terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Personagens do livro "O Castelo das Águias" (Parte 2)

G

Galdor – elfo, aprendiz do Terceiro Círculo, namorado de Lahini.
Goliath – Preste do Templo de Bragi.
Gregor - Preste da cidade de Kulliev, no Oeste, a quem foi dedicado um belo exemplar do Etta.
Gurion – intendente do Castelo das Águias, sempre envolvido com as questões logísticas da Escola.
Gwyll – meio-humano, aprendiz do Terceiro Círculo, pratica combate mágico.

H

Hakim– menino de 7 anos de idade, filho de Naheen, o professor de Ciências do Céu.
Hillias – mago elfo, descendente da Casa Safira. Trabalha na Escola de Guerra de Scyllix e vai a Vrindavahn lutar pela posse das águias. Foi casado com Lara e tem uma antiga rixa com Kieran.
Hunir – no Etta, o servo de Woden, Senhor do Vento.

J

Jonias – o mago que descobriu as propriedades da Fonte Azul e se tornou o primeiro Mestre das Águias.

K

Kelamon – menino de seis anos, filho de Maryan e Zendak.
Kieran de Scyllix – mago, ensina Magia da Arte e Pensamento na Escola, trabalhando em conjunto com Finn. Foi Mestre das Águias em Scyllix e continua ligado a elas. Tem um temperamento fechado, mas se aproxima rapidamente de Anna de Bryke.
Kyara – elfa da Floresta dos Teixos, avó de Anna, que a criou desde que nasceu.

L

Lahini – elfa, aprendiz do Terceiro Círculo, direciona-se às Artes da Cura.
Lara de Kalket – maga meio-humana, ensina Magia dos Nomes. Foi casada com Hillias. É uma pessoa aparentemente muito frágil.
Lear, o Encanta-Dragões – jovem humano, aprendiz do Terceiro Círculo. É talentoso com Magia da Forma, porém meio desastrado.
Loki – herói trapaceiro do Etta, que os elfos consideram uma espécie de antepassado, mas que a religião humana do Deus Único transformou em antagonista, por eles chamado de “Esquerdo”. É o herói preferido de Anna de Bryke.
Lori – ajudante da cozinha do Castelo das Águias.
Lyris – menina de nove anos, filha de Maryan e Zendak.

M

Mael de Scyllix – o mago humano que foi Mestre das Águias antes de Kieran e descobriu seu potencial para a Magia, tornando-o seu aprendiz e sucessor. Essa história aparece no livro Imaginários 1, da Editora Draco.
Maryan – elfa brilhante, Mestra de Sagas e seguidora de Odravas. Foi viver na aldeia de Bryke, junto à Floresta dos Teixos, e se tornou a primeira professora de Anna. Mais tarde, se casou com o xamã Zendak. O encontro de ambos é narrado no conto “O Primeiro Outono”, que começa aqui.
Moira – mãe de Padraig, dona da taverna “A Espada e o Lírio”.

N

Naheen – humano, descendente do Povo Alto do Leste de Athelgard, é mestre de Ciências do Céu na Escola de Artes Mágicas.
Nanna – apelido familiar de Anna.
Nardus – jovem humano, aprendiz do Terceiro Círculo. É um músico talentoso.
Netta – cozinheira do Castelo das Águias, casada com Nils.
Nils – cocheiro do Castelo das Águias.
Nuala – empregada do Castelo das Águias.

...

Personagens de A a F.

Personagens de O a Z.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Personagens do livro "O Castelo das Águias" (Parte 1)

Pessoal, para quem achou que o livro tinha muitos personagens e ficou meio "perdido", aqui vai a primeira parte de uma lista com todos eles. Os que têm um post próprio estão linkados pelo nome, em outros faço referência a contos já publicados. Os links serão atualizados sempre que houver novo post de conto ou personagem.

A

Adrael – jovem elfo, aprendiz do Primeiro Círculo.
Aegir Barba de Espuma – um dos Heróis do livro sagrado, o Etta. É o patrono dos marinheiros e dos navegantes.
Algias de Donnes – mago meio-humano, ensina Matemática e Alquimia na Escola de Artes Mágicas.
Andi – jovem meio-humano, aprendiz do Primeiro Círculo.
Anna – meio-humana, filha de Kyara e Raymond. Foi mãe de Anna de Bryke, fruto da violência cometida por um mercenário, e morreu no parto.
Anna de Bryke – Mestra de Sagas recém-chegada da Floresta dos Teixos, envolve-se com questões políticas ao mesmo tempo que procura se integrar à vida no Castelo das Águias. É a narradora do livro.
Arnak – meio-humano, é um dos membros do Conselho de Vrindavahn.
Aryan – artista de fantoches, trabalha na Ala Violeta do Castelo.

B

Bragi – Herói do Etta, patrono dos escritores, músicos e demais artistas.

