segunda-feira, 19 de março de 2012

Em Nome de Thonarr (Parte 4)

- Mas, mãe, por que não posso ir ao Castelo das Águias? Só para conhecer! Eu sempre quis ver como é lá dentro!

O tom agudo na voz de Padraig traía sua frustração. Moira não se voltou para responder. Perto do meio-dia, havia muito que fazer na cozinha da “Espada e o Lírio”, e ela já perdera tempo demais. Não tinha cabimento explicar as mesmas coisas pela segunda vez.

- Você ouviu o que eu disse à tal Mestre Sophia – foi sua única concessão à insistência do filho. – Não tenho nada contra eles em princípio. Mas o Castelo não é lugar para um menino como você. E o assunto está encerrado – acrescentou, como se adivinhasse que haveria uma réplica.
Padraig apertou os lábios para não retrucar. Em geral não tinha problemas para aceitar a autoridade de Moira – ela era experiente, sabia o que dizia, e além do mais era sua mãe – mas ele ouvira os argumentos dos magos do Castelo, e, cada um ao seu modo, todos pareciam convincentes. Não que acreditasse que possuía um grande Dom, como insistira o Mestre Kieran, mas, por outro lado, não lhe faria mal conhecer a Escola. Muitos garotos de sua idade viviam lá, inclusive humanos de sangue puro, confiados aos mestres por suas famílias. Alguns até apareciam no Templo com certa frequência, provando que o convívio com os magos não os afastara de Deus e dos Heróis. Por que, então, a mãe lhe proibira até uma visita? Essa era a coisa mais injusta que ela já fizera com ele.

- Já que está aí com essa carranca, faça algo de útil – Moira tampou a panela que estivera mexendo e, finalmente, olhou para o filho. – Leve as geleias para o Templo. Irmão Brenn voltou a me lembrar disso no Dia de Descanso, por isso não quero esperar pelo próximo.

Dizendo isso, ela apontou para um canto da cozinha, onde havia uma cesta cheia de potes lacrados com cera. Cada um continha uma boa quantidade das famosas geleias de Moira, de cereja-brava, amora e marmelos dos pomares de Vrindavahn, e até algumas exóticas, feitas com figos e damascos vendidos por mercadores do Leste. As frutas eram caras e dava trabalho fazer as geleias, mas Moira conseguia um bom lucro vendendo-as para os fregueses da estalagem. Só os Prestes ganhavam alguns potes de graça.

Padraig ergueu a cesta para o ombro e se endireitou com um resmungo. Não porque estivesse pesado: ele ainda estava aborrecido com a mãe. No entanto, uma parte da irritação se dissipou ao sair e dar com a rua cheia de sol, pessoas parecendo satisfeitas e a visão do templo, a apenas alguns passos de sua casa, pronto a acolhê-lo, como sempre fizera, quando se sentia triste ou em dúvida. Seria esse o caso de hoje? Com doze anos, e sendo um devoto de Thonarr, Padraig não demorou a decidir que sim.

E, assim que decidiu, soube quem poderia ajudá-lo.

A entrada do templo era franqueada a todos os devotos, assim como a nave principal e os altares nas laterais. Uma pequena porta dava acesso aos aposentos internos, e esta era guardada por um funcionário, a quem se devia informar a finalidade da visita. Padraig, no entanto, era uma das pessoas mais assíduas por ali, e as geleias podiam ser farejadas de longe, por isso o guardião apenas sorriu e lhe indicou o corredor que levava à residência dos Prestes.

- Guarde um pouco da de figo para mim, hem? – recomendou, com uma piscadela. Padraig prometeu que guardaria e seguiu caminho. Teria ido direto à despensa se algo não lhe houvesse chamado a atenção: passando junto a uma fileira de pilares, viu que estavam cercados por andaimes, e que uma feia rachadura aparecera na base do andar superior. Espero que não caia, pensou o menino, e por via das dúvidas passou ao largo.

As geleias foram recebidas com entusiasmo pelo despenseiro, Irmão Brenn, que Padraig encontrou conferindo uma lista de suprimentos na cozinha. Era um homem de meia-idade, muito magro – coisa rara de se ver, num cargo como o seu – e bastante simpático, o que deixou Padraig à vontade para perguntar pelo Superior da congregação.

