sexta-feira, 22 de março de 2013
Urien, o Mestre de Música
Conheça nosso primeiro conto de mistério, narrado pelo Urien: Um Estranho Equinócio!
Embora não seja um mago, Urien participa ativamente de todos os rituais e festas do Castelo das Águias. E não poderia ser de outro jeito! Numa Escola onde a Arte é tão valorizada quanto a Magia, música é o que não poderia faltar nessas ocasiões. E não qualquer música, mas uma que esteja de acordo com a estação e o propósito do rito, fazendo pensar que, talvez, Urien entenda mais de Magia do que deixa transparecer.
No primeiro livro da série, o conhecimento que Urien demonstra ter é principalmente sobre a história do Castelo, e ele o partilha com a recém-chegada Anna de Bryke, contando o que sabe sobre Jonias, o mago que descobriu a existência da Fonte Azul. Também mostra interesse em trabalhar com a nova Mestra de Sagas em festivais que não sigam estritamente a tradição dos elfos, uma vez que muitos aprendizes da Escola de Artes Mágicas são humanos e meio-humanos. Os dois se tornam bastante próximos, embora a tendência de Urien ao sarcasmo impeça Anna de considerá-lo um verdadeiro amigo. Da mesma forma, Kieran não aprecia seu temperamento... ou pelo menos aquilo que ele mostra no dia-a-dia, já que Urien é do tipo de pessoa que não se revela por inteiro. E seu apreço pelo Mestre das Águias será evidenciado, em breve, nos próximos livros desta saga.
...
Mais uma vez nosso blog recebe a colaboração da querida e talentosa Angela Takagui.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Entrevista no Ar - Blog Livros de Fantasia
Queridas Pessoas,
Aviso que já está no ar a minha entrevista no blog Livros de Fantasia, respondendo a perguntas da equipe e também enviadas por leitores. Falo sobre todos os meus livros, especialmente a série do Castelo, sobre minha carreira e sobre o que penso ser o ofício de escritor no Brasil. Para acessar, clique aqui.
Lembro ainda que estou devendo marcadores a algumas pessoas que deixaram seus nomes nos comentários da Página de Promoções. Não recebi nenhum endereço, portanto, se você for uma dessas pessoas (e quiser os marcadores), por favor, entre em contato.
Ainda esta semana teremos um post apresentando mais um personagem do primeiro livro da série. Alguém adivinha quem é? Não faltam muitos. :)
Abraços a todos e até breve!
.....
Imagem da contadora de histórias retirada daqui.
quarta-feira, 6 de março de 2013
E-Books na Plataforma Kobo!
Pessoas Queridas,
Os E-books da Draco estão acessíveis a cada vez mais leitores. Agora contamos também com a Plataforma Kobo, através da qual a editora está disponibilizando todo o seu catálogo.
Aqui vão os links para meus livros:
O Castelo das Águias
O Jogo do Equilíbrio
A Encruzilhada
O Anel do Escorpião
Aproveito a postagem para informar que estou revisando mais um conto longo a ser publicado nos Contos do Dragão. A história tem tudo a ver com o próximo livro da série iniciada por O Castelo das Águias, que também sairá este ano. Espero que vocês curtam - e depois me digam!
Até a próxima!
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Entrevistas: Livros de Fantasia e o Blog de Eduardo Kasse
Oi, Pessoas! Como estão?
Nestes últimos dias tenho trabalhado um ponto crucial de "Um Ano e um Dia", por isso o conto sobre Naheen terá de esperar mais um pouco. Bem que eu queria poder dedicar todo o meu dia à escrita e assim cuidar ao mesmo tempo de vários projetos, mas não dá; sou obrigada a focar em uma coisa de cada vez. E, nesse momento, a prioridade é o segundo volume da série.
O lado bom é que tudo isso acaba por gerar uma série de questionamentos, reflexões e diálogos com amigos escritores, como meu colega da Editora Draco, Eduardo Massami Kasse. Em breve, acredito, postarei aqui algumas dessas reflexões e as constatações a que cheguei. Acho que elas ajudarão a entender alguns dos dilemas que permeiam a vida dos escritores, bem como o entusiasmo que demonstramos com coisas que às vezes podem parecer mínimas para quem está de fora. Ou seja, tentar fazê-los entender por que o fechamento de um capítulo ou até a escolha final de um adjetivo pode dar ensejo a uma dancinha da vitória. :)
Por enquanto, quero convidar vocês a participar do meu bate-papo com o Eduardo, uma espécie de entrevista em que minhas respostas tiveram uma réplica (ou seria tréplica?) e que hoje foi publicada no blog do meu amigo. É só clicar aqui.
Outra coisa legal que está rolando é uma entrevista interativa no blog Livros de Fantasia Clicando aqui vocês podem deixar suas perguntas - sobre a série do Castelo, Literatura, vida de escritor, o que quiserem - e concorrer a marcadores de meus livros. Já temos algumas participações bem instigantes.
Por fim, Pessoas, resta dizer que adoraria postar com mais frequência, estar mais presente, mas, como já expliquei, preciso me dedicar ao livro. Quero oferecer a vocês um trabalho bem legal - não perfeito, claro, não posso pretender isso, mas no qual até mesmo as pessoas que não se identificarem com a história ou os personagens possam reconhecer dedicação, boa-vontade e sobretudo uma evolução como escritora e criadora de universos.
Então... Até a próxima, esperando que seja em breve!
