Pessoal, para quem achou que o livro tinha muitos personagens e ficou meio "perdido", aqui vai a primeira parte de uma lista com todos eles. Os que têm um post próprio estão linkados pelo nome, em outros faço referência a contos já publicados. Os links serão atualizados sempre que houver novo post de conto ou personagem.
A
Adrael – jovem elfo, aprendiz do Primeiro Círculo.
Aegir Barba de Espuma – um dos Heróis do livro sagrado, o Etta. É o patrono dos marinheiros e dos navegantes.
Algias de Donnes – mago meio-humano, ensina Matemática e Alquimia na Escola de Artes Mágicas.
Andi – jovem meio-humano, aprendiz do Primeiro Círculo.
Anna – meio-humana, filha de Kyara e Raymond. Foi mãe de Anna de Bryke, fruto da violência cometida por um mercenário, e morreu no parto.
Anna de Bryke – Mestra de Sagas recém-chegada da Floresta dos Teixos, envolve-se com questões políticas ao mesmo tempo que procura se integrar à vida no Castelo das Águias. É a narradora do livro.
Arnak – meio-humano, é um dos membros do Conselho de Vrindavahn.
Aryan – artista de fantoches, trabalha na Ala Violeta do Castelo.
B
Bragi – Herói do Etta, patrono dos escritores, músicos e demais artistas.
C
Camdell de Riverast – Mentor da Escola de Artes Mágicas. Um mago versado em conhecer as transformações da alma.
Colum – humano, membro do Conselho de Vrindavahn.
Conan – jovem aprendiz do Primeiro Círculo.
D
Doron – Mestre de Combate de Scyllix, amigo de infância de Kieran. Vai a Vrindavahn representar sua cidade numa demanda sobre as águias guerreiras.
Drusius – Preste do Templo de Bragi. É membro do Conselho de Vrindavahn e seu líder, que detém o voto decisivo em caso de empate.
E
Eldrin – elfo, descendente de uma Casa Nobre, membro do Conselho de Vrindavahn.
Ennea – esposa de Algias de Donnes. É arquiteta e foi responsável pelas obras no aqueduto da cidade.
Enoch – humano, membro do Conselho de Vrindavahn.
Erdon – meio-humano, aprendiz do Terceiro Círculo.
F
Finn de Riverast – mago meio-humano, ensina Magia da Forma e Pensamento na Escola, trabalhando em conjunto com Kieran. Mantém um relacionamento com Sophia.
Flora – jovem humana, prometida de Aryan.
Freya – heroína do Etta, protege o amor e o casamento.
Freydis – jovem humana, aprendiz do Primeiro Círculo.
...
Personagens de G a N.
Personagens de O a Z.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Excalibur - nova antologia da Draco
Como todos devem saber, 2012 será o Ano do Dragão, e para comemorá-lo a Editora Draco preparou uma série de surpresas para leitores e escritores de Literatura Fantástica.
Estou aqui para anunciar uma delas, que agradará aos fãs da Idade Média (e não só): a antologia Excalibur: histórias de reis, magos e távolas redondas, que reunirá contos sobre ou baseados no universo arturiano em qualquer uma de suas versões.
Uma visita ao blog dará mais detalhes. Esperamos ter o prazer e a honra de contar com vocês!
Estou aqui para anunciar uma delas, que agradará aos fãs da Idade Média (e não só): a antologia Excalibur: histórias de reis, magos e távolas redondas, que reunirá contos sobre ou baseados no universo arturiano em qualquer uma de suas versões.
Uma visita ao blog dará mais detalhes. Esperamos ter o prazer e a honra de contar com vocês!
domingo, 11 de dezembro de 2011
O Castelo das Águias: Alas e Torres
Este é um pequeno roteiro para os visitantes do Castelo das Águias. E também um desafio. Por que essas cores - exatamente essas - foram escolhidas para as alas? E o que elas têm a ver com as atividades de cada uma?
