segunda-feira, 17 de julho de 2017

O Eterno Retorno (Parte 3)

O fio de lã torcida estava disfarçado por folhas tão vermelhas como ele, mas mesmo assim visível a olhos atentos. Estava amarrado a um galho baixo, como um lembrete – um jeito de marcar uma trilha, de não se perder, como todas as crianças da tribo eram ensinadas desde cedo. Só que nenhuma criança da tribo, ao que ela se lembrava, usava aquele fio vermelho para amarrar as tranças ou costurar as roupas, a não ser aquela que Kyara conhecia tão bem.
Anna...! O que ela podia estar fazendo ali?
Como um mapa que brotasse da terra, os caminhos da floresta se desenharam na mente de Kyara. A trilha onde as crianças faziam coleta ficava longe, não se ligando, de forma alguma, ao Passo das Lebres. Anna teria visto alguma coisa que a assustou, fazendo-a fugir? E, se tivesse sido isso, por que não correra para junto da tribo e sim na direção oposta? E os outros – Tyshen, Lila, o pequeno Torak, que andava atrás de Tyshen e ecoava tudo que ele dizia – estariam com ela?
Aflita até os ossos, mas tentando manter a calma da qual tudo dependia, Kyara procurou os rastros dos pequenos pés calçados em mocassins. Nada: a chuva os tinha lavado, como lavara as pegadas deixadas pelo homem a partir dali. Ela se ergueu de novo, torcendo as tranças encharcadas, e tentou pensar. Anna talvez houvesse corrido sem ver para onde, mas depois se detivera para amarrar o fio, e isso era bom sinal: o que quer que a tivesse assustado acabara se distanciando, ao menos por algum tempo. Os outros também deviam estar bem, mas o provável é que estivessem todos perdidos, ou no mínimo confusos quanto às direções. Não costumavam vir para aqueles lados da floresta. Kyara caminhou ao redor da vereda, tentando achar mais sinais, e, não os encontrando, decidiu-se pelo caminho mais visível, o que ela teria seguido se fosse uma criança andando na chuva. O que mais poderia fazer?
Ajude-me, Lobo. A elfa se dirigiu ao Espírito que protegia sua Casa. Que Anna e os outros estejam em segurança, e que eu possa encontrá-los, ou que eles encontrem o caminho de volta. Sua voz era apenas um murmúrio, quase sumindo nas palavras finais ao se lembrar de como, anos atrás, ela fizera uma prece muito semelhante. Pedira ao Guardião que a ajudasse a achar o cervo que vinha rastreando, apesar da nevasca que a alcançara no caminho, apesar do cansaço de dois dias sem dormir e de estar fora do território da tribo. Em vez do cervo, porém, tinha encontrado aquela cabana, e nela estava Raymond de Pwilrie com seus olhos negros e belas mãos fortes. E dessa noite em diante sua vida nunca mais fora a mesma.
Kyara sacudiu a cabeça, espadanando água para os lados. Tinha de se concentrar no que importava, em achar Anna e as outras crianças e deixá-las a salvo antes de voltar a rastrear o caçador humano. A trilha que seguia, porém, era uma entre várias possíveis, e nada, a não ser sua intuição, garantia que fosse a certa. Ela se deteve, pensando em Lontra, que teria simpatia por uma avó em busca da neta, em Corvo, que mostrava novos caminhos, mas, acima de tudo, pensando sempre e ainda com mais força em Lobo. Precisava dele, e as crianças também, para que lhes desse coragem. Como elas deviam estar, pequenas, ainda inexperientes, perdidas em meio àquela chuva e com um homem andando pela floresta?
E de repente, como se o Guardião lhe desse um sinal, o som de uivos ecoou no ar. Ecoou por toda a floresta, rolando sobre as copas das árvores, mostrando-lhe a direção da qual provinha: o sudoeste, onde ficava a antiga trilha dos cervos, que a tribo usava muito pouco, mesmo quando ela era jovem. O caminho que a levara àquele encontro e a tudo que se seguiu. Kyara franziu a testa, sem acreditar que Lobo estivesse pedindo aquilo, e esperou um pouco, só para ouvir o som se repetindo ainda mais claro. Então, balançando a cabeça, rosnou uma imprecação para si mesma e marchou rumo ao lugar que preferiria não ter que ver de novo.
A chuva apertou por uns momentos, depois diminuiu, passando a cair mansamente sobre as árvores e a trilha. Kyara andava rápido, sem procurar por rastros, apenas seguindo os uivos que se repetiam de tempos em tempos. Aos poucos, embora tanto tempo houvesse decorrido, foi reconhecendo os marcos do caminho, pedras cobertas de limo antigo, árvores anciãs, uma nascente oculta entre arbustos onde os cervos se detinham para beber. Alguns, às vezes, ficavam presos ali pelas galhadas; ela ficara um pouco frustrada, da outra vez que passara ali, por não encontrar nenhum, embora soubesse que seria improvável um caçador da tribo chegar antes dos lobos e raposas. Agora, também, não havia sinal de cervos perto da nascente, nem pegadas de bota ou de mocassim, mas... o que eram aqueles rastros pesados, aquelas folhas amassadas ao redor dos arbustos? O que passara por ali havia apenas uns momentos, pelo que dizia sua experiência?
Um javali. Ela respirou fundo: nem precisava examinar o rastro, o cheiro dizia tudo. Um javali passara pela trilha, e devia ser um dos grandes. Kyara pegou a faca na bolsa de caça e foi naquela direção, as orelhas empinadas, atentas a qualquer ruído que pudesse indicar a presença do animal. Então, os lobos tornaram a uivar, e o estalo de gravetos partidos a fez olhar por cima do ombro, e todos os seus sentidos se aguçaram ao distinguir a mancha azul se movendo em meio às árvores.
-- Ei, você! Tenha cuidado! – gritou, sabendo, de alguma forma, que encontrara o dono das armadilhas e que ele estava em perigo. O homem se voltou, parecendo desorientado, e deu uns passos incertos em direção à elfa, deixando-a vislumbrar cabelos e barba brancos e um rosto vincado por inúmeras rugas. Ela arregalou os olhos, espantada -- e, no momento seguinte, um javali saiu do bosque de carvalhos à direita e partiu com toda a fúria para cima do caçador.
Kyara apertou a faca na mão e se precipitou sobre o animal. Não refletiu, não ponderou, apenas agiu. O velho correu, mas, ao contrário da elfa, era lento demais: o javali estava prestes a alcançá-lo quando Kyara saltou sobre ele empunhando a faca de caça. Pego de surpresa, o animal caiu, mas na mesma hora girou para o lado, quase conseguindo prendê-la sob o seu peso. Ao mesmo tempo, soltou um ronco forte e tentou mordê-la, uma das presas chegando a arranhar sua orelha antes que ela o golpeasse com força. Mirava o coração, e se o atingisse teria liquidado de uma vez o animal, mas a lâmina de obsidiana resvalou, indo se cravar num ponto mais abaixo. Então, antes mesmo que Kyara pensasse no próximo movimento, o som de alguém correndo pela relva molhada cresceu em seus ouvidos, e o javali berrou e estremeceu com o baque de um corpo, ainda que pequeno, se abatendo contra suas costas.
