sábado, 7 de junho de 2014
A Escola de Magia de Riverast
Riverast é a cidade que sedia a tradicional Escola de Magia, fundada por elfos brilhantes e que, desde a criação da Liga das Terras Férteis, aceita jovens magos humanos e meio-elfos. Também sedia uma Escola de Artes da Cura, ligada à de Magia mas com regras próprias, e ainda a administração do Templo, a religião humana do Deus Único, na região Sul de Athelgard. Assim, dentre as Onze Cidades, pode-se dizer que Riverast é a que se ocupa tanto das coisas da Mente quanto as da Alma, passando pelo equilíbrio do corpo físico.
A Escola de Magia não recebe aprendizes no início da senda. Estes, tradicionalmente, são orientados de forma individual por mestres mais experientes e progridem até o nível do Terceiro Círculo, quando recebem uma espada e uma tiara, sendo considerados, de fato, como magos. A partir daí, podem continuar avançando por conta (e risco) próprios ou ser admitidos entre os alunos da Escola, o que se faz mediante a recomendação dos mestres e uma série de testes muitas vezes insólitos. O que devem estudar não se restringe a temas diretamente ligados à Magia, mas àquilo que os tornará mais conscientes e equilibrados: Kieran de Scyllix, por exemplo, precisou servir chá à Arquimestra que o entrevistou na admissão e teve de estudar poesia e música a fim de chegar ao Quinto Círculo, quando voltou a sua terra natal.
A Ascensão no interior dos Círculos de Magia é individual também, variando muito de mago para mago. Os Círculos, até o ponto em que existem iniciações no mundo físico, são nove; depois existem outros só conhecidos pelos mestres que atingiram o Nono Grau, que atualmente são muito poucos (um deles é Camdell, que fundou a Escola de Artes Mágicas no Castelo das Águias, em Vrindavahn). A cada círculo aumentam as exigências, inclusive na vida pessoal dos magos, com restrição de atividades, alimentação, casamento e muitas outras.
Ao longo de sua trajetória, os magos podem continuar a receber instrução em Riverast ou, o que é muito mais comum - a não ser entre os que se tornam mestres na Escola de Magia - ficar até a iniciação no Quinto Círculo, quando partem para se estabelecer em outra localidade, retornando periodicamente para os testes de ascensão. Estudantes entre o Terceiro e o Quinto Círculo podem se alojar nas casas cedidas à Escola pelo Conselho de Riverast, assim convivendo com outros colegas, mas num regime diferente daquele em que vivem os aprendizes em Vrindavahn. Kieran, por exemplo, viveu numa casa chamada Três Chaminés. Os outros mestres do Castelo com passagem por Riverast são Camdell (que chegou a ser um mestre na Escola de Magia), Finn, Thalia e Sophia, que fez a maior parte do aprendizado na Escola de Artes da Cura.
Aqui começaremos a postar um conto sobre os aprendizes prestes a deixar o Castelo das Águias, alguns dos quais têm como objetivo prosseguir seus estudos em Riverast. Espero que vocês os acompanhem nesta jornada!
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A Escola está sediada num palácio élfico que lembra um pouco o Palais Idéal de Ferdinand Cheval.
O sistema de hospedagem dos estudantes foi inspirado nas repúblicas da Universidade de Ouro Preto - MG. Porque Athelgard também respira os ares do Brasil. :)
sábado, 31 de maio de 2014
Scyllix, a Cidade dos Guerreiros
Conforme anunciado, esta é uma postagem que comemora a marca de 300 seguidores da nossa página no Facebook. Falaremos de Scyllix, a terra natal de Kieran... que foi inspirada numa cidade conhecida por seus 300 valorosos guerreiros!
A Liga das Terras Férteis surgiu em meio a uma série de guerras em que as prósperas cidades do Sul de Athelgard enfrentaram exércitos do Oeste, do Norte e ainda do reino de Altamir (a única monarquia existente em Athelgard, da qual em breve falaremos). Para defender seus domínios de forma mais eficaz, Homens e Elfos entraram em acordo e criaram uma Liga que inclui todas as vilas e cidades da região, mas na qual, pela legislação vigente, cada uma das Onze Cidades Élficas se tornou responsável por um aspecto da administração, da economia e/ou do desenvolvimento científico e cultural das Terras Férteis, de acordo com sua vocação, história ou mesmo localização física.