- Preste Drusius? Voltou agora mesmo do Conselho e foi para a cela. Espere um pouco que ele deve passar por aqui. Provavelmente não comeu, e já limparam o refeitório... Ah, ah, olhe! Isso é que é um garoto de sorte! – concluiu, apontando para a porta, por onde o Preste Drusius acabava de entrar.

De estatura média e mais para magro, com a longa barba começando a encanecer, o Preste não era um homem imponente à primeira vista. Era, no entanto, um dos mais importantes de Vrindavahn: superior do Templo de Bragi, o maior da cidade, e líder do Conselho eleito pelos habitantes. Isso ocupava muito do seu tempo, mas mesmo assim ele era acessível, dispondo-se a ouvir – desde que as resumissem – as dúvidas e queixas dos fiéis e lhes dar conselhos. Gostava especialmente dos jovens, muitos dos quais tinham feito os primeiros estudos na pequena escola mantida pelo Templo. Padraig fora um deles até o ano anterior, e, desde aquela época, se habituara a recorrer ao Preste Drusius quando precisava de respostas.

Isso, é claro, nas raras vezes em que as preces a Thonarr não eram o bastante.

- Você parece inquieto, Padraig – notou o Preste, após terem tocado cumprimentos. – Aconteceu alguma coisa?

- Mais ou menos. Eu tenho... umas perguntas que queria fazer ao senhor. Posso?

- Claro que sim, filho. Sente-se aqui – disse o Preste, acomodando-se num banco de madeira diante da mesa. O espaço à sua frente fora desocupado por um dos ajudantes de cozinha, que acabara de voltar trazendo pão, queijo e uma travessa fumegante de guisado. Padraig se sentou ao lado do Preste, mas recusou o convite para comer, embora ainda faltasse mais de uma hora para o almoço na estalagem. Mesmo ressentido com ela, mil vezes a comida de sua mãe à do Irmão cozinheiro.

- Então o que houve? – perguntou, solícito, o Preste Drusius. – Não venha me dizer que, com essa idade, já está apaixonado... Não é isso, é?

- Não, Preste. – O sangue tingiu de leve as faces do menino. – É minha mãe. Quer dizer, é uma coisa que eu queria fazer, mas ela não permite e não entendo a razão, por isso... queria saber, o senhor acha que seria errado eu visitar o Castelo das Águias?

- Errado, visitar o Castelo? Mas por quê? – O Preste franziu a testa, exatamente como Padraig esperava que fizesse. – Eles têm uma Escola de Magia, os ensinamentos nem sempre se coadunam com a doutrina do Templo, mas todos que conheço de lá são boas pessoas. E o Castelo em si é belíssimo. Especialmente a parte antiga. É um pedaço da história de Vrindavahn desde a fundação.

- Então, se alguém me convidasse, o senhor acha que eu poderia ir, não é? – Padraig voltou ao assunto. – Que não haveria problema numa visita?

- Hum... não, sinceramente não vejo problema – disse o Preste, cofiando a barba. – Mas quem o convidou? Fez amizade com algum aprendiz?

- Não. Foram os mestres – respondeu o garoto.

Os olhos do Preste se estreitaram com incredulidade. Padraig, então, se pôs a contar a história desde o início, incluindo o episódio com o cão – que atraíra a atenção de Kieran – e terminando com a visita de Finn e Sophia, que, percebendo a relutância de sua mãe, tinham passado a insistir para que o menino apenas visitasse o Castelo das Águias. Fora uma boa mudança de tática, e além disso eles tinham sido gentis e respeitosos, mas em vão: Moira não cedera nem uma polegada.

- E, como o senhor disse que não tinha problema em ir lá, eu acho que ela está errada dessa vez – concluiu Padraig. – Acho que devia deixar eu fazer uma visita. Ainda mais porque eu sempre quis saber como é o Castelo por dentro.

- Ah, sim... Vale a pena. – O Preste parecia refletir. – Bem, meu filho, acho que entendo o que se passa com sua mãe. Ela tem receio, sabe? Receio do que os magos possam fazer ou dizer a você. E não deve culpá-la por isso: houve muitas situações em que a Magia foi usada para o Mal. Mas nestes anos em que estou no Conselho vim a conhecer muito bem o Mentor da Escola de Artes Mágicas, e sei que ele não agasalharia nenhuma serpente no peito, por isso... acho que sei o que fazer. – Ergueu a cabeça, olhando com ar satisfeito para o menino. – Eu tenho de ir ao Castelo, dentro de um ou dois dias, para tratar dos impostos devidos aos herdeiros do Senhor Theoddor. Acho que sua mãe não se oporá se pedir para você vir comigo.