Ala Azul
A primeira a ser construída, existe há séculos. É toda de pedra e bem austera. Tem duas torres estreitas, uma das quais é a Torre dos Ventos, e duas largas: uma utilizada para as aulas de Magia da Forma e Pensamento e a outra transformada nos aposentos pessoais de Kieran de Scyllix.
Ala Branca
Boa parte dessa ala já existia quando Camdell chegou, mas depois disso houve algumas ampliações. É maior prédio do castelo e também o mais central, onde estão a cozinha principal, o grande salão e a biblioteca. Abriga também os dormitórios dos aprendizes, dos hóspedes, dos empregados e do mestre de Música, Urien. Uma das duas únicas torres faz parte dos dormitórios dos aprendizes e seu quarto superior tem uma casa de banho privativa, o que o torna muito disputado entre os jovens.
Ala Verde
Prolongamento da Ala Branca, também anterior à chegada de Camdell. Tem duas torres largas, numa das quais fica o observatório de Naheen, mestre de Ciências do Céu, e na outra o laboratório de Alquimia usado principalmente por Algias de Donnes. As aulas de Música e de Artes da Cura também são dadas nessa ala, relativamente pequena apesar das atividades que aí ocorrem.
Ala Rubi
Adjacente à Ala Branca. Pequena, com torres estreitas. A parte dos jardins foi construída após a chegada de Camdell, que aí tem seus aposentos pessoais.
Ala Amarela
A menor do Castelo das Águias. Um quadrilátero com uma única torre baixa e um belo jardim. Construída por Camdell, hospeda Thalia de Erchedel e Lara de Kalket. Tanto elas quanto o Mestre de Sagas residente dão aqui suas aulas.
Ala Rosada
A mais próxima da floresta, construída a partir dos galpões de trabalho de Theoddor. É uma ala longa e estreita com torres de tamanho e largura média. Nela fica o laboratório de Ciências da Terra de Rydel de Bergenan e os aposentos pessoais de Rydel, Finn e Sophia de Riverast e do Mestre de Sagas.
Ala Violeta
Tem uma torre, um anfiteatro e vários galpões de trabalho. A torre já existia antes da vinda de Camdell e era usada para vigiar a entrada. Essa ala cresce ou diminui de acordo com o número de artesãos trabalhando ali. Às vezes tem até tendas montadas perto do anfiteatro. Tudo que é de artes e ofícios funciona ali, como a forja e a carpintaria.
Post ilustrado com uma imagem de Carcassone, cidade francesa cujo visual inspirou o do Castelo das Águias.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
O Castelo das Águias de Ana Lúcia Merege com Super-Desconto!!!
Pessoas Queridas,
Para quem está a fim de conhecer melhor Anna e Kieran mas tem restrições orçamentárias, trago uma boa novidade. Em comemoração aos 2 anos da Editora Draco, os livros já lançados estão com um ótimo desconto: 50% com frete incluso, bastando comprar duas obras. O Castelo das Águias sai por inacreditáveis R$ 17,90 - preço de livro de bolso!!
Deem uma olhada nos descontos da Editora Draco e aproveitem. Como diz o editor Erick Santos, só daqui a dois anos vai ter mais.
Abraços a todos!
Para quem está a fim de conhecer melhor Anna e Kieran mas tem restrições orçamentárias, trago uma boa novidade. Em comemoração aos 2 anos da Editora Draco, os livros já lançados estão com um ótimo desconto: 50% com frete incluso, bastando comprar duas obras. O Castelo das Águias sai por inacreditáveis R$ 17,90 - preço de livro de bolso!!
Deem uma olhada nos descontos da Editora Draco e aproveitem. Como diz o editor Erick Santos, só daqui a dois anos vai ter mais.
Abraços a todos!
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
O Primeiro Outono - Conclusão
Circulado pela tatuagem escura, o olho de Zendak brilhava como uma estrela. Effimon o encarava sem reservas, os lábios contraídos, como se alguma coisa no xamã o incomodasse. Maryan não soube o que dizer. A intuição, assim como a experiência, a fazia pensar em algum tipo de armadilha – as mais traiçoeiras, tecidas com palavras – mas, uma vez iniciada, não podia pedir que Zendak interrompesse a história. Por fim, ela se limitou a assentir com um gesto, deixando que ele retomasse o fio da narrativa.