De solo árido, topografia acidentada e na fronteira com o belicoso Oeste, Scyllix já era uma cidade bastante militarizada quando da criação da Liga e se tornou responsável pela defesa e pela formação de combatentes. A produção de suas fazendas é quase inteiramente comprada pelo exército, a indústria gira em torno do armamento e demais aparatos militares e os jovens do sexo masculino de ambas as raças devem frequentar a Escola de Guerra entre os 14 e os 17 anos, passando depois a fazer parte das tropas até os 21 (a maioridade plena nas Terras Férteis). Daí em frente, seguir carreira militar é opcional, mas pela tradição e pelas oportunidades é o que acontece com pelo menos dois terços dos rapazes.
O ajuste entre os costumes humanos e élficos determina que as mulheres possam fazer um treinamento opcional, mais leve e se juntar ao efetivo após atingir a maioridade, mas só algumas elfas escolhem seguir esse caminho. Já as diferenças físicas entre Elfos e Homens acabaram por criar uma cisão dentro da Escola de Guerra e nos próprios batalhões, que são divididos por raças; os meio-elfos (ou meio-humanos, como dizem os elfos muito razoavelmente) têm seus próprios alojamentos, batalhões e comandantes, mas alguns rapazes com uma pequena mescla de sangue élfico acabam ficando com os grupos humanos, como aconteceu com Kieran.
Vivendo em função da guerra, as pessoas em Scyllix tendem a ser francas, objetivas e às vezes ríspidas. Poucas se importam com luxo, mas muitas competem por reconhecimento ou honras militares. No interior da cidade amuralhada, as casas são pequenas, funcionais e raramente têm jardins, à exceção de algumas casas élficas. A maior dentre estas pertence aos antigos senhores da cidade, os membros da Casa Safira (a família do mago Hillias), mas uma outra Casa da nobreza élfica tem um ramo estabelecido em Scyllix: a Casa Âmbar, originária de Herrien, que compete com a Safira pelo poder.
As autoridades do Exército e da Escola de Guerra têm voz ativa no Conselho de Scyllix, que às vezes suplanta a dos Conselheiros civis. Os magos a serviço da cidade costumam ser muito valorizados, mas - para consternação da população - as energias envolvidas nas atividades guerreiras nunca são as melhores, por isso é difícil conseguir que algum mago se comprometa com o Exército em caráter permanente. A exceção é o Mestre das Águias, cargo que existe há várias décadas e que foi ocupado por Kieran durante alguns anos, em substituição a seu primeiro mestre, Mael, que conhecemos dos contos A Encruzilhada e O Anel do Escorpião.
A essa altura, claro, vocês já perceberam que a cidade a inspirar a criação de Scyllix foi Esparta. E quero agradecer aos 300 guerreiros e guerreiras que estão nos seguindo no Facebook. Espero que em breve alcancemos este número aqui no blog também; ainda temos muita história para contar!
Até a próxima!
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Top 5 Influências em "A Ilha dos Ossos" : de Gorki a Meat Loaf
Pessoas queridas,
Há algum tempo escrevi sobre as influências literárias, culturais e afetivas presentes em "O Castelo das Águias". Os tópicos naquele caso foram bem abrangentes, pois eu estava me referindo a toda a série - na verdade, a todo o universo de Athelgard.
"A Ilha dos Ossos" tem suas próprias referências, que vocês podem conhecer clicando aqui. Espero que gostem!
E não deixem de curtir a nossa página no Facebook. Em breve vai haver umas promoções bem legais rolando por lá!
sexta-feira, 16 de maio de 2014
O Mito de Hades e Perséfone em O Castelo das Águias
As sagas de Athelgard se baseiam principalmente nos mitos nórdicos, mas os arquétipos são universais e aparecem em várias mitologias.
Nosso leitor Julio Soares encontrou uma semelhança entre a história de Anna e Kieran e a de um conhecido casal de deuses gregos. Confiram suas impressões clicando aqui.
Boa leitura!
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Sobre a Escrita
terça-feira, 13 de maio de 2014
A Floresta dos Teixos
Anna de Bryke é conhecida pelo nome da vila de elfos brilhantes onde fez seu aprendizado como Mestra de Sagas, mas em seu coração ela pertence à tribo que vive na Floresta dos Teixos.