- Sério? O senhor vai fazer isso mesmo? - Um calor, como a explosão de um sol, encheu o peito de Padraig. - Vai me levar ao Castelo das Águias e... deixar eu falar com os mestres?

- Vou, sim. Não estou dizendo? Mas, olhe, não crie tantas expectativas – sorriu o Preste, com benevolência. – Pelo que sei de você, creio que Moira tem razão, e não o Mestre Kieran. A Escola dos magos não é o seu lugar. No Templo, como um sacerdote, ou fora dele, como um trabalhador e futuro pai de família... você nasceu para servir a Deus, Padraig. E nada do que os magos lhe digam o afastará desse caminho.

Parte 5

segunda-feira, 5 de março de 2012

Em Nome de Thonarr (Parte 3)

- Vai, Kieran, conte de novo – pediu Finn, com um riso nos cantos dos lábios. – Quero lembrar com todos os detalhes de como você foi expulso da estalagem por uma mulher de caçarola em punho.

- Não fui expulso. Ela apenas se recusou a me ouvir – replicou o Mestre de Magia do Pensamento. – Disse que o filho não viria ao Castelo e, quando insisti, deu-me as costas e começou a cozinhar. Foi uma espécie de insulto, é verdade. Mas não foi como você está dizendo.

- Que pena! Teria sido mais divertido – concluiu Finn, piscando para Sophia. Estavam no jardim de ervas, um grande espaço cultivado por trás da Ala Verde, cercados por aprendizes que trabalhavam nos canteiros. Quase todos eram do Segundo Círculo, portanto já treinados no que faziam, mas poucos demonstravam entusiasmo: as Artes da Cura não tinham muitos adeptos no Castelo das Águias. Mesmo assim, os jovens cumpriam aplicadamente suas tarefas, julgando-se observados pelos mestres a pequena distância. Mal sabiam que a conversa há muito os levara para longe dali.

- Insulto ou não, o importante é que temos um rapaz com um Dom promissor – Sophia resumiu a questão. – E cuja mãe, ao que parece, tem medo de qualquer coisa que cheire a Magia.

- Isso apesar do Kieran e de seus incríveis talentos diplomáticos – disse Finn, mas em seguida passou a falar sério. – Esse receio é comum entre as pessoas do povo. Fora das Onze Cidades – e talvez até em algumas delas – nós somos respeitados, mas, infelizmente, continuamos a ser temidos. E isso é ainda pior entre os adeptos desse Deus único.

- O rapaz manifestou sua vontade através do nome de Thonarr – lembrou Kieran. – Tem fé no Herói e não em si próprio. Ele precisa de alguém que o oriente.

- Se quiser ser orientado – disse Finn.

- Mas ele quer - replicou o outro. – Eu vi o brilho nos olhos dele quando falei com a mãe, e como ficou desapontado quando ela não permitiu que me acompanhasse. Pode ser só curiosidade por enquanto, mas o garoto está disposto a saber mais. Pelas regras...

- ... É nosso dever oferecer aprendizado aos que buscam o Caminho – Sophia citou a regra que todos aprendiam ao alcançar a o Terceiro Círculo. – Não sei se é bem esse o caso, Kieran, mas concordo com o que você disse no início. Toda criança que demonstra o Dom inato deve ter a orientação de um mago, e, como os mais próximos, cabe a nós oferecê-la a esse menino. E vamos fazer isso, sem dúvida. Quanto à mãe dele, deixe comigo; não creio que seja tão difícil convencê-la. É só colocar as coisas do jeito certo.

Olhou de esguelha para Kieran, que resmungou alguma coisa por entre os dentes e não respondeu. Tinha consciência de sua brusquidão – direto e seco demais, autoritário algumas vezes – mas suas demandas quase sempre eram atendidas, e ele não sabia o que dera errado com a mãe de Padraig. Tinham sido seus modos ao entrar na cozinha e se dirigir sem rodeios a ela? Ou era o que representava – a Magia, que punha acima de tudo a força do pensamento e ignorava a fé dos Homens em seu Deus?