Caçar, para os homens, significa rastrear e matar, às vezes por diversão. Para nós, é diferente. Antes de uma caçada, uma pessoa deve se preparar, reunir seu espírito ao Grande Espírito que é partilhado com todas as criaturas. Ela deve estar disposta a honrar o animal que vai dar sua vida para lhe matar a fome.
Numa jornada de caça, isso é ainda mais importante. Você não quer carne, simplesmente: você tem algum outro propósito em vista. No caso de Kyara, era preciso, em primeiro lugar, obter pele suficiente para fazer um agasalho, e para isso ela entrou na floresta e rastreou dois gamos. Um velho e um jovem. Cada um deles foi morto da maneira adequada - com preces, dignidade e o mínimo de sofrimento - e um pouco do seu sangue foi dado ao fogo, assim como Kyara tinha dado o seu antes de começar a jornada. E dessa forma os três espíritos ficaram em paz.
- Interessante – comentou Maryan, tentando disfarçar um calafrio. – Uma barganha com os espíritos dos animais que ela caçou.
- Não foi barganha. Foi uma oferta de paz, para manter o equilíbrio. Essa parte da jornada se encerrou ali, porque Kyara teve que levar os gamos para casa, tratar da carne e da pele antes que se estragassem. Isso seria desperdício e uma afronta às criaturas que ela havia matado.
A jornada continuou na lua seguinte. Agora não seria preciso matar, apenas reunir alguns presentes dados pela floresta. Em homenagem aos quatorze anos da filha, Kyara queria adornar o agasalho com alguma coisa que pertencesse às três Casas, por isso fez uma prece ao Espírito do Corvo a fim de que lhe enviasse algumas penas. Lembro-me bem de quando isso aconteceu, porque nesse dia senti meu sangue me chamar de muito longe, e soube que havia um dos nossos vivendo e caçando além da Floresta dos Teixos. Mas eu não sabia que se tratava de minha prima: isso os corvos me contaram muito tempo depois. Quando era tarde demais para ir até lá e ajudá-la.
- Na guerra? O que você poderia fazer?
- Não sei – admitiu Zendak, sério. – Mas pelo menos eu estaria lá.
- Ele é o xamã – intrometeu-se Effimon. – Uma espécie de mago. Não acha que um mago pode ser útil numa guerra?
Maryan encolheu os ombros, dando-se por vencida. Não era para discutir a guerra ou a Magia que estava ali e sim para ouvir a história. Zendak esperou alguns momentos, certificando-se de que a discussão fora encerrada antes de continuar.
O Corvo foi generoso com Kyara. Um dia de caminhada bastou para que encontrasse as penas que procurava, e na tarde seguinte ela chegou ao rio de onde retirou alguns seixos. Eles iriam representar a Casa da Lontra, pois não havia lontras de verdade na região. Já para o Lobo, Kyara retirou as garras que estavam na sua sacola de talismãs, o que em geral não se faz, mas essa era uma situação diferente. Era para sua filha. Tanto o Lobo quanto os membros da Casa não acharam que foi vergonhoso.
Então, quando Kyara voltou, todo o seu tempo livre foi usado para trabalhar no casaco. Ela tratou a pele, cortou e costurou com um fio feito do tendão do gamo. Desmanchou um velho agasalho seu para usar o forro, que era de pelo de marta. E adornou esse novo casaco, costurando nele as garras, as penas e os seixos que eram os símbolos das três Casas. Veja como ficou.
Pegou o agasalho das mãos de Anna, levantando-o para que Maryan visse os adornos dispostos em padrão simétrico. As garras estavam sobre o peito, as penas caprichosamente pendendo sobre elas, presas pelas hastes à gola de marta; os seixos, na verdade bem pequenos, vinham mais abaixo, onde o casaco devia tocar as coxas e os quadris de Anna. Nesse momento, Maryan já podia adivinhar o que Zendak ia dizer em seguida, e quase conseguiu impedi-lo de dizer, mas ele não lhe deu tempo: olhando-a no fundo dos olhos, pôs o casaco sobre seus joelhos enquanto voltava a falar.
