quinta-feira, 8 de setembro de 2011
O Primeiro Outono - parte 4
Na ponta das asas, o vento era um aviso para que tomasse o rumo do Oeste. Ele observou por um instante as copas das árvores – folhas vermelhas e alaranjadas, galhos nus – e deu uma guinada com o corpo, deixando-se apanhar em cheio pela corrente de ar. Assim, sem esforço, planou acima de um bom trecho da floresta, as árvores e as clareiras, as pedras, as grutas e a foz do Rio da Lontra.
Ali, a água se avolumava, enroscando-se entre as rochas em grossos redemoinhos de espuma, e ele soube que chovera nas terras altas do Norte e que essa chuva lhes traria boa pesca até o fim da estação. Então viria o Inverno, e seria dos mais frios, conforme podia ler no ar e sentir nos ossos. Ossos de elfo, ossos de pássaro. Nesse momento, ele podia se sentir como os dois.
Uma forma escura se moveu no canto de seu olho. Ele voltou a cabeça, apenas o suficiente para ver o falcão se aproximando por trás. Não tinha como alcançá-lo – ele era Zendak-Espírito, inatingível para as garras de um falcão de carne e osso – mas o hábito foi mais forte, e ele bateu furiosamente as asas, buscando a proteção de um choupo, como teria feito o Corvo-Zendak. Dali, viu o falcão dar meia-volta, procurando em vão pela ave negra que lhe cruzara o caminho, depois desistir, soltando um grito de raiva e frustração enquanto se afastava em direção às montanhas.
Zendak esperou alguns momentos antes de deixar o abrigo. O ar frio penetrava em seu bico, eriçava as penas, um incômodo que seria crescente ao longo das próximas luas. Os corvos de verdade já o sentiam e se preparavam para voar em busca de terras mais quentes, mas tudo que o xamã tinha a fazer era voltar ao seu corpo de elfo e se aquecer junto às fogueiras da tribo. Antes, porém, devia cumprir o que se propusera naquele Sonho – e assim ele voou mais uma vez, agora para o bosque de abetos ao sul do território, e se certificou da presença de um urso na toca que a família de texugos abandonara no Verão. Era um urso macho, solitário e próximo da velhice: exatamente o que precisava para aumentar as reservas de carne. Pois o Inverno prometia ser daqueles em que nem os melhores caçadores poderiam ter certeza do sucesso.
Depois de sobrevoar o local, marcando bem as direções na memória a fim de orientar o grupo de caça, ele voltou por um caminho diferente, fazendo um curto desvio para ver como estavam as coisas em Bryke. Ao contrário da tribo, que vivia nas árvores antigas e em cabanas de madeira, os aldeões tinham casas de pedra, e seu aspecto era ainda mais estranho visto de cima, com os tetos de palha trançada e aqueles cercados onde prendiam os animais. Os campos tinham sido ceifados e estavam vazios. Aqui e ali, numa oficina ou no caminho entre duas casas, avistavam-se umas poucas pessoas, quase todas vestidas como a tribo se vestiria no auge do Inverno, dali a duas luas.
E, por essa época, talvez alguns aceitassem partilhar a carne do urso.
Um voo curto e arrojado contra o vento o levou de volta à sua árvore. Era a mais antiga da floresta, suas formas moldadas e trabalhadas ao longo de séculos pela magia dos xamãs até que o tronco fosse capaz de servir de morada a uma família. Zendak, porém, o enchera com seus tesouros, passando a dormir na parte de cima, na cabana construída sobre galhos que servira a seus antecessores como espaço sagrado. Não fossem igualmente sagrados o sono e os Sonhos como o de agora.
Pois fora num Sonho, e não num Voo de verdade, que ele percorrera a floresta. Seu corpo ali estava, deitado numa esteira, o torso e os membros pintados e adornados com penas de corvo. Quando, acostumado às partidas e regressos, seu espírito mergulhou de volta, houve apenas um breve tremor de carne e ossos – e seus olhos de elfo se abriram a tempo de ver um vulto se debruçar sobre ele.
- Xamã! Quando voltou? – Era Okli, um dos jovens da Casa do Corvo que se revezavam acompanhando seus Sonhos. – Estava ali na entrada, aproveitando o resto de sol... posso ter desviado os olhos um instante, mas...
- Não se preocupe. Acabo de chegar – disse Zendak, esforçando-se para mover as pernas e os braços. Estavam pesados, as mãos e pés quase insensíveis contra a esteira áspera. Quanto tempo ficara assim?
- Três dias e duas noites – informou Okli, que estava agachado num canto, mexendo num cesto que cheirava a carne seca. – Vários de nós já estivemos aqui, olhando por seu corpo. Esta comida veio ao meio-dia. É da casa de seus primos Tak e Hengar.
Aproximou-se, oferecendo uma tigela de carne, frutas e bolinhos feitos de massa de pinhão. O cheiro fez Zendak perceber que estava faminto, mas mesmo assim ele comeu devagar, sabendo que, do contrário, seu corpo sentiria as conseqüências do esforço. Okli se sentou a seu lado, tentando, e não conseguindo, disfarçar seu fascínio por aquele que cruzava livremente as fronteiras do Sonho.
- Viu muita coisa, xamã? – perguntou, por fim. – Caça para o Inverno?
- Vamos ter o que precisarmos – tranqüilizou-o Zendak. – Mas também muito frio. O rio vai encher, talvez uma, talvez duas vezes antes que caia a neve. E há um urso vivendo a meio dia de viagem daqui.