O teixo das fotos fica na localidade inglesa de Crowhurst, em Surrey, Inglaterra.
Ao longo de gerações, os xamãs da tribo, dos quais o atual representante é Zendak, moldaram os teixos milenares e os converteram em aposentos, salões e às vezes moradias inteiras. Muitas delas ficam no cimo das árvores e são ligadas por pontes feitas de madeira e corda trançada.
O teixo é uma árvore que vive muito, o que faz dele um símbolo da imortalidade. Quando o tronco se torna velho e oco, representa a porta de entrada para o Outro Mundo. A madeira é usada na confecção de arcos e flechas. Já as sementes contidas no fruto vermelho da árvore são tóxicas e podem levar à morte se ingeridas. Mas, até onde se sabe, isso jamais aconteceu com nenhum membro da tribo.
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terça-feira, 6 de maio de 2014
O Javali: um conto de Lear Encanta-Dragões (Final)
- Mestre Kieran! O se-senhor? – gaguejou Erdon, sentindo o chão se abrir sob seus pés. – Não queríamos... quer dizer, bom, o Razek afinal seguiu outro caminho...
- Razek...? – As sobrancelhas do mestre se uniram sobre os olhos. – O que aprontaram com ele desta vez?
- Nada! – Lear se apressou a dizer, mas o próprio afobamento deixou claro que não era verdade. Kieran o encarou com aqueles olhos estreitos e cruzou os braços, e Erdon engoliu em seco, à espera de uma catástrofe... que não veio, substituída pelo inesperado ruído de alguém a correr desabaladamente pela trilha do lado oposto ao do bosque.
Na mesma hora, o instinto de proteção fez os quatro garotos avançarem para perto do mestre, e até mesmo Erdon deu um ou dois passos em sua direção. Lear, o único dentre todos a ter um bastão de poder, o empunhou com energia, pronto a tecer algum encanto que protegesse o grupo, enquanto Kieran se limitava a respirar fundo e esperar. E apesar do que o trouxera até ali, apesar de todo o seu poder, nem mesmo ele estava preparado para ver a moça que, momentos depois, surgiu no início da trilha, o rosto afogueado, os olhos cheios de susto e a voz entrecortada pela falta de fôlego.
- Um javali! E está enfurecido, tenham cuidado! – gritou ela, correndo para Kieran. O mago piscou, aturdido, e ia replicar quando, emergindo subitamente por entre arbustos, o javali irrompeu na clareira, urrando feito um demônio enquanto investia mais uma vez sobre Anna de Bryke.
Então, tudo aconteceu muito rápido. Os meninos gritaram, agarrando-se uns aos outros e tentando sair do caminho; Erdon se voltou para Lear, que já brandia o bastão e gritava desfazendo o encanto; Kieran girou sob os pés, protegendo Anna com o corpo e proferindo sua própria fórmula mágica – e o javali desapareceu diante daqueles oito pares de olhos. Em seu lugar restava apenas um porco, ainda assim perigoso, enlouquecido com uma dor que ficou visível tão logo a ilusão se desfez.
- O focinho dele está preto! – gemeu Lohan, tentando se proteger atrás dos colegas mais altos. – O que é aquilo?
- Ferrões de abelha! – Erdon respondeu, sua voz abafada pelas frases enérgicas de Lear e Kieran. Se ambos trabalharam no mesmo sentido ou de formas complementares foi impossível saber, mas, para alívio de todos, o porco se aquietou após uns poucos instantes, deixando de perseguir a Mestra de Sagas para se quedar, imóvel e como que estupefato, diante do agitado grupo de meninos. Em seguida, como se aquilo houvesse sido demais para ele, deitou-se e começou a roncar; e foi então que Erdon voltou a engolir em seco, sabendo o que viria a seguir por parte de Kieran.
- Certo. – A voz do mago era contida; quase sempre começava assim. – Alguém usou ilusionismo, depois criou um elo entre sua mente e a desse porco e o mandou para uma trilha onde ele foi atacado por abelhas, o que, é claro, o deixou furioso. Até aí eu entendi. Quem pode me explicar o resto?
- Nós... – começou Lear.
- Eu explico – disse Gareth, inesperadamente. – Mestre Kieran, isso era para ser uma brincadeira com Razek. Nós achamos que ele estava neste bosque porque vimos a pegada de mocassim...