-- Minha faca, avó! Pegue! – gritou Anna, estendendo-a para ela pela lâmina. Era uma temeridade, mas Kyara não tinha tempo para pensar: agarrando o punho da faca, ela golpeou o peito exposto do animal, o metal forjado pelos homens entrando com facilidade, uma, duas, três vezes, enquanto em seu espírito ela pedia ao javali que a perdoasse. Não queria ter feito aquilo, mas não pudera deixá-lo atacar, talvez ferir de morte aquele homem velho, que jamais teria conseguido apanhá-lo num laço e que ele não iria usar como alimento. Kyara, por sua vez, honraria a morte do animal, aproveitando cada parte dele que pudesse para o sustento da tribo e cantando para que seu espírito seguisse em uma nova jornada. Era o dever de todo caçador da Floresta dos Teixos.
Mas isso – diante das circunstâncias – teria que esperar.
-- Você está bem? – Sua voz ecoou a de Anna, dois pares de olhos oblíquos arregalados, um preso dentro do outro enquanto elas se levantavam, ilesas, com as tranças encharcadas e as roupas sujas de lama.
-- Estou bem – respondeu Kyara, enquanto a menina apenas fazia que sim. – E os outros? Tyshen, Lila, Torak... Onde eles estão?
-- Voltaram para casa, levando as bagas e cogumelos. – Baixou a cabeça, as faces vermelhas. – Você disse que, se eu achasse a cabana sozinha...
-- Então foi isso que aconteceu? – Kyara a encarou, sem fôlego. – Você não se assustou com alguma coisa, com o javali, com... com ele?
Indicou com o queixo o velho caçador, que se encostara ao tronco de um carvalho e tremia da cabeça aos pés. Anna negou com um gesto. Ao contrário do homem, não parecia ter medo, apenas curiosidade e... sim, e uma certa empatia. É o povo dela, afinal, pensou Kyara, dolorosamente. Não se podia esconder uma verdade que saltava aos olhos.
-- Tudo bem. – Respirou fundo, passando sobre o corpo do javali e se acercando daquele homem trêmulo. – Depois você me explica tudo direitinho. Agora, vamos saber o que...
-- Não, por favor. Moça... – ele balbuciou, engolindo em seco. Kyara levou um dedo aos lábios, fazendo-o calar. Depois, olhou-o nos olhos.
-- Não sou nenhuma moça – resmungou. – Provavelmente sou mais velha do que você, se quer saber. Pegue essa faca que estou vendo no seu cinto e nos ajude com esse javali. Vamos pegar o que der para carregar e sair da chuva. Se as coisas forem como penso, estamos muito perto de onde poderemos secar as roupas e esquentar os ossos.
*****
Pouco mais tarde, com a carne assando na grelha da lareira e a chuva gotejando pelo teto da cabana arruinada, avó e neta ouviram a história do velho homem. Não era um caçador, trabalhara a vida toda como carpinteiro; não armava laço algum desde os tempos de garoto, o que o tornava semelhante àqueles que Kyara e Raymond poupavam à justiça dos nobres. Ele tentara de novo agora, pensando em pegar algum animal pequeno e se fortalecer para seguir viagem. Pois nunca pretendera ficar, explicou, e não havia por que supor que estivesse mentindo. Jamais quisera entrar no território da tribo, apenas cortava caminho pela floresta, querendo chegar logo em Lardale, onde tinha parentes. Uma viagem mais curta, que saíra de mais perto e terminaria antes – mas, nessa etapa, em tudo semelhante à que trouxera Raymond até a cabana.
A história provocou recordações tão doces quanto dolorosas, mas Kyara conseguiu deixá-las de lado por algum tempo. O velho enchera a barriga de carne e se deitara, coberto pela manta de pele que encontraram num canto, e a menina se aconchegara nos braços da avó, o fogo acabando de secar as roupas no corpo enquanto conversavam em voz baixa. Anna contou que não resistira à vontade de ver a cabana, que fazia uma boa ideia de onde era a trilha e se lembrara de marcar seu caminho para a volta. Num dado ponto do percurso, ouvira lobos, que a alertaram sobre a presença do caçador humano; ela subira numa árvore para não ser avistada e acompanhara lá de cima seus últimos movimentos, até que, para sua surpresa e aflição, visse surgirem quase ao mesmo tempo sua avó e o javali enfurecido.
-- Aí eu acho que esqueci o que você ensinou. Esqueci toda a prudência – admitiu, encolhendo os ombros. – Só queria que você não ficasse machucada. Mas você também nem pensou nisso, quando partiu para cima do javali, não é?
-- É. Não foi prudente, mesmo. E eu teria me machucado, acho, se não fosse sua ajuda. – Sorriu, apertando a menina contra si. – Você não devia ter feito o que fez. Nada do que fez, aliás, desde que se separou dos outros, e ainda vamos conversar melhor sobre isso. Mas se saiu muito melhor do que eu esperava.
-- Obrigada. Mas, avó – Anna parecia um pouco inquieta --, é assim que os homens ficam quando são velhos? O livro de Maryan mostra alguns de cabelo branco, e ela disse que era quando envelheciam, mas não me falou que ficavam desse jeito, fracos, com as pernas tremendo...
-- Ah, mas nem todos ficam. Seu avô, por exemplo. – Kyara se lembrou de uma onda de cabelo prateado, de um sorriso realçado pelos vincos de um rosto másculo e moreno, e se encheu de convicção. – Ele já era velho quando morreu, não tanto quanto esse aí, mas ainda era forte e ágil. Tanto que o levaram para ajudar a defender o castelo, ele morreu no alto da muralha, de arma na mão. E, além de forte, era bonito – segredou, movendo as sobrancelhas para que a neta risse. – Foi bonito até o fim, e eu o amei do mesmo jeito até o fim.
-- Eu sei, mas, avó... Eu também tenho sangue humano. Sou quase humana. – Levou as mãos às próprias faces, os olhos cheios de uma súbita angústia. – Será que eu vou ficar desse jeito? Eu posso ser como meu avô, mas também pode ser que...
-- Não! Escute bem, minha Anna. – Kyara pegou as mãos dela e as abaixou, olhando-a com um amor tão intenso que quase machucava. – É verdade, você é quase humana, mas isso não muda o que eu sempre lhe disse. Você é filha da nossa tribo, leal, inteligente, corajosa. Logo vai crescer e se tornar uma mulher forte e sábia. Não se preocupe com o futuro muito distante, se um dia vai ficar velha, se sua pele vai enrugar ou o cabelo ficar branco. Isso é apenas o lado de fora! Honre os Guardiões, cumpra seus deveres e, sempre que puder, alegre seu espírito e o faça dançar. E, lembre-se, haja o que houver, você é e sempre será uma de nós. Promete não esquecer?
Anna a encarou, o rosto muito sério, e fez que sim com a cabeça. Kyara tornou a abraçá-la, depois a soltou, pretextando ter que virar as tiras de carne sobre a grelha. Havia muito mais que poderia dizer, mas ela preferiu não se antecipar às perguntas, porque sabia que o tempo e a vida trariam as respostas necessárias. Por ora, bastava ficar ali, acalentando as memórias de Raymond, enquanto Anna, depois de alguns momentos a olhar fixamente para o fogo, respirava fundo, abria a bolsa de caça e confiava pensamentos, dúvidas e sonhos ao seu caderno.
Ali, naquela cabana onde se uniam as trilhas do passado e do futuro.
Ali, onde as sombras sussurravam que uma nova jornada em breve iria começar.