- Ah, se a Casa do Corvo for caçar urso, eu vou junto. Quero uma garra para minha sacola de talismãs – disse o rapaz, passando a mão por trás do ombro para tocar a tatuagem recente. Ainda soltava casca, mas o fazia sentir-se um membro adulto da Casa do Corvo, apto a participar de um grupo de caça e conquistar um troféu. Eram as Casas que decidiam quem ficava com as presas e garras. Já a comida e as peles de vestir eram distribuídas pelas famílias de acordo com a necessidade, embora as Casas fossem consultadas em algumas situações. Zendak tivera de conversar com as três antes de fornecer comida e peles aos moradores de Bryke. Mas, desta vez, não precisaria chegar a tanto.
Pouco depois, ele chegava à cabana de Kyara. Achou-a sozinha, pois Anna fora brincar com as crianças da casa mais próxima e ficaria lá para comer. Não tinham ido a Bryke nesse dia, mas no anterior Anna insistira para que o fizessem, e Kyara finalmente ficara conhecendo a nova amiga do xamã.
- Ela foi gentil – disse. – Mas parece delicada, frágil até em comparação aos outros lá da aldeia. E para alguém que você diz ser tão inteligente é muito cabeça-dura. Cheia de frio, e não aceitou um bom casaco de pele.
- Você levou um casaco para ela? – fez o primo, incrédulo.
- Não, só ofereci. Tenho um sobrando, que era de Anna... a primeira Anna – esclareceu, uma nuvem passando-lhe pelos olhos. – Achei que seria um bom presente, uma retribuição, já que ela prometeu ensinar as letras à criança. Mas parece que vou ter que pensar em alguma outra coisa.
- Ou não. – Na cabeça de Zendak, ideias se cruzaram com a rapidez de um raio, gerando a faísca de outra idéia. – Creio que posso mudar isso, se você me contar mais a respeito desse casaco.
- Mais? – Kyara franziu a testa. – É um casaco. Foi de minha filha. O que mais posso dizer?
- Muito – respondeu o xamã, servindo-se de uma perna de coelho que fumegava num pote. – Enquanto se tratar de um casaco de pele, e apenas isso, Maryan não vai querê-lo. Mas, com a sua ajuda, talvez eu dê um jeito de transformá-lo numa história.
.....
Qual será a história de Zendak? Você vai saber se ler a Parte 5!
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Entrevista para a Revista "Fantástica"
Pessoas queridas,
Passo rapidinho para convidá-los a conferir o vídeo da minha entrevista concedida a Carol Chiovatto, da Revista "Fantástica", durante o Fantasticon 2011.
O evento foi sensacional, reencontrei e conheci muita gente boa e vi o que se publicou nos últimos tempos dentro do gênero. Também fiquei sabendo onde e como é a Biblioteca Viriato Correia, especializada em Literatura Fantástica; foi uma pena não ter conhecido nenhum dos bibliotecários, com quem quero trocar figurinhas acerca do gênero sendo usado em mediação de leitura. Mas isso virá.
Espero que todos os presentes tenham curtido tanto ou mais do que eu. E quem não foi este ano, não faz mal: em 2012 lá estaremos outra vez!
Grande abraço,
Ana Lúcia
domingo, 7 de agosto de 2011
O Primeiro Outono - parte 3
Um sonho como o de Odravas pode facilmente se transformar em pesadelo. Não para ele próprio, que baseara sua comunidade pioneira nas Terras Férteis e passava os dias descalço, ao sol, meditando e vez por outra colhendo ervas numa horta, mas para aqueles dentre seus seguidores que tinham ido além e se mudado para lugares como Bryke.
A floresta selvagem, o vento e o frio inclemente compunham o cenário em que se desenrolava cada ato do drama: o de rachar a lenha, com o cabo do machado abrasando as mãos, o de arrancar as ervas daninhas – os joelhos esmagados contra o solo frio, endurecido -, o de recolher, nas tardes que acabavam cada vez mais cedo, as cabras magras e ariscas para o cercado. O pesadelo continuava em suas tetas, sempre escapando das mãos, no esguicho incontrolável do leite e nas formas de queijo, que depois era preciso lavar na água gélida do rio. E o cheiro horrível que ficava nas roupas, por mais que as esfregasse? Pesadelo!
- É, Maryan... Acho que vamos ter de lhe arranjar outro trabalho – disse Effimon, ajoelhando-se ao lado dela. Um dos fundadores de Bryke, ele era o principal criador de cabras e queijeiro, o que não era de estranhar, pois já fazia esse trabalho nas Terras Férteis. Segundo Pylos, fora também o primeiro dentre eles a aceitar a carne oferecida pelos caçadores da tribo, e continuava a consumi-la sempre que havia oportunidade. Isso fizera Maryan olhá-lo com uma certa reserva, a princípio, mas agora simpatizava com seu jeito franco e direto, o brilho inteligente dos olhos e o sorriso fácil. A amizade, porém, não o impedira de apontar as falhas no seu trabalho – não por desleixo, apressara-se a afirmar, mas sim por completa falta de aptidão para aquelas tarefas.
- Alguns de nós não foram feitos para viver assim – disse ele, não pela primeira vez. Maryan lhe lançou um olhar de esguelha e não retrucou. Apenas ergueu o braço e bateu a peça de roupa contra as pedras, com toda a força, de forma a atirar partículas de espuma no rosto e no cabelo de Effi.
As sombras da tarde se alongavam quando deixou o rio. O cesto com a roupa lavada pesava sob o braço, mas mesmo assim Maryan decidiu passar primeiro pela oficina de cantaria. Pylos, que arrumava uma pilha de pedras junto com um aprendiz, sorriu e a saudou de longe, enquanto Narhi veio ao seu encontro, tendo em cada mão um copo cheio de um suco arroxeado.
- Como foi lá no Effi? – perguntou, enquanto Maryan provava a bebida. – O trabalho é difícil?
- Cansativo. Não me entendi muito bem com as cabras. – Torceu o nariz, examinando o interior do copo. – O que tem aqui? Amoras?
- Sim, e também bagas de urso, e framboesas, e uvas silvestres. Tudo que se encontra nos arbustos ao redor da aldeia. O que achou?