C

Camdell de Riverast – Mentor da Escola de Artes Mágicas. Um mago versado em conhecer as transformações da alma.
Colum – humano, membro do Conselho de Vrindavahn.
Conan – jovem aprendiz do Primeiro Círculo.

D

Doron – Mestre de Combate de Scyllix, amigo de infância de Kieran. Vai a Vrindavahn representar sua cidade numa demanda sobre as águias guerreiras.
Drusius – Preste do Templo de Bragi. É membro do Conselho de Vrindavahn e seu líder, que detém o voto decisivo em caso de empate.

E

Eldrin – elfo, descendente de uma Casa Nobre, membro do Conselho de Vrindavahn.
Ennea – esposa de Algias de Donnes. É arquiteta e foi responsável pelas obras no aqueduto da cidade.
Enoch – humano, membro do Conselho de Vrindavahn.
Erdon – meio-humano, aprendiz do Terceiro Círculo.

F

Finn de Riverast – mago meio-humano, ensina Magia da Forma e Pensamento na Escola, trabalhando em conjunto com Kieran. Mantém um relacionamento com Sophia.
Flora – jovem humana, prometida de Aryan.
Freya – heroína do Etta, protege o amor e o casamento.
Freydis – jovem humana, aprendiz do Primeiro Círculo.

...

Personagens de G a N.

Personagens de O a Z.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Excalibur - nova antologia da Draco

Como todos devem saber, 2012 será o Ano do Dragão, e para comemorá-lo a Editora Draco preparou uma série de surpresas para leitores e escritores de Literatura Fantástica.

Estou aqui para anunciar uma delas, que agradará aos fãs da Idade Média (e não só): a antologia Excalibur: histórias de reis, magos e távolas redondas, que reunirá contos sobre ou baseados no universo arturiano em qualquer uma de suas versões.

Uma visita ao blog dará mais detalhes. Esperamos ter o prazer e a honra de contar com vocês!

domingo, 11 de dezembro de 2011

O Castelo das Águias: Alas e Torres


Este é um pequeno roteiro para os visitantes do Castelo das Águias. E também um desafio. Por que essas cores - exatamente essas - foram escolhidas para as alas? E o que elas têm a ver com as atividades de cada uma?
Ala Azul
A primeira a ser construída, existe há séculos. É toda de pedra e bem austera. Tem duas torres estreitas, uma das quais é a Torre dos Ventos, e duas largas: uma utilizada para as aulas de Magia da Forma e Pensamento e a outra transformada nos aposentos pessoais de Kieran de Scyllix.

Ala Branca
Boa parte dessa ala já existia quando Camdell chegou, mas depois disso houve algumas ampliações. É maior prédio do castelo e também o mais central, onde estão a cozinha principal, o grande salão e a biblioteca. Abriga também os dormitórios dos aprendizes, dos hóspedes, dos empregados e do mestre de Música, Urien. Uma das duas únicas torres faz parte dos dormitórios dos aprendizes e seu quarto superior tem uma casa de banho privativa, o que o torna muito disputado entre os jovens.

Ala Verde
Prolongamento da Ala Branca, também anterior à chegada de Camdell. Tem duas torres largas, numa das quais fica o observatório de Naheen, mestre de Ciências do Céu, e na outra o laboratório de Alquimia usado principalmente por Algias de Donnes. As aulas de Música e de Artes da Cura também são dadas nessa ala, relativamente pequena apesar das atividades que aí ocorrem.

Ala Rubi
Adjacente à Ala Branca. Pequena, com torres estreitas. A parte dos jardins foi construída após a chegada de Camdell, que aí tem seus aposentos pessoais.

Ala Amarela
A menor do Castelo das Águias. Um quadrilátero com uma única torre baixa e um belo jardim. Construída por Camdell, hospeda Thalia de Erchedel e Lara de Kalket. Tanto elas quanto o Mestre de Sagas residente dão aqui suas aulas.

Ala Rosada
A mais próxima da floresta, construída a partir dos galpões de trabalho de Theoddor. É uma ala longa e estreita com torres de tamanho e largura média. Nela fica o laboratório de Ciências da Terra de Rydel de Bergenan e os aposentos pessoais de Rydel, Finn e Sophia de Riverast e do Mestre de Sagas.

Ala Violeta
Tem uma torre, um anfiteatro e vários galpões de trabalho. A torre já existia antes da vinda de Camdell e era usada para vigiar a entrada. Essa ala cresce ou diminui de acordo com o número de artesãos trabalhando ali. Às vezes tem até tendas montadas perto do anfiteatro. Tudo que é de artes e ofícios funciona ali, como a forja e a carpintaria.

Post ilustrado com uma imagem de Carcassone, cidade francesa cujo visual inspirou o do Castelo das Águias.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Castelo das Águias de Ana Lúcia Merege com Super-Desconto!!!