Fosse como fosse, ele não tivera sucesso, e, embora houvesse relutado em lhes contar a história, sentia-se aliviado com o apoio de Finn e Sophia. Pelos preceitos da Escola e pelos da própria Magia, um jovem nascido com o Dom devia ter uma chance de desenvolvê-lo, portanto eles iriam à estalagem – um casal de embaixadores sorridentes, bem mais hábeis que o antigo Mestre das Águias – e usariam seu poder de persuasão com a mãe de Padraig. Se tudo desse certo, o garoto ingressaria no Primeiro Círculo, um nível ainda muito básico dos estudos, mas nada impedia que um dos mestres de Magia o acompanhasse mais de perto. E como os modos do rapaz não indicassem um temperamento afeito à Magia da Forma, nem um futuro alquimista ou curandeiro, tudo indicava que esse mestre seria Kieran de Scyllix.

A não ser que estivessem diante de um caso raro, muito improvável em se tratando de um garoto sem mescla de sangue élfico.

E, se assim fosse, a vinda de Padraig para a Escola se tornava ainda mais importante.

Parte 4

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Encruzilhada: prequel de "O Castelo das Águias" já em Kindle!


Pessoas,

Acho que a maioria de vocês conhece o conto "A Encruzilhada", publicado no primeiro volume da série Imaginários, da Editora Draco. Trata-se de uma prequel, ou seja, uma história que se passa antes daquela narrada em "O Castelo das Águias", e onde Kieran de Scyllix aparece em plena adolescência.

O conto foi bastante elogiado, mas o mais importante para mim é que ele marcou o início do meu relacionamento com a editora. Foi no lançamento de "Imaginários" que conheci o editor Erick Sama - aquele que nunca dorme - e combinamos que eu lhe enviaria meu romance inédito para análise. Tratava-se da primeira versão de "O Castelo das Águias", que foi lida, discutida e em boa parte reescrita para se converter no livro que, esse sim, vocês todos com certeza já conhecem.

Pois bem, esta semana a editora - que já havia disponibilizado o livro nos formatos Kindle e e-book - passou também "A Encruzilhada" para o Kindle, dentro da proposta da série "Contos do Dragão" Basta clicar aqui para ter acesso à obra, pronta para leitura no tablet, por apenas $ 0,99.

E, o mais importante, entender melhor o Kieran, protagonista de "O Castelo das Águias" e narrador do livro 2 da saga, do qual em breve se terá notícia.

Nos encontramos lá!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O Castelo das Águias no Gato Sabido!



Pessoas Queridas,

Anuncio mais uma ótima oportunidade para quem prefere ler o livro no formato e-book. Agora, "O Castelo das Águias" está disponível também através do Gato Sabido, por apenas R$ 9,90. Pelo mesmo preço você encontra ainda outras obras da Editora Draco, tais como "Neon Azul", "A Corrente" e "O Baronato de Shoah".

Confira. Você vai gostar!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Castelo das Águias agora em Formato Kindle!


Pessoas queridas,

Interrompo esta série para anunciar, com muito orgulho, a versão de "O Castelo das Águias" para o Kindle.

A exemplo de outros livros da Editora Draco - que, além dos romances, disponibiliza também edições online de vários contos publicados em suas antologias - meu romance pode ser adquirido através da Amazon por apenas $ 4,99, bastando clicar aqui.

Para quem ainda está na dúvida, a opção "look inside", permite ler algumas páginas do texto e visualizar o mapa feito pelo editor Erick Sama.

Nos vemos em Athelgard!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Em Nome de Thonarr (Parte 2)

Sua primeira reação foi correr, mas de alguma forma ele conseguiu se dominar e se manter firme. O cão eriçou o pelo e arreganhou ainda mais os dentes, olhando-o com olhos avermelhados e de pupilas fixas. Não está raivoso , refletiu Padraig, mas outra coisa lhe ocorreu em seguida: Assim mesmo, pode estar zangado ou enlouquecido e me atacar, sem nenhuma razão.

Apreensivo, ele tentou manter a calma enquanto recuava, bem devagar, a mão tateando à sua volta em busca de alguma coisa com a qual se defender. Seu pé, no entanto, mal voltara a tocar o chão quando o animal avançou, e só um reflexo surgido do puro instinto o fez desviar o corpo e se esgueirar para trás do barril. Mandíbulas se fecharam a uma polegada de sua coxa; ele previu uma nova investida e saltou para o lado, uma onda incandescente de energia percorrendo-o dos pés à cabeça.