Essas jornadas foram as últimas de Kyara antes da guerra. Anna mal havia chegado a usar este casaco quando Raymond foi convocado e morto, e a cabana onde ela e a mãe viviam foi invadida pouco tempo depois. Uma violência, sim. Mas também o início de uma vida. E toda vida é sagrada.
Seu rosto se contraiu por um instante, depois relaxou diante da visão de Anna brincando com as penas presas ao casaco. Maryan também a fitava, com olhos molhados que logo se voltariam cheios de surpresa para Zendak.
Não esperava que ele lhe pegasse a mão.
- Eu sei o que vocês pensam sobre se vestir com peles de animais – disse, muito sério. – E sei que não precisam disso em sua terra. Mas aqui é necessário, assim como no lugar onde Kyara morou com Raymond. Por isso, você vê, da morte surgiu a vida, e as duas fazem parte da mesma espiral.
Maryan apertou os lábios e baixou a cabeça. Não sabia o que dizer a Zendak – ela, que sempre tivera na ponta da língua as respostas para quem punha à prova suas escolhas. Pior ainda, as palavras dele tinham aberto uma brecha, pela primeira vez, nas convicções que ela construíra como um muro com os preceitos de Odravas. Da terra, junto aos filhos da terra. Talvez se vestir como eles fizesse parte disso.
Ou talvez fosse apenas uma parte de um teste maior. Quem saberia a resposta?
- É muita gentileza... Muita bondade de Kyara me oferecer algo que pertenceu a sua filha – murmurou, por fim. – Mas é a pele de animais que... que...
- Que honraram minha prima com um presente – completou o xamã. – Agora, ela quer honrar você em agradecimento ao que está fazendo por Anna, e ao mesmo tempo fazer com que a morte dos gamos não tenha sido em vão. Nem a minha história – concluiu, sorrindo enquanto aproximava o casaco do corpo da mestra de sagas.
Maryan tocou o couro com relutância. Para sua surpresa, era macio, não como um tecido, mas não havia nada da rigidez áspera que esperava. Sua mão deslizou como por instinto para dentro de uma manga, trazendo a imediata sensação de calor – um calor benvindo, por mais que lhe custasse admiti-lo. Dividida, ela olhou para Zendak, depois para Effimon, que ergueu os ombros, indecifrável em suas próprias vestes de couro. Então, quando menos esperava, a voz de Anna se fez ouvir, clara e precisa como um raio entre as nuvens.
- Os gamos não precisam mais do couro. Minha mãe também não. Mas você precisa, por isso minha avó e eu queremos que aceite.
No instante seguinte, as lágrimas que flutuavam nos olhos de Maryan lhe desceram pelas faces, e ela soube o que devia fazer. Com gestos lentos, deixando-se ajudar pela criança, desvencilhou-se da manta de lã e vestiu o novo agasalho, sentindo, a cada polegada, o espírito dos gamos adejando em torno de sua pele. Seria isso – dançar de alegria?
- Parabéns, Zendak – disse, lenta, a voz de Effi. – Em poucos momentos conseguiu o que venho tentando desde que ela chegou a Bryke.
Ergueu o rosto, e nele Maryan vislumbrou algo que nunca vira antes. Como sempre, Effimon tinha um ar determinado, mas o brilho em seus olhos perdera a qualidade leve, até brincalhona que a cativara desde o primeiro dia. Também não se voltava para ela e sim para o xamã, que Effi observava sem reservas, o olhar como uma adaga apontada para suas costas. Essa não, pensou Maryan, compreendendo na mesma hora o que acontecia – e sabendo, com a certeza dos que conhecem todas as sagas, o que estava por vir.
Definitivamente, aquele seria um longo inverno.
.....
