo em suas formas de ave, procurem não chamar atenção. Não são tão atraentes aos olhos dos homens quanto uma raposa – acrescentou, em tom brincalhão --, mas, quando vêm para a floresta com arcos e cães...
-- Sabe-se lá o que estão pensando e onde podem chegar – completou Kemi.
Com essas recomendações, e após terem chamado os vizinhos para aproveitar as sobras da carne – um jovem casal de arminhos muito simpáticos --, os três se separaram. Kemi e Zendak murmuraram um rápido encanto para retomar suas formas aladas e, por algum tempo, ficaram pousados no galho alto de uma árvore, olhos brilhantes e observadores sobre Vivani enquanto ela se afastava pela trilha. Seus passos eram resolutos, mas não muito rápidos. Kemi entortou o pescoço e interpelou o amigo, mas o seu “hu?” dolorido não teve resposta a não ser um encolher de ombros. A nenhum deles cabia interferir na marcha das estações.

***

A imagem que ilustra este post é "Wise Fox", pintura sobre tela de Aimee Stewart. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr : Os Três Xamãs (3)

Oi, Pessoas Queridas,

Aqui vai nossa terceira postagem, com um trecho do que foi escrito esta manhã. Espero que o dia renda mais, quem sabe no universo de Balthazar e Lísias!



          – Acho que devemos encontrar o unicórnio, antes que os caçadores o façam, e devolvê-lo à família. Esse é o primeiro ponto. Se foi criado um elo com o menino, talvez possamos ajudar, talvez não, mas por enquanto o mais importante é mantê-lo a salvo.
          -- Digo o mesmo – falou Kemi. – Mas também precisamos agir em relação aos homens. Eles avançam sobre todas as florestas, em toda a ilha, isso é verdade, e não há muito que se possa fazer, mas... esta não é uma floresta qualquer. É um refúgio, um lugar que nos cabe defender. Depois de o pequeno estar a salvo...
         -- Sim – concordou Vivani, grave. – Depois que ele estiver com a família, poderemos pensar em interferir. Nós viemos aqui tantas vezes, devemos tanto a esta floresta e a seus habitantes... Chegou a hora de nos doarmos também.
         -- Em nome da beleza e da harmonia – disse Zendak.
         -- Em nome do equilíbrio – disse Kemi, e pegou as mãos de ambos, olhando para cada um antes de concluir:
          -- E, se isso exigir sacrifícios, então que seja assim.


*****

Uhhh... Parece que nossos Três Xamãs estão prestes a se meter em confusão por causa do unicórnio... E Kemi é a mais afoita!

Eu não tenho ilustração da xamã coruja das neves. Para este post, usei a bela imagem "Owl Mother", de Antler Thorn, que se baseia no xamanismo celta (já devem ter percebido que o de Athelgard é mais coisa de nativo americano). Já o Zendak ganhou uma ilustração da Carol Mancini, que pode ser conferida aqui.

Até a próxima!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr: Os Três Xamãs (2)

Oi, Pessoas,

Eis a nossa segunda postagem no desafio Writertoberbr. Aqui o conto se liga com outro chamado "O Potro Dourado", protagonizado pelo menino Zemel, aprendiz de saltimbanco que já fez muitas piruetas por estas páginas.




        Vivani respirou fundo e assentiu, com uma espécie de culpa. Não era guardiã da Floresta Mágica, menos ainda dos unicórnios, mas poderia ter feito algo para impedir aquilo. Se ao menos houvesse pensado nas consequências!
        -- Ele encontrou um menino que passava pela floresta. – A voz incerta, cheia de dúvida e arrependimento. – Não era um menino comum; eu também o vi e pude sentir. Estava zangado, confuso, machucado, e ainda assim caminhava em beleza. Eu o guiei até o rio, para que ele pudesse matar a sede, e depois disso fui em busca de alguém que pudesse socorrê-lo. Vi o pequeno unicórnio se aproximando do lugar, por uma trilha diferente, mas não pensei... nunca poderia imaginar que ele se acercasse do menino. Menos ainda que o menino, ao vê-lo, pudesse reconhecê-lo pelo que ele é.
      -- Talvez não tenha reconhecido – disse Zendak. – Talvez ele imagine que viu apenas um potrinho.
      -- Não, não. Ele viu o chifre. Ou, se não viu, ao menos o tocou. – A xamã-raposa mantinha os olhos baixos. – Drenou um pouco de energia... não toda, felizmente, pois tinha um ferimento na mão, mas muito leve. O unicórnio está bem. Acontece que, ao se deixar tocar, ele ligou seu espírito ao desse menino, e agora é atraído por ele e pelos seus sonhos. Ele não foi se reunir à família no coração da floresta. Em vez disso, trilha um outro caminho, o mesmo da criança humana, que viaja com parentes rumo ao leste. Eu não duvidaria que o pequeno unicórnio o esteja seguindo... que este elo seja mais forte e duradouro do que seria de se esperar.
    -- O que não é bom – disse Kemi.
    -- O que talvez não seja bom. Ainda não podemos afirmar – ponderou Zendak. – Vivani acaba de dizer que esse menino não era comum. Quem sabe ele nasceu com o Dom da Magia? Quem sabe não é um dos poucos humanos que têm acesso às trilhas secretas?

****

E aí? Mágico ou não?

Se vocês ficaram curiosos sobre o Zemel, podem ler um conto dele bem aqui, e ainda ver a bela ilustra do Vilson Gonçalves.

Se quiserem conhecer uma criança (quase) humana que de fato andou pelas trilhas dos xamãs, conheçam a Anna!