- Em nome de Thonarr! O que está querendo? – bradou, dirigindo-se ao animal. Seu corpo inteiro parecia vibrar, uma sensação estranha, mas ele conseguiu ignorá-la. Tinha de estar pronto para mais um salto ou para sair em disparada assim que o cão se movesse. Este, porém, continuou na mesma posição, fitando-o com olhos em que a fúria dera lugar a uma espécie de estranhamento.

- Então, desistiu? – tornou Padraig, seu próprio tom abrandando diante da atitude do animal. – Percebeu que não sou muito apetitoso? Ou espera que lhe dê comida? Posso conseguir umas sobras do almoço.

Dizendo isso, ele estendeu a mão, embora estivesse pronto para recolhê-la ao menor sinal de hostilidade. O cão tinha parado de rosnar e continuava imóvel, o olhar fixo não no rosto de Padraig, mas sim num ponto mais abaixo, onde a réplica do martelo de Thonarr pendia de seu pescoço. O menino o percebeu e sorriu, sentindo-se ao mesmo tempo protegido e tão magnânimo quanto seu Herói.

- Foi para isso que você entrou, não foi? – perguntou, apoiando-se no barril de vinho. – Sentiu o cheiro da comida e veio atrás. Bom, minha mãe não vai querê-lo na cozinha, por isso você tem que me esperar aqui no pátio. A não ser... que o seu dono tenha vindo também, não é? – acrescentou, endireitando-se à visão do homem com a jaqueta de couro. Sem que Padraig houvesse notado, ele saíra do estábulo e se aproximava a passos largos, olhos e boca apertados, as sobrancelhas franzidas sobre um nariz de águia.

- Esse animal – falou, de longe, em tom urgente. – Não é seu, nem de algum amigo ou vizinho, certo?

- Não, senhor. – respondeu o menino. – E me desculpe se ele lhe pertence. Eu ia dar comida, porque...

- Eu vi! Ele estava prestes a lhe arrancar um pedaço – replicou o homem. – Eu ia intervir, mas você... Bom, não sei bem o que fez, mas vou descobrir. Qual é o seu nome?

- Padraig. Sou aqui da “Espada e o Lírio” – o garoto achou melhor explicar. – E, juro, não fiz nada contra seu cão.

- Sei que não fez, e de qualquer forma ele não é meu. – Cruzou os braços, deixando em evidência um belo anel em forma de serpente. – Você estava certo ao supor que ele entrou atrás de comida. Provavelmente é um desses cães que são mantidos famintos a fim de que se tornem ferozes.

- E se soltou, e acabou entrando na estalagem – concluiu Padraig. – Que sorte eu tive de ele não me estraçalhar!

- Sorte? Não, rapaz. Isso foi outra coisa. Foi poder - afirmou o estranho. Seus olhos negros, agora bem abertos, esquadrinharam o rosto do menino, depois desceram, detendo-se por alguns instantes no pequeno martelo de bronze. Então, brilharam como dois sóis.

- O Senhor do Raio – murmurou, como que para si mesmo. – Nunca pensei que alguém pudesse usar seu nome como canal. Você tem muita fé, garoto... e o Dom inato também. Já lhe disseram isso?

- Acho que não – respondeu Padraig, confuso. – Não entendi o que o senhor acabou de dizer.

- Vai entender, quando eu explicar. Mas não há pressa: pode levar esse barril lá para dentro e alimentar o pobre do cão. – Apontou para o animal, que saíra daquela espécie de transe e aguardava deitado sobre as patas. – Preciso conversar com algumas pessoas, um assunto urgente... O Comandante Owen está aí?

- Está, sim. – Uma tomada de ar, um sobressalto: Padraig acabava de entender. – O senhor é quem ele estava esperando? O mago do Castelo das Águias?

- Isso mesmo. Sou Kieran de Scyllix – disse o estranho, fitando-o como se o avaliasse. – E eu diria que já pode me chamar de Mestre Kieran.