Bom, Pessoas... este foi o fim do conto. Mas não o da história. Ainda haverá outras estações para Zendak, Maryan e Effimon, bem como para a jovem heroína do Castelo das Águias. Espero que continuem por aqui.
Até breve!
Imagem retirada daqui
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
O Primeiro Outono - parte 5
Enrodilhada em sua manta de lã, à espera do sol que a cada dia aparecia mais tarde, Maryan escrevia sobre os costumes da tribo. Ainda não sabia quase nada além do que ouvira em Bryke; esperava conhecer outras pessoas, quem sabe ir às casas delas para colher suas próprias impressões. A casa de Anna, talvez, e da avó que se mostrara ao mesmo tempo dura e generosa. Ou ainda a de Zendak, se ele voltasse a visitá-la. Por que não viera naqueles últimos dias?
Traçada a última letra – fora pouco, de fato, o que escrevera – ela ergueu a cabeça, fitando a trilha que começava a vinte passos da casa. Conduzia à floresta – da qual até agora vira apenas a orla – e às cabanas construídas pela tribo sobre e ao redor de árvores milenares. Corvo, Lobo e Lontra, cada Casa tinha um abrigo para rituais e reuniões, mas os jovens viviam em família até que se casassem. Quase todos o faziam, ao contrário dos Elfos Brilhantes, e sempre por amor.
E, por estranho que parecesse, tanto o amor quanto o casamento duravam a vida inteira.
Maryan se recostou à parede da casa, as mãos trançadas sob a nuca, recebendo em cheio e com prazer o afago do sol. Sim, apesar das dificuldades havia beleza neste lugar, uma tranquilidade que dificilmente conseguiria obter em Kalket. A vida na floresta criava pessoas bem diferentes daquelas que conhecera até então. O que faria, em algumas gerações, com a cultura que seu próprio povo trouxera das Terras Férteis? Em que medida eles se adaptariam ou até se misturariam à tribo? Mesmo ela, como Mestra de Sagas, achava difícil imaginar.
Um estalido, como o som de um graveto sendo quebrado, a despertou de suas reflexões. Anna vinha andando rápido pela trilha, com o sol nas costas, mas mesmo assim os olhos e o sorriso estavam cheios de luz.
- Oi, menininha! Já estava com saudades suas! – exclamou Maryan, abraçando-a ao mesmo tempo em que olhava para o adulto logo atrás dela. Era Zendak, saudando-a com um sorriso em que se lia um prenúncio de novidade.
- Trouxe uma coisa para você – anunciou, e se sentou a seu lado, sobre os calcanhares. Suas roupas eram finas, tanto quanto podem ser uma calça e uma camisa feitas de couro, mas tinha na mão um agasalho mais quente, forrado, com gola de pelos cinzentos. Ele o entregou a Anna, fazendo um sinal para que se sentasse ao lado de Maryan, e ergueu os olhos sombreados para a Mestra de Sagas.
- O que eu tenho é uma história – disse, com ar solene. – Nossas histórias são contadas de coração e dadas como presente. Você aceita?
- Uma história? Mas é claro! – replicou Maryan, na mesma hora. Muitas vezes, lendo sobre os povos da floresta, encontrara menções a essa prática: presentear uma narrativa, quer se tratasse de uma história pessoal ou uma da tribo, como se fosse um bem precioso. Quem a ouvia se tornava o depositário, e quase sempre se sentia no dever de retribuir com outra história ou algum tipo de favor. Do ponto de vista de Zendak, isso devia ser muito sério, mas Maryan não tinha medo de decepcioná-lo. Quanto a favores, sabia que o xamã tinha em alta conta o fato de ela estar ensinando as letras a Anna; e, no que tocava a histórias, conhecia todas que algum dia tinham feito parte de um livro.
- Fico honrada em ouvi-lo – disse, tentando soar mais ou menos formal. Zendak sorriu, passando a mão pelos cabelos que caíam como uma asa negra. Então, começou.
Há muitos anos, havia uma caçadora da Casa do Lobo, e seu nome era Kyara. Ainda era jovem, mas tinha trazido muita carne para a tribo; tinha cicatrizes no corpo e garras de urso no colar.