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Naheen, o Mestre de Ciências do Céu
Mesmo à primeira vista, Naheen é um dos mais simpáticos professores da Escola de Artes Mágicas. Ele é o mestre de Ciências do Céu, uma paixão que talvez tenha começado quando criança, visto tratar-se de um descendente do Povo Alto e, portanto, um apaixonado por estrelas. Seus alunos são os aprendizes do Segundo e do Terceiro Ciclos, que dependem da observação e do conhecimento da mecânica celeste para efetuar seus trabalhos mágicos. O próprio Naheen, contudo, não é um mago, o que torna necessária uma integração entre suas aulas e as dos outros mestres, especialmente o mago e matemático Algias de Donnes.
Ao contrário da maioria de seus colegas, Naheen é um homem de família e mantém uma residência fora do Castelo das Águias. No primeiro livro da série ficamos sabendo que ele tem um filho pequeno, Hakim, e que este partilha o interesse de Kieran por tudo que voa (ou pelo menos águias e pipas).
Em suas interações com Anna de Bryke, o Mestre de Ciências do Céu demonstra ser um homem sério, bondoso e talvez um pouco tradicional. Por outro lado, ele gosta bastante de festas, e a cada lua promove reuniões com canto, dança e declamação de poesia no jardim de sua casa, também segundo uma tradição do Povo Alto.
Em breve, se tudo correr bem, teremos aqui um conto estrelado por Naheen e sua família. Por ora, brindo-os com esta bela ilustração de Naheen e de seu "príncipe" Hakim, feita especialmente para o blog pela talentosa Angela Takagui.
Até a próxima!
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Promessas da Lua (Epílogo)
Com este conto, passado (ou ao menos encerrado) numa festa, despeço-me de vocês até depois do Carnaval. Estou indo buscar inspiração no Velho Mundo, entre ruínas e castelos, para logo voltar e contar novas histórias. Nesse intervalo, convido-os a dar um passeio pelos textos e imagens do blog.
...
As frutas tinham sido colhidas, e as macieiras e marmeleiros tinham perdido as folhas, permitindo que o luar se infiltrasse entre os galhos mais altos. Kieran se encostou em um tronco e ficou à espera, mantendo a imagem de Alix diante dos olhos para que ela não deixasse de segui-lo. Pouco depois, o frio o levou a meter as mãos nos bolsos, e ali ele encontrou mais uma vez o bilhete de Mael, agora tão amarfanhado que a leitura se tornara quase impossível.
Quanto à Lei da Atração, não sei explicar melhor do que o autor do livro, mas vou dar um exemplo para ajudá-lo a entender. Vamos dizer que você quer uma espada nova e não pode comprá-la. Pela Lei da Atração, se você se imaginar com essa espada, se formar em sua mente um quadro bem claro dela em suas mãos, fica mais fácil vir a possui-la. A Lei funciona para todos de acordo com a força de vontade, e é claro que um mago tem mais chances de ser bem-sucedido - mas, por outro lado, ele corre o risco de interferir no fluxo natural das coisas. É por isso que o livro diz: tenha cuidado com aquilo que você deseja,
- Kieran!
pois um simples capricho pode atrair coisas indesejáveis,
- Kieran!
e, assim, deixar de fora da sua vida aquilo que viria a preencher o verdadeiro anseio do coração.
- Kieran! - chamou de novo a voz, ora próxima, ora distante, trazida pela brisa que agitava os galhos nus das árvores. Confundido pelo som, atingido em sua compreensão pelas palavras de Mael, o rapaz olhou em todas as direções, para as macieiras e a trilha e o chão coberto de folhas secas. Por fim, ergueu os olhos para a Lua; e foi ali, sobre a tela branca que se prestava a todas as pinturas, que ele teve sua última visão.
O passado tinha sido de sombras, mas o futuro era repleto de luz, e as formas que revelava eram majestosas, as torres de um castelo. Num pátio de pedras brilhantes, uma mulher e um menino, com os rostos resplandecentes, corriam ao encontro de um homem que apeava de um cavalo - e quando ambos se atiraram em seus braços, Kieran pôde sentir o impacto, como se fosse ele mesmo o amado e o pai. Uma luz mais forte, azul e dourada e violeta, explodiu diante de seus olhos, e o coração se encheu de um sentimento inteiramente novo, ao mesmo tempo que uma voz tornava a soar em seus ouvidos.
Mas não aquela voz.
- Kieran! Kie-rannnnn!
Era Alix, caminhando entre as pereiras do outro lado do pomar. O rapaz se apertou contra o tronco e não respondeu, esperando que ela não o encontrasse, tanto queria e precisava daquele último instante a sós. O encanto ainda não fora completado, mas em vez de recitá-lo ele voltou às palavras de seu mestre, os olhos estreitos no esforço de entender o que aprendera com a alma.
Pois um simples capricho pode atrair coisas indesejáveis
Capricho, não havia outro nome para o que estava fazendo –
e, assim, deixar de fora da sua vida aquilo que viria a preencher o verdadeiro anseio do
- Kieran! - exclamou Alix, enfim distinguindo seu vulto entre as macieiras.
Radiante, ela correu ao seu encontro, e numa fração de instante ele viu tudo que havia para ver: a bonita filha de um fazendeiro, com pastos e bois para herdar e uma excelente mão para fazer manteiga. Era uma boa moça, sem dúvida; mas não era a mulher que ele queria, como também não queria que tudo se resumisse aos encontros nos montes de feno. Não, o que ele queria era amor, uma família apesar de Fergus, uma esposa com quem partilhar alegrias e dores, todos os dias, a vida inteira, a despeito do que Mael dissera sobre a má sorte dos magos. E se esse amor o esperava no futuro, cabia a ele deixar o caminho aberto, para que um dia pudesse abraçar de verdade aquela mulher e aquela criança.