- Que era o da Mestra Anna! – exclamou Lohan, dando um passo à frente e apontando para os pés da moça. – Eu disse que a pegada era pequena para ser do Razek!
- Mas nós achamos que era – tornou Gareth. - E o javali, que na verdade era o porco, devia seguir a pessoa que fez a pegada, portanto seguiria o Razek, e nós devíamos ver como ele se sairia através da projeção de pensamento do Lear.
- Mas não queríamos que ele se machucasse nem nada, era só para rir um pouco – disse o Ruivo, e o Encanta-Dragões lançou ao menino um olhar de agradecimento. – Aí descobrimos que o Razek estava em outra parte da floresta, mas não vimos quem estava por aqui, pois o Lear se confundiu com a energia de outro mago. Com certeza foi a do senhor, não foi? Usando um encanto para encontrar Mestra Anna?
- Eu... – Kieran pareceu querer dizer algo, mas parou ao ver a expressão de sua prometida. Ela se refizera do susto e agora o olhava meio perplexa, meio contrariada.
- Você não disse que tinha trabalho a fazer? Por que veio atrás de mim? – perguntou, num tom que eles jamais tinham visto alguém usar com Mestre Kieran. – Se eu não achasse o Rydel para terminar o passeio, poderia voltar sozinha. Sei muito bem como me orientar na floresta!
- Sim, mas a questão não é só essa. Veja o que aconteceu! – Kieran olhou em torno, achando numa só mirada um argumento e pessoas mais culpadas que ele. – O que essa brincadeira estúpida poderia ter causado? Respondam!
- Não era para ela, mestre. Era para o Razek, ele provavelmente ia perceber tudo. Ninguém sabia que Mestra Anna estava aqui – defendeu-se Lear. – Nem jamais poderíamos imaginar que o porco seria picado de abelhas.
- E além disso era só um porco – ajuntou Conan. – Não era um javali de verdade. Claro que ela não sabia, por isso ficou assustada, mas um porco não poderia...
- Ah, não poderia? – interrompeu o mago, ainda contendo a raiva. – Algum de vocês, moleques, por acaso cresceu no campo? Sabem o estrago que um porco furioso é capaz de fazer?
Sem esperar resposta, ele abriu o cinto, que caiu no chão sem ruído enquanto Kieran erguia a túnica e a camisa. Então, virou-se de lado, expondo o torso entre a cintura e as costelas, e sete rostos se franziram com pena e uma espécie de horror ao ver a feia cicatriz que repuxava a pele do mestre.
- Nem cinco anos eu tinha. Por sorte era um porco menor e consegui escapar antes que me arrancasse um pedaço – disse ele, por entre murmúrios consternados. – Mas o porco que me mordeu estava preso num chiqueiro. Não estava enlouquecido por ferroadas. E, claro... Não tinha sido influenciado por um bando de fedelhos, liderados por dois inconsequentes que já deviam ter sido chutados da Escola. Não é mesmo, Erdon? Lear?
- Não, mestre. Quer dizer, sim, fomos inconsequentes – atrapalhou-se o Encanta-Dragões. – Mas não quisemos fazer mal a ninguém, e o senhor sabe disso. Nem a Razek, nem aos que estão com ele, e muito menos a Mestra Anna. Espero que ela nos perdoe pelo mal-entendido.
- Pedimos mil desculpas – ajuntou Erdon. Estava sendo sincero – jamais teria querido causar transtorno à Mestra de Sagas, e Kieran os confrontara com a possibilidade real de algo pior que um simples susto –, mas a ideia de que poderiam ser expulsos da Escola eram o que o fazia suar frio. Lear, com seu talento inato, conseguiria com facilidade um mestre que o orientasse, mas Erdon não teria para quem se voltar, porque não havia outra Escola de Artes Mágicas nem outros magos que pensassem como Camdell. Felizmente, a rápida intervenção de Anna ao dizer que os desculpava e até rir um pouco da história - ou talvez a presença dela na vida de Kieran - tinha suavizado as disposições do mestre, e ele se contentou em resmungar mais um pouco e em afirmar que pensaria várias vezes antes de endossar a próxima iniciação dos rapazes.