- Azedo – disse Maryan, e em seguida tomou um grande gole. – Mas não é tão ruim assim.
- É como a vida aqui em Bryke – disse a amiga, piscando o olho.
Maryan sorriu, cansada, e não respondeu. Não havia o que dizer diante desse tipo de comentário. Doce ou azeda, aquela era a realidade, ela teria que se adaptar se quisesse continuar ali. Principalmente achar uma ocupação em que se sentisse útil – e que, de preferência, não a deixasse dolorida, desgrenhada e enregelada dentro das roupas ainda cheirando a leite.
Momentos depois, Pylos deu o trabalho por terminado e dispensou o aprendiz. Narhi o ajudou a guardar as ferramentas e Maryan lavou os copos, após o que deixaram a oficina. Ficava aberta, como todos os locais de trabalho e produção em Bryke, sendo a única preocupação resguardá-la da chuva e da neve que cairia no inverno. Já a casa era mantida com a porta encostada, quando estavam ausentes – e a exclamação de Narhi, ao empurrá-la, fez Maryan saber que tinham visitas.
- Zendak! E... Anna! Mas que surpresa! – disse, em tom alegre. Maryan entrou em seguida e se deparou com o xamã sentado junto ao fogo, mexendo alguma coisa numa panela. Perto, de pernas cruzadas – e tendo no colo o livro subtraído por Zendak há dois dias - estava uma garotinha de quatro ou cinco anos, morena como a tribo, mas de aparência mais humana que élfica. Seu rosto, erguido para os recém-chegados, mostrava um sorriso tímido, que se ampliou ao ouvir o elogio de Narhi ao seu colar de contas.
- Foi Tikka que me deu. A avó fez flechas para ela – contou. – Ficaram muito boas.
- A avó dela é prima de Zendak – disse Narhi, dirigindo-se a Maryan – Nós conhecemos as duas na floresta, mas esta é a primeira vez que Anna nos visita. A que se deve essa honra?
- Vim devolver o livro – disse Zendak. – Mostrei para Anna, que gostou muito, mas fez perguntas que não sei responder. Acho que Maryan sabe.
- Perguntas? Que perguntas? – indagou a Mestra de Sagas. Foi como uma fórmula mágica: na mesma hora, a menininha se pôs a folhear o livro, apontando uma gravura aqui e outra ali enquanto desatava a tagarelar.
- Tem esses homens aqui. Viu só? Eles estão com lanças, mas Zendak disse que é um jogo e eu quero saber se eles são amigos e por que usam essa roupa engraçada. E aqui nessa folha tem um lobo com uma corda no pescoço. Ele está rosnando para um javali, mas se ele não se soltar o javali pode matar ele. Os dentes dele são muito...
- É um cão de caça – interrompeu Maryan.
Anna ergueu a cabeça e a fitou com olhos brilhantes, cheios de expectativa. Maryan se sentou a seu lado, no chão, e pegou o livro, pensando na melhor forma de explicar sobre cães e cavaleiros a quem jamais saíra da floresta.
- Você conhece lobos e pensou que este era um – disse, por fim. – Mas é outro animal: um cão. Nunca viu cães?
- Acho que não.
- Tudo bem. São animais que vivem perto das pessoas, como as nossas cabras, mas são parentes dos lobos e comem carne. Alguns são treinados para ajudar os homens a caçar. Eles estão assim, presos em coleiras – apontou – mas vão ser soltos logo, ou então os homens que estão ali perto vão matar o javali. Entendeu? Os cães ajudam os homens.
- Elfos também? –perguntou Anna.
- Não, elfos não costumam ter cães. Nem caçam, no lugar de onde eu venho. Só os que são das tribos, nas floretas como a dos Teixos.
- E tem outras florestas? – admirou-se a criança.
- Tem! Espere um momento. – Levantou-se, indo até a pilha de livros e escolhendo um volume. Sentou-se de novo ao lado de Anna e o abriu na primeira página, ilustrada com um mapa de Athelgard.
- Aqui, está vendo? Todos nós vivemos nesta terra, e nela existem florestas, montanhas e cidades. Eu vim desta aqui, Kalket, nas Terras Férteis. Agora, estamos na Floresta dos Teixos. – Pegou a mão da menina, fazendo-a acompanhar o trajeto. – É longe, não é? E, veja, tem outras florestas, e em algumas vivem tribos parecidas com a sua.
- E outras diferentes, como os Lobos Cinzentos e Ursos Negros – intrometeu-se o xamã. – Não se esqueça delas.
- Ora, não esqueci – replicou Maryan. – Só não posso dizer tudo de uma vez.
- E já disse muita coisa – sorriu Pylos. – Você se entusiasmou, Maryan. Até esqueceu que estávamos aqui.
- Entendeu por que dissemos que deve esperar pelas crianças e começar a escola? – perguntou Narhi. Maryan a encarou, tentando retrucar, mas, antes que conseguisse, já um dedinho curioso lhe espetava o braço.
- Como é que as pessoas sabem onde é para desenhar cada floresta?
- Xiii... Isso vai longe. É melhor comermos primeiro – disse Narhi. – O que você tem aí, Zendak?
- Cogumelos e algumas raízes. – Ergueu a panela, mostrando o conteúdo acastanhado e aromático. – Cozinhei com umas ervas para dar mais gosto.
- Ótimo! Vou pegar verduras. Pode trazer o pão e o queijo, Maryan?
- Claro, mas para vocês – disse a amiga, pondo-se de pé. – Já vi o bastante de queijo e leite por hoje.
- Imagino. – Narhi franziu o nariz. – Vai voltar lá amanhã?
- Não sei – respondeu Maryan, com um suspiro. – Creio que Effimon não ficou impressionado com o meu trabalho.
- Mas tem alguém que ficou – disse Pylos.