Por fim, se quiserem saber um pouco mais sobre os unicórnios (não que tenhamos seguido exatamente esses simbolismos em Athelgard, visitem a Estante Mágica.

Até a próxima!

(OBS: Imagem de unicórnio do Pinterest. Se alguém souber a autoria, avise que dou os créditos)

domingo, 24 de setembro de 2017

Os Três Xamãs : vamos jogar?

ATUALIZAÇÃO : JÁ TEMOS VENCEDORES.

Eu tive quatro respostas muito legais, mas duas delas foram realmente as mais criativas. Entre essas não tenho como desempatar, porque ficou claro que o Daniel Assunção já tinha lido o que eu planejava para o conto e se ateve a essas informações, criando uma linha sólida para prosseguir, enquanto a Aya Imaeda bagunçou meu universo levando pra lá nada menos que... um kiwi!
Assim, temos dois vencedores, Aya e Daniel. Ambos podem falar comigo inbox para deixar endereços e tudo mais. E muito, muito obrigada aos queridos que participaram e aos que divulgaram e curtiram o desafio.





Pessoas Queridas,

Nestes dias de correria, estou começando um novo conto de Athelgard. E aproveito para fazer uma brincadeira com vocês: que tal sugerir as próximas linhas dessa história? Podem escrever mesmo uma linha ou duas ou dizer como pode continuar, tipo uma sinopse. O mais criativo vai ganhar um exemplar de "Anna e a Trilha Secreta", com dedicatória e marcador. 
Vamos lá?

Os Três Xamãs

O corvo foi o primeiro a chegar. Vinha de uma longa jornada, e a última etapa fora cansativa, por isso ele ficou feliz ao avistar um bom pouso onde descansar as asas. O braço estendido da estátua, aquecido pelo sol que bateu na clareira, o acolheu como um ninho; ele se aconchegou contra o peito de pedra cinzenta e se preparou para o que podia ser uma longa espera.
Ou não.
A sombra da estátua não aumentara em mais que o comprimento de uma asa quando a coruja branca surgiu do bosque ao norte da clareira. Sem um ruído, descreveu uma curva ampla, sobrevoando a estátua, e pousou numa pedra lisa, perto do chão. O corvo esticou o pescoço e crocitou em boas-vindas, mas a coruja não teve tempo sequer de soltar um “hu” antes que surgisse o terceiro membro da companhia: 

(continue aqui, deixando sua sugestão nos comentários).

Resultado no dia 30 de setembro. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O Eterno Retorno (Parte 3)