- Você também, Lear. Não pense que não sei que a ideia foi sua – rosnou, olhando torto para o Encanta-Dragões. – E como achou tão fácil criar um elo com esse porco, é você que vai tirar os ferrões, acordar o bicho e levá-lo de volta para o lugar de onde ele veio.
- Tirar os ferrões? Mas como?
- Não faço ideia. Há mais de vinte anos não trato de porcos, e nunca vi nenhum ficar com o focinho assim. Mas você é um sujeito esperto – Kieran bateu nas costas do aprendiz com a mão aberta, não exatamente um tapinha carinhoso. – E tem cinco bons amigos para ajudar na tarefa.
- Nós? Mas a gente só... – Conan começou em voz alta, mas o tom diminuiu diante do olhar do mestre. – A gente só veio por causa deles.
- Sim, vamos deixar os meninos fora disso – pediu Anna, com o braço em torno de um Gareth cabisbaixo. Lohan parecia prestes a chorar. Kieran olhou de um para o outro, depois ficou uns instantes a observar o Ruivo, que mexia nas folhas de um arbusto e afetava um ar inocente.
- De algumas coisas se escapa por sorte... não é mesmo? – disse o mago, por fim, sem deixar de olhá-lo. – Tudo bem, vamos deixar passar, mas só desta vez. Da próxima, quem for atrás de um cabeça de vento como Lear vai ser tão responsável quanto ele pelas consequências, entendido?
- Sim, mestre! – Até os dois rapazes entraram no coro.
- E o jogo de Mestre Rydel? – lembrou Gareth, de repente. – Será que ainda teríamos como achar o que ele pediu?
- Não podemos andar na floresta sozinhos. – Conan se voltou para Anna, um sorriso matreiro nos lábios. – Mestra, já que está aqui, será que não podia...
- Acompanhar vocês? Mas é claro!
- O senhor também vai, Mestre Kieran? – indagou Lear, já agachado diante do porco que ainda dormia.
- É o que parece – resmungou o mago. – Espero que não demore muito, pelo menos. Quanto a vocês, não tenham pressa. Retirem cada ferrão, e depois vejam se alguém lá no Castelo sabe o que fazer nesses casos. À noite, quero ver esse porco no cercado, bem alimentado e feliz.
- Cercado? Mas lá não tem cercado nenhum – disse Erdon. – Nem chiqueiro. O homem com quem falamos não sabia onde alojar o porco.
- É mesmo? Hum. Então é bom apressar um pouco as coisas – replicou o Mestre das Águias, juntando as mãos. – Por sorte, há bastante madeira serrada no galpão dos carpinteiros. Mas mesmo assim vocês vão ter muito trabalho pela frente.
Um canto de sua boca se ergueu devagar, desenhando o Sorriso do Mal de que Tarja sempre falava. Erdon estremeceu e olhou para Lear, esperando vê-lo igualmente intimidado, talvez contrariado com o que acabara de ouvir. No entanto, para sua surpresa, Lear estava sorrindo – e o faria várias vezes ao longo da tarde, enquanto os dois arrancavam ferrões de abelha, puxavam e empurravam o porco pela floresta até o Castelo e pregavam tábuas para construir um pequeno cercado.
- No fim até que valeu a pena – dizia ele, sempre que o amigo resmungava pelo Dia de Descanso jogado fora, e das primeiras vezes Erdon o mandou para um certo lugar. Lear, porém, insistiu, fazendo-o se lembrar de detalhes como a cara de inocência do Ruivo, o desconcerto de Kieran diante da zanga de Anna e o ar aparvalhado do porco; e como não havia quem resistisse a Lear quando se punha a fazer imitações, Erdon começou a achar graça também e a recordar, ele mesmo, algumas partes da história. Que não deixara de ser divertida, embora não da forma como haviam planejado... e embora o saldo final fosse de muito cansaço e algumas marteladas nos dedos.
- E agora pensei numa coisa – comentou Lear, olhando para o porco, que comia tranquilamente de um cocho trazido do estábulo. – O dia que passamos juntos me fez criar uma certa afeição por este nosso amigo. Eu ia detestar saber que ele virou bacon ou coisa parecida, então pensei... Será que, se em vez de um porco, o empregado encontrar aqui um...
- Lear, não comece de novo..
- Não, sério! Fale a verdade – disse, entusiasmado, o Encanta-Dragões. – Você acha que eles teriam coragem de fazer bacon, digamos, de... de um unicórnio?