Inclinando a cabeça, ele apontou para Anna, que continuava concentrada no exame do mapa. Seu dedo corria sobre as linhas e, às vezes, os lábios se moviam, como se falasse consigo mesma. Não havia como ouvi-la, mas, conhecendo as crianças, Maryan sabia que estava fazendo perguntas, e que nem sua imaginação nem sua inteligência poderiam encontrar sozinhas todas as respostas.
E, conhecendo a si mesma, compreendeu que acabara de encontrar pelo menos uma ocupação para o inverno.
.....
É hora de dar uma respirada. Mas não se esqueça de voltar para a Parte 4!
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
O Primeiro Outono - Parte 2
Se alguém lhe perguntasse, Zendak não teria dificuldade em admitir seu gosto pelas coisas curiosas. Nem sempre brilhantes, às vezes nem mesmo bonitas: essas coisas o atraíam por ser diferentes, porque o faziam pensar e entender o mundo de um jeito como nunca o vira antes. Com as pessoas também era assim, por isso ficou tão feliz com a chegada dos seguidores de Odravas. Dos próprios corpos, com pele clara e cabelo reluzente, às casas de pedra cheias de objetos que desconhecia, eles eram um desafio, um enigma que o xamã se dedicara a decifrar naqueles últimos anos e que, mesmo agora, continuava a estimular sua mente.
Aquele livro, por exemplo. Vendo as gravuras e fazendo duas perguntas, já aprendera coisas novas, e sabia exatamente com quem devia partilhá-las. E havia a recém-chegada, com seus olhos cinzentos, a determinação patente na maneira como se enrolava na manta e mordia o pão queimado, coberto pela coisa repulsiva feita de leite.
Sim, ele queria saber mais sobre ela.
Esse era mais um motivo para fazer o que pretendia fazer agora.
O ruído da cascata foi crescendo à medida em que Zendak se aproximava da cabana de Kyara. Três anos atrás, para surpresa dos que a julgavam morta ou perdida para sempre, sua prima retornara de uma longa estada entre os humanos, trazendo a neta ainda bebê para que crescesse em meio à tribo. Os parentes se ofereceram para alojá-las, mas, talvez por precisar de algum tempo a sós, ela preferiu ocupar a antiga cabana junto à queda d’água, que costumava ser usada para defumar peixe antes que a tribo descobrisse um lugar melhor rio abaixo. Os cantos ainda cheiravam levemente a fumaça, mas o ambiente era limpo e seco, enfeitado com móbiles e pinturas feitas pela criança.
Anna estava prestes a passar pelo seu quarto inverno. Tinha olhos como os dos elfos, grandes e oblíquos; usava tranças e roupas de couro macio, como qualquer menina da tribo, mas seu rosto era inequivocamente humano. Zendak a encontrou sentada à frente da casa, junto a um cesto cheio de penas que separava em outros dois, menores. Em um, as penas longas e retas que serviriam para emplumar flechas; em outro, as pequenas, destinadas a adornos e outros fins.
- Guarde essa aí – disse Zendak, vendo-a pegar uma pena marrom. – Com ela posso cantar e transformar você numa corujinha.
- Pode nada! E a avó, como fica? – replicou a menina. Estava rindo, mas nesse riso havia uma ponta de desconfiança. Ninguém jamais sabia quando Zendak falava a sério.
- Tenho uma coisa para você ver. – Sentou-se ao lado dela, pousando o livro no colo, e o abriu ao acaso. – O que acha dessas pinturas?
- Bonitas. Quem é esse aqui? – perguntou Anna, apontando um dos homens a cavalo. – Que bicho é esse na roupa dele?
- Não sei – admitiu Zendak. – Um lagarto?
- Não é lagarto não, porque tem asas. - Anna franziu a testa, pensou por um momento antes de passar a outra página. Outro mistério.
- Essa lança é muito comprida. É para tirar urso da toca?
- Eu soube que é um jogo – respondeu o xamã. – Dois homens a cavalo com lanças, um tenta derrubar o outro.
- Mas ninguém se machuca? – tornou a criança. – Eles são amigos?
- Não sei – disse Zendak, de novo. – Mas conheço uma pessoa – a pessoa que me emprestou esse livro – que pode explicar tudo isso a nós dois. O que você acha?
- Eu quero! – exclamou Anna, com vivacidade. – Me leva lá?
- Levar onde? – perguntou a avó, surgindo à porta da cabana. No frio matinal, usava uma túnica sem mangas e calças de couro, que, embora recém-lavadas, exibiam manchas acastanhadas deixadas pelo sangue de animais. Kyara sempre fora boa caçadora. Quando menino, Zendak ouvira inúmeros elogios à sua habilidade, mas estes se transformaram em lamento quando, seguindo o rastro de um cervo, a prima desaparecera na floresta. Várias causas tinham sido imaginadas, mas, depois de muita discussão, não conseguiram decidir se o mais provável fora uma queda ou um urso.
Foi dificil acreditar que Kyara houvesse partido com um homem.
O casamento fora feliz, mas terminara abruptamente em meio a uma guerra, e a filha que poderia tê-la confortado morrera dando à luz a pequenina Anna. Zendak sabia que, ao trazer a neta para a floresta, Kyara não queria apenas lhe dar uma família, mas também mantê-la a salvo de outras guerras, atrocidades e injustiças que vira nas terras humanas. No entanto, não havia como mantê-la para sempre alheia à sua herança. Era nisso que ele pensava ao trazer o livro.
Kyara folheou as páginas em silêncio enquanto ouvia seus argumentos. Não o interrompeu, porque ninguém interrompia o xamã, mas sua contrariedade era visível na expressão e nos gestos. Ainda assim, o que ele dizia fazia todo sentido, por isso ela pensou bem antes de dar uma resposta evasiva.