*****
E o conto chega ao fim! Espero que tenham gostado e deixem seu feedback,  ele é muito importante!!


Parte 1.
Parte 2.

Para quem gostou da Anna criança, sugiro o livro Anna e a Trilha Secreta, onde ela encontra os Espíritos Guardiões da Tribo.

Aqui no blog do Castelo você pode ler um conto em que a Anna é ainda mais novinha, centrado em Maryan e Zendak, clicando aqui.

Para um conto da Anna aos 14 anos aprendendo a caçar, cliquem  aqui.

E continuem com a gente. Em breve teremos outro conto, desta vez de uma dupla de avô e neto muito talentosos!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Eterno Retorno (parte 2)

– Eu vou montando a história aos poucos, e ela vai ficando mais completa a cada vez que você conta. É que tem coisas que eu demoro para imaginar, como os homens, por exemplo. Eu nunca vi nenhum a não ser nos livros de Maryan.
-- Pois é mais do que suficiente – replicou a avó, em tom brusco. – Os homens... Bem, olhados um a um, nem sempre são maus. Seu avô era muito bom, e havia outros assim, não vou negar. Mas, quando você vive nas aldeias deles, começa a ver como podem fazer coisas ruins. Principalmente as guerras. E mesmo sem elas há muita ganância, injustiça, maldade... Não, você não perde nada se não conhecer os homens, ou se deixar para conhecê-los quando for mais velha.
-- Sim, mas, avó, se ao menos a gente fosse até a cabana...
-- Você não ouviu o que eu disse? É longe demais, e pode ser que homens estranhos ainda passem por lá. Um dia você vai, mas não agora.
-- Um dia? Quando?
-- Quando... Quando não depender de mim e puder ir sozinha – disse Kyara, querendo encerrar a discussão.
Anna pareceu refletir um pouco, depois assentiu e pescou uma coxa rosada de dentro do pote. Kyara fez o mesmo com um naco do peito da ave. As duas comeram em silêncio, tirando cada pedacinho de carne dos ossos e usando colheres de madeira para pegar os legumes no caldo. Estavam terminando quando Tyshen, o primo mais próximo de Anna em idade, chegou acompanhado por várias crianças pertencentes à Casa do Lobo.
-- Ainda estão comendo? Aposto que foi a Anna que se atrasou fazendo o almoço – implicou ele, como era seu costume.
-- Você é que é apressado! – retrucou a menina. – Apressado e guloso. Quando formos colher bagas, não vou deixar você ir na frente. Se você for, tudo que acharmos nos arbustos vai parar na sua barriga!
Kyara sorriu, vendo-os trocar as farpas de sempre enquanto Anna acabava de comer. As outras crianças entraram na cabana, sem cerimônia – coisa que não existia na tribo --, e se distraíram bisbilhotando tudo lá dentro. Por fim, o grupo se reuniu e se preparou para a excursão de coleta, para a qual levavam cestos de junco e bolsas de palha a tiracolo.
-- Até mais, Kyara! – exclamaram as crianças.
-- Até mais tarde, avó – disse Anna, jogando um beijo que ela retribuiu com um aceno e um breve sorriso. Estava ocupada livrando-se dos restos do almoço, das cinzas da fogueira, dos pensamentos sobre o passado e sobre Raymond de Pwilrie. Artista ambulante, soldado involuntário, guarda-caça que assoviava chamando os pássaros e enchia os bolsos de nozes para dar aos esquilos. Ele teria gostado de conhecer aquela neta inteligente e curiosa, sonhadora e às vezes desconcertante, como ele próprio tinha sido a vida inteira. Talvez se saísse até melhor do que Kyara para lidar com ela.
A elfa deixou escapar um suspiro e entrou para guardar o pote e as colheres lavadas. A cabana estava limpa, embora um pouco desarrumada após a visita das crianças. Era pequena e aconchegante, alegrada pelos desenhos que Anna prendera às paredes. Uma paisagem com o rio da Lontra, um pássaro pernalta, os rostos de Kyara, Maryan e Zendak. O último desenho representava os Espíritos Guardiões da tribo, Lobo, Lontra e Corvo, os três muito sérios e majestosos, circulados por auras de tinta verde. Kyara correu os dedos sobre o papel, sentindo orgulho e uma certa nostalgia: às vezes ela se esquecia de notar, mas Anna estava crescendo rápido. Em poucos anos teria o sonho ou a intuição que lhe diria qual a sua Casa, aquela à qual seu espírito estava ligado. Por enquanto contava como protegida do Lobo, já que essa era a Casa da avó. Zendak supunha que isso seria confirmado, mas não dera certeza: a menina era alegre e amorosa como as lontras, esperta e criativa como os corvos, ambos os Guardiões poderiam reclamá-la. Mas Kyara estava convencida de que, no fim, sua neta provaria ser antes de tudo corajosa e leal.
O céu estava encoberto quando ela saiu da cabana. Não tinha nada que a ocupasse, nem peles para tratar, nem carne para pôr no defumadouro. No entanto, ficar ali sozinha não lhe traria nada além de lembranças, por isso a elfa decidiu seguir a sugestão de Anna e ver se alguma coisa caíra naqueles laços malfeitos. E, quando souber quem os armou, vou tentar ajudar, ela pensou, enquanto regressava à floresta. Devia ser alguém bem jovem, talvez uma criança querendo impressionar os pais ou o parente que a ensinava a caçar. E um conselho vindo de alguém como Kyara seria mais que bem-vindo.
Sem pressa, ela deu uma volta por trás da colina próxima à cabana, onde costumava deixar suas próprias armadilhas nas luas de inverno, e chegou a uma trilha íngreme, por onde se cortava caminho até o lugar que chamavam de Carvalho Fendido. Nele se erguia uma árvore milenar, cujo tronco fora dividido ao meio por um raio; as duas metades haviam crescido e estendido seus galhos para o leste e para o sul, e esse era o início de duas trilhas quase invisíveis. Uma ia dar ao local dos laços desajeitados, enquanto a outra desembocava no lugar onde Kyara tinha estado uma única vez.
E, no que dependesse dela, não voltaria jamais.
Passos rápidos, a elfa seguiu a trilha que ia para o leste. De longe, viu um dos laços, agora desarmado, mas o animal que fizera aquilo escapara quebrando os galhos de um arbusto próximo. Na verdade, nem chegara a ficar preso, como Kyara constatou ao chegar mais perto. Apenas passara por cima da armadilha e a desmontara. Tinha peso e força bastante, pois suas pegadas denunciavam um cervo de bom tamanho. O caçador ia ficar frustrado quando desse com aquilo.
A segunda armadilha estava intocada, mal disfarçada num monte de folhas e fácil de desarmar. Era coisa de criança, não havia dúvida. Restava saber qual delas se aventurara tão longe. Kyara considerou as mais ousadas e inconsequentes dentre as que conhecia, pensando ainda em ajudar, mas também recomendar que tivessem cautela. Tinha alguns nomes em mente ao chegar à terceira armadilha, também intacta, que apenas olhou antes de seguir em frente – e de se deparar com algo que fez seu coração dar um salto.
Uma pegada. Não a de um animal, não a de um elfo de sua tribo, que estaria usando um mocassim, mas a inequívoca pegada de um humano, um enorme pé largo calçado numa bota com a beira interior roída. Não havia engano possível, pois ela vira aquilo muitas vezes, rastreando caçadores furtivos na floresta junto à qual vivera com Raymond – fazendo o trabalho dele, o que todos pensavam que ele fazia, quando Raymond estava mais que contente por ficar na choupana cozinhando, remendando as roupas da família, ninando a filha com canções do Leste ou, quando ela cresceu um pouco, contando histórias sobre reis saltimbancos, feiticeiras bondosas e navios mágicos que viajavam entre as estrelas. Era com relutância que denunciava as transgressões descobertas por Kyara – aqueles homens e rapazes temerários que caçavam nas terras do senhor, às vezes por simples ousadia, mas com frequência porque tinham fome e muitas bocas para sustentar. Teria sido um deles, agora, que entrara no território da tribo?
Não é uma criança. Kyara e Raymond jamais denunciavam os meninos da aldeia que pegavam pássaros e lebres, pois sabiam que um castigo duro demais os esperava. Tinham livrado alguns homens também -- os muito jovens, os muito desesperados, os que não tinham chegado a apanhar nenhum animal --, mas não os deixavam ir embora sem ao menos uma advertência. Da mesma forma, Kyara, como anciã da Casa do Lobo, tinha por dever encontrar o dono da pegada e fazer com que partisse, mesmo que não pegasse nada com aquelas armadilhas toscas. Antes que ele avançasse mais e mais pela floresta e achasse as cabanas da tribo. Antes que desistisse de conseguir caça e fosse à cata de frutas. Antes que desse com as crianças que estavam na trilha... e, acima de tudo, antes que chegasse perto de sua Anna.
Um pingo grosso caiu em seu nariz. Ela olhou para o céu, onde as nuvens escuras se adensavam, e considerou suas opções. A neta, é claro, estava acima de tudo, mas as crianças não costumavam demorar na coleta, e a pegada apontava para outra direção, de forma a tranquilizá-la nesse sentido. Voltar à cabana para se munir de um arco e algumas flechas seria prudente, ou talvez procurar Zendak e os líderes das três Casas, mas o rastro estava fresco e fácil de seguir. Antes que a chuva caísse, e cairia com força, melhor seria tentar descobrir quem era o homem, se estava sozinho, se montara acampamento por ali ou estava de passagem. Assim teria mais informações para levar à tribo, se necessário. Sim, era isso que ela ia fazer.
Kyara se abaixou, examinando o solo além da pegada. A lama em que fora impressa deixara marcas mais adiante, depois era só relva pisada e folhas amassadas, mas mesmo assim aquilo não demandava grande esforço. Passo a passo, enquanto o céu escurecia ecoando trovões, ela seguiu a trilha deixada pelo homem, tão descuidado em apagar seu rastro quanto se mostrara inábil com as armadilhas.
O céu desabou quando a elfa alcançou a vereda conhecida como Passo das Lebres, que eram comuns por ali, especialmente na primavera. Hoje não havia nenhuma, e, se tivessem passado mais cedo, os rastros já teriam sido lavados pela chuva que caía como uma cascata. Os do homem também logo sumiriam. Kyara examinou os últimos vestígios, que ao menos conduziam para longe das cabanas da tribo, e se aprumou, quase decidida a dar meia-volta.
Foi quando seu coração disparou pela segunda vez.