Erdon martelou com tanta força que rachou a tábua ao meio.
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Leia a primeira parte do conto aqui.
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Sobre a ilustração, cabe contar uma pequena história. Minha talentosa amiga Gisele Bera Bizarra fez esse desenho para o blog, como um presente, e quando o vi tive a impressão de que Anna e Kieran estavam correndo de algo. Já faz mais de um ano, e desde então tenho me prometido escrever um conto em que isso acontecesse. Pensei, pensei... e aqui está o resultado. Espero que tenham curtido.
Até a próxima!
terça-feira, 29 de abril de 2014
O Javali : um conto de Lear Encanta-Dragões (Parte 3)
Meia hora depois, tendo cortado caminho por uma trilha nua e escarpada – em que foi bem difícil conduzir o porco -, Lear, Erdon e os quatro meninos chegaram ao Bosque das Abelhas, pelo qual, tinham certeza, Razek havia passado um pouco mais cedo. Durante a caminhada, os rapazes tinham explicado em que consistia seu plano, sem deixar clara a principal intenção, mas mesmo assim os garotos tinham aderido com entusiasmo. Queriam ver, é claro, a projeção de pensamento prometida por Lear – um encanto adiantado, que poucos aprendizes do Castelo dominavam -, mas a ideia de Razek se deparando com um javali era mais excitante, era prenúncio de emoção e de umas boas gargalhadas. Lohan foi o único a objetar, dizendo que Razek não gostaria daquilo, mas aceitou o argumento de Lear quando este afirmou tratar-se de uma boa experiência e que todos os magos deviam se preparar para imprevistos. Ou achavam que tudo na vida se daria de acordo com o que aprendiam nos manuais?
- Razek, por exemplo, quer tudo a seu jeito – disse, enquanto se abaixava para esquadrinhar as marcas no solo. – Ele ainda vai me agradecer por coisas como estas.
- Eu acho que ele não passou por aqui – disse Erdon, que examinava outra parte da trilha. – Pelo menos ainda não.
- Tem certeza? Eu sinto que ele está perto – replicou o Encanta-Dragões. – Procure mais um pouco, aí nesse caminho entre os pinheiros.
- O que estão procurando? – indagou Conan.
- Sinais. Isto é, algo que mostre que Razek passou por aqui – explicou Erdon. – Galhos quebrados, por exemplo, ou plantas e flores pisadas. Eu não vejo nada, mas ele mencionou que vinha pelo Bosque das Abelhas, e Lear diz que pode senti-lo, então...
- Eu não o sinto. Sinto alguém por perto. – Lear franziu o cenho. – E a sensação que tenho é que se trata dele, até por saber que Mestre Rydel vai pela trilha da montanha.
- Sim, tudo bem, mas o que fazer se nada confirmar isso? – perguntou Erdon. – E se a gente não achar...
- Pegadas? – perguntou Gareth, parado junto a um arbusto de espinheiros.
Foi como se um alarme houvesse soado. No instante seguinte, todos os seis estavam agachados junto ao arbusto, examinando a pegada nítida – porque deixada sobe uma parte mais macia do solo – em que se desenhava a marca de um pé ligeiramente maior que o de Conan. E o pé, sem sombra de dúvida, calçava um mocassim.
- Razek? - Erdon se voltou para Lear.
- Razek – confirmou o Encanta-Dragões, que acabava de se levantar e já empunhava o bastão de poder.
- Estou achando esse pé meio pequeno – Lohan murmurou, mas ninguém lhe deu ouvidos. Logo adiante, Gareth havia localizado outras pegadas, impressões mais suaves dessa vez, que, no entanto, deixavam evidente a direção tomada por Razek.
- É para lá que vamos mandar o nosso amigo peludo – disse Erdon, enquanto Lear se concentrava, olhando fixamente para o javali e apontando-lhe o bastão. – Para começar, é preciso formar um elo com o animal, não tão profundo como o que Mestre Kieran tem com as águias, mas uma espécie de caminho que a sua vontade deve seguir para controlar os passos dele. Não é lá muito fácil, mas Lear consegue por um tempinho, vejam só!