- Eu não sei se Anna tem idade para ouvir sobre essas coisas – disse, por fim. – O mundo é grande, mas é cheio de perigos. Enquanto ela é criança...
- Exatamente. O mundo é grande – replicou Zendak. – É bom que ela comece a conhecê-lo desde já. E que seja através dos elfos de Bryke, porque eles têm todas essas coisas – os mapas, os livros, as lunetas – e são boa gente, que veio procurando paz e não guerra. Nós não sabemos muito sobre o mundo além da floresta, e os homens – encolheu os ombros – bom, ela terá de conviver com eles um dia, então é melhor que vá aprendendo um pouco a esse respeito.
- Por que insiste nisso? – indagou Kyara, franzindo o cenho. – Por que fica dizendo que ela terá de conviver com os homens?
- Por quê? É só olhar para ela. – Zendak fez um carinho no cabelo de Anna, traçou o contorno de sua orelha com o dedo. – Hoje ela é uma criança, mas imagine-a daqui a quinze, vinte... ou, digamos, cinqüenta anos. Conforme for crescendo, ela irá perceber cada vez mais que é diferente de todos aqui, e quando envelhecer será mais ainda. É claro – apressou-se a acrescentar – sua neta pode acabar concluindo que prefere ficar entre nós, voltar para a floresta e ser feliz, e isso vai ser ótimo para todos. Mas antes disso ela tem que cruzar o rio. Tem que conhecer outros da mesma raça. E é melhor que se prepare bem antes de ir.
- Hunf! Não sei no que isso pode ajudar – Kyara fungou, afetando desprezo. – Os homens não são como nós. Não importa o que digam, nunca se sabe o que estão pensando. Muito menos o que farão.
- Pode ser. Mas, se Anna souber como eles vivem, conhecer os costumes e as histórias deles, isso será melhor do que nada. Além disso, é bom que conheça também as pessoas de Bryke. Não vejo tão longe para saber como ela irá crescer – disse, em tom reflexivo. – Mas longe o bastante para saber que nós e os elfos brilhantes seremos cada vez mais um único povo.
- Seremos. Se você continuar a alimentá-los no inverno.
- Eles me alimentam também – sorriu o xamã. – Alimentam meus pensamentos. Bom, e então? Posso levar Anna até a vila?
- Levaria de qualquer jeito – resmungou Kyara. – Mas não a deixe chegar perto das cabras. Não confio naqueles chifres. E preste atenção em tudo que aquela gente disser a ela.
- Serei todo ouvidos – prometeu Zendak.
.....
O xamã vai lá. E você? Corra para a Parte 3!
terça-feira, 26 de julho de 2011
O Primeiro Outono - parte 1
Este conto faz parte de uma série de histórias envolvendo Zendak, xamã da Tribo da Floresta dos Teixos, e Maryan, mestra de sagas e seguidora de Odravas. São inspiradas na música (brasileira e não muito recente) que para mim é o tema do casal. Daqui ao fim da série, quem acertar qual é ganha um brinde surpresa do Castelo das Águias ;)
O Primeiro Outono
Da terra, junto à terra e com os filhos da terra. Fora sua decisão viver assim, e não desistiria. De sua casa em Kalket, com os pórticos sustentados por colunas de pedra e o jardim de videiras, até a vila de Bryke, tivera quase duas luas para refletir: tempo bastante para decidir que cumpriria seu propósito de viver numa comunidade Odravas. Seria difícil, principalmente nos primeiros tempos, mas lá estavam seus amigos, pessoas que tinham ido antes e aberto caminho, e todos afirmavam estar bem e felizes.
E de fato estavam – felizes por haver sobrevivido ao inverno, por contar com a ajuda da tribo local e assim não morrer de frio e de fome, por ter um teto sobre as cabeças e, ao final de quatro anos, algumas cabras, hortas e a maioria dos sonhos intactos. Tinham o que sempre buscaram, a vida simples e frugal recomendada pelo sábio Odravas.
Ele jamais dissera que seria fácil.
Maryan se embrulhou na manta antes de levantar. Fazia frio no cômodo, usado como sala e cozinha pelos amigos e que, desde sua chegada há três dias, servia-lhe também como quarto improvisado. Pylos e Narhi dormiam num aposento anexo, que recebia o sol da manhã. Saíam cedo para ordenhar as cabras e abrir a oficina de cantaria. Eram as únicas pessoas em Bryke a saber talhar pedra, por isso forneciam blocos para todas as construções, uma ironia quando se pensava que ambos eram arquitetos de renome nas Terras Férteis. Agora tinham calos nas mãos como qualquer trabalhador. Nascemos todos nus, a natureza nos quer iguais, dizia Odravas.
De joelhos no chão, Maryan avivou as brasas da lareira e as alimentou com musgo e gravetos. Encaixou uma grade de ferro em dois suportes pouco acima do fogo e sobre ela pôs uma fatia de pão coberta com queijo de cabra. Enquanto esperava que derretesse, fez suas abluções – a água fria, sempre fria, do Rio da Lontra – e foi até a janelinha lateral para jogar fora o conteúdo do jarro. Então, ainda embrulhada na manta, virou-se para conferir o desjejum.
E ali, de pé, no meio do cômodo, deparou-se com um dos elfos da tribo.
O susto só não foi maior porque Maryan já conhecera alguns deles, e além disso sabia que eram amistosos e solícitos com as pessoas de Bryke. Mesmo assim, a presença inesperada a fez recuar. O elfo sorriu, seus dentes muito brancos em contraste com a pele morena e – agora ela percebia – marcada com tatuagens sobre o olho direiro e na face esquerda. O olho era circundado com um sombreado cuidadoso, e no rosto havia um símbolo que lembrava uma asa. Todo o conjunto era emoldurado por cabelos negros e longos, enfeitados com penas pintalgadas de branco e preto. O xamã da Casa do Corvo, pensou Maryan, lembrando do que os amigos tinham contado sobre ele. Era a pessoa a quem deviam sua sobrevivência no primeiro e terrível inverno.