***


Parte 1.
Parte 3.

Para quem gostou da Anna criança, sugiro o livro Anna e a Trilha Secreta, onde ela encontra os Espíritos Guardiões da Tribo.

Aqui no blog do Castelo há contos sobre Kyara e Raymond. O primeiro pode ser até ouvido, narrado por mim. Que tal? :)

sábado, 8 de julho de 2017

O Eterno Retorno (parte 1)


Pessoas Queridas,

No meu outro blog, A Estante Mágica de Ana, está rolando um projeto que intitulei "Contos Fantásticos de Avós Extraordinários", com contos de fantasia (e um de FC) sobre avós e netos.

Aqui, no blog do Castelo, vou postar os dois que são ambientados em Athelgard, começando com este em que aparecem a Anna e a Kyara. Espero que vocês gostem! 

A ilustração deste conto ficou a cargo de uma das mais antigas e constantes leitoras de Athelgard, a querida Isabela Lopes. 



As pegadas eram claras, impressas em lama seca na extremidade da clareira. Apontavam para o bosque de faias mais adiante, mas Kyara não disse nada, à espera de que a menina lesse os sinais e conseguisse interpretá-los. Para um bom caçador, isso era tudo. Mesmo os que viviam com a cabeça nas nuvens.
Anna estava de joelhos examinando as pegadas, a trança negra enrolada no pescoço, a luz concentrada nos olhos. Sua boca estava contraída, uma boca rosada e bem desenhada, como a da primeira Anna, aquela que nunca aprendera a se orientar na floresta. Não vou deixar acontecer de novo, Kyara pensou. Custasse o que custasse, ela ensinaria a sua neta o que era preciso saber.
-- Então, minha Anna – disse, por fim. – Já descobriu o que tem aí?
-- Descobri que é um cervo. Não é muito grande. – Certo até ali. – Não é mais filhote, porque anda sozinho, mas a pegada é rasa, então ele é bem novo. E passou há pouco tempo, o rastro é fresco. Hoje ao amanhecer?
Olhou para a avó, querendo confirmação ou ao menos uma pista. Kyara cruzou os braços. A menina suspirou e voltou a analisar as pegadas, acompanhando o rastro do cervo ao longo da clareira.
-- Bom, parece que ele foi para o bosque, pode ter ido beber naquela nascente do rio da Lontra. Se não ao amanhecer, um pouco antes. A lama estava mole quando ele pisou...
-- Mole? – observou a avó. – Ou só macia? A pegada é nítida. Será que choveu depois que o cervo passou?
-- Não. – Anna pensou um pouco, depois concordou. – Não chove desde a madrugada, então deve sido mais tarde. Isso quer dizer... Avó! – Arregalou os olhos oblíquos, semelhantes aos dos demais membros da tribo. – Ele passou agora há pouco? Está assim tão pertinho? A gente pode ir atrás dele?
-- Para quê? O que você descobriu logo no começo?
-- Que ele é muito novo. Claro, eu sei que não caçamos animais jovens, mas não seria para pegá-lo. Seria só para seguir a trilha e ver se eu consigo achá-lo.
-- Ah, você gostaria? Fico feliz. – A elfa sorriu. – Mas hoje não temos tempo. Tyshen e os outros vão passar logo depois do almoço, lembra? Vocês vão à cata de bagas e cogumelos.
-- Posso ir amanhã – propôs Anna.
-- Nada disso. Você combinou com eles, e além do mais é sua contribuição para a tribo. Todas as crianças da sua idade estão colhendo bagas para secar e comer no inverno.
-- Eu sei. Tudo bem, vamos voltar. – A menina encolheu os ombros. – Mas, num outro dia, queria ir com você além do bosque de faias e ver a trilha onde você encontrou meu avô. Porque você sempre fala, mas eu não sei direito como chegar lá.
-- Isso seria uma jornada mais longa – disse Kyara.
As palavras pesavam ao lhe sair da boca. Anna não disse nada. Em vez disso, pegou a mão da avó, como se tivesse menos que seus nove anos, e começaram a caminhada de regresso a sua cabana.
-- Esta não é a nossa trilha – afirmou a menina, pouco depois.
-- Eu sei. Peguei um atalho, só para ver se você percebia – sorriu Kyara. Na verdade, não tinha pensado muito antes de enveredar por aquele caminho secundário, que raramente percorrera nas últimas luas. Supunha que o mesmo se desse com os outros membros da tribo, por isso se surpreendeu ao dar com uma linha de armadilhas montadas por alguém no mínimo inexperiente.
-- Olhe para aquilo – Kyara apontou para uma delas, que não poderia estar mais evidente, a não ser que fosse enfeitada com flores roxas. – Não sei quem fez, mas ele ou ela precisa de orientação. Até uma toupeira saberia desviar daquela coisa.
-- Ah, avó. Você sabia que as toupeiras têm aldeias embaixo da terra? Foi Zendak que me disse. – Zendak era o xamã da tribo, que não devia ser contestado, por isso Kyara fez que sim. – Ele disse que são túneis muito longos que se encontram uns com os outros, e elas têm uns cômodos largos onde ficam várias, e se visitam, como se fossem casas. E aí Maryan perguntou como eu achava que seria uma cidade de toupeiras, mas uma cidade de verdade, como as do lugar de onde ela veio. Pensei em toupeiras grandonas que seriam os Conselheiros, uma toupeira-ferreiro de avental, fazendas de toupeiras que plantam cenouras e nabos...