Era a Lei da Atração. Eram as promessas da Lua.
Ele não ia se contentar com nada menos.
- Que bom que achei você! Foi difícil sair sem que me vissem - disse Alix.
De pé, ela o fitava com olhos cheios de fascínio, que se transformaria em estranheza à medida que o elo entre ambos perdesse a força. Agora, porém, ainda esperava que o rapaz a tomasse nos braços, e para ganhar tempo ele tocou seu rosto, pensando que apesar de tudo teria gostado de se deitar com ela. Era uma pena renunciar a isso, embora, pesando as coisas com calma, ele se descobrisse aliviado por ter mantido seus escrúpulos. Faça o que é certo, dissera a voz na floresta, e era o que ia fazer.
No entanto, não parecia muito certo deixar Alix para o Mão de Ferro.
- Kieran, o que... por que estamos aqui? - Pouco a pouco, o encanto se desfazia, como um pano abandonado no tear. - Por que você pediu que eu viesse encontrá-lo?
- Não é nada demais, Alix. Não tenha medo - disse o rapaz, tentando dar à voz um tom tranqüilizador. - Nós só dançamos, e, depois, viemos olhar a Lua. Você não consegue lembrar?
- Lembro, sim, mas lembro também de pensar - não, lembro de querer que você e eu... Ooh! - exclamou ela, e levou as mãos à boca, como se a simples idéia a horrorizasse. Kieran a pegou pelos ombros, sem violência, mas com firmeza, e ia repetir que estava tudo bem quando, sem se fazer anunciar, Teig ap Donnell surgiu entre as árvores, amassando as folhas de Inverno sob os pés.
- Um recado da Cidadela, Kieran. O Mão de Ferro não vem hoje. Só amanhã é que... Ah... Desculpem, eu não sabia que estavam juntos! - exclamou, e recuou para as sombras, com uma surpresa à qual se mesclavam pudor e uma espécie de revolta. Alix soltou um gritinho e se afastou de Kieran, sem perceber o novo brilho que surgira nos olhos do rapaz. Ali estava sua oportunidade de triunfar sobre Declan, e triunfar com honestidade, valendo-se da percepção e da inteligência. Pois só um tolo não teria notado o que se passava com Teig.
Um mago sabe usar o que tem à mão.
- Não julgue as coisas tão rápido – disse ele, saboreando o efeito das palavras. - Admito que você tinha razão para se preocupar, mas não mais. Alix, eu asseguro, vai voltar à festa tão intocada quanto chegou, e eu vou embora, mas antes disso - acrescentou, olhando para a moça - antes de ir, eu tenho algo importante a dizer.
- É? O quê? - indagou Teig, com raiva. - Que você lamenta por quase ter abusado dela?
- Não. Eu nunca lamento nada, e, de qualquer forma, não costumo falar a meu próprio respeito. Agora, quer me ouvir, Alix?
- Quero - disse a moça, mas em seguida olhou para Teig, como a buscar seu apoio. - Isto é, se não for nada ruim.
- É ótimo - retrucou Kieran, e sua boca se torceu num sorriso. - O que tenho a dizer é que você não precisa se casar com o Mão de Ferro, se ele a pedir. Você pode ter um homem melhor em todos os sentidos. Porque, não sei se percebeu - concluiu, com a mão no ombro do amigo. - Teig ap Donnell está gostando de você.
Uma onda de sangue fez corar o rosto de Teig. Enleado como um menino, ele se voltou para Kieran, querendo, e não conseguindo, protestar contra suas palavras. Pois a verdade – não era preciso usar Magia para perceber - é que gostava mesmo de Alix, e estava pronto a amá-la, para isso bastando saber que ela o preferia a Declan. E que garota, diante de um pretendente tão doce, sequer se lembraria de alguém como o Mão de Ferro?
- Teig... - murmurou Alix, fitando-o com olhos surpresos e já enlevados. – Eu nunca tinha percebido...
O rapaz inclinou a cabeça, seu rubor falando por ele enquanto lhe estendia a mão. Ficaram assim por um longo momento, em silêncio, contemplando os traços um do outro à luz da Lua. Alguma coisa foi dita depois disso, e é possível que mais folhas tenham sido esmagadas, mas, o que quer que tenha acontecido, permaneceu como um segredo entre Alix e Teig. Pois é claro que Kieran não ficou lá para ver.
Horas mais tarde, deitado de costas na relva, ele fitava a Lua, recordando cada visão que tivera naquela noite. Sabia que havia algum tipo de ligação entre eles - a criança na cabana sombria; a mulher e o menino sob as torres - mas estava cansado demais, ou, o que era raro, com o coração apaziguado demais para tentar encontrar algum sentido. Por esta única vez, até que a Lua se fosse, Kieran de Scyllix não ia exigir respostas, mas sim se permitir confiar numa promessa.
Assim, ele esqueceu seus deveres, esqueceu os treinos de armas e os livros de Magia, esqueceu até mesmo que teria de ajudar Teig com o Mão de Ferro, quando este quisesse acertar as contas. Em seus pensamentos só havia lugar para as imagens do futuro. Kieran se concentrou nelas e fechou os olhos, lenta e inexoravelmente, sem ligar ao ruído dos passos que vinham do celeiro.