Pessoas Queridas,

Para quem está a fim de conhecer melhor Anna e Kieran mas tem restrições orçamentárias, trago uma boa novidade. Em comemoração aos 2 anos da Editora Draco, os livros já lançados estão com um ótimo desconto: 50% com frete incluso, bastando comprar duas obras. O Castelo das Águias sai por inacreditáveis R$ 17,90 - preço de livro de bolso!!

Deem uma olhada nos descontos da Editora Draco e aproveitem. Como diz o editor Erick Santos, só daqui a dois anos vai ter mais.

Abraços a todos!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O Primeiro Outono - Conclusão


Circulado pela tatuagem escura, o olho de Zendak brilhava como uma estrela. Effimon o encarava sem reservas, os lábios contraídos, como se alguma coisa no xamã o incomodasse. Maryan não soube o que dizer. A intuição, assim como a experiência, a fazia pensar em algum tipo de armadilha – as mais traiçoeiras, tecidas com palavras – mas, uma vez iniciada, não podia pedir que Zendak interrompesse a história. Por fim, ela se limitou a assentir com um gesto, deixando que ele retomasse o fio da narrativa.

Caçar, para os homens, significa rastrear e matar, às vezes por diversão. Para nós, é diferente. Antes de uma caçada, uma pessoa deve se preparar, reunir seu espírito ao Grande Espírito que é partilhado com todas as criaturas. Ela deve estar disposta a honrar o animal que vai dar sua vida para lhe matar a fome.

Numa jornada de caça, isso é ainda mais importante. Você não quer carne, simplesmente: você tem algum outro propósito em vista. No caso de Kyara, era preciso, em primeiro lugar, obter pele suficiente para fazer um agasalho, e para isso ela entrou na floresta e rastreou dois gamos. Um velho e um jovem. Cada um deles foi morto da maneira adequada - com preces, dignidade e o mínimo de sofrimento - e um pouco do seu sangue foi dado ao fogo, assim como Kyara tinha dado o seu antes de começar a jornada. E dessa forma os três espíritos ficaram em paz.


- Interessante – comentou Maryan, tentando disfarçar um calafrio. – Uma barganha com os espíritos dos animais que ela caçou.

- Não foi barganha. Foi uma oferta de paz, para manter o equilíbrio. Essa parte da jornada se encerrou ali, porque Kyara teve que levar os gamos para casa, tratar da carne e da pele antes que se estragassem. Isso seria desperdício e uma afronta às criaturas que ela havia matado.

A jornada continuou na lua seguinte. Agora não seria preciso matar, apenas reunir alguns presentes dados pela floresta. Em homenagem aos quatorze anos da filha, Kyara queria adornar o agasalho com alguma coisa que pertencesse às três Casas, por isso fez uma prece ao Espírito do Corvo a fim de que lhe enviasse algumas penas. Lembro-me bem de quando isso aconteceu, porque nesse dia senti meu sangue me chamar de muito longe, e soube que havia um dos nossos vivendo e caçando além da Floresta dos Teixos. Mas eu não sabia que se tratava de minha prima: isso os corvos me contaram muito tempo depois. Quando era tarde demais para ir até lá e ajudá-la.

- Na guerra? O que você poderia fazer?

- Não sei – admitiu Zendak, sério. – Mas pelo menos eu estaria lá.

- Ele é o xamã – intrometeu-se Effimon. – Uma espécie de mago. Não acha que um mago pode ser útil numa guerra?

Maryan encolheu os ombros, dando-se por vencida. Não era para discutir a guerra ou a Magia que estava ali e sim para ouvir a história. Zendak esperou alguns momentos, certificando-se de que a discussão fora encerrada antes de continuar.

O Corvo foi generoso com Kyara. Um dia de caminhada bastou para que encontrasse as penas que procurava, e na tarde seguinte ela chegou ao rio de onde retirou alguns seixos. Eles iriam representar a Casa da Lontra, pois não havia lontras de verdade na região. Já para o Lobo, Kyara retirou as garras que estavam na sua sacola de talismãs, o que em geral não se faz, mas essa era uma situação diferente. Era para sua filha. Tanto o Lobo quanto os membros da Casa não acharam que foi vergonhoso.

Então, quando Kyara voltou, todo o seu tempo livre foi usado para trabalhar no casaco. Ela tratou a pele, cortou e costurou com um fio feito do tendão do gamo. Desmanchou um velho agasalho seu para usar o forro, que era de pelo de marta. E adornou esse novo casaco, costurando nele as garras, as penas e os seixos que eram os símbolos das três Casas. Veja como ficou.