-- Ah, está bem, Anna. Já chega. – Kyara franziu as sobrancelhas, irritada. – Que você goste de Maryan, muito bem, também gosto dela; que aprenda a ler e outras coisas que ela sabe, está certo, pode ser útil um dia. Mas toupeiras plantando nabos! Você não tem mais nada em que pensar?
-- São só histórias -- Anna se defendeu. – A tribo tem suas histórias, o povo de Maryan também, os homens também. Essa é só mais uma, que inventamos para nos divertir. Por que você não gosta?
-- Não é isso. É que você, às vezes, se entusiasma demais imaginando coisas e se esquece do que tem para fazer. Ontem quase deixou queimar a comida porque ficou escrevendo naquele caderno. Aposto que ele está aí na sua bolsa. Não está?
O alto das orelhas de Anna – orelhas humanas, arredondadas – ficou vermelho enquanto ela se debatia entre dizer a verdade ou escondê-la. Por fim, resmungou alguma coisa sobre ter se esquecido de tirar o caderno da bolsa – como se a bolsa de caça onde levava seus talismãs e a faca de metal herdada do avô devesse conter aquele monte de folhas de papel, costuradas numa capa de couro, em que ela rabiscava sempre que tinha um momento livre. Às vezes fazia desenhos, como as outras crianças da tribo, mas geralmente escrevia, como aprendera com Maryan, uma das elfas de cabelos brilhantes que viviam na aldeia junto à Floresta dos Teixos. Tinham chegado pouco antes de Kyara regressar de sua própria aventura no Mundo Lá Fora -- uma aventura que durara quase trinta anos e da qual, além de lembranças, restara apenas a neta ainda bebê.
Anna era um fruto da violência, mas também era a filha de sua filha, um tesouro único e precioso, pelo qual valia a pena lutar. Foi por isso que Kyara voltou para junto da tribo: não só estaria longe dos homens, de sua injustiça e guerras sem sentido, mas tornaria a viver com sua gente, tirando seu sustento da floresta e protegida pelos Espíritos Guardiões. E estava dando tudo certo, inclusive em relação a Anna – mas, ainda assim, aquele entusiasmo da neta pelo Mundo Lá Fora a vinha preocupando. Seus devaneios também, pois só seriam admissíveis num futuro xamã, e a menina não iria trilhar esse caminho. Zendak fora claro quanto a isso, embora, para variar, tudo o mais que tinha dito fosse confuso e quase enigmático.
-- Há vários mundos em que ela pode viver – dissera ele. – Mas, para ser feliz em qualquer um deles, vai ter que encontrar as trilhas secretas. Para gente como Anna, os caminhos mais comuns são os mais difíceis de seguir.
Kyara se lembrava daquela conversa enquanto as duas se aproximavam da cabana. Era a mesma onde ela vivera quando criança, formada em parte pelo tronco oco de uma árvore, esculpido e alargado pelas artes de um antigo xamã, e em parte por toras de madeira encaixadas, as frestas muito bem vedadas com resina. Alguns membros da tribo preferiam construir suas cabanas sobre os galhos, principalmente os da Casa do Corvo, mas Kyara dos Lobos sempre gostara do chão bem sólido embaixo de seus pés. Também lhe agradava estar perto de uma cascata, cujo ruído se ouvia da cabana. Era um bom lugar, o da sua infância. Bem diferente da choupana escura, com o teto de colmo e a lareira enfumaçada, onde vivera com Raymond e a primeira Anna.
Aquela que não lhe enchia os ouvidos de perguntas.
-- Avó, e você, o que vai fazer enquanto formos colher bagas? – A menina mastigava uma tira de carne seca, antecipando-se ao almoço de pato cozido com legumes. – Já temos flechas que cheguem, não há peles para tratar... Não quer ir com a gente?
-- Eu? O que eu iria fazer na floresta com um bando de crianças barulhentas? – resmungou Kyara, no fundo satisfeita com o convite. – Vão vocês, eu fico por aqui. Talvez faça umas visitas ou dê uma volta por perto.
-- Pode ir de novo à clareira, ver se os laços pegaram algum animal – Anna sugeriu. – Ou se o cervo passou por lá voltando da nascente. Foi seguindo o rastro de um cervo que você encontrou meu avô, não foi? E uma cabana, onde ele entrou para se abrigar da neve?
-- Foi. Já não contei essa história?
-- E será que a cabana ainda está lá? Os restos dela, pelo menos – insistiu a menina. – Talvez a lareira onde Raymond estava assando peixe. Você ficou assustada quando topou com ele?
-- Claro que não. Eu tinha meu arco, e ele estava indefeso, tinha tirado até a roupa para secar no fogo. Fiquei foi curiosa. Eu sabia a respeito dos homens, mas nunca tinha visto um.
-- E você achou meu avô bonito – Anna sorriu de um jeito maroto. – Ficou tão apaixonada que foi embora com ele.
-- Não fui embora nesse dia. Fiquei com ele um quarto de lua, tentando ensiná-lo a rastrear e caçar, porque ele ia trabalhar para um homem rico e o trabalho seria esse.
-- E ele aprendeu?
-- No início, não. Só depois que fomos viver lá. Quantas vezes você vai querer ouvir a mesma coisa?
-- É que eu escuto diferente a cada vez – disse a menina.
Kyara franziu o cenho, sem entender. Então, Anna tomou fôlego, assumindo um ar quase solene ao tentar explicar.