E, pouco depois, dois rostos divertidos e curiosos se inclinavam sobre ele.
- Não é aquele seu amigo, o aprendiz do Mestre das Águias? - perguntou, apertando os olhos míopes, a loura Caitlin, filha de um meeiro da fazenda. - Você não quer tentar acordá-lo?
- Não! Deixe-o dormir em paz - disse Doron, com uma risada. - Sabe-se lá quanto vinho ele pôs para dentro?
.................
Leia a parte 4 clicando aqui!
...
Espero que tenham gostado. Até breve!
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As frutas tinham sido colhidas, e as macieiras e marmeleiros tinham perdido as folhas, permitindo que o luar se infiltrasse entre os galhos mais altos. Kieran se encostou em um tronco e ficou à espera, mantendo a imagem de Alix diante dos olhos para que ela não deixasse de segui-lo. Pouco depois, o frio o levou a meter as mãos nos bolsos, e ali ele encontrou mais uma vez o bilhete de Mael, agora tão amarfanhado que a leitura se tornara quase impossível.
Quanto à Lei da Atração, não sei explicar melhor do que o autor do livro, mas vou dar um exemplo para ajudá-lo a entender. Vamos dizer que você quer uma espada nova e não pode comprá-la. Pela Lei da Atração, se você se imaginar com essa espada, se formar em sua mente um quadro bem claro dela em suas mãos, fica mais fácil vir a possui-la. A Lei funciona para todos de acordo com a força de vontade, e é claro que um mago tem mais chances de ser bem-sucedido - mas, por outro lado, ele corre o risco de interferir no fluxo natural das coisas. É por isso que o livro diz: tenha cuidado com aquilo que você deseja,
- Kieran!
pois um simples capricho pode atrair coisas indesejáveis,
- Kieran!
e, assim, deixar de fora da sua vida aquilo que viria a preencher o verdadeiro anseio do coração.
- Kieran! - chamou de novo a voz, ora próxima, ora distante, trazida pela brisa que agitava os galhos nus das árvores. Confundido pelo som, atingido em sua compreensão pelas palavras de Mael, o rapaz olhou em todas as direções, para as macieiras e a trilha e o chão coberto de folhas secas. Por fim, ergueu os olhos para a Lua; e foi ali, sobre a tela branca que se prestava a todas as pinturas, que ele teve sua última visão.
O passado tinha sido de sombras, mas o futuro era repleto de luz, e as formas que revelava eram majestosas, as torres de um castelo. Num pátio de pedras brilhantes, uma mulher e um menino, com os rostos resplandecentes, corriam ao encontro de um homem que apeava de um cavalo - e quando ambos se atiraram em seus braços, Kieran pôde sentir o impacto, como se fosse ele mesmo o amado e o pai. Uma luz mais forte, azul e dourada e violeta, explodiu diante de seus olhos, e o coração se encheu de um sentimento inteiramente novo, ao mesmo tempo que uma voz tornava a soar em seus ouvidos.
Mas não aquela voz.
- Kieran! Kie-rannnnn!
Era Alix, caminhando entre as pereiras do outro lado do pomar. O rapaz se apertou contra o tronco e não respondeu, esperando que ela não o encontrasse, tanto queria e precisava daquele último instante a sós. O encanto ainda não fora completado, mas em vez de recitá-lo ele voltou às palavras de seu mestre, os olhos estreitos no esforço de entender o que aprendera com a alma.
Pois um simples capricho pode atrair coisas indesejáveis
Capricho, não havia outro nome para o que estava fazendo –
e, assim, deixar de fora da sua vida aquilo que viria a preencher o verdadeiro anseio do
- Kieran! - exclamou Alix, enfim distinguindo seu vulto entre as macieiras.
Radiante, ela correu ao seu encontro, e numa fração de instante ele viu tudo que havia para ver: a bonita filha de um fazendeiro, com pastos e bois para herdar e uma excelente mão para fazer manteiga. Era uma boa moça, sem dúvida; mas não era a mulher que ele queria, como também não queria que tudo se resumisse aos encontros nos montes de feno. Não, o que ele queria era amor, uma família apesar de Fergus, uma esposa com quem partilhar alegrias e dores, todos os dias, a vida inteira, a despeito do que Mael dissera sobre a má sorte dos magos. E se esse amor o esperava no futuro, cabia a ele deixar o caminho aberto, para que um dia pudesse abraçar de verdade aquela mulher e aquela criança.
Era a Lei da Atração. Eram as promessas da Lua.
Ele não ia se contentar com nada menos.
- Que bom que achei você! Foi difícil sair sem que me vissem - disse Alix.
De pé, ela o fitava com olhos cheios de fascínio, que se transformaria em estranheza à medida que o elo entre ambos perdesse a força. Agora, porém, ainda esperava que o rapaz a tomasse nos braços, e para ganhar tempo ele tocou seu rosto, pensando que apesar de tudo teria gostado de se deitar com ela. Era uma pena renunciar a isso, embora, pesando as coisas com calma, ele se descobrisse aliviado por ter mantido seus escrúpulos. Faça o que é certo, dissera a voz na floresta, e era o que ia fazer.
No entanto, não parecia muito certo deixar Alix para o Mão de Ferro.
- Kieran, o que... por que estamos aqui? - Pouco a pouco, o encanto se desfazia, como um pano abandonado no tear. - Por que você pediu que eu viesse encontrá-lo?