Dizendo isso, ele apontou para o Encanta-Dragões, que entoava uma espécie de cântico em voz baixa enquanto movia lentamente o bastão para lá e para cá. Em poucos instantes, a cabeça do javali começou a oscilar de um lado para o outro, acompanhando o bastão, os olhos parecendo maiores e vidrados por força do encanto. Lear deu dois passos cautelosos para um lado, observou o animal por um momento, depois começou a caminhar em direção à pegada deixada por Razek. Hesitante a princípio, o javali o seguiu, o focinho sempre apontado para o bastão, depois para o solo, quando o Encanta-Dragões proferiu algumas palavras de comando.
- Que língua ele está falando? – quis saber o Ruivo.
- Os magos têm uma língua secreta, da qual a gente aprende o básico a partir do Segundo Círculo, com Mestra Lara. Quem sai daqui com a iniciação do Terceiro domina as palavras de poder e recitações mais simples, o resto pode-se aprender em Riverast ou com outros mestres que saibam – disse Erdon, mas se calou em seguida, lembrando da última conversa com Finn a respeito da Escola de Riverast. Nem ele nem Lear eram considerados aptos até aquele momento. Lear, porém, conseguiria se iniciar no Terceiro Círculo dentro de algumas luas, simples questão de justiça, pois nem mesmo o Carrasco punha em dúvida seu talento.
Para a Magia... e a Arte também.
O javali se demorou cheirando a primeira pegada antes de acompanhar o aprendiz às marcas seguintes. Fez a mesma coisa quando chegou a elas, enquanto Lear apontava para o bosque e pronunciava novas frases. Então, após alguns momentos de silêncio, ele encostou a ponta do bastão na testa do animal e ordenou, de forma que todos entendessem:
- Vai!
O eco de sua voz ainda vibrava no ar quando o javali disparou pela trilha. Lear o observou por um instante, depois se voltou para os garotos, sorrindo com um triunfo que cresceu ao ver a admiração em seus rostos. Conan e o Ruivo chegaram a bater palmas, e Lohan estava mudo e imóvel. Gareth também ficara impressionado, mas parecia refletir, e após alguns momentos se voltou para Erdon com uma pergunta.
- O javali vai seguir o Razek ou simplesmente a trilha?
- Melhor que isso. – foi Lear que respondeu. – O javali vai procurar e colar na pessoa que fez as pegadas. Não mandei que ele atacasse, é claro, mas o Razek vai pensar que o bicho é feroz e vai ficar maluco com ele andando à sua volta na trilha. Por outro lado, ele não tem arma, e além disso é proibido caçar na Floresta das Águias, então vamos ver como ele se sai. Que acham?
- Isso! Faça a projeção de pensamento! – exclamou o Ruivo, com um entusiasmo ao qual os colegas prontamente aderiram. Não havia como ser de outro jeito, pois aquele era um encanto reservado aos mestres e a pouquíssimos aprendizes adiantados em Magia da Forma, e sempre figurava como uma das maiores atrações nos espetáculos da Ala Violeta. Lá, porém, a grande tela formada pela energia mágica de um ou mais praticantes exibia imagens criadas em sua mente – jogos de luz, dragões, pequenas histórias em sequência – ao passo que, desta vez, Lear lhes prometera algo real. Combinando dois encantos, ia buscar as imagens de Razek, onde quer que estivesse, e projetá-las na tela mágica, para que todos pudessem ver o Esquentadinho lidando com o javali. E, com certeza, dar mais risadas do que tinham dado, até agora, em todo aquele verão.
Lear encontrou um espaço livre entre duas árvores e ergueu o bastão, desenhando algumas formas no ar, à altura dos seus olhos. Erdon não precisou explicar que estava criando os limites da tela. O Encanta-Dragões se concentrou, inspirando profundamente, e levou uma das mãos à testa, enquanto a outra segurava o bastão apontado para o espaço vazio. Um mago menos preocupado em fornecer um espetáculo o teria deixado assim, mas Lear tingiu sua tela de um violeta claro e translúcido, e os garotos grudaram seus olhos ali e ficaram à espera.
Alguns momentos se passaram, momentos de tensão e expectativa em que o único som foram os murmúrios do Encanta-Dragões em sua busca. Erdon também estava concentrado, sua energia canalizada para o ponto sensível no centro da testa, pouco acima dos olhos, e dali projetada para o companheiro, ao qual, assim, emprestava um pouco do seu poder. O esforço o impedia de prestar muita atenção nos meninos, mas ele percebia que estavam ficando impacientes à medida que o tempo passava e nada aparecia na tela. Um deles – Conan, talvez – estapeou um mosquito que lhe pousara no braço, e outro começou a arrastar os pés, atrapalhando ainda mais sua já difícil concentração.