Pegou o agasalho das mãos de Anna, levantando-o para que Maryan visse os adornos dispostos em padrão simétrico. As garras estavam sobre o peito, as penas caprichosamente pendendo sobre elas, presas pelas hastes à gola de marta; os seixos, na verdade bem pequenos, vinham mais abaixo, onde o casaco devia tocar as coxas e os quadris de Anna. Nesse momento, Maryan já podia adivinhar o que Zendak ia dizer em seguida, e quase conseguiu impedi-lo de dizer, mas ele não lhe deu tempo: olhando-a no fundo dos olhos, pôs o casaco sobre seus joelhos enquanto voltava a falar.

Essas jornadas foram as últimas de Kyara antes da guerra. Anna mal havia chegado a usar este casaco quando Raymond foi convocado e morto, e a cabana onde ela e a mãe viviam foi invadida pouco tempo depois. Uma violência, sim. Mas também o início de uma vida. E toda vida é sagrada.

Seu rosto se contraiu por um instante, depois relaxou diante da visão de Anna brincando com as penas presas ao casaco. Maryan também a fitava, com olhos molhados que logo se voltariam cheios de surpresa para Zendak.

Não esperava que ele lhe pegasse a mão.

- Eu sei o que vocês pensam sobre se vestir com peles de animais – disse, muito sério. – E sei que não precisam disso em sua terra. Mas aqui é necessário, assim como no lugar onde Kyara morou com Raymond. Por isso, você vê, da morte surgiu a vida, e as duas fazem parte da mesma espiral.

Maryan apertou os lábios e baixou a cabeça. Não sabia o que dizer a Zendak – ela, que sempre tivera na ponta da língua as respostas para quem punha à prova suas escolhas. Pior ainda, as palavras dele tinham aberto uma brecha, pela primeira vez, nas convicções que ela construíra como um muro com os preceitos de Odravas. Da terra, junto aos filhos da terra. Talvez se vestir como eles fizesse parte disso.

Ou talvez fosse apenas uma parte de um teste maior. Quem saberia a resposta?

- É muita gentileza... Muita bondade de Kyara me oferecer algo que pertenceu a sua filha – murmurou, por fim. – Mas é a pele de animais que... que...

- Que honraram minha prima com um presente – completou o xamã. – Agora, ela quer honrar você em agradecimento ao que está fazendo por Anna, e ao mesmo tempo fazer com que a morte dos gamos não tenha sido em vão. Nem a minha história – concluiu, sorrindo enquanto aproximava o casaco do corpo da mestra de sagas.

Maryan tocou o couro com relutância. Para sua surpresa, era macio, não como um tecido, mas não havia nada da rigidez áspera que esperava. Sua mão deslizou como por instinto para dentro de uma manga, trazendo a imediata sensação de calor – um calor benvindo, por mais que lhe custasse admiti-lo. Dividida, ela olhou para Zendak, depois para Effimon, que ergueu os ombros, indecifrável em suas próprias vestes de couro. Então, quando menos esperava, a voz de Anna se fez ouvir, clara e precisa como um raio entre as nuvens.

- Os gamos não precisam mais do couro. Minha mãe também não. Mas você precisa, por isso minha avó e eu queremos que aceite.

No instante seguinte, as lágrimas que flutuavam nos olhos de Maryan lhe desceram pelas faces, e ela soube o que devia fazer. Com gestos lentos, deixando-se ajudar pela criança, desvencilhou-se da manta de lã e vestiu o novo agasalho, sentindo, a cada polegada, o espírito dos gamos adejando em torno de sua pele. Seria isso – dançar de alegria?

- Parabéns, Zendak – disse, lenta, a voz de Effi. – Em poucos momentos conseguiu o que venho tentando desde que ela chegou a Bryke.

Ergueu o rosto, e nele Maryan vislumbrou algo que nunca vira antes. Como sempre, Effimon tinha um ar determinado, mas o brilho em seus olhos perdera a qualidade leve, até brincalhona que a cativara desde o primeiro dia. Também não se voltava para ela e sim para o xamã, que Effi observava sem reservas, o olhar como uma adaga apontada para suas costas. Essa não, pensou Maryan, compreendendo na mesma hora o que acontecia – e sabendo, com a certeza dos que conhecem todas as sagas, o que estava por vir.

Definitivamente, aquele seria um longo inverno.

.....

Bom, Pessoas... este foi o fim do conto. Mas não o da história. Ainda haverá outras estações para Zendak, Maryan e Effimon, bem como para a jovem heroína do Castelo das Águias. Espero que continuem por aqui.

Até breve!


Imagem retirada daqui

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Primeiro Outono - parte 5



Enrodilhada em sua manta de lã, à espera do sol que a cada dia aparecia mais tarde, Maryan escrevia sobre os costumes da tribo. Ainda não sabia quase nada além do que ouvira em Bryke; esperava conhecer outras pessoas, quem sabe ir às casas delas para colher suas próprias impressões. A casa de Anna, talvez, e da avó que se mostrara ao mesmo tempo dura e generosa. Ou ainda a de Zendak, se ele voltasse a visitá-la. Por que não viera naqueles últimos dias?