Num dia de inverno, Kyara seguiu os rastros de um gamo até bem longe do território da tribo. Quando viu, era tarde para voltar, então ela decidiu procurar uma gruta que servisse de abrigo. Encontrou, mas dentro dela já estava um homem – um dos primeiros que ela via e com quem falou. E o que Kyara nunca teria imaginado é que, antes daquela noite acabar, ia sentir seu coração bater, seu corpo ficar quente, seu espírito dançar de alegria, tudo por aquele homem que se chamava Raymond de Pwilrie.
- Meu avô! – exclamou Anna, radiante.
- Adorei essa imagem – disse Maryan a Zendak. – "O espírito dançando de alegria"... Isso é quando uma pessoa se apaixona?
- Não só. Os espíritos sempre dançam. Às vezes voam – garantiu o xamã. – Continue a ouvir.
Sem pensar duas vezes na tribo que deixava para trás, Kyara partiu com seu homem, e andaram muitos dias até chegar a um povoado distante. Ali, deram a Raymond um trabalho. Ele devia viver numa cabana dentro da floresta, ajudar os homens ricos que fossem caçar lá - e, ao mesmo tempo, impedir que outros fizessem o mesmo, ainda que suas famílias precisassem de carne.
Kyara não se conformou com essas regras. Então, como os lobos, começou a caçar de noite, e os homens ricos nunca descobriram. Isso durou muitos anos, antes e depois de ela ter uma filha a quem chamaram Anna, como a mãe de Raymond. Era uma criança muito doce. Parecida com esta outra Anna.
Sorriu para a menina, que corou de prazer e escondeu o rosto nas mãos. Preparava-se para continuar quando Effimon surgiu na trilha que conduzia aos currais, carregando um balde de leite, o braço livre aninhando contra o peito vários queijos de odor picante.
Zendak fez uma careta, levando a mão ao nariz num gesto exagerado. Effi apenas sorriu. Com sua pisada leve, aproximou-se até a distância de cinco passos, olhando ora para Maryan, ora para o xamã, que pelo jeito era tão seu conhecido quanto de Narhi e Pylos.
- Desculpem a intromissão. Vinha falar com Maryan, mas, de longe, percebi que contavam uma história – disse ele. – Posso ouvir também?
Em resposta, Zendak estendeu o braço, correndo o polegar pela manga do casaco de Effi. Era de couro de veado e bem surrado, provavelmente um dos agasalhos oferecidos pela tribo no primeiro inverno de Bryke. Talvez pelo próprio xamã.
- Você pode ouvir – decidiu este, após alguns momentos. – Mas tem de ficar em silêncio. E manter essa... coisa o mais longe possível.
- Prometido – disse Effimon, o rosto inescrutável. Pousando o balde no chão, ele se sentou ao lado de Maryan, deixando que o xamã prosseguisse com a narrativa.
Kyara dos Lobos amava sua filha. Lamentava criá-la num lugar tão perigoso, longe da tribo e à mercê dos homens ricos que, além de tudo, estavam sempre lutando uns contra os outros. Mas mesmo assim Anna era feliz. Seus pais nunca a deixaram passar frio nem fome. Com as caçadas noturnas havia sempre carne, e das peles Kyara fazia agasalhos, como aprendera na juventude.
O último casaco que ela fez para Anna foi o melhor de todos. Foi pela época em que nossos jovens são aceitos numa das três Casas, aos quatorze anos. Se Anna estivesse aqui, eu a teria ajudado na jornada em busca do seu espírito protetor, e então o gravaria em sua pele para que sempre a acompanhasse; mas, onde elas estavam, Kyara não tinha como saber qual das Casas acolheria sua filha. Então, fez ela mesma uma jornada de caça. E aqui começa a verdadeira história.
- Como assim? Pensei que tivesse começado lá atrás – disse Maryan.
- Não. Até agora foi uma explicação para que você entendesse – replicou o xamã, imperturbável. – A história que eu vim contar não foi a de Kyara e Raymond, ou mesmo a de Anna, e sim a dessa jornada: a última caçada de minha prima antes da guerra que mudou sua vida. É nela que reside aquilo que eu realmente quero partilhar com você.