- Não é nada demais, Alix. Não tenha medo - disse o rapaz, tentando dar à voz um tom tranqüilizador. - Nós só dançamos, e, depois, viemos olhar a Lua. Você não consegue lembrar?
- Lembro, sim, mas lembro também de pensar - não, lembro de querer que você e eu... Ooh! - exclamou ela, e levou as mãos à boca, como se a simples idéia a horrorizasse. Kieran a pegou pelos ombros, sem violência, mas com firmeza, e ia repetir que estava tudo bem quando, sem se fazer anunciar, Teig ap Donnell surgiu entre as árvores, amassando as folhas de Inverno sob os pés.
- Um recado da Cidadela, Kieran. O Mão de Ferro não vem hoje. Só amanhã é que... Ah... Desculpem, eu não sabia que estavam juntos! - exclamou, e recuou para as sombras, com uma surpresa à qual se mesclavam pudor e uma espécie de revolta. Alix soltou um gritinho e se afastou de Kieran, sem perceber o novo brilho que surgira nos olhos do rapaz. Ali estava sua oportunidade de triunfar sobre Declan, e triunfar com honestidade, valendo-se da percepção e da inteligência. Pois só um tolo não teria notado o que se passava com Teig.
Um mago sabe usar o que tem à mão.
- Não julgue as coisas tão rápido – disse ele, saboreando o efeito das palavras. - Admito que você tinha razão para se preocupar, mas não mais. Alix, eu asseguro, vai voltar à festa tão intocada quanto chegou, e eu vou embora, mas antes disso - acrescentou, olhando para a moça - antes de ir, eu tenho algo importante a dizer.
- É? O quê? - indagou Teig, com raiva. - Que você lamenta por quase ter abusado dela?
- Não. Eu nunca lamento nada, e, de qualquer forma, não costumo falar a meu próprio respeito. Agora, quer me ouvir, Alix?
- Quero - disse a moça, mas em seguida olhou para Teig, como a buscar seu apoio. - Isto é, se não for nada ruim.
- É ótimo - retrucou Kieran, e sua boca se torceu num sorriso. - O que tenho a dizer é que você não precisa se casar com o Mão de Ferro, se ele a pedir. Você pode ter um homem melhor em todos os sentidos. Porque, não sei se percebeu - concluiu, com a mão no ombro do amigo. - Teig ap Donnell está gostando de você.
Uma onda de sangue fez corar o rosto de Teig. Enleado como um menino, ele se voltou para Kieran, querendo, e não conseguindo, protestar contra suas palavras. Pois a verdade – não era preciso usar Magia para perceber - é que gostava mesmo de Alix, e estava pronto a amá-la, para isso bastando saber que ela o preferia a Declan. E que garota, diante de um pretendente tão doce, sequer se lembraria de alguém como o Mão de Ferro?
- Teig... - murmurou Alix, fitando-o com olhos surpresos e já enlevados. – Eu nunca tinha percebido...
O rapaz inclinou a cabeça, seu rubor falando por ele enquanto lhe estendia a mão. Ficaram assim por um longo momento, em silêncio, contemplando os traços um do outro à luz da Lua. Alguma coisa foi dita depois disso, e é possível que mais folhas tenham sido esmagadas, mas, o que quer que tenha acontecido, permaneceu como um segredo entre Alix e Teig. Pois é claro que Kieran não ficou lá para ver.
Horas mais tarde, deitado de costas na relva, ele fitava a Lua, recordando cada visão que tivera naquela noite. Sabia que havia algum tipo de ligação entre eles - a criança na cabana sombria; a mulher e o menino sob as torres - mas estava cansado demais, ou, o que era raro, com o coração apaziguado demais para tentar encontrar algum sentido. Por esta única vez, até que a Lua se fosse, Kieran de Scyllix não ia exigir respostas, mas sim se permitir confiar numa promessa.
Assim, ele esqueceu seus deveres, esqueceu os treinos de armas e os livros de Magia, esqueceu até mesmo que teria de ajudar Teig com o Mão de Ferro, quando este quisesse acertar as contas. Em seus pensamentos só havia lugar para as imagens do futuro. Kieran se concentrou nelas e fechou os olhos, lenta e inexoravelmente, sem ligar ao ruído dos passos que vinham do celeiro.
E, pouco depois, dois rostos divertidos e curiosos se inclinavam sobre ele.
- Não é aquele seu amigo, o aprendiz do Mestre das Águias? - perguntou, apertando os olhos míopes, a loura Caitlin, filha de um meeiro da fazenda. - Você não quer tentar acordá-lo?
- Não! Deixe-o dormir em paz - disse Doron, com uma risada. - Sabe-se lá quanto vinho ele pôs para dentro?
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Leia a parte 4 clicando aqui!
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Espero que tenham gostado. Até breve!
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Promessas da Lua (Parte 4)
A fazenda da família de Teig era a última a contar da margem direita do rio e a mais próxima do centro de Glen Thar, se é que se podia chamar aquilo de centro. A aldeia não passava de um aglomerado de casas e oficinas divididas por uma única rua, no fim da qual havia uma trilha conduzindo ao templo de Thýrr.
Kieran ficou de longe vendo passar o cortejo formado pelas famílias de Bran e Brigid, acompanhados de alguns amigos mais próximos e precedidos por três músicos contratados para a ocasião. A cerimônia havia acabado e eles estavam descendo, entre canções e risadas, para continuar a festa na fazenda.