Traçada a última letra – fora pouco, de fato, o que escrevera – ela ergueu a cabeça, fitando a trilha que começava a vinte passos da casa. Conduzia à floresta – da qual até agora vira apenas a orla – e às cabanas construídas pela tribo sobre e ao redor de árvores milenares. Corvo, Lobo e Lontra, cada Casa tinha um abrigo para rituais e reuniões, mas os jovens viviam em família até que se casassem. Quase todos o faziam, ao contrário dos Elfos Brilhantes, e sempre por amor.

E, por estranho que parecesse, tanto o amor quanto o casamento duravam a vida inteira.

Maryan se recostou à parede da casa, as mãos trançadas sob a nuca, recebendo em cheio e com prazer o afago do sol. Sim, apesar das dificuldades havia beleza neste lugar, uma tranquilidade que dificilmente conseguiria obter em Kalket. A vida na floresta criava pessoas bem diferentes daquelas que conhecera até então. O que faria, em algumas gerações, com a cultura que seu próprio povo trouxera das Terras Férteis? Em que medida eles se adaptariam ou até se misturariam à tribo? Mesmo ela, como Mestra de Sagas, achava difícil imaginar.

Um estalido, como o som de um graveto sendo quebrado, a despertou de suas reflexões. Anna vinha andando rápido pela trilha, com o sol nas costas, mas mesmo assim os olhos e o sorriso estavam cheios de luz.

- Oi, menininha! Já estava com saudades suas! – exclamou Maryan, abraçando-a ao mesmo tempo em que olhava para o adulto logo atrás dela. Era Zendak, saudando-a com um sorriso em que se lia um prenúncio de novidade.

- Trouxe uma coisa para você – anunciou, e se sentou a seu lado, sobre os calcanhares. Suas roupas eram finas, tanto quanto podem ser uma calça e uma camisa feitas de couro, mas tinha na mão um agasalho mais quente, forrado, com gola de pelos cinzentos. Ele o entregou a Anna, fazendo um sinal para que se sentasse ao lado de Maryan, e ergueu os olhos sombreados para a Mestra de Sagas.

- O que eu tenho é uma história – disse, com ar solene. – Nossas histórias são contadas de coração e dadas como presente. Você aceita?

- Uma história? Mas é claro! – replicou Maryan, na mesma hora. Muitas vezes, lendo sobre os povos da floresta, encontrara menções a essa prática: presentear uma narrativa, quer se tratasse de uma história pessoal ou uma da tribo, como se fosse um bem precioso. Quem a ouvia se tornava o depositário, e quase sempre se sentia no dever de retribuir com outra história ou algum tipo de favor. Do ponto de vista de Zendak, isso devia ser muito sério, mas Maryan não tinha medo de decepcioná-lo. Quanto a favores, sabia que o xamã tinha em alta conta o fato de ela estar ensinando as letras a Anna; e, no que tocava a histórias, conhecia todas que algum dia tinham feito parte de um livro.

- Fico honrada em ouvi-lo – disse, tentando soar mais ou menos formal. Zendak sorriu, passando a mão pelos cabelos que caíam como uma asa negra. Então, começou.

Há muitos anos, havia uma caçadora da Casa do Lobo, e seu nome era Kyara. Ainda era jovem, mas tinha trazido muita carne para a tribo; tinha cicatrizes no corpo e garras de urso no colar.

Num dia de inverno, Kyara seguiu os rastros de um gamo até bem longe do território da tribo. Quando viu, era tarde para voltar, então ela decidiu procurar uma gruta que servisse de abrigo. Encontrou, mas dentro dela já estava um homem – um dos primeiros que ela via e com quem falou. E o que Kyara nunca teria imaginado é que, antes daquela noite acabar, ia sentir seu coração bater, seu corpo ficar quente, seu espírito dançar de alegria, tudo por aquele homem que se chamava Raymond de Pwilrie.


- Meu avô! – exclamou Anna, radiante.

- Adorei essa imagem – disse Maryan a Zendak. – "O espírito dançando de alegria"... Isso é quando uma pessoa se apaixona?

- Não só. Os espíritos sempre dançam. Às vezes voam – garantiu o xamã. – Continue a ouvir.

Sem pensar duas vezes na tribo que deixava para trás, Kyara partiu com seu homem, e andaram muitos dias até chegar a um povoado distante. Ali, deram a Raymond um trabalho. Ele devia viver numa cabana dentro da floresta, ajudar os homens ricos que fossem caçar lá - e, ao mesmo tempo, impedir que outros fizessem o mesmo, ainda que suas famílias precisassem de carne.

Kyara não se conformou com essas regras. Então, como os lobos, começou a caçar de noite, e os homens ricos nunca descobriram. Isso durou muitos anos, antes e depois de ela ter uma filha a quem chamaram Anna, como a mãe de Raymond. Era uma criança muito doce. Parecida com esta outra Anna.