(continua...) 

Parte 2.

Para quem gostou da Anna criança, sugiro o livro Anna e a Trilha Secreta, onde ela encontra os Espíritos Guardiões da Tribo.

Aqui no blog do Castelo vocês encontram informações e um belo desenho dos avós Kyara e Raymond.

Saibam mais sobre o projeto Contos Fantásticos de Avós Extraordinários.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Ana Merege e Eduardo Kasse na Feira Medieval


Pessoas Queridas,

Eu e o Eduardo convidamos vocês para nos encontrar na III Feira Medieval carioca, que terá lugar no sábado e no domingo (dias 23 e 24 de junho) das 11 ás 17 h na Quinta da Boa Vista, um lugar bem central aqui no Rio de Janeiro. A entrada no evento é gratuita e haverá muitas atrações: torneio de armas, prática de arco e flecha, dança e música medieval, venda de hidromel, roupas e artefatos. As crianças terão atividades direcionadas pára elas - vai ser bem divertido.

Para quem quiser adquirir nossos livros, teremos descontos de até 30% nos volumes da Trilogia Athelgard, da Série Tempos de Sangue e das coletâneas Medieval e Excalibur. Aceitaremos cartão, daremos marcadores de brinde e, é claro, autógrafos.

Venha passar conosco um Dia Medieval!

domingo, 11 de junho de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Final)

     

          Tina e eu ficamos no alto da muralha até a segunda hora. Lá embaixo, a praça foi se esvaziando cada vez mais, até que só restassem os desocupados de sempre, além dos funcionários que iam e vinham e dos parentes do prisioneiro. Pouco antes das duas, Rowenna e Sanson chegaram numa carroça, na qual recolheriam Édobec assim que ele fosse solto. Sem mais o que fazer, acompanhei seu trajeto até o patíbulo -- e foi então que, inesperadamente, meus olhos deram com Thierry sentado numa calçada, com uma caneca de vinho ao lado e a cabeça nos braços. Fora ele, afinal, o único de nós a se ferir naquela aventura.
        -- Cyprien!
        Voltei a cabeça, estranhando a voz infantil que gritara meu nome. Instantes depois, uma menina surgiu entre as pedras lá embaixo, e eu franzi o cenho, reconhecendo a sobrinha do cego Omar. Como, dentre todas as pessoas do mundo, ela viera me encontrar ali?
         -- Oi, Tina! Oi, Cyprien! Ei, tio, Rowenna acertou -- gritou, alegremente, para o cego que esperava junto às escadas. -- Ele está mesmo na Fortaleza. Só que Tina está junto, e os dois estão no alto da muralha.
          -- Mas vou descer -- atalhei, vendo que Édobec acabava de ser tirado da roda. Ajudados por Sanson, os homens da família o deitaram na carroça, de bruços, e Rowenna se ajoelhou ao lado, junto com a mulher do prisioneiro. Bem devagar, Sanson fez andar a carroça, e eu não esperei mais do que isso para dar as costas à cena. Agora tinha certeza de que Édobec sobrevivera ao castigo. Era tudo de que precisava para que minha consciência ficasse em paz.
            -- Cyprien. -- Emocionado, Omar avançou para mim, tão logo percebeu que eu saltara da muralha. -- Cyprien, meu rapaz, você foi ótimo! Pelo que ouvi, os guardas nem perceberam que alguém subiu ao patíbulo, e Rowenna disse que o velho recebeu as chibatadas quase sem sentir. Mas o melhor de tudo foi o seu plano -- as sombras, a mensagem passando de boca em boca, e depois toda aquela gente gritando a uma só voz. Ah! Foi formidável! Há quanto tempo o nosso povo não se unia assim!
          -- Bom, não foi só o nosso povo -- lembrei, envergonhado. -- Você deve ter notado que muitos outros nos ajudaram. E, além disso, não foi você que recomendou que ficássemos em silêncio? Não devia estar elogiando quem fez exatamente o contrário.
          -- Ah! Mas vocês me surpreenderam -- disse ele, com um sorriso. -- Eu não imaginava que nossos jovens fossem capazes de uma reação como essa. E, acima de tudo, não imaginava que tivéssemos alguém como você... Alguém para manter vivo o espírito de Zaid.
           -- Ora essa, Omar...! - protestei, sentindo que o sangue me subia às faces.
           -- Ora essa, por quê? Falo sério, meu caro. Você deve conhecer a história de Zaid, o Mestre de Cerimônias do Rei Adouf, que fez os guerreiros se passarem por saltimbancos, e assim salvou suas vidas quando Pwilrie se rendeu ao inimigo. Ele foi nosso primeiro líder após a Reconquista, e dizem que, enquanto viveu, não deixou de repetir que a arte era a melhor das armas ao nosso alcance. E sabe de uma coisa, Cyprien? Eu acho que ele estava certo.
           -- Eu também -- suspirei. -- Mas confesso que, quando estava lá, bem que desejei ter ouvido você e ficado em silêncio.
           -- Ah, não! Não faça isso, nunca. -- Pigarreando, o cego se aprumou, como quando se preparava para contar uma história. -- O silêncio é digno, mas um homem deve reagir, quando tem forças e sabedoria para isso. E agora, ouça com atenção o que vou dizer. Eu sei que Rowenna espera que você se torne um líder. Outros já estão dizendo o mesmo -- e, depois de hoje, ninguém vai me convencer do contrário. No entanto, você é muito novo, e pode ser que não se sinta pronto... Ou você diria que está?
          -- Eu, Omar? É claro que não.
          -- Eu sabia -- sorriu ele, de um jeito tranqüilo. -- Eu sinto o impulso nos seus gestos, percebo a impaciência na sua voz. E eu sei que mais cedo ou mais tarde você vai partir, como o herói daquela história que deixei inacabada. Mas vai voltar, Cyprien de Pwilrie -- acrescentou, e o que disse a seguir calou fundo em minha alma. -- Onde quer que a vida o leve, um dia você vai ouvir o chamado, por isso não se angustie nem tenha pressa. Você vai saber usar suas armas quando chegar a hora. E, assim como você, aquela linda moça – acrescentou, apontando na direção exata em que Tina se encontrava. – Ela também ainda há de fazer muito pelo Povo Alto. E se me permite um último conselho, Cyprien: ame as mulheres que passarem por sua vida, seja o homem e o companheiro que elas merecem, mas nunca, nunca se esqueça da força e da coragem que elas têm!
          -- Não vou me esquecer -- respondi, esforçando-me para não chorar. Eu estivera tão confuso, e ele tornara as coisas tão claras em questão de momentos. A mais simples palavra é ouro na boca de um contador de histórias. Talvez fosse essa a arte que meu coração ansiava por aprender.
          -- Cuide-se -- disse Omar, depois de alguns instantes. Batendo-me no ombro, ele chamou pela sobrinha, e os dois começaram a descer as escadas enquanto eu permanecia ali, de pé, olhando para as pedras chatas que marcam as sepulturas.
           Não há nenhuma inscrição, mas todos sabemos onde estão os mortos ilustres, bem como as pessoas de nossa família. Assim, a cada lua nova, desde que esteja na cidade, venho trazer flores ao túmulo de minha mãe. Ela repousa à sombra de um resto de muralha, ali mesmo onde viera à procura de Rowenna, quatro anos antes, ao sentir as dores que anunciavam minha chegada ao mundo. As ruínas do passado, o lugar dos mortos, o chão do meu nascimento. Não podia ser por acaso que eu me sentia tão ligado ao destino do Povo Alto. E talvez, quem sabe, um dia eu viesse a ser o líder previsto por Rowenna -- mas, ainda que não, o que fizera hoje devia ter bastado para deixar os antepassados felizes. De que outra forma, no auge do verão, os céus teriam me mandado aquela brisa fresca?
            Respirei fundo, olhando para o Labirinto que se estendia a meus pés. O palácio fora arrasado, e os heróis estavam mortos, mas eu tinha muito a fazer naquele dia especial. Na casa de Ariela, o almoço devia estar esperando por mim, e os amigos certamente estavam loucos para me felicitar. Pippo olharia para mim com aquele ar de irmão mais velho, Sanson me apertaria até trincar as costelas, enquanto, como todos os bons mestres, Thespio e Mandol não se caberiam de orgulho do antigo aprendiz. Aymon demonstraria mais admiração do que se me visse jogar com uma dúzia de bolas. E com Rowenna, quando ela chegasse da casa de Édobec, eu trocaria aquele olhar que era só nosso, que não precisava de palavras para reafirmar nossa cumplicidade. Tudo seria perfeito, eu passaria a tarde sendo admirado e cumprimentado como um herói...
          -- Olá! Ainda neste mundo? – chamou Tina, em tom divertido.
          No instante seguinte, eu havia esquecido todas as minhas fumaças de grandeza e me voltado para ela. Estava de pé sobre a muralha, o cabelo solto de novo, esvoaçando ao vento, os olhos brilhando de orgulho pelo que havíamos realizado. Estendi a mão, dando-lhe apoio para que descesse, e então nos abraçamos com força. Não como namorados, não apenas como o homem e a mulher que mal começávamos a ser, mas como dois guerreiros unidos pela mesma causa.
           E esse abraço se tornou algo que nunca poderiam nos tirar: o instante precioso, para sempre acalentado, que nos daria força ao longo de toda a vida, de todas as lutas, de todas as noites de frio e escuridão que nos esperavam antes da vitória.