Segundo o costume, todos os vizinhos num raio de várias milhas tinham sido chamados, e para alimentá-los o pai de Teig matara dez porcos e quase uma centena de aves. Avaloch, o pai de Bran, contribuíra com três bois, cuja carne era assada em fogueiras ao longo da área reservada à festa. No centro havia uma mesa de pranchas de madeira, coberta com várias toalhas emendadas e enfeitada com fitas e flores, mas os bancos estavam reservados aos recém-casados e aos convidados mais importantes. No momento, a única pessoa à mesa era o pai de Doron, o General Gwil, que perdera ambas as pernas no campo de batalha. Sua dupla condição de aleijado e herói de guerra lhe dava direito ao lugar, bem como ao primeiro frango a sair tostado da fogueira. Por força do hábito, Kieran foi cumprimentá-lo, e enquanto o fazia Doron apareceu, com uma taça de cidra para o pai e um abraço para o amigo.
- Já estava achando que você não ia aparecer - comentou, esmagando afetuosamente as suas costelas. - Ficou bem a túnica, hem? Pena que é preta. Uma cor mais alegre talvez disfarçasse essa cara feia.
- Não há nada que eu queira disfarçar, Doron. O Teig foi para o templo?
- Foi, é claro. É a irmã dele que está se casando. E a maioria das garotas da redondeza fez questão de ir também. Angharad, Caitlin, Moll, Alix... E, por falar nisso, onde está Seril? Não diga que não conseguiu tirá-la de casa!
- Não tentei muito. Ela disse que não se sente à vontade em festas.
- Ora... Mas ela dança tão bem! - fez o outro, desconcertado. - Com quem vou me divertir agora?
- Com Caitlin. - Da mesa veio a voz roufenha e brincalhona do General. - Se dançar com ela na festa, quem sabe também consegue dançar depois no celeiro.
- É...! Boa ideia! - exclamou Doron, com uma risada. Inclinou-se, em seguida, para envolver o General pelo ombros, e o rosto de Kieran se contraiu diante da cena de carinho entre pai e filho. Havia muitas coisas que ele tinha de disfarçar.
- Você disse que Alix está vindo do templo com as outras moças - falou, fingindo inspecionar as mangas da túnica. - Será que o Mão de Ferro vem com ela?
- O Mão de Ferro, hem? Já vi que você está tramando alguma - riu Doron. - Bom, mas isso vai ter que esperar. Você não viu, porque saiu antes, mas Declan se empenhou tanto no treino de armas que Mestre Rory o mandou ficar e ajudar os mais novos. Termina bem tarde, por isso ele só vai chegar aqui pela meia-noite.
- Isso se ele ainda vier - disse Kieran, com os lábios apertados.
- Ah, mas claro que vem! Quem deixaria de vir... e de dançar com uma coisinha daquelas?
Fez um gesto na direção do cortejo que acabava de passar entre duas fogueiras. Ainda estavam rindo e dançando, mas já não vinham enfileirados como ao descer a trilha, e sim em pequenos grupos que, aos poucos, foram se misturando com os demais convidados. Alguns tinham passado à frente dos músicos, e entre eles os rapazes viram Alix, de cabelo castanho preso numa trança e um vestido vermelho apertando as formas esguias.
- Kieran! Doron! Vocês perderam uma bela cerimônia! - exclamou Teig, avançando para se juntar aos amigos. - Preste Daffyd estava muito inspirado. Recitou uma saga inteira do Etta.
- Não deve ter sido tanto assim - disse Kieran, fazendo de sua voz um ímã para os olhos de Alix. A moça se voltou, sem entender o impulso que a levara a isso, e suas faces se tingiram de vermelho ao perceber a intensidade com que ele a observava.
Mael de Scyllix era da opinião de que os magos não têm sorte no amor. Para Kieran, aquilo vinha se mostrando verdadeiro: com seu nariz grande demais e a cara fechada, ele não era olhado com interesse pelas garotas, e até hoje só estivera com as fáceis, que se deitavam com os rapazes nos montes de feno e não os importunavam com lamúrias depois disso. Quase todas eram filhas de meeiros humildes, sem expectativas a não ser a de se casar com homens pobres como seus pais; as que tinham mais posses eram vigiadas pelas famílias, e os namoros só eram permitidos quando havia certeza de que resultariam numa união vantajosa para todos.
O herdeiro de uma fazenda modesta como a Fonte Âmbar dificilmente seria considerado um pretendente à altura de Alix, mas as coisas mudariam dentro de alguns anos, quando Kieran se tornasse o Mestre das Águias. Aí poderia ter a mulher que quisesse. Neste momento, porém, nem sua posição, nem seus dotes físicos representavam um grande atrativo, e, por isso, ele teve que usar a única arma ao seu alcance.
Magia.
- Há quanto tempo não nos víamos... Você mudou - disse, cada palavra um fio da rede que tecia em torno dela. Estava sendo muito mais fácil enredá-la do que ao grupo de Declan.
- Ei, o que há com vocês dois? Parece até que acabaram de se conhecer! - Doron, o intrometido de sempre. - Mas Kieran tem razão, Donzela Alix. Você mudou, cresceu... e, sem ofensa, ficou muito bonita. Quer que eu lhe traga uma taça de cidra?
- Não... quer dizer, agora não, obrigada - disse a moça, piscando a fim de conseguir desviar os olhos. Ao redor deles, os convidados pareciam cada vez mais numerosos, o som das vozes e dos risos abafando a música que, no entanto, continuava a se fazer ouvir no fundo de tudo. Mais tarde, quando os brindes e os discursos tivessem sido feitos e saciados os primeiros apetites, as danças começariam, e então aquele som iria crescer, destacando-se dos demais ruídos da noite para envolver os corpos e os corações. Era a atmosfera perfeita para um encanto amoroso.