.....
Quase no fim... Não deixe de ler a conclusão!
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
O Primeiro Outono - parte 4
Na ponta das asas, o vento era um aviso para que tomasse o rumo do Oeste. Ele observou por um instante as copas das árvores – folhas vermelhas e alaranjadas, galhos nus – e deu uma guinada com o corpo, deixando-se apanhar em cheio pela corrente de ar. Assim, sem esforço, planou acima de um bom trecho da floresta, as árvores e as clareiras, as pedras, as grutas e a foz do Rio da Lontra.
Ali, a água se avolumava, enroscando-se entre as rochas em grossos redemoinhos de espuma, e ele soube que chovera nas terras altas do Norte e que essa chuva lhes traria boa pesca até o fim da estação. Então viria o Inverno, e seria dos mais frios, conforme podia ler no ar e sentir nos ossos. Ossos de elfo, ossos de pássaro. Nesse momento, ele podia se sentir como os dois.
Uma forma escura se moveu no canto de seu olho. Ele voltou a cabeça, apenas o suficiente para ver o falcão se aproximando por trás. Não tinha como alcançá-lo – ele era Zendak-Espírito, inatingível para as garras de um falcão de carne e osso – mas o hábito foi mais forte, e ele bateu furiosamente as asas, buscando a proteção de um choupo, como teria feito o Corvo-Zendak. Dali, viu o falcão dar meia-volta, procurando em vão pela ave negra que lhe cruzara o caminho, depois desistir, soltando um grito de raiva e frustração enquanto se afastava em direção às montanhas.
Zendak esperou alguns momentos antes de deixar o abrigo. O ar frio penetrava em seu bico, eriçava as penas, um incômodo que seria crescente ao longo das próximas luas. Os corvos de verdade já o sentiam e se preparavam para voar em busca de terras mais quentes, mas tudo que o xamã tinha a fazer era voltar ao seu corpo de elfo e se aquecer junto às fogueiras da tribo. Antes, porém, devia cumprir o que se propusera naquele Sonho – e assim ele voou mais uma vez, agora para o bosque de abetos ao sul do território, e se certificou da presença de um urso na toca que a família de texugos abandonara no Verão. Era um urso macho, solitário e próximo da velhice: exatamente o que precisava para aumentar as reservas de carne. Pois o Inverno prometia ser daqueles em que nem os melhores caçadores poderiam ter certeza do sucesso.
Depois de sobrevoar o local, marcando bem as direções na memória a fim de orientar o grupo de caça, ele voltou por um caminho diferente, fazendo um curto desvio para ver como estavam as coisas em Bryke. Ao contrário da tribo, que vivia nas árvores antigas e em cabanas de madeira, os aldeões tinham casas de pedra, e seu aspecto era ainda mais estranho visto de cima, com os tetos de palha trançada e aqueles cercados onde prendiam os animais. Os campos tinham sido ceifados e estavam vazios. Aqui e ali, numa oficina ou no caminho entre duas casas, avistavam-se umas poucas pessoas, quase todas vestidas como a tribo se vestiria no auge do Inverno, dali a duas luas.
E, por essa época, talvez alguns aceitassem partilhar a carne do urso.
Um voo curto e arrojado contra o vento o levou de volta à sua árvore. Era a mais antiga da floresta, suas formas moldadas e trabalhadas ao longo de séculos pela magia dos xamãs até que o tronco fosse capaz de servir de morada a uma família. Zendak, porém, o enchera com seus tesouros, passando a dormir na parte de cima, na cabana construída sobre galhos que servira a seus antecessores como espaço sagrado. Não fossem igualmente sagrados o sono e os Sonhos como o de agora.
Pois fora num Sonho, e não num Voo de verdade, que ele percorrera a floresta. Seu corpo ali estava, deitado numa esteira, o torso e os membros pintados e adornados com penas de corvo. Quando, acostumado às partidas e regressos, seu espírito mergulhou de volta, houve apenas um breve tremor de carne e ossos – e seus olhos de elfo se abriram a tempo de ver um vulto se debruçar sobre ele.