Sorriu para a menina, que corou de prazer e escondeu o rosto nas mãos. Preparava-se para continuar quando Effimon surgiu na trilha que conduzia aos currais, carregando um balde de leite, o braço livre aninhando contra o peito vários queijos de odor picante.

Zendak fez uma careta, levando a mão ao nariz num gesto exagerado. Effi apenas sorriu. Com sua pisada leve, aproximou-se até a distância de cinco passos, olhando ora para Maryan, ora para o xamã, que pelo jeito era tão seu conhecido quanto de Narhi e Pylos.

- Desculpem a intromissão. Vinha falar com Maryan, mas, de longe, percebi que contavam uma história – disse ele. – Posso ouvir também?

Em resposta, Zendak estendeu o braço, correndo o polegar pela manga do casaco de Effi. Era de couro de veado e bem surrado, provavelmente um dos agasalhos oferecidos pela tribo no primeiro inverno de Bryke. Talvez pelo próprio xamã.

- Você pode ouvir – decidiu este, após alguns momentos. – Mas tem de ficar em silêncio. E manter essa... coisa o mais longe possível.

- Prometido – disse Effimon, o rosto inescrutável. Pousando o balde no chão, ele se sentou ao lado de Maryan, deixando que o xamã prosseguisse com a narrativa.

Kyara dos Lobos amava sua filha. Lamentava criá-la num lugar tão perigoso, longe da tribo e à mercê dos homens ricos que, além de tudo, estavam sempre lutando uns contra os outros. Mas mesmo assim Anna era feliz. Seus pais nunca a deixaram passar frio nem fome. Com as caçadas noturnas havia sempre carne, e das peles Kyara fazia agasalhos, como aprendera na juventude.

O último casaco que ela fez para Anna foi o melhor de todos. Foi pela época em que nossos jovens são aceitos numa das três Casas, aos quatorze anos. Se Anna estivesse aqui, eu a teria ajudado na jornada em busca do seu espírito protetor, e então o gravaria em sua pele para que sempre a acompanhasse; mas, onde elas estavam, Kyara não tinha como saber qual das Casas acolheria sua filha. Então, fez ela mesma uma jornada de caça. E aqui começa a verdadeira história.


- Como assim? Pensei que tivesse começado lá atrás – disse Maryan.

- Não. Até agora foi uma explicação para que você entendesse – replicou o xamã, imperturbável. – A história que eu vim contar não foi a de Kyara e Raymond, ou mesmo a de Anna, e sim a dessa jornada: a última caçada de minha prima antes da guerra que mudou sua vida. É nela que reside aquilo que eu realmente quero partilhar com você.

.....

Quase no fim... Não deixe de ler a conclusão!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Primeiro Outono - parte 4



Na ponta das asas, o vento era um aviso para que tomasse o rumo do Oeste. Ele observou por um instante as copas das árvores – folhas vermelhas e alaranjadas, galhos nus – e deu uma guinada com o corpo, deixando-se apanhar em cheio pela corrente de ar. Assim, sem esforço, planou acima de um bom trecho da floresta, as árvores e as clareiras, as pedras, as grutas e a foz do Rio da Lontra.

Ali, a água se avolumava, enroscando-se entre as rochas em grossos redemoinhos de espuma, e ele soube que chovera nas terras altas do Norte e que essa chuva lhes traria boa pesca até o fim da estação. Então viria o Inverno, e seria dos mais frios, conforme podia ler no ar e sentir nos ossos. Ossos de elfo, ossos de pássaro. Nesse momento, ele podia se sentir como os dois.

Uma forma escura se moveu no canto de seu olho. Ele voltou a cabeça, apenas o suficiente para ver o falcão se aproximando por trás. Não tinha como alcançá-lo – ele era Zendak-Espírito, inatingível para as garras de um falcão de carne e osso – mas o hábito foi mais forte, e ele bateu furiosamente as asas, buscando a proteção de um choupo, como teria feito o Corvo-Zendak. Dali, viu o falcão dar meia-volta, procurando em vão pela ave negra que lhe cruzara o caminho, depois desistir, soltando um grito de raiva e frustração enquanto se afastava em direção às montanhas.

Zendak esperou alguns momentos antes de deixar o abrigo. O ar frio penetrava em seu bico, eriçava as penas, um incômodo que seria crescente ao longo das próximas luas. Os corvos de verdade já o sentiam e se preparavam para voar em busca de terras mais quentes, mas tudo que o xamã tinha a fazer era voltar ao seu corpo de elfo e se aquecer junto às fogueiras da tribo. Antes, porém, devia cumprir o que se propusera naquele Sonho – e assim ele voou mais uma vez, agora para o bosque de abetos ao sul do território, e se certificou da presença de um urso na toca que a família de texugos abandonara no Verão. Era um urso macho, solitário e próximo da velhice: exatamente o que precisava para aumentar as reservas de carne. Pois o Inverno prometia ser daqueles em que nem os melhores caçadores poderiam ter certeza do sucesso.