O fio de lã torcida estava disfarçado por folhas tão vermelhas como ele, mas mesmo assim visível a olhos atentos. Estava amarrado a um galho baixo, como um lembrete – um jeito de marcar uma trilha, de não se perder, como todas as crianças da tribo eram ensinadas desde cedo. Só que nenhuma criança da tribo, ao que ela se lembrava, usava aquele fio vermelho para amarrar as tranças ou costurar as roupas, a não ser aquela que Kyara conhecia tão bem.
Anna...! O que ela podia estar fazendo ali?
Como um mapa que brotasse da terra, os caminhos da floresta se desenharam na mente de Kyara. A trilha onde as crianças faziam coleta ficava longe, não se ligando, de forma alguma, ao Passo das Lebres. Anna teria visto alguma coisa que a assustou, fazendo-a fugir? E, se tivesse sido isso, por que não correra para junto da tribo e sim na direção oposta? E os outros – Tyshen, Lila, o pequeno Torak, que andava atrás de Tyshen e ecoava tudo que ele dizia – estariam com ela?
Aflita até os ossos, mas tentando manter a calma da qual tudo dependia, Kyara procurou os rastros dos pequenos pés calçados em mocassins. Nada: a chuva os tinha lavado, como lavara as pegadas deixadas pelo homem a partir dali. Ela se ergueu de novo, torcendo as tranças encharcadas, e tentou pensar. Anna talvez houvesse corrido sem ver para onde, mas depois se detivera para amarrar o fio, e isso era bom sinal: o que quer que a tivesse assustado acabara se distanciando, ao menos por algum tempo. Os outros também deviam estar bem, mas o provável é que estivessem todos perdidos, ou no mínimo confusos quanto às direções. Não costumavam vir para aqueles lados da floresta. Kyara caminhou ao redor da vereda, tentando achar mais sinais, e, não os encontrando, decidiu-se pelo caminho mais visível, o que ela teria seguido se fosse uma criança andando na chuva. O que mais poderia fazer?
Ajude-me, Lobo. A elfa se dirigiu ao Espírito que protegia sua Casa. Que Anna e os outros estejam em segurança, e que eu possa encontrá-los, ou que eles encontrem o caminho de volta. Sua voz era apenas um murmúrio, quase sumindo nas palavras finais ao se lembrar de como, anos atrás, ela fizera uma prece muito semelhante. Pedira ao Guardião que a ajudasse a achar o cervo que vinha rastreando, apesar da nevasca que a alcançara no caminho, apesar do cansaço de dois dias sem dormir e de estar fora do território da tribo. Em vez do cervo, porém, tinha encontrado aquela cabana, e nela estava Raymond de Pwilrie com seus olhos negros e belas mãos fortes. E dessa noite em diante sua vida nunca mais fora a mesma.
Kyara sacudiu a cabeça, espadanando água para os lados. Tinha de se concentrar no que importava, em achar Anna e as outras crianças e deixá-las a salvo antes de voltar a rastrear o caçador humano. A trilha que seguia, porém, era uma entre várias possíveis, e nada, a não ser sua intuição, garantia que fosse a certa. Ela se deteve, pensando em Lontra, que teria simpatia por uma avó em busca da neta, em Corvo, que mostrava novos caminhos, mas, acima de tudo, pensando sempre e ainda com mais força em Lobo. Precisava dele, e as crianças também, para que lhes desse coragem. Como elas deviam estar, pequenas, ainda inexperientes, perdidas em meio àquela chuva e com um homem andando pela floresta?
E de repente, como se o Guardião lhe desse um sinal, o som de uivos ecoou no ar. Ecoou por toda a floresta, rolando sobre as copas das árvores, mostrando-lhe a direção da qual provinha: o sudoeste, onde ficava a antiga trilha dos cervos, que a tribo usava muito pouco, mesmo quando ela era jovem. O caminho que a levara àquele encontro e a tudo que se seguiu. Kyara franziu a testa, sem acreditar que Lobo estivesse pedindo aquilo, e esperou um pouco, só para ouvir o som se repetindo ainda mais claro. Então, balançando a cabeça, rosnou uma imprecação para si mesma e marchou rumo ao lugar que preferiria não ter que ver de novo.
A chuva apertou por uns momentos, depois diminuiu, passando a cair mansamente sobre as árvores e a trilha. Kyara andava rápido, sem procurar por rastros, apenas seguindo os uivos que se repetiam de tempos em tempos. Aos poucos, embora tanto tempo houvesse decorrido, foi reconhecendo os marcos do caminho, pedras cobertas de limo antigo, árvores anciãs, uma nascente oculta entre arbustos onde os cervos se detinham para beber. Alguns, às vezes, ficavam presos ali pelas galhadas; ela ficara um pouco frustrada, da outra vez que passara ali, por não encontrar nenhum, embora soubesse que seria improvável um caçador da tribo chegar antes dos lobos e raposas. Agora, também, não havia sinal de cervos perto da nascente, nem pegadas de bota ou de mocassim, mas... o que eram aqueles rastros pesados, aquelas folhas amassadas ao redor dos arbustos? O que passara por ali havia apenas uns momentos, pelo que dizia sua experiência?
Um javali. Ela respirou fundo: nem precisava examinar o rastro, o cheiro dizia tudo. Um javali passara pela trilha, e devia ser um dos grandes. Kyara pegou a faca na bolsa de caça e foi naquela direção, as orelhas empinadas, atentas a qualquer ruído que pudesse indicar a presença do animal. Então, os lobos tornaram a uivar, e o estalo de gravetos partidos a fez olhar por cima do ombro, e todos os seus sentidos se aguçaram ao distinguir a mancha azul se movendo em meio às árvores.
-- Ei, você! Tenha cuidado! – gritou, sabendo, de alguma forma, que encontrara o dono das armadilhas e que ele estava em perigo. O homem se voltou, parecendo desorientado, e deu uns passos incertos em direção à elfa, deixando-a vislumbrar cabelos e barba brancos e um rosto vincado por inúmeras rugas. Ela arregalou os olhos, espantada -- e, no momento seguinte, um javali saiu do bosque de carvalhos à direita e partiu com toda a fúria para cima do caçador.
Kyara apertou a faca na mão e se precipitou sobre o animal. Não refletiu, não ponderou, apenas agiu. O velho correu, mas, ao contrário da elfa, era lento demais: o javali estava prestes a alcançá-lo quando Kyara saltou sobre ele empunhando a faca de caça. Pego de surpresa, o animal caiu, mas na mesma hora girou para o lado, quase conseguindo prendê-la sob o seu peso. Ao mesmo tempo, soltou um ronco forte e tentou mordê-la, uma das presas chegando a arranhar sua orelha antes que ela o golpeasse com força. Mirava o coração, e se o atingisse teria liquidado de uma vez o animal, mas a lâmina de obsidiana resvalou, indo se cravar num ponto mais abaixo. Então, antes mesmo que Kyara pensasse no próximo movimento, o som de alguém correndo pela relva molhada cresceu em seus ouvidos, e o javali berrou e estremeceu com o baque de um corpo, ainda que pequeno, se abatendo contra suas costas.