- Xamã! Quando voltou? – Era Okli, um dos jovens da Casa do Corvo que se revezavam acompanhando seus Sonhos. – Estava ali na entrada, aproveitando o resto de sol... posso ter desviado os olhos um instante, mas...
- Não se preocupe. Acabo de chegar – disse Zendak, esforçando-se para mover as pernas e os braços. Estavam pesados, as mãos e pés quase insensíveis contra a esteira áspera. Quanto tempo ficara assim?
- Três dias e duas noites – informou Okli, que estava agachado num canto, mexendo num cesto que cheirava a carne seca. – Vários de nós já estivemos aqui, olhando por seu corpo. Esta comida veio ao meio-dia. É da casa de seus primos Tak e Hengar.
Aproximou-se, oferecendo uma tigela de carne, frutas e bolinhos feitos de massa de pinhão. O cheiro fez Zendak perceber que estava faminto, mas mesmo assim ele comeu devagar, sabendo que, do contrário, seu corpo sentiria as conseqüências do esforço. Okli se sentou a seu lado, tentando, e não conseguindo, disfarçar seu fascínio por aquele que cruzava livremente as fronteiras do Sonho.
- Viu muita coisa, xamã? – perguntou, por fim. – Caça para o Inverno?
- Vamos ter o que precisarmos – tranqüilizou-o Zendak. – Mas também muito frio. O rio vai encher, talvez uma, talvez duas vezes antes que caia a neve. E há um urso vivendo a meio dia de viagem daqui.
- Ah, se a Casa do Corvo for caçar urso, eu vou junto. Quero uma garra para minha sacola de talismãs – disse o rapaz, passando a mão por trás do ombro para tocar a tatuagem recente. Ainda soltava casca, mas o fazia sentir-se um membro adulto da Casa do Corvo, apto a participar de um grupo de caça e conquistar um troféu. Eram as Casas que decidiam quem ficava com as presas e garras. Já a comida e as peles de vestir eram distribuídas pelas famílias de acordo com a necessidade, embora as Casas fossem consultadas em algumas situações. Zendak tivera de conversar com as três antes de fornecer comida e peles aos moradores de Bryke. Mas, desta vez, não precisaria chegar a tanto.
Pouco depois, ele chegava à cabana de Kyara. Achou-a sozinha, pois Anna fora brincar com as crianças da casa mais próxima e ficaria lá para comer. Não tinham ido a Bryke nesse dia, mas no anterior Anna insistira para que o fizessem, e Kyara finalmente ficara conhecendo a nova amiga do xamã.
- Ela foi gentil – disse. – Mas parece delicada, frágil até em comparação aos outros lá da aldeia. E para alguém que você diz ser tão inteligente é muito cabeça-dura. Cheia de frio, e não aceitou um bom casaco de pele.
- Você levou um casaco para ela? – fez o primo, incrédulo.
- Não, só ofereci. Tenho um sobrando, que era de Anna... a primeira Anna – esclareceu, uma nuvem passando-lhe pelos olhos. – Achei que seria um bom presente, uma retribuição, já que ela prometeu ensinar as letras à criança. Mas parece que vou ter que pensar em alguma outra coisa.
- Ou não. – Na cabeça de Zendak, ideias se cruzaram com a rapidez de um raio, gerando a faísca de outra idéia. – Creio que posso mudar isso, se você me contar mais a respeito desse casaco.
- Mais? – Kyara franziu a testa. – É um casaco. Foi de minha filha. O que mais posso dizer?
- Muito – respondeu o xamã, servindo-se de uma perna de coelho que fumegava num pote. – Enquanto se tratar de um casaco de pele, e apenas isso, Maryan não vai querê-lo. Mas, com a sua ajuda, talvez eu dê um jeito de transformá-lo numa história.
.....
Qual será a história de Zendak? Você vai saber se ler a Parte 5!
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