Depois de sobrevoar o local, marcando bem as direções na memória a fim de orientar o grupo de caça, ele voltou por um caminho diferente, fazendo um curto desvio para ver como estavam as coisas em Bryke. Ao contrário da tribo, que vivia nas árvores antigas e em cabanas de madeira, os aldeões tinham casas de pedra, e seu aspecto era ainda mais estranho visto de cima, com os tetos de palha trançada e aqueles cercados onde prendiam os animais. Os campos tinham sido ceifados e estavam vazios. Aqui e ali, numa oficina ou no caminho entre duas casas, avistavam-se umas poucas pessoas, quase todas vestidas como a tribo se vestiria no auge do Inverno, dali a duas luas.

E, por essa época, talvez alguns aceitassem partilhar a carne do urso.

Um voo curto e arrojado contra o vento o levou de volta à sua árvore. Era a mais antiga da floresta, suas formas moldadas e trabalhadas ao longo de séculos pela magia dos xamãs até que o tronco fosse capaz de servir de morada a uma família. Zendak, porém, o enchera com seus tesouros, passando a dormir na parte de cima, na cabana construída sobre galhos que servira a seus antecessores como espaço sagrado. Não fossem igualmente sagrados o sono e os Sonhos como o de agora.

Pois fora num Sonho, e não num Voo de verdade, que ele percorrera a floresta. Seu corpo ali estava, deitado numa esteira, o torso e os membros pintados e adornados com penas de corvo. Quando, acostumado às partidas e regressos, seu espírito mergulhou de volta, houve apenas um breve tremor de carne e ossos – e seus olhos de elfo se abriram a tempo de ver um vulto se debruçar sobre ele.

- Xamã! Quando voltou? – Era Okli, um dos jovens da Casa do Corvo que se revezavam acompanhando seus Sonhos. – Estava ali na entrada, aproveitando o resto de sol... posso ter desviado os olhos um instante, mas...

- Não se preocupe. Acabo de chegar – disse Zendak, esforçando-se para mover as pernas e os braços. Estavam pesados, as mãos e pés quase insensíveis contra a esteira áspera. Quanto tempo ficara assim?

- Três dias e duas noites – informou Okli, que estava agachado num canto, mexendo num cesto que cheirava a carne seca. – Vários de nós já estivemos aqui, olhando por seu corpo. Esta comida veio ao meio-dia. É da casa de seus primos Tak e Hengar.

Aproximou-se, oferecendo uma tigela de carne, frutas e bolinhos feitos de massa de pinhão. O cheiro fez Zendak perceber que estava faminto, mas mesmo assim ele comeu devagar, sabendo que, do contrário, seu corpo sentiria as conseqüências do esforço. Okli se sentou a seu lado, tentando, e não conseguindo, disfarçar seu fascínio por aquele que cruzava livremente as fronteiras do Sonho.

- Viu muita coisa, xamã? – perguntou, por fim. – Caça para o Inverno?

- Vamos ter o que precisarmos – tranqüilizou-o Zendak. – Mas também muito frio. O rio vai encher, talvez uma, talvez duas vezes antes que caia a neve. E há um urso vivendo a meio dia de viagem daqui.

- Ah, se a Casa do Corvo for caçar urso, eu vou junto. Quero uma garra para minha sacola de talismãs – disse o rapaz, passando a mão por trás do ombro para tocar a tatuagem recente. Ainda soltava casca, mas o fazia sentir-se um membro adulto da Casa do Corvo, apto a participar de um grupo de caça e conquistar um troféu. Eram as Casas que decidiam quem ficava com as presas e garras. Já a comida e as peles de vestir eram distribuídas pelas famílias de acordo com a necessidade, embora as Casas fossem consultadas em algumas situações. Zendak tivera de conversar com as três antes de fornecer comida e peles aos moradores de Bryke. Mas, desta vez, não precisaria chegar a tanto.

Pouco depois, ele chegava à cabana de Kyara. Achou-a sozinha, pois Anna fora brincar com as crianças da casa mais próxima e ficaria lá para comer. Não tinham ido a Bryke nesse dia, mas no anterior Anna insistira para que o fizessem, e Kyara finalmente ficara conhecendo a nova amiga do xamã.

- Ela foi gentil – disse. – Mas parece delicada, frágil até em comparação aos outros lá da aldeia. E para alguém que você diz ser tão inteligente é muito cabeça-dura. Cheia de frio, e não aceitou um bom casaco de pele.

- Você levou um casaco para ela? – fez o primo, incrédulo.

- Não, só ofereci. Tenho um sobrando, que era de Anna... a primeira Anna – esclareceu, uma nuvem passando-lhe pelos olhos. – Achei que seria um bom presente, uma retribuição, já que ela prometeu ensinar as letras à criança. Mas parece que vou ter que pensar em alguma outra coisa.