E, segundo afirmavam, a criatura mais desconcertante do mundo.
- Acho que a assustei. Sinto muito – disse ele, sem deixar de sorrir. – Entro sem avisar porque sou amigo de Narhi e Pylos. Meu nome é Zendak.
- Sou Maryan – disse ela, sem saber como cumprimentá-lo. A saudação dos elfos brilhantes era um toque das mãos abertas, a dos Odravas um beijo, mas o xamã não era uma coisa nem outra. Por fim, ela decidiu oferecer a mão, unindo sua pele delicada à palma áspera de Zendak.
- Seu toque é macio – comentou ele. – Você não corta pedra como Narhi. Você cria esses, ahn... cabras?
- Não, eu...
- Que bom! Eu não gosto daquilo ali – torceu o nariz para seu desjejum, que borbulhava na lareira. Maryan se apressou a retirá-lo do fogo, usando um garfo longo, e colocá-lo num prato, não sem antes perceber que a parte de baixo estava inteiramente queimada. Zendak, enquanto isso, se abaixara e folheava um dos livros que ela deixara no chão, olhando com interesse para as gravuras.
- Quem é essa gente? – apontou. – Humanos, estou vendo, mas e essas roupas?
- São cavaleiros do País do Norte. Essas roupas se chamam armaduras. São só para lutar – disse Maryan. – Em batalha ou em torneios.
- Torneios?
- Jogos. Um tenta derrubar o outro do cavalo.
- Parece divertido. Nós gostamos de jogos por aqui. Temos um parecido com esse, de derrubar o rival, mas é com troncos no rio e não com cavalos - disse o xamã. Sob os cílios longos, seus olhos tinham um brilho vivo, inteligente e, de alguma forma, cheio de calor. Maryan decidiu que simpatizava com ele.
- Vou comer, se não se importa – disse, e mordeu estoicamente o pão queimado. – Posso lhe oferecer alguma coisa? Frutas?
- Este livro? – ele a surpreendeu, erguendo o volume. – Eu tenho alguém a quem mostrar as gravuras.
- Oh, bem, elas são muito bonitas – disse Maryan, engolindo em seco. – Eu o daria, mas é que o livro foi um presente... de um de meus mestres, sabe, nas Terras Férteis. Eu não poderia...
- Eu devolvo – disse Zendak.
Com uma rapidez e uma decisão que a impediram de reagir, ele fechou o pesado livro nórdico, meteu-o sob o braço e saiu, só se voltando por um momento a fim de sorrir para Maryan. O que foi isso, ela pensou, aturdida. Era como se não lidasse com uma pessoa e sim com a chuva ou o vento. Qualquer força imprevisível da natureza.
Mais tarde, comendo com os amigos que tinham retornado da oficina – queijo e pão, mais uma vez, acompanhados de legumes e pinhões – Maryan contou sobre seu estranho visistante e o livro do qual ele se apossara sem que ela houvesse chegado a concordar. Fez dessa uma história divertida, pois era assim que lhe parecia agora. No entanto, não deixou de lamentar a perda do livro, ao que a opinião dos amigos se mostrou dividida.
- Ele vai devolver – disse Pylos. – As gravuras o deixaram curioso, mas o livro não tem nenhuma utilidade para ele.
- Por outro lado, Zendak tem várias coisas que não lhe servem de nada – ponderou Narhi. – Ele mesmo disse: “sou um corvo, gosto de tudo que brilha”. Lembra da cabana dele, no alto da árvore-mãe?
- Lembro. De fato, é cheia de coisas que ele provavelmente não vai usar. No entanto, eu não me preocuparia se fosse você – disse Pylos, dirigindo-se a Maryan. – Tudo para a tribo se baseia em trocas... se Zendak achar por bem ficar com o livro, vai aparecer com algum presente, e pode acreditar que vai ser alguma coisa da qual você precisará vivendo aqui. Um manto de inverno, por exemplo.
- Não vou usar isso – protestou Maryan. – Tenho mantas excelentes, que vão durar anos, e Bryke já conta com dois ou três tecelões. Não preciso me cobrir com peles de animais!
- Pensávamos assim quando chegamos – disse Narhi, balançando a cabeça. – Nenhum de nós queria usar as peles, nem comer a caça que eles abatiam. No fim do inverno, eram poucos os que tinham conseguido ficar sem prová-la.
- Bom, vocês não tiveram tempo de construir as estufas – argumentou Maryan, com teimosia. – Agora já dispõem de legumes e frutas, sem falar no centeio, que, segundo eu soube, deu muito bem este ano. A propósito, quando poderei começar a fazer alguma coisa? Nunca trabalhei com a terra, mas acho que não terei dificuldade em aprender.
- Certamente não. Mas é cedo para você se comprometer com alguma coisa – respondeu Narhi. – Se fosse artesã, seria diferente, mas uma mestra de sagas... Achamos que é melhor experimentar vários trabalhos antes de se decidir por um.
- E tem o plano da escola – lembrou Pylos. – Se aquele grupo de Erchedel vier mesmo para cá, serão cerca de vinte crianças. Precisaremos de quem se encarregue da educação deles, e você faria isso melhor do que ninguém.
- Talvez. Mas, se vierem, será no verão, e ainda estamos no outono. Preciso fazer alguma coisa nesse meio-tempo.
- É claro. Mas não precisa ter pressa – disse Pylos. – A necessidade cria a ação, como ensina Odravas. Quando menos esperar, você estará realizando alguma coisa.
.....
Novos e interessantes personagens te esperam na Parte 2!