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Bom, Pessoas Queridas... Chegamos ao fim da novela. Muito obrigada a quem acompanhou (ou pelo menos leu um pedacinho!). Espero que vocês tenham curtido, de coração.

Este post é ilustrado com uma foto do Castelo dos Mouros em Sintra, Portugal.

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Parte 1
Parte 18

Conheça O Jogo do Equilíbrio, novela em que Cyprien já está em outra fase da vida.

Saiba mais sobre o personagem clicando aqui.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 18)



A confusão crescia a cada momento, e havia cada vez mais gente a olhar para cima, embora alguns continuassem a prestar atenção em Édobec. Contra todas as possibilidades, o Prefeito ainda tentava se fazer ouvir, suas palavras soando como marteladas entre os gritos da multidão. Apreensivo, eu relanceava meu olhar do sobrado ao patíbulo, procurando, por menor que fosse, uma oportunidade de chegar ao prisioneiro; e creio que esse momento jamais teria chegado se Nayla, arrebatada por sua própria atuação, não houvesse dado o golpe de misericórdia, enlaçando a cintura de Cassius com suas longas pernas de dançarina. Fundidas numa só, as sombras rodopiaram sob o foco de luz, e a praça veio finalmente abaixo, vencida pelo irresistível apelo do espetáculo.
-- Meu Deus, olhe só! Eles vão fazer mesmo! -- gritou o dono da Estalagem do Sino.
-- Não sabem que podemos vê-los - disse Piers Padeiro.
-- E ainda bem que não! -- gargalhou um soldado. -- Vamos lá, amigo, mostre a ela!
-- Força, companheiro! -- gritaram alguns estudantes, apertados no alto de outro sobrado. Tal como eles, as moças da casa de Emma se puseram a incentivar o casal, e o mesmo fizeram várias outras pessoas, enquanto um segundo grupo protestava contra a falta de vergonha. E foi assim, por obra de amigos e rivais, de conhecidos e de perfeitos estranhos, que finalmente pude vislumbrar a brecha no espaço e na atenção que os guardas dispensavam a Édobec.
Não houve como pensar -- ou melhor, eu mesmo preferi agir sem haver pensado, ou não seria capaz de fazer o que fiz naquele momento. Com um salto para a frente, aterrissei com os dois pés sobre o patíbulo, e minha mão avançou como um relâmpago, metendo o pequeno frasco entre os lábios do prisioneiro.
-- Beba -- ordenei, e fui em frente sem me dar tempo de saber se ele o fizera.
Então, as coisas se sucederam tão rápido que mal consigo explicar. Tudo que sei é que, ao prosseguir, meus olhos esbarraram nas costas do carrasco, e o mesmo relance me mostrou uma figura a avançar para ele; e, enquanto uma cambalhota me punha fora do patíbulo, ouvi com toda a nitidez a voz de Tina, gritando, não como se me alertasse ou defendesse, mas sim como se pedisse a proteção daquele brutamontes.
-- Senhor, por favor, me ajude, eu tenho de ir lá em cima! É minha irmã, e nosso pai está vindo com um machado!
-- Desça daí, mulher! -- exclamaram várias vozes, ao mesmo tempo que minha queda era amparada pelos experientes braços de um acrobata. Num movimento preciso, ele evitou que eu me estatelasse no chão, e eu ia agradecer e dar o fora se não percebesse de quem se tratava. Thespio...!
-- Já para casa, rapaz! -- riu ele, mas a surpresa foi tanta que não consegui reagir. Percebendo o perigo, Thespio me empurrou e repetiu a ordem, e as pessoas à minha volta abriram caminho, permitindo que eu me afastasse do patíbulo. Olhei para trás a fim de ver o que acontecera com Tina. Graças aos céus, ela também conseguira descer em segurança, mas parecia meio perdida em meio à multidão que puxava e empurrava de todos os lados.
-- Por aqui! Por aqui! -- gritavam os moradores do Labirinto. Eram eles, principalmente, que se apertavam contra os demais para que eu pudesse passar. Tina me achou e se esgueirou entre eles, a mão estendida até conseguir agarrar a minha; nós nos olhamos por um momento, sabendo de antemão que a fuga era nossa prioridade.
-- Vamos evitar o sobrado – falei, e a guiei numa corrida rápida, os dois meio agachados para atravessar a praça em diagonal. Enveredei pela Rua dos Juristas e fomos em frente, já sem correr, mas caminhando bem rápido em direção à Praça do Templo. Dali, alcançar o Labirinto foi questão de instantes, mas, ao invés de entrar em minha casa ou seguir até a de Tina, continuamos rua acima até a pracinha da fonte, onde bebemos água e molhamos o rosto. Tina ajeitou o cabelo, prendendo-o para cima, e eu olhei em torno enquanto meu coração retomava o ritmo. Não havia nenhuma alma viva a quem contar o que acontecera.
Subimos três ou quatro ruas antes de parar mais uma vez. Ali já havia um pouco de movimento, crianças brincando de pega-pega e um sapateiro em sua oficina. Erguendo a cabeça, o homem nos cumprimentou, e respondemos com um aceno, quando já subíamos a Escadinha das Cabras. Ambos sabíamos exatamente onde queríamos chegar. 
Passo a passo, em ritmo lento, vencemos a longa subida até a Fortaleza, o antigo palácio dos Reis de Pwilrie, em cujas ruínas o Povo Alto enterra seus mortos. Normalmente, nossa atitude nesse lugar é quase de reverência, mas dessa vez não havia tempo a perder, e assim subimos sem cerimônia até o ponto mais alto -- que foi, desde sempre, o nosso observatório -- e nos sentamos para assistir à última parte do espetáculo.
Todos nós, em Pwilrie, temos sangue quente, e as confusões costumam durar muito tempo, mas dessa vez os ânimos não haviam demorado a se acalmar. A praça ainda estava cheia, mas a multidão era bem menor, e já ninguém olhava e apontava na direção do sobrado. Nayla e Cassius deviam ter conseguido sair pela parte de trás. Quanto a Édobec, o pano branco sobre suas costas mostrava que já fora chicoteado, e a evidência se tornou ainda maior quando distingui o carrasco a se afastar junto com alguns guardas. Sobre o patíbulo só restavam dois deles, um ao lado da roda, o outro caminhando lentamente para lá e para cá. Eu quase podia ver o tédio estampado na expressão daqueles vigias.