Parte 3

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Em Nome de Thonarr (Parte 1)

O conto a seguir se passa cerca de três anos antes da história narrada no livro O Castelo das Águias. Leiam-no - e, se ficarem curiosos por mais, bem, é só comprar o livro! :) .


- Filho, assim que você puder, leve mais vinho para a mesa do Comandante – gritou Moira, por cima do ombro. – O barrilete acabou... Não há bebida que chegue para esses soldados!

- Pelo menos a casa lucra – riu Padraig, a voz abafada pelos ruídos que vinham da sala. Era um dia atarefado na “Espada e o Lírio”, uma estalagem pequena, porém de ótima fama, procurada por viajantes abonados e pelas pessoas mais distintas de Vrindavahn. Os Conselheiros da cidade a frequentavam, assim como os mestres das corporações, e até os Prestes do Templo de Bragi apareciam vez por outra para uma taça de vinho de maçã. Nenhum cliente, no entanto, era tão assíduo quanto o Comandante Owen, um veterano endurecido por várias guerras que, no ano anterior, fora transferido do seu antigo posto para ficar à frente da guarnição de Vrindavahn. Era uma posição tranquila, adequada para um velho militar que encerrava a carreira.

Calvo feito um ovo – mas com um belo par de bigodes como compensação - o Comandante era um homem agradável, que além disso trouxera clientes e lucro à estalagem. Padraig simpatizava com ele, mas às vezes sua presença o deixava melancólico, pois o fazia lembrar do pai, Bryan, que pertencera ao exército antes do ferimento que o deixara aleijado. Com o dinheiro que lhe deram ao se reformar, ele comprara aquela taverna quase falida e a reerguera com a ajuda da esposa, Moira, celebrada como a melhor cozinheira da cidade. O negócio deu mais certo do que esperavam, mas Bryan nunca deixou de suspirar por seu passado de armas e ouvia com avidez as histórias de qualquer soldado que passasse pela estalagem.

Foi uma pena que não tivesse vivido para ouvir as do Comandante.

Padraig se aproximou timidamente, carregando um barrilete de vinho. O Comandante narrava um episódio ligado à batalha de Erchedel, sua assembléia um grupo de oficiais da guarnição reforçado por mais três de um destacamento que passava pela cidade. Um deles, de taça vazia, percebeu o menino a dois passos da mesa e lhe fez um sinal, mas Padraig esperou uma pausa na narrativa para servir a bebida. Fez isso mais por respeito do que por interesse: ao contrário do pai, não gostava de histórias de guerra, exceto as narradas no Etta em que tomavam parte os Heróis.

- Eis aqui um excelente rapaz – disse o Comandante, que obviamente desconhecia aquele fato. – O falecido pai deu baixa, ferido em batalha, e ele cresceu na estalagem, mas que disposição! Forte como um touro, e só doze anos! Hem, Padraig?

- É o que precisam na Escola de Guerra – disse um dos homens que visitavam Vrindavahn. – Se quiser, em dois anos posso recomendá-lo.

- Obrigado, senhor, mas acho que não – murmurou Padraig, encolhendo-se de forma a parecer menor. Aos doze anos recém-feitos, sua estatura ultrapassava a de muitos rapazes de quinze, e os resquícios da aparência rechonchuda que tivera na infância mal escondiam a estrutura larga e forte sobre a qual em breve despontariam músculos de aço. O rosto, porém, ainda era de menino, com olhos claros e pele macia que corava com facilidade. Quando falavam a seu respeito, por exemplo.

- Eu sempre digo a Padraig Ap Bryan que ele se sairia bem no exército – o Comandante pôs mais lenha na fogueira. – Já a mãe o quer no Templo. E de preferência o de Bragi, aqui em Vrindavahn, onde poderá estar sempre com ela.

- Não diga! Um Preste? – duvidou o forasteiro, franzindo a testa. – Um rapaz forte assim?

- Não quer dizer nada – Padraig se encheu de coragem para retrucar. – Há Prestes fortes, como os da Ordem do Carvalho. Eles até lutam nas guerras ao lado dos soldados.

- Agora você disse uma verdade – reconheceu o outro, dando de ombros. – Vamos beber a ela, amigos.

- E é melhor ir já trazendo mais um barrilete – disse um oficial mais novo. – Talvez até um barril... em homenagem à Ordem do Carvalho.