O Primeiro Outono
Da terra, junto à terra e com os filhos da terra. Fora sua decisão viver assim, e não desistiria. De sua casa em Kalket, com os pórticos sustentados por colunas de pedra e o jardim de videiras, até a vila de Bryke, tivera quase duas luas para refletir: tempo bastante para decidir que cumpriria seu propósito de viver numa comunidade Odravas. Seria difícil, principalmente nos primeiros tempos, mas lá estavam seus amigos, pessoas que tinham ido antes e aberto caminho, e todos afirmavam estar bem e felizes.
E de fato estavam – felizes por haver sobrevivido ao inverno, por contar com a ajuda da tribo local e assim não morrer de frio e de fome, por ter um teto sobre as cabeças e, ao final de quatro anos, algumas cabras, hortas e a maioria dos sonhos intactos. Tinham o que sempre buscaram, a vida simples e frugal recomendada pelo sábio Odravas.
Ele jamais dissera que seria fácil.
Maryan se embrulhou na manta antes de levantar. Fazia frio no cômodo, usado como sala e cozinha pelos amigos e que, desde sua chegada há três dias, servia-lhe também como quarto improvisado. Pylos e Narhi dormiam num aposento anexo, que recebia o sol da manhã. Saíam cedo para ordenhar as cabras e abrir a oficina de cantaria. Eram as únicas pessoas em Bryke a saber talhar pedra, por isso forneciam blocos para todas as construções, uma ironia quando se pensava que ambos eram arquitetos de renome nas Terras Férteis. Agora tinham calos nas mãos como qualquer trabalhador. Nascemos todos nus, a natureza nos quer iguais, dizia Odravas.
De joelhos no chão, Maryan avivou as brasas da lareira e as alimentou com musgo e gravetos. Encaixou uma grade de ferro em dois suportes pouco acima do fogo e sobre ela pôs uma fatia de pão coberta com queijo de cabra. Enquanto esperava que derretesse, fez suas abluções – a água fria, sempre fria, do Rio da Lontra – e foi até a janelinha lateral para jogar fora o conteúdo do jarro. Então, ainda embrulhada na manta, virou-se para conferir o desjejum.
E ali, de pé, no meio do cômodo, deparou-se com um dos elfos da tribo.
O susto só não foi maior porque Maryan já conhecera alguns deles, e além disso sabia que eram amistosos e solícitos com as pessoas de Bryke. Mesmo assim, a presença inesperada a fez recuar. O elfo sorriu, seus dentes muito brancos em contraste com a pele morena e – agora ela percebia – marcada com tatuagens sobre o olho direiro e na face esquerda. O olho era circundado com um sombreado cuidadoso, e no rosto havia um símbolo que lembrava uma asa. Todo o conjunto era emoldurado por cabelos negros e longos, enfeitados com penas pintalgadas de branco e preto. O xamã da Casa do Corvo, pensou Maryan, lembrando do que os amigos tinham contado sobre ele. Era a pessoa a quem deviam sua sobrevivência no primeiro e terrível inverno.
E, segundo afirmavam, a criatura mais desconcertante do mundo.
- Acho que a assustei. Sinto muito – disse ele, sem deixar de sorrir. – Entro sem avisar porque sou amigo de Narhi e Pylos. Meu nome é Zendak.
- Sou Maryan – disse ela, sem saber como cumprimentá-lo. A saudação dos elfos brilhantes era um toque das mãos abertas, a dos Odravas um beijo, mas o xamã não era uma coisa nem outra. Por fim, ela decidiu oferecer a mão, unindo sua pele delicada à palma áspera de Zendak.
- Seu toque é macio – comentou ele. – Você não corta pedra como Narhi. Você cria esses, ahn... cabras?
- Não, eu...
- Que bom! Eu não gosto daquilo ali – torceu o nariz para seu desjejum, que borbulhava na lareira. Maryan se apressou a retirá-lo do fogo, usando um garfo longo, e colocá-lo num prato, não sem antes perceber que a parte de baixo estava inteiramente queimada. Zendak, enquanto isso, se abaixara e folheava um dos livros que ela deixara no chão, olhando com interesse para as gravuras.
- Quem é essa gente? – apontou. – Humanos, estou vendo, mas e essas roupas?
- São cavaleiros do País do Norte. Essas roupas se chamam armaduras. São só para lutar – disse Maryan. – Em batalha ou em torneios.
- Torneios?
- Jogos. Um tenta derrubar o outro do cavalo.
- Parece divertido. Nós gostamos de jogos por aqui. Temos um parecido com esse, de derrubar o rival, mas é com troncos no rio e não com cavalos - disse o xamã. Sob os cílios longos, seus olhos tinham um brilho vivo, inteligente e, de alguma forma, cheio de calor. Maryan decidiu que simpatizava com ele.
- Vou comer, se não se importa – disse, e mordeu estoicamente o pão queimado. – Posso lhe oferecer alguma coisa? Frutas?
- Este livro? – ele a surpreendeu, erguendo o volume. – Eu tenho alguém a quem mostrar as gravuras.
- Oh, bem, elas são muito bonitas – disse Maryan, engolindo em seco. – Eu o daria, mas é que o livro foi um presente... de um de meus mestres, sabe, nas Terras Férteis. Eu não poderia...
- Eu devolvo – disse Zendak.
Com uma rapidez e uma decisão que a impediram de reagir, ele fechou o pesado livro nórdico, meteu-o sob o braço e saiu, só se voltando por um momento a fim de sorrir para Maryan. O que foi isso, ela pensou, aturdida. Era como se não lidasse com uma pessoa e sim com a chuva ou o vento. Qualquer força imprevisível da natureza.
Mais tarde, comendo com os amigos que tinham retornado da oficina – queijo e pão, mais uma vez, acompanhados de legumes e pinhões – Maryan contou sobre seu estranho visistante e o livro do qual ele se apossara sem que ela houvesse chegado a concordar. Fez dessa uma história divertida, pois era assim que lhe parecia agora. No entanto, não deixou de lamentar a perda do livro, ao que a opinião dos amigos se mostrou dividida.