Kieran deixou que Alix se afastasse e se reunisse às amigas. Ele mesmo permaneceu ao lado de Doron e Teig, partilhando uma caneca de vinho e uns pedaços de carne. Na mesa havia outras opções – sopas, empadas, doces - mas os rapazes preferiam ficar perto do fogo, cuja luz lhes permitia ver e ser vistos pelas moças. De onde estava, conversando e comendo bolos de uma travessa sobre a mesa, Alix se voltou várias vezes à procura de Kieran, e a cada vez ficava mais inquieta, seus dedos torcendo nervosos a ponta da trança. Doron, naturalmente, não percebeu nada, mas Teig acabou por notar a troca de olhares. E, para a surpresa do amigo, reagiu como se aquilo lhe dissesse respeito.
- O que há com Alix? Ela não pára de olhar para você - resmungou, com o cenho franzido. - Você disse, ou fez alguma coisa a ela?
- Eu não – Kieran encolheu os ombros.
- Vai fazer com o Declan - disse Doron, em tom cúmplice. - Aposto que vai. Sei muito bem quando ele está para aprontar alguma.
- Sim, mas... Alix não sabe - tornou o outro. - Parece estranho... que ela olhe tanto assim para um de nós.
- Pois é, talvez seja você e não eu - replicou Kieran, torcendo habilmente os fatos. - Gostaria que fosse assim?
- Que Alix me olhasse? É claro - disse Teig, com um brilho nos olhos. - Só que agora não adianta mais... depois que Declan disse a todos que ia pedi-la, e que ela aceitaria...
- O quê...? Você estava gostando dela? - fez Doron, com assombro. Kieran cruzou os braços e prestou atenção: também para ele aquilo era novo. Teig, porém, negou que estivesse apaixonado por Alix, embora admitisse que não conseguia imaginar ninguém melhor para ter ao seu lado.
- Vocês entendem, não é dela que eu gosto, mas queria alguém como Alix - explicou. - Uma moça de boa família, que saiba dirigir uma fazenda e tenha saúde para me dar muitos filhos. E, além disso, bonita como ela. Vocês não querem a mesma coisa?
- Eu sim, é claro - disse Doron. - Mas esse aí já não sei. Os magos podem casar?
- Podem. Mas a maioria prefere ficar só - respondeu Kieran, sem olhá-los. Uma imagem estranha e fugaz acabara de atravessar sua mente. De quem seria aquela cabana meio arruinada, cercada por árvores, com os topos brancos de neve? O que o levara, tão subitamente, a ter uma visão do Norte longínquo?
- Eu acho que você faria bem em casar - disse Doron, sem notar sua confusão. - Mas não agora. Mais tarde. Depois que você tiver acabado de ler todos aqueles seus livros e se divertido bastante. E por falar em diversão - esfregou as mãos enormes - como é que vamos fazer hoje? Com quem você vai dançar: Deirdre, Moll ou Caitlin?
- Alix - disse Kieran, e ante a estranheza dos amigos acrescentou: - Eu vou dançar com Alix, depois dos brindes, antes da chegada do Mão de Ferro.
- Está maluco? Não faça isso! Ele vai atrás de você! - disse Teig, aflito. - Não aqui, talvez, nem na Escola de Guerra, mas em alguma emboscada. Lembra da última vez em que vocês lutaram?
- Lembro - disse Kieran, levando a mão às costelas. - Mas desta vez vai ser diferente.
- Se for para brigar, conte comigo - ofereceu-se Doron. - Vale a pena sair no braço se eu puder ver a cena... o Mão de Ferro chegando à festa e vendo a futura mulher às voltas com seu pior inimigo.
- Ele vai brigar com Alix também - disse Teig. - Já pensou nisso, Kieran?
- Não... porque não tem a menor importância. - Flexionou os músculos, sem ligar à expressão magoada de Teig. - De qualquer forma, não sei se Declan vai chegar a tempo. Seu pai e o Preste já fizeram os brindes, e agora é a vez de Avaloch. Daqui a pouco todos vão se fartar de comer e começar a dançar. E eu não vou passar a noite inteira com Alix.
- Hum, é... Assim, pode ser - disse Teig, um pouco mais calmo. À mesa, iluminada por tochas presas em estacas a pequena distância, Avaloch fazia seu discurso, o vinho se agitando e respingando para fora da taça que ele erguera em homenagem a Bran e Brigid.
- Por mim, ele teria esperado uns anos - dizia, com a voz forte usada para apregoar seus bois e a carne deles na feira. - Mas o rapaz é como eu, um bom fazendeiro... e, uma vez semeado o campo, faz-se a colheita! E todos nós estamos felizes por isso!
- Colheita, campo... Daqui a pouco vai dizer que minha irmã é uma vaca de leite - observou Teig, com azedume.
- Bom, quando a criança nascer... Ei, não leve tão a sério! - exclamou Doron, defendendo-se do soco que o atingiu no queixo. Meio irritado, meio risonho - mas sinceramente arrependido - ele segurou os pulsos de Teig, jurou que não pretendia ofender Brigid, e enquanto os dois acertavam as diferenças Kieran aproveitou para se afastar. Foi em boa hora, pois os brindes estavam no fim, e, após uma última taça bebida em honra dos recém-casados, os músicos se puseram a tocar mais alto.