Ouvindo isso, os outros irromperam em risadas, que deixaram o rosto de Padraig ainda mais vermelho. Pondo no chão o barrilete meio vazio, ele recolheu algumas taças da mesa ao lado e enveredou rumo à cozinha, a passos largos, antes que alguém fizesse mais piadas sobre a Ordem e o Templo. Ou, pior ainda, sobre a sua vocação. Pois a verdade é que ainda não estava seguro a esse respeito, embora, para agradar sua mãe, assegurasse que sim todas as vezes que ela perguntava.

Moira estava tirando uma torta do forno quando o filho entrou. Como faziam sempre, sorriram um para o outro, um sorriso que não os desviava nem por um instante de suas tarefas. Amor e dever – essas palavras eram quase sinônimos n´ ”A Espada e o Lírio”.

- Mãe, vou levar um barril maior à mesa do Comandante – avisou o menino. – Há uns oito ou dez homens com ele. E pelo jeito não vão embora tão cedo.

- Aposto que não. Sabe dizer se o mago já chegou? – indagou Moira, apertando os lábios. – O tal que vem do Castelo das Águias?

- Não. Um dos magos do Castelo vem aqui? – Padraig estacou a meio caminho da adega. – Qual deles? Só conheço Mestre Urien, e acho que ele não é mago.

- Ele? Claro que não! Aquilo é um bode já ficando velho – disse a mãe, abrindo a massa para outra torta. – Não sei quem vem, só que é conhecido de um dos oficiais. Um desses que estão de passagem, vindos da Escola de Guerra.

- Nunca vi um mago de perto – refletiu Padraig, com os olhos brilhando. – Será que ele faz tudo como as pessoas normais?

- Não sei, mas deve beber como uma. E bastante, a julgar pela companhia – com essas palavras, a mãe o despachava de volta aos seus afazeres. – Cuidado, filho. Pegue um barril dos pequenos e role, não tente carregá-lo. E tranque bem a porta da adega – acrescentou, em voz mais alta, para que Padraig a ouvisse lá de fora.

- Tudo bem, mãe – respondeu ele, no mesmo tom, fazendo tilintar as chaves que retirara de um prego na parede. Tê-las na mão o fazia sentir-se importante, o homem da casa – o que de fato era, o único a não ser por Jochen Calado, o surdo-mudo encarregado do estábulo. Nos dias comuns, era ele que trazia os barris da adega, mas os cavalos não paravam de chegar e sair nos Dias de Descanso, de forma que a tarefa passava sem discussões às mãos de Padraig. Não que ele protestasse contra isso.

- Eu posso fazer! – insistia, quando a mãe se preocupava achando que se esforçaria demais. – Olhe para mim, sou forte como um urso... Ou como Thonarr – acrescentava, estufando o peito. Orgulhava-se de ter aquele ponto em comum com seu Herói preferido. Desde que podia se lembrar, Thonarr era o seu modelo, em quem espelhava suas ações e a quem se dirigiam suas preces e agradecimentos. Alguns Prestes o teriam recriminado, não pela devoção, mas porque raramente se lembrava do Deus Único; mas como preferir um deus sem rosto a um Herói como o Senhor do Raio, todo poder e força e generosidade? Para um menino, era quase impossível.

A adega ficava fora da casa, numa pequena construção à qual se tinha acesso pelo pátio. O estábulo se encontrava à direita, junto ao portão que nos Dias de Descanso permanecia aberto para a rua. Jochen estava lá, segurando as rédeas de um alazão enquanto tentava compreender as instruções do cavaleiro, um homem alto e sério metido numa jaqueta de couro.

Padraig pensou em ajudá-lo, mas desistiu ao ver que os dois pareciam se entender por meio de gestos. Entrando na adega, tombou de lado um barril de tamanho médio e o rolou para fora, habilmente, como se acostumara a fazer no último ano. Voltou-se, então, a fim de trancar a porta, e estava tirando a chave quando ouviu um som estranho a seus pés.

- O que... – começou, mas sua voz se extinguiu ao se deparar com o que tinha atrás de si. Ao lado do barril, rosnando pelos cantos arreganhados da boca, estava o maior cão que alguma vez Padraig vira na vida.

E a distância até sua garganta era de apenas um salto.

Parte 2


Fanart de Padraig pela devota de Thonarr (Thor, no mundo de cá) Ana Clara Thomazini.