- Ele vai devolver – disse Pylos. – As gravuras o deixaram curioso, mas o livro não tem nenhuma utilidade para ele.
- Por outro lado, Zendak tem várias coisas que não lhe servem de nada – ponderou Narhi. – Ele mesmo disse: “sou um corvo, gosto de tudo que brilha”. Lembra da cabana dele, no alto da árvore-mãe?
- Lembro. De fato, é cheia de coisas que ele provavelmente não vai usar. No entanto, eu não me preocuparia se fosse você – disse Pylos, dirigindo-se a Maryan. – Tudo para a tribo se baseia em trocas... se Zendak achar por bem ficar com o livro, vai aparecer com algum presente, e pode acreditar que vai ser alguma coisa da qual você precisará vivendo aqui. Um manto de inverno, por exemplo.
- Não vou usar isso – protestou Maryan. – Tenho mantas excelentes, que vão durar anos, e Bryke já conta com dois ou três tecelões. Não preciso me cobrir com peles de animais!
- Pensávamos assim quando chegamos – disse Narhi, balançando a cabeça. – Nenhum de nós queria usar as peles, nem comer a caça que eles abatiam. No fim do inverno, eram poucos os que tinham conseguido ficar sem prová-la.
- Bom, vocês não tiveram tempo de construir as estufas – argumentou Maryan, com teimosia. – Agora já dispõem de legumes e frutas, sem falar no centeio, que, segundo eu soube, deu muito bem este ano. A propósito, quando poderei começar a fazer alguma coisa? Nunca trabalhei com a terra, mas acho que não terei dificuldade em aprender.
- Certamente não. Mas é cedo para você se comprometer com alguma coisa – respondeu Narhi. – Se fosse artesã, seria diferente, mas uma mestra de sagas... Achamos que é melhor experimentar vários trabalhos antes de se decidir por um.
- E tem o plano da escola – lembrou Pylos. – Se aquele grupo de Erchedel vier mesmo para cá, serão cerca de vinte crianças. Precisaremos de quem se encarregue da educação deles, e você faria isso melhor do que ninguém.
- Talvez. Mas, se vierem, será no verão, e ainda estamos no outono. Preciso fazer alguma coisa nesse meio-tempo.
- É claro. Mas não precisa ter pressa – disse Pylos. – A necessidade cria a ação, como ensina Odravas. Quando menos esperar, você estará realizando alguma coisa.
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Novos e interessantes personagens te esperam na Parte 2!
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Passando o Bastão da Palavra...
Queridos Amigos e Leitores,
Aproveitando o ensejo de que ficarei fora uns dias - e neles irei a lugares que certamente vão inspirar novas histórias - hoje sigo um velho costume tribal e passo a vocês o bastão da palavra. Ou seja, é a sua vez de falar...!
Quero saber de vocês, visitantes contumazes ou não, o que gostariam de encontrar aqui neste blog (o livro a R$ 9,90 não vale, evidentemente). A sério: para fazer deste um espaço legal, informativo e participativo, como pretendo que seja, quero que me deem algum retorno. Por exemplo:
- O que vocês preferem ler: informações sobre o universo e os personagens ou os contos paralelos, como "O Fogo Interior"?
- Para quem já leu O Castelo das Águias: que personagem secundário, independente de o ter achado bem desenvolvido ou não no livro, você gostaria que fosse apresentado aqui (tal como apresentamos Rydel, Camdell e Lara, entre outros)?
- Para quem, tendo lido ou não, tem pelo menos uma ideia de como é: alguma sugestão de tema para um conto?
- Last, but not least: estou pensando em promover um concurso de fanfic e fanart do Castelo, dentro de certas regras relativas à coerência com o texto cânone e à adequação etária, já que tenho leitores de 12 e 13 anos de idade. Naturalmente haveria premiação - livros (não apenas o Castelo), camisetas e marcadores - e publicação no blog das histórias e desenhos vencedores.
Quero saber de vocês se gostam da ideia, se se gostariam de participar e principalmente se dariam uma força na divulgação, seja em seus blogs, nas redes sociais, para seus filhos, sobrinhos, alunos... Afinal, como devem saber, não há nada melhor do que o boca-a-boca para promover esse tipo de iniciativa!
Então, pessoal, é isso. Adoraria que se manifestassem, respondessem a estas perguntas, enfim, sinalizassem o que seria, para vocês, a melhor forma de aproveitar este espaço. Se não quiserem ou puderem, tudo bem; as sementes foram plantadas. Se são rosas, florescerão.
Grande abraço,
Até breve!
Crédito da imagem:
Maurício Ferreiraa Artesão (Loja virtual)
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Lara de Kalket
De todos os magos que Anna de Bryke conhece no Castelo das Águias, Lara é a que, de início, lhe parece mais enigmática. Meio-elfa, tem um aspecto frágil, e de fato parece ser protegida pelos outros mestres, principalmente Kieran, Thalia e o próprio Mentor Camdell.
Uma das possíveis explicações para isso surge quando Anna fica sabendo que Lara foi casada com Hillias , o mago de cabelos dourados que é também um Mestre de Combate na Escola de Guerra de Scyllix. O casamento não deu certo, e seu final parece ter envolvido outras pessoas e outras questões além do próprio relacionamento do casal - questões ligadas à Magia dos Nomes, especialidade de Lara, e ao domínio das águias guerreiras. Ou será que as coisas entre Lara e Hillias não chegaram, de fato, a um final?
Só existe uma forma de descobrir... Lendo O Castelo das Águias!
Lara de Kalket é retratada aqui pelo traço da primeira artista que alguma vez se ocupou de meus personagens: minha irmã, Luiza Merege. Aguardamos comentários. ;)
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