- É isso mesmo! Agora estão amarrados, não tem mais jeito! - exclamou, entre risadas, Donnell, o pai de Brigid. - Vão dançar, filhos... e vocês também, vizinhos, se já tiverem enchido a pança. E a senhora vem comigo, Dama Wyn! - acrescentou, puxando a mulher pelas mãos.
Entre os aplausos e risos dos convidados, o casal começou a dançar, e a cada volta mais e mais pares foram se juntando a eles. Com seu cabelo encaracolado, o rosto quase de menino aberto num sorriso, Bran puxou sua jovem esposa, e logo vieram Avaloch e a mulher, a tia viúva de Brigid e o Preste Daffyd, casais de todos os jeitos e idades girando ao som alegre da rabeca. O flautista fizera uma pausa, mas o tambor marcava o ritmo, e o som pulsava dentro das veias de Kieran quando ele se aproximou de Alix.
- Vamos dançar. - Uma ordem, não um pedido: nesse momento, ele tinha poder sobre ela, e sem contestá-lo a moça aceitou sua mão. Kieran a conduziu para o meio da roda e a enlaçou, seus olhos mergulhando nos de Alix como águias sobre a presa.
- Kieran. - Num sussurro, num fascínio, ela murmurou seu nome. Ele se inclinou a fim de prosseguir com o encanto - dizer as palavras, beijá-la - mas o cheiro de seus cabelos, ervas e rosas silvestres esmagadas, o envolveu como uma nuvem, passando numa fração de instante do olfato aos outros sentidos.
O frio. Os gritos no interior da floresta. O gosto de sangue na boca, acompanhando mais uma visão.
Quase tudo era sombra, os ecos indistintos de um passado de fogo e guerra. Entre as árvores, homens e cavalos, mulheres que corriam e caíam sobre as folhas da Primavera, a vinte passos da cabana que ardia em chamas. Um piscar de olhos e a imagem mudou, regressando ao presente: a mesma choupana, com o teto enegrecido e coberto de neve como estivera em sua primeira visão. Agora, porém, seus olhos foram capazes de enxergar além das paredes finas - e lá dentro, à luz das brasas que restavam de um fogo esmaecido, ele viu as formas de uma mulher que segurava um bebê.
Agachada junto à lareira, ela sacudia os ombros como se chorasse, e suas feições não eram visíveis. Kieran tinha certeza de que não a conhecia, mas mesmo assim sentiu-se invadir por um calor estranho, um misto de ternura e piedade que não se lembrava de ter experimentado. Com os olhos da mente, ele buscou o seu rosto, mas em vez disso encontrou o da criança; e para seu espanto o bebê abriu um par de enormes olhos oblíquos, fitando-o como se também pudesse vê-lo, enquanto, ao longe, ele ouvia a voz cristalina de uma mulher.
Kieran... Faça aquilo que você sabe que é certo...
- Kieran? - chamou Alix, apreensiva diante de sua expressão. Ouvindo-a, ele piscou, percebendo que tinha parado de dançar e que o elo entre ambos havia enfraquecido. Reforçá-lo foi questão de instantes, mas dessa vez ele agiu com menos certeza, o peito se apertando com a lembrança da voz tão doce a chamá-lo pelo nome.
Kieran... Faça o que é certo...
- Vamos sair daqui - disse ele, quase ríspido, puxando Alix pela mão. Ela o seguiu para fora do círculo, tropeçando em seus próprios pés para acompanhá-lo, tão rápido ele se afastava da música e dos fogos. A meio caminho, porém, Kieran se deteve, considerando pela primeira vez o olhar dos vizinhos ao seu redor. Ele não podia simplesmente pegar a moça e levá-la consigo.
- Volte para a festa - instruiu-a. - Deixe tocarem mais duas ou três músicas. Quando ninguém estiver prestando atenção, venha me encontrar.
- Onde? - perguntou Alix. O primeiro lugar que ocorreu ao rapaz foi o celeiro - o abrigo invariável dos casais, lícitos ou não, em noites como aquela - mas depois de pensar um pouco ele prometeu esperá-la no pomar, junto às macieiras, onde a Lua devia estar mais bonita. Alix regressou para junto dos outros convidados e Kieran foi em frente, passando pela última fogueira, junto á qual se postava a figura pequena e rígida de Teig.
- Ora, ora... Afinal, você dançou mesmo com Alix - disse ele, de braços cruzados. - Vamos ver o que o Mão de Ferro vai fazer quando souber. Provavelmente chamar Lýr e Dylan para quebrar metade dos seus ossos.
- Bom, se eu tiver que acertar contas com ele, que seja hoje mesmo - disse Kieran. - Logo mais, quando ele aparecer, diga-lhe para ir até o pomar. Eu vou estar lá, esperando por ele, e então vamos nos entender de alguma forma.
- Você vai se entender com Declan? Queria ver isso - respondeu Teig, mas mesmo assim encolheu os ombros. - Está bem, eu dou o recado, mas se ele for até o pomar Doron e eu vamos atrás. Não podemos deixar você sozinho com aquele sujeito.
- Não vou estar sozinho - murmurou Kieran, deliberadamente baixo demais para que Teig o ouvisse. Sem olhar para trás, ele seguiu seu caminho, contornou o celeiro e os estábulos e rumou para o pomar, por uma vereda onde, mesmo com o frio e a seca do Inverno, já se podia sentir o cheiro vivo das árvores.
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