-- Minha faca, avó! Pegue! – gritou Anna, estendendo-a para ela pela lâmina. Era uma temeridade, mas Kyara não tinha tempo para pensar: agarrando o punho da faca, ela golpeou o peito exposto do animal, o metal forjado pelos homens entrando com facilidade, uma, duas, três vezes, enquanto em seu espírito ela pedia ao javali que a perdoasse. Não queria ter feito aquilo, mas não pudera deixá-lo atacar, talvez ferir de morte aquele homem velho, que jamais teria conseguido apanhá-lo num laço e que ele não iria usar como alimento. Kyara, por sua vez, honraria a morte do animal, aproveitando cada parte dele que pudesse para o sustento da tribo e cantando para que seu espírito seguisse em uma nova jornada. Era o dever de todo caçador da Floresta dos Teixos.
Mas isso – diante das circunstâncias – teria que esperar.
-- Você está bem? – Sua voz ecoou a de Anna, dois pares de olhos oblíquos arregalados, um preso dentro do outro enquanto elas se levantavam, ilesas, com as tranças encharcadas e as roupas sujas de lama.
-- Estou bem – respondeu Kyara, enquanto a menina apenas fazia que sim. – E os outros? Tyshen, Lila, Torak... Onde eles estão?
-- Voltaram para casa, levando as bagas e cogumelos. – Baixou a cabeça, as faces vermelhas. – Você disse que, se eu achasse a cabana sozinha...
-- Então foi isso que aconteceu? – Kyara a encarou, sem fôlego. – Você não se assustou com alguma coisa, com o javali, com... com ele?
Indicou com o queixo o velho caçador, que se encostara ao tronco de um carvalho e tremia da cabeça aos pés. Anna negou com um gesto. Ao contrário do homem, não parecia ter medo, apenas curiosidade e... sim, e uma certa empatia. É o povo dela, afinal, pensou Kyara, dolorosamente. Não se podia esconder uma verdade que saltava aos olhos.
-- Tudo bem. – Respirou fundo, passando sobre o corpo do javali e se acercando daquele homem trêmulo. – Depois você me explica tudo direitinho. Agora, vamos saber o que...
-- Não, por favor. Moça... – ele balbuciou, engolindo em seco. Kyara levou um dedo aos lábios, fazendo-o calar. Depois, olhou-o nos olhos.
-- Não sou nenhuma moça – resmungou. – Provavelmente sou mais velha do que você, se quer saber. Pegue essa faca que estou vendo no seu cinto e nos ajude com esse javali. Vamos pegar o que der para carregar e sair da chuva. Se as coisas forem como penso, estamos muito perto de onde poderemos secar as roupas e esquentar os ossos.
*****
Pouco mais tarde, com a carne assando na grelha da lareira e a chuva gotejando pelo teto da cabana arruinada, avó e neta ouviram a história do velho homem. Não era um caçador, trabalhara a vida toda como carpinteiro; não armava laço algum desde os tempos de garoto, o que o tornava semelhante àqueles que Kyara e Raymond poupavam à justiça dos nobres. Ele tentara de novo agora, pensando em pegar algum animal pequeno e se fortalecer para seguir viagem. Pois nunca pretendera ficar, explicou, e não havia por que supor que estivesse mentindo. Jamais quisera entrar no território da tribo, apenas cortava caminho pela floresta, querendo chegar logo em Lardale, onde tinha parentes. Uma viagem mais curta, que saíra de mais perto e terminaria antes – mas, nessa etapa, em tudo semelhante à que trouxera Raymond até a cabana.
A história provocou recordações tão doces quanto dolorosas, mas Kyara conseguiu deixá-las de lado por algum tempo. O velho enchera a barriga de carne e se deitara, coberto pela manta de pele que encontraram num canto, e a menina se aconchegara nos braços da avó, o fogo acabando de secar as roupas no corpo enquanto conversavam em voz baixa. Anna contou que não resistira à vontade de ver a cabana, que fazia uma boa ideia de onde era a trilha e se lembrara de marcar seu caminho para a volta. Num dado ponto do percurso, ouvira lobos, que a alertaram sobre a presença do caçador humano; ela subira numa árvore para não ser avistada e acompanhara lá de cima seus últimos movimentos, até que, para sua surpresa e aflição, visse surgirem quase ao mesmo tempo sua avó e o javali enfurecido.
-- Aí eu acho que esqueci o que você ensinou. Esqueci toda a prudência – admitiu, encolhendo os ombros. – Só queria que você não ficasse machucada. Mas você também nem pensou nisso, quando partiu para cima do javali, não é?
-- É. Não foi prudente, mesmo. E eu teria me machucado, acho, se não fosse sua ajuda. – Sorriu, apertando a menina contra si. – Você não devia ter feito o que fez. Nada do que fez, aliás, desde que se separou dos outros, e ainda vamos conversar melhor sobre isso. Mas se saiu muito melhor do que eu esperava.
-- Obrigada. Mas, avó – Anna parecia um pouco inquieta --, é assim que os homens ficam quando são velhos? O livro de Maryan mostra alguns de cabelo branco, e ela disse que era quando envelheciam, mas não me falou que ficavam desse jeito, fracos, com as pernas tremendo...
-- Ah, mas nem todos ficam. Seu avô, por exemplo. – Kyara se lembrou de uma onda de cabelo prateado, de um sorriso realçado pelos vincos de um rosto másculo e moreno, e se encheu de convicção. – Ele já era velho quando morreu, não tanto quanto esse aí, mas ainda era forte e ágil. Tanto que o levaram para ajudar a defender o castelo, ele morreu no alto da muralha, de arma na mão. E, além de forte, era bonito – segredou, movendo as sobrancelhas para que a neta risse. – Foi bonito até o fim, e eu o amei do mesmo jeito até o fim.
-- Eu sei, mas, avó... Eu também tenho sangue humano. Sou quase humana. – Levou as mãos às próprias faces, os olhos cheios de uma súbita angústia. – Será que eu vou ficar desse jeito? Eu posso ser como meu avô, mas também pode ser que...
-- Não! Escute bem, minha Anna. – Kyara pegou as mãos dela e as abaixou, olhando-a com um amor tão intenso que quase machucava. – É verdade, você é quase humana, mas isso não muda o que eu sempre lhe disse. Você é filha da nossa tribo, leal, inteligente, corajosa. Logo vai crescer e se tornar uma mulher forte e sábia. Não se preocupe com o futuro muito distante, se um dia vai ficar velha, se sua pele vai enrugar ou o cabelo ficar branco. Isso é apenas o lado de fora! Honre os Guardiões, cumpra seus deveres e, sempre que puder, alegre seu espírito e o faça dançar. E, lembre-se, haja o que houver, você é e sempre será uma de nós. Promete não esquecer?
Anna a encarou, o rosto muito sério, e fez que sim com a cabeça. Kyara tornou a abraçá-la, depois a soltou, pretextando ter que virar as tiras de carne sobre a grelha. Havia muito mais que poderia dizer, mas ela preferiu não se antecipar às perguntas, porque sabia que o tempo e a vida trariam as respostas necessárias. Por ora, bastava ficar ali, acalentando as memórias de Raymond, enquanto Anna, depois de alguns momentos a olhar fixamente para o fogo, respirava fundo, abria a bolsa de caça e confiava pensamentos, dúvidas e sonhos ao seu caderno.
Ali, naquela cabana onde se uniam as trilhas do passado e do futuro.
Ali, onde as sombras sussurravam que uma nova jornada em breve iria começar.