Olhei para o céu, calculando o tempo que faltava para que o velho fosse solto. Uma hora e tanto, pelo menos. Era por isso que muitas pessoas não haviam ficado para vê-lo ser tirado da roda. Agora, tornara-se mais fácil distinguir os rostos conhecidos, principalmente os da família de Édobec, um grupo triste e silencioso a poucos passos do patíbulo. Aymon e Thespio continuavam na praça, e pela sua calma concluí que nada de ruim acontecera a ninguém. Faltava apenas ter certeza de que eu realmente havia salvado Édobec.

Parte 1
Parte 17
Parte Final

Conheça O Jogo do Equilíbrio, novela em que Cyprien já está em outra fase da vida.

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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 17)


       O prisioneiro havia gritado sem parar enquanto o traziam, mas, depois que o fizeram ajoelhar e o acorrentaram à roda, quedou-se num silêncio dócil e resignado. Eu estava numa das laterais do patíbulo, a melhor posição para o salto que planejava, e acabava de me colocar à distância ideal. Infelizmente, ela era tal que permitia que um sujeito baixinho se metesse na minha frente.
         -- Com licença, amigo. Podia se afastar um pouco? -- perguntei, e o homem franziu o cenho, como se não tivesse entendido. -- A sério, eu preciso desse espaço livre. Olhe, se for um pouquinho para a esquerda...
         -- Para a esquerda, não é? Ah, essa é boa! -- retrucou ele, de um jeito impertinente. -- Eu estou aqui, e aqui vou ficar! Quem você pensa que é, garoto, para passar à frente de um cidadão honesto?
          -- Eu,senhor? Oh, eu não sou nada. -- Inclinei-me, a raiva me ditando as palavras certas para sussurrar em seu ouvido. -- Sou apenas um pobre coitado do Labirinto. E sou um pouquinho doido. Quando vejo tanta gente junta, começo a me sentir sufocado, e então pego minha adaga -- está bem aqui, olhe --, e saio golpeando quem quer que esteja à minha frente. Se estou avisando o senhor, é por ter notado que é um homem de bem, que não gostaria de acabar seus dias dessa maneira... Ou será que gostaria?
          Isso com a minha expressão mais cândida, o que, em geral, dá mais resultado que uma cara ameaçadora. Não querendo discutir com um maluco, o homem murmurou qualquer coisa e se afastou, e eu pude mais uma vez refazer meus cálculos para o grande salto. Eu não podia me dar ao luxo de ser menos do que perfeito.
         -- Façam silêncio! Silêncio, vocês aí! -- puseram-se então a gritar os guardas e os arautos. Fiquei imediatamente alerta quando ouvi isso, porque, na maior parte das vezes, significava que o Prefeito ia fazer seu discurso. Era nesse momento que o meu plano devia ser posto em prática.
Olhei para os lençóis que pendiam da janela do sobrado. Naquele momento, ainda não se via nenhuma projeção, mas eu tinha certeza de que Nayla e Cassius estavam a postos. Os outros também deviam ter feito o melhor possível, espalhando a nossa mensagem até onde houvessem conseguido chegar. Era muito bom, em meio à tensão causada por aquele momento, saber que eu podia contar ao menos com meus amigos.
         -- Cidadãos de Pwilrie! -- soou a voz aguda e tão conhecida do Prefeito. Meu corpo estremeceu de alto a baixo quando ouvi o som. Agora, era tudo ou nada, pois eu estava decidido a não recuar. Apertei com força o frasco bem escondido entre meus dedos longos. Coragem, meu velho. Eu já estou indo. Por você, por mim e por cada um dos nossos.
         -- Ei, escute só -- disse a mulher à minha direita. -- Estão tocando a “Canção da Lua”, ou...
         -- Sim! Parece que sim -- respondeu alguém, quando eu acabava de reconhecer os acordes. No instante seguinte, por trás dos lençóis que cobriam a janela, os vultos de Cassius e Nayla começaram a se abraçar -- e meu coração bateu desenfreado quando a primeira exclamação se sobrepôs às palavras do Prefeito.
         -- Vejam! -- Era a voz de Aymon, o que me fez morder os lábios, imaginando que podíamos estar sozinhos. -- Há alguém nas ruínas do sobrado, e... Puxa! Parece que é uma dupla das mais animadas!
          -- É mesmo! -- comentaram algumas vozes aqui e ali. Ao meu redor, as pessoas começaram a voltar a cabeça, um tanto distraídas no início, depois com uma curiosidade que aumentava à medida em que o casal parecia se entusiasmar. Provavelmente os dois já vinham escondendo alguma coisa de Thierry, pois o que se via podia parecer tudo, menos um fingimento. A menos que eles fossem os melhores atores já surgidos nesta cidade de saltimbancos. De qualquer forma, senti-me aliviado por não ser Tina a oferecer o espetáculo, ao mesmo tempo em que lamentava não lhe haver pedido para ficar perto de mim. Onde ela estava agora? Onde estaria, e o que faria, quando eu executasse o meu salto? Onde estavam as pessoas que deveriam distrair os guardas?
         -- Ei, olhem! -- gritou de repente alguém, a plenos pulmões, não longe do patíbulo. -- Acho que a moça vai tirar a blusa!
         -- Vai ser ali mesmo! -- ajuntou um artesão do Labirinto.
          -- Que desavergonhada! -- protestou uma velha, que eu vira muitas vezes conversando com Olivier. Outras exclamações se seguiram a essas, sempre em tom bem alto, como se as pessoas que falavam quisessem realmente chamar a atenção. Senti meu peito se aquecer à vibração das vozes amigas. Eu não deveria ter duvidado de que viriam em minha ajuda.

Parte 1
Parte 16
Parte 18


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