Por fim, quando a tensão e a frustração dos garotos já se mostrava palpável, alguma coisa finalmente surgiu na tela: uma imagem de Razek, não tão perfeita quanto esperavam mas ainda assim bem nítida, que o mostrava agachado à beira de um lago cercado de pedras. Os meninos soltaram uma exclamação satisfeita e se mexeram, apertando-se uns contra os outros em busca da melhor posição para acompanhar a cena. O meio-elfo usava apenas os calções, que enrolara quase até os joelhos - Erdon se lembrou de ouvi-lo falar que a tribo da Floresta do Sol andava nua no verão – e talvez houvesse tirado também os mocassins, pois seus pés estavam mergulhados na água, assim como as mãos, que pareciam estar lavando ou limpando alguma coisa. Uma pedra? Um peixe?
- Ele parece muito tranquilo – o Ruivo sussurrou pouco depois. – Cadê o javali?
- Olha a cara do Lear – Conan sussurrou de volta, e diante disso Erdon também teve que olhar. O Encanta-Dragões continuava de pé, o bastão erguido, a mão livre parada num gesto que auxiliava na criação de formas. Estava imóvel, à exceção de um movimento quase imperceptível dos lábios, mas o que impressionava era a sua expressão. Parecia talhada em pedra, as faces em geral coradas agora muito pálidas, tensas com o esforço de controlar aqueles dois encantos que, no entanto, ele dominava muito bem desde o ano anterior. Isso deixou Erdon intrigado e teria chegado a preocupá-lo, não fosse o fato de sua atenção se voltar principalmente para a tela, onde a imagem estava mais borrada, mas se expandira para mostrar o cenário em torno de Razek.
Troncos altos e espaçados, com copas altas. Grama verde salpicada de pedras cobertas de musgo, que iam ficando mais e mais numerosas à medida que se aproximavam do lago. Quatro meninos de pé, formando um semicírculo ao redor do aprendiz mais velho, que continuava a mexer na água. E, ao que se podia perceber... nenhum javali.
- O que aconteceu? – perguntou Conan em voz alta. Erdon encolheu os ombros e se voltou para Lear, esperando que respondesse – mas em vez disso o Encanta-Dragões deixou escapar uma longa exalação e estremeceu dos pés à cabeça, ao mesmo tempo que as imagens e a própria tela se desfaziam num piscar de olhos. Os meninos soltaram uma exclamação de surpresa, a decepção perdendo importância diante da expressão confusa do rapaz.
- Tem... Eu senti... Tem algum outro encanto interferindo – disse ele, após alguns momentos em que tentou recobrar o fôlego. – Alguém está usando Magia perto daqui. O mesmo tipo de Magia. E ela é... mais poderosa que a minha, pelo que senti.
- Não é o Razek, é? – perguntou Erdon, para em seguida concluir: - Não pode ser, ele está longe. Aliás, mais longe do que pensávamos, ou pelo menos foi essa a minha impressão.
- Sim, o javali não foi até ele, e... e ele não está nos arredores do Bosque das Abelhas – admitiu Lear, passando a mão pelos cabelos. – Aquele lago fica do outro lado da floresta. Mas vimos as pegadas, então... Não sei o que pode ter acontecido.
- Vai ver que foi esse outro encanto – sugeriu o Ruivo. – Alguém pode ter descoberto o que você ia fazer e resolveu atrapalhar, para ajudar o Razek.
- A Tarja, quem sabe – disse Conan. - Eles não são namorados ou coisa assim?
- Ela não estava no Castelo – lembrou Gareth.
- A Tarja? Ela não tem mais poder do que ... – começou Lear, mas um súbito ruído entre os arbustos o fez calar. No instante seguinte, o som de galhos estalando sob passos firmes levou os seis a se voltarem para o pequeno bosque de pinheiros, do lado oposto àquele pelo qual seguira o javali – e a sensação de Lear quanto ao poder que interferira em seu encanto foi confirmada assim que eles viram o homem que se aproximava pela trilha.
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Confus@? Eu ajudo. O conto começa aqui..
E termina aqui..
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