*****
E o conto chega ao fim! Espero que tenham gostado e deixem seu feedback,  ele é muito importante!!


Parte 1.
Parte 2.

Para quem gostou da Anna criança, sugiro o livro Anna e a Trilha Secreta, onde ela encontra os Espíritos Guardiões da Tribo.

Aqui no blog do Castelo você pode ler um conto em que a Anna é ainda mais novinha, centrado em Maryan e Zendak, clicando aqui.

Para um conto da Anna aos 14 anos aprendendo a caçar, cliquem  aqui.

E continuem com a gente. Em breve teremos outro conto, desta vez de uma dupla de avô e neto muito talentosos!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Eterno Retorno (parte 2)

– Eu vou montando a história aos poucos, e ela vai ficando mais completa a cada vez que você conta. É que tem coisas que eu demoro para imaginar, como os homens, por exemplo. Eu nunca vi nenhum a não ser nos livros de Maryan.
-- Pois é mais do que suficiente – replicou a avó, em tom brusco. – Os homens... Bem, olhados um a um, nem sempre são maus. Seu avô era muito bom, e havia outros assim, não vou negar. Mas, quando você vive nas aldeias deles, começa a ver como podem fazer coisas ruins. Principalmente as guerras. E mesmo sem elas há muita ganância, injustiça, maldade... Não, você não perde nada se não conhecer os homens, ou se deixar para conhecê-los quando for mais velha.
-- Sim, mas, avó, se ao menos a gente fosse até a cabana...
-- Você não ouviu o que eu disse? É longe demais, e pode ser que homens estranhos ainda passem por lá. Um dia você vai, mas não agora.
-- Um dia? Quando?
-- Quando... Quando não depender de mim e puder ir sozinha – disse Kyara, querendo encerrar a discussão.
Anna pareceu refletir um pouco, depois assentiu e pescou uma coxa rosada de dentro do pote. Kyara fez o mesmo com um naco do peito da ave. As duas comeram em silêncio, tirando cada pedacinho de carne dos ossos e usando colheres de madeira para pegar os legumes no caldo. Estavam terminando quando Tyshen, o primo mais próximo de Anna em idade, chegou acompanhado por várias crianças pertencentes à Casa do Lobo.
-- Ainda estão comendo? Aposto que foi a Anna que se atrasou fazendo o almoço – implicou ele, como era seu costume.
-- Você é que é apressado! – retrucou a menina. – Apressado e guloso. Quando formos colher bagas, não vou deixar você ir na frente. Se você for, tudo que acharmos nos arbustos vai parar na sua barriga!
Kyara sorriu, vendo-os trocar as farpas de sempre enquanto Anna acabava de comer. As outras crianças entraram na cabana, sem cerimônia – coisa que não existia na tribo --, e se distraíram bisbilhotando tudo lá dentro. Por fim, o grupo se reuniu e se preparou para a excursão de coleta, para a qual levavam cestos de junco e bolsas de palha a tiracolo.
-- Até mais, Kyara! – exclamaram as crianças.
-- Até mais tarde, avó – disse Anna, jogando um beijo que ela retribuiu com um aceno e um breve sorriso. Estava ocupada livrando-se dos restos do almoço, das cinzas da fogueira, dos pensamentos sobre o passado e sobre Raymond de Pwilrie. Artista ambulante, soldado involuntário, guarda-caça que assoviava chamando os pássaros e enchia os bolsos de nozes para dar aos esquilos. Ele teria gostado de conhecer aquela neta inteligente e curiosa, sonhadora e às vezes desconcertante, como ele próprio tinha sido a vida inteira. Talvez se saísse até melhor do que Kyara para lidar com ela.
A elfa deixou escapar um suspiro e entrou para guardar o pote e as colheres lavadas. A cabana estava limpa, embora um pouco desarrumada após a visita das crianças. Era pequena e aconchegante, alegrada pelos desenhos que Anna prendera às paredes. Uma paisagem com o rio da Lontra, um pássaro pernalta, os rostos de Kyara, Maryan e Zendak. O último desenho representava os Espíritos Guardiões da tribo, Lobo, Lontra e Corvo, os três muito sérios e majestosos, circulados por auras de tinta verde. Kyara correu os dedos sobre o papel, sentindo orgulho e uma certa nostalgia: às vezes ela se esquecia de notar, mas Anna estava crescendo rápido. Em poucos anos teria o sonho ou a intuição que lhe diria qual a sua Casa, aquela à qual seu espírito estava ligado. Por enquanto contava como protegida do Lobo, já que essa era a Casa da avó. Zendak supunha que isso seria confirmado, mas não dera certeza: a menina era alegre e amorosa como as lontras, esperta e criativa como os corvos, ambos os Guardiões poderiam reclamá-la. Mas Kyara estava convencida de que, no fim, sua neta provaria ser antes de tudo corajosa e leal.
O céu estava encoberto quando ela saiu da cabana. Não tinha nada que a ocupasse, nem peles para tratar, nem carne para pôr no defumadouro. No entanto, ficar ali sozinha não lhe traria nada além de lembranças, por isso a elfa decidiu seguir a sugestão de Anna e ver se alguma coisa caíra naqueles laços malfeitos. E, quando souber quem os armou, vou tentar ajudar, ela pensou, enquanto regressava à floresta. Devia ser alguém bem jovem, talvez uma criança querendo impressionar os pais ou o parente que a ensinava a caçar. E um conselho vindo de alguém como Kyara seria mais que bem-vindo.
Sem pressa, ela deu uma volta por trás da colina próxima à cabana, onde costumava deixar suas próprias armadilhas nas luas de inverno, e chegou a uma trilha íngreme, por onde se cortava caminho até o lugar que chamavam de Carvalho Fendido. Nele se erguia uma árvore milenar, cujo tronco fora dividido ao meio por um raio; as duas metades haviam crescido e estendido seus galhos para o leste e para o sul, e esse era o início de duas trilhas quase invisíveis. Uma ia dar ao local dos laços desajeitados, enquanto a outra desembocava no lugar onde Kyara tinha estado uma única vez.
E, no que dependesse dela, não voltaria jamais.
Passos rápidos, a elfa seguiu a trilha que ia para o leste. De longe, viu um dos laços, agora desarmado, mas o animal que fizera aquilo escapara quebrando os galhos de um arbusto próximo. Na verdade, nem chegara a ficar preso, como Kyara constatou ao chegar mais perto. Apenas passara por cima da armadilha e a desmontara. Tinha peso e força bastante, pois suas pegadas denunciavam um cervo de bom tamanho. O caçador ia ficar frustrado quando desse com aquilo.
A segunda armadilha estava intocada, mal disfarçada num monte de folhas e fácil de desarmar. Era coisa de criança, não havia dúvida. Restava saber qual delas se aventurara tão longe. Kyara considerou as mais ousadas e inconsequentes dentre as que conhecia, pensando ainda em ajudar, mas também recomendar que tivessem cautela. Tinha alguns nomes em mente ao chegar à terceira armadilha, também intacta, que apenas olhou antes de seguir em frente – e de se deparar com algo que fez seu coração dar um salto.
Uma pegada. Não a de um animal, não a de um elfo de sua tribo, que estaria usando um mocassim, mas a inequívoca pegada de um humano, um enorme pé largo calçado numa bota com a beira interior roída. Não havia engano possível, pois ela vira aquilo muitas vezes, rastreando caçadores furtivos na floresta junto à qual vivera com Raymond – fazendo o trabalho dele, o que todos pensavam que ele fazia, quando Raymond estava mais que contente por ficar na choupana cozinhando, remendando as roupas da família, ninando a filha com canções do Leste ou, quando ela cresceu um pouco, contando histórias sobre reis saltimbancos, feiticeiras bondosas e navios mágicos que viajavam entre as estrelas. Era com relutância que denunciava as transgressões descobertas por Kyara – aqueles homens e rapazes temerários que caçavam nas terras do senhor, às vezes por simples ousadia, mas com frequência porque tinham fome e muitas bocas para sustentar. Teria sido um deles, agora, que entrara no território da tribo?
Não é uma criança. Kyara e Raymond jamais denunciavam os meninos da aldeia que pegavam pássaros e lebres, pois sabiam que um castigo duro demais os esperava. Tinham livrado alguns homens também -- os muito jovens, os muito desesperados, os que não tinham chegado a apanhar nenhum animal --, mas não os deixavam ir embora sem ao menos uma advertência. Da mesma forma, Kyara, como anciã da Casa do Lobo, tinha por dever encontrar o dono da pegada e fazer com que partisse, mesmo que não pegasse nada com aquelas armadilhas toscas. Antes que ele avançasse mais e mais pela floresta e achasse as cabanas da tribo. Antes que desistisse de conseguir caça e fosse à cata de frutas. Antes que desse com as crianças que estavam na trilha... e, acima de tudo, antes que chegasse perto de sua Anna.
Um pingo grosso caiu em seu nariz. Ela olhou para o céu, onde as nuvens escuras se adensavam, e considerou suas opções. A neta, é claro, estava acima de tudo, mas as crianças não costumavam demorar na coleta, e a pegada apontava para outra direção, de forma a tranquilizá-la nesse sentido. Voltar à cabana para se munir de um arco e algumas flechas seria prudente, ou talvez procurar Zendak e os líderes das três Casas, mas o rastro estava fresco e fácil de seguir. Antes que a chuva caísse, e cairia com força, melhor seria tentar descobrir quem era o homem, se estava sozinho, se montara acampamento por ali ou estava de passagem. Assim teria mais informações para levar à tribo, se necessário. Sim, era isso que ela ia fazer.
Kyara se abaixou, examinando o solo além da pegada. A lama em que fora impressa deixara marcas mais adiante, depois era só relva pisada e folhas amassadas, mas mesmo assim aquilo não demandava grande esforço. Passo a passo, enquanto o céu escurecia ecoando trovões, ela seguiu a trilha deixada pelo homem, tão descuidado em apagar seu rastro quanto se mostrara inábil com as armadilhas.
O céu desabou quando a elfa alcançou a vereda conhecida como Passo das Lebres, que eram comuns por ali, especialmente na primavera. Hoje não havia nenhuma, e, se tivessem passado mais cedo, os rastros já teriam sido lavados pela chuva que caía como uma cascata. Os do homem também logo sumiriam. Kyara examinou os últimos vestígios, que ao menos conduziam para longe das cabanas da tribo, e se aprumou, quase decidida a dar meia-volta.
Foi quando seu coração disparou pela segunda vez.

***


Parte 1.
Parte 3.

Para quem gostou da Anna criança, sugiro o livro Anna e a Trilha Secreta, onde ela encontra os Espíritos Guardiões da Tribo.

Aqui no blog do Castelo há contos sobre Kyara e Raymond. O primeiro pode ser até ouvido, narrado por mim. Que tal? :)

sábado, 8 de julho de 2017

O Eterno Retorno (parte 1)


Pessoas Queridas,

No meu outro blog, A Estante Mágica de Ana, está rolando um projeto que intitulei "Contos Fantásticos de Avós Extraordinários", com contos de fantasia (e um de FC) sobre avós e netos.

Aqui, no blog do Castelo, vou postar os dois que são ambientados em Athelgard, começando com este em que aparecem a Anna e a Kyara. Espero que vocês gostem! 

A ilustração deste conto ficou a cargo de uma das mais antigas e constantes leitoras de Athelgard, a querida Isabela Lopes. 



As pegadas eram claras, impressas em lama seca na extremidade da clareira. Apontavam para o bosque de faias mais adiante, mas Kyara não disse nada, à espera de que a menina lesse os sinais e conseguisse interpretá-los. Para um bom caçador, isso era tudo. Mesmo os que viviam com a cabeça nas nuvens.
Anna estava de joelhos examinando as pegadas, a trança negra enrolada no pescoço, a luz concentrada nos olhos. Sua boca estava contraída, uma boca rosada e bem desenhada, como a da primeira Anna, aquela que nunca aprendera a se orientar na floresta. Não vou deixar acontecer de novo, Kyara pensou. Custasse o que custasse, ela ensinaria a sua neta o que era preciso saber.
-- Então, minha Anna – disse, por fim. – Já descobriu o que tem aí?
-- Descobri que é um cervo. Não é muito grande. – Certo até ali. – Não é mais filhote, porque anda sozinho, mas a pegada é rasa, então ele é bem novo. E passou há pouco tempo, o rastro é fresco. Hoje ao amanhecer?
Olhou para a avó, querendo confirmação ou ao menos uma pista. Kyara cruzou os braços. A menina suspirou e voltou a analisar as pegadas, acompanhando o rastro do cervo ao longo da clareira.
-- Bom, parece que ele foi para o bosque, pode ter ido beber naquela nascente do rio da Lontra. Se não ao amanhecer, um pouco antes. A lama estava mole quando ele pisou...
-- Mole? – observou a avó. – Ou só macia? A pegada é nítida. Será que choveu depois que o cervo passou?
-- Não. – Anna pensou um pouco, depois concordou. – Não chove desde a madrugada, então deve sido mais tarde. Isso quer dizer... Avó! – Arregalou os olhos oblíquos, semelhantes aos dos demais membros da tribo. – Ele passou agora há pouco? Está assim tão pertinho? A gente pode ir atrás dele?
-- Para quê? O que você descobriu logo no começo?
-- Que ele é muito novo. Claro, eu sei que não caçamos animais jovens, mas não seria para pegá-lo. Seria só para seguir a trilha e ver se eu consigo achá-lo.
-- Ah, você gostaria? Fico feliz. – A elfa sorriu. – Mas hoje não temos tempo. Tyshen e os outros vão passar logo depois do almoço, lembra? Vocês vão à cata de bagas e cogumelos.
-- Posso ir amanhã – propôs Anna.
-- Nada disso. Você combinou com eles, e além do mais é sua contribuição para a tribo. Todas as crianças da sua idade estão colhendo bagas para secar e comer no inverno.
-- Eu sei. Tudo bem, vamos voltar. – A menina encolheu os ombros. – Mas, num outro dia, queria ir com você além do bosque de faias e ver a trilha onde você encontrou meu avô. Porque você sempre fala, mas eu não sei direito como chegar lá.
-- Isso seria uma jornada mais longa – disse Kyara.
As palavras pesavam ao lhe sair da boca. Anna não disse nada. Em vez disso, pegou a mão da avó, como se tivesse menos que seus nove anos, e começaram a caminhada de regresso a sua cabana.
-- Esta não é a nossa trilha – afirmou a menina, pouco depois.
-- Eu sei. Peguei um atalho, só para ver se você percebia – sorriu Kyara. Na verdade, não tinha pensado muito antes de enveredar por aquele caminho secundário, que raramente percorrera nas últimas luas. Supunha que o mesmo se desse com os outros membros da tribo, por isso se surpreendeu ao dar com uma linha de armadilhas montadas por alguém no mínimo inexperiente.
-- Olhe para aquilo – Kyara apontou para uma delas, que não poderia estar mais evidente, a não ser que fosse enfeitada com flores roxas. – Não sei quem fez, mas ele ou ela precisa de orientação. Até uma toupeira saberia desviar daquela coisa.
-- Ah, avó. Você sabia que as toupeiras têm aldeias embaixo da terra? Foi Zendak que me disse. – Zendak era o xamã da tribo, que não devia ser contestado, por isso Kyara fez que sim. – Ele disse que são túneis muito longos que se encontram uns com os outros, e elas têm uns cômodos largos onde ficam várias, e se visitam, como se fossem casas. E aí Maryan perguntou como eu achava que seria uma cidade de toupeiras, mas uma cidade de verdade, como as do lugar de onde ela veio. Pensei em toupeiras grandonas que seriam os Conselheiros, uma toupeira-ferreiro de avental, fazendas de toupeiras que plantam cenouras e nabos...
-- Ah, está bem, Anna. Já chega. – Kyara franziu as sobrancelhas, irritada. – Que você goste de Maryan, muito bem, também gosto dela; que aprenda a ler e outras coisas que ela sabe, está certo, pode ser útil um dia. Mas toupeiras plantando nabos! Você não tem mais nada em que pensar?
-- São só histórias -- Anna se defendeu. – A tribo tem suas histórias, o povo de Maryan também, os homens também. Essa é só mais uma, que inventamos para nos divertir. Por que você não gosta?
-- Não é isso. É que você, às vezes, se entusiasma demais imaginando coisas e se esquece do que tem para fazer. Ontem quase deixou queimar a comida porque ficou escrevendo naquele caderno. Aposto que ele está aí na sua bolsa. Não está?
O alto das orelhas de Anna – orelhas humanas, arredondadas – ficou vermelho enquanto ela se debatia entre dizer a verdade ou escondê-la. Por fim, resmungou alguma coisa sobre ter se esquecido de tirar o caderno da bolsa – como se a bolsa de caça onde levava seus talismãs e a faca de metal herdada do avô devesse conter aquele monte de folhas de papel, costuradas numa capa de couro, em que ela rabiscava sempre que tinha um momento livre. Às vezes fazia desenhos, como as outras crianças da tribo, mas geralmente escrevia, como aprendera com Maryan, uma das elfas de cabelos brilhantes que viviam na aldeia junto à Floresta dos Teixos. Tinham chegado pouco antes de Kyara regressar de sua própria aventura no Mundo Lá Fora -- uma aventura que durara quase trinta anos e da qual, além de lembranças, restara apenas a neta ainda bebê.
Anna era um fruto da violência, mas também era a filha de sua filha, um tesouro único e precioso, pelo qual valia a pena lutar. Foi por isso que Kyara voltou para junto da tribo: não só estaria longe dos homens, de sua injustiça e guerras sem sentido, mas tornaria a viver com sua gente, tirando seu sustento da floresta e protegida pelos Espíritos Guardiões. E estava dando tudo certo, inclusive em relação a Anna – mas, ainda assim, aquele entusiasmo da neta pelo Mundo Lá Fora a vinha preocupando. Seus devaneios também, pois só seriam admissíveis num futuro xamã, e a menina não iria trilhar esse caminho. Zendak fora claro quanto a isso, embora, para variar, tudo o mais que tinha dito fosse confuso e quase enigmático.
-- Há vários mundos em que ela pode viver – dissera ele. – Mas, para ser feliz em qualquer um deles, vai ter que encontrar as trilhas secretas. Para gente como Anna, os caminhos mais comuns são os mais difíceis de seguir.
Kyara se lembrava daquela conversa enquanto as duas se aproximavam da cabana. Era a mesma onde ela vivera quando criança, formada em parte pelo tronco oco de uma árvore, esculpido e alargado pelas artes de um antigo xamã, e em parte por toras de madeira encaixadas, as frestas muito bem vedadas com resina. Alguns membros da tribo preferiam construir suas cabanas sobre os galhos, principalmente os da Casa do Corvo, mas Kyara dos Lobos sempre gostara do chão bem sólido embaixo de seus pés. Também lhe agradava estar perto de uma cascata, cujo ruído se ouvia da cabana. Era um bom lugar, o da sua infância. Bem diferente da choupana escura, com o teto de colmo e a lareira enfumaçada, onde vivera com Raymond e a primeira Anna.
Aquela que não lhe enchia os ouvidos de perguntas.
-- Avó, e você, o que vai fazer enquanto formos colher bagas? – A menina mastigava uma tira de carne seca, antecipando-se ao almoço de pato cozido com legumes. – Já temos flechas que cheguem, não há peles para tratar... Não quer ir com a gente?
-- Eu? O que eu iria fazer na floresta com um bando de crianças barulhentas? – resmungou Kyara, no fundo satisfeita com o convite. – Vão vocês, eu fico por aqui. Talvez faça umas visitas ou dê uma volta por perto.
-- Pode ir de novo à clareira, ver se os laços pegaram algum animal – Anna sugeriu. – Ou se o cervo passou por lá voltando da nascente. Foi seguindo o rastro de um cervo que você encontrou meu avô, não foi? E uma cabana, onde ele entrou para se abrigar da neve?
-- Foi. Já não contei essa história?
-- E será que a cabana ainda está lá? Os restos dela, pelo menos – insistiu a menina. – Talvez a lareira onde Raymond estava assando peixe. Você ficou assustada quando topou com ele?
-- Claro que não. Eu tinha meu arco, e ele estava indefeso, tinha tirado até a roupa para secar no fogo. Fiquei foi curiosa. Eu sabia a respeito dos homens, mas nunca tinha visto um.
-- E você achou meu avô bonito – Anna sorriu de um jeito maroto. – Ficou tão apaixonada que foi embora com ele.
-- Não fui embora nesse dia. Fiquei com ele um quarto de lua, tentando ensiná-lo a rastrear e caçar, porque ele ia trabalhar para um homem rico e o trabalho seria esse.
-- E ele aprendeu?
-- No início, não. Só depois que fomos viver lá. Quantas vezes você vai querer ouvir a mesma coisa?
-- É que eu escuto diferente a cada vez – disse a menina.
Kyara franziu o cenho, sem entender. Então, Anna tomou fôlego, assumindo um ar quase solene ao tentar explicar.

(continua...) 

Parte 2.

Para quem gostou da Anna criança, sugiro o livro Anna e a Trilha Secreta, onde ela encontra os Espíritos Guardiões da Tribo.

Aqui no blog do Castelo vocês encontram informações e um belo desenho dos avós Kyara e Raymond.

Saibam mais sobre o projeto Contos Fantásticos de Avós Extraordinários.