- Ou não. – Na cabeça de Zendak, ideias se cruzaram com a rapidez de um raio, gerando a faísca de outra idéia. – Creio que posso mudar isso, se você me contar mais a respeito desse casaco.

- Mais? – Kyara franziu a testa. – É um casaco. Foi de minha filha. O que mais posso dizer?

- Muito – respondeu o xamã, servindo-se de uma perna de coelho que fumegava num pote. – Enquanto se tratar de um casaco de pele, e apenas isso, Maryan não vai querê-lo. Mas, com a sua ajuda, talvez eu dê um jeito de transformá-lo numa história.

.....

Qual será a história de Zendak? Você vai saber se ler a Parte 5!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Entrevista para a Revista "Fantástica"


Pessoas queridas,

Passo rapidinho para convidá-los a conferir o vídeo da minha entrevista concedida a Carol Chiovatto, da Revista "Fantástica", durante o Fantasticon 2011.

O evento foi sensacional, reencontrei e conheci muita gente boa e vi o que se publicou nos últimos tempos dentro do gênero. Também fiquei sabendo onde e como é a Biblioteca Viriato Correia, especializada em Literatura Fantástica; foi uma pena não ter conhecido nenhum dos bibliotecários, com quem quero trocar figurinhas acerca do gênero sendo usado em mediação de leitura. Mas isso virá.

Espero que todos os presentes tenham curtido tanto ou mais do que eu. E quem não foi este ano, não faz mal: em 2012 lá estaremos outra vez!

Grande abraço,

Ana Lúcia

domingo, 7 de agosto de 2011

O Primeiro Outono - parte 3



Um sonho como o de Odravas pode facilmente se transformar em pesadelo. Não para ele próprio, que baseara sua comunidade pioneira nas Terras Férteis e passava os dias descalço, ao sol, meditando e vez por outra colhendo ervas numa horta, mas para aqueles dentre seus seguidores que tinham ido além e se mudado para lugares como Bryke.

A floresta selvagem, o vento e o frio inclemente compunham o cenário em que se desenrolava cada ato do drama: o de rachar a lenha, com o cabo do machado abrasando as mãos, o de arrancar as ervas daninhas – os joelhos esmagados contra o solo frio, endurecido -, o de recolher, nas tardes que acabavam cada vez mais cedo, as cabras magras e ariscas para o cercado. O pesadelo continuava em suas tetas, sempre escapando das mãos, no esguicho incontrolável do leite e nas formas de queijo, que depois era preciso lavar na água gélida do rio. E o cheiro horrível que ficava nas roupas, por mais que as esfregasse? Pesadelo!

- É, Maryan... Acho que vamos ter de lhe arranjar outro trabalho – disse Effimon, ajoelhando-se ao lado dela. Um dos fundadores de Bryke, ele era o principal criador de cabras e queijeiro, o que não era de estranhar, pois já fazia esse trabalho nas Terras Férteis. Segundo Pylos, fora também o primeiro dentre eles a aceitar a carne oferecida pelos caçadores da tribo, e continuava a consumi-la sempre que havia oportunidade. Isso fizera Maryan olhá-lo com uma certa reserva, a princípio, mas agora simpatizava com seu jeito franco e direto, o brilho inteligente dos olhos e o sorriso fácil. A amizade, porém, não o impedira de apontar as falhas no seu trabalho – não por desleixo, apressara-se a afirmar, mas sim por completa falta de aptidão para aquelas tarefas.

- Alguns de nós não foram feitos para viver assim – disse ele, não pela primeira vez. Maryan lhe lançou um olhar de esguelha e não retrucou. Apenas ergueu o braço e bateu a peça de roupa contra as pedras, com toda a força, de forma a atirar partículas de espuma no rosto e no cabelo de Effi.

As sombras da tarde se alongavam quando deixou o rio. O cesto com a roupa lavada pesava sob o braço, mas mesmo assim Maryan decidiu passar primeiro pela oficina de cantaria. Pylos, que arrumava uma pilha de pedras junto com um aprendiz, sorriu e a saudou de longe, enquanto Narhi veio ao seu encontro, tendo em cada mão um copo cheio de um suco arroxeado.

- Como foi lá no Effi? – perguntou, enquanto Maryan provava a bebida. – O trabalho é difícil?

- Cansativo. Não me entendi muito bem com as cabras. – Torceu o nariz, examinando o interior do copo. – O que tem aqui? Amoras?

- Sim, e também bagas de urso, e framboesas, e uvas silvestres. Tudo que se encontra nos arbustos ao redor da aldeia. O que achou?

- Azedo – disse Maryan, e em seguida tomou um grande gole. – Mas não é tão ruim assim.

- É como a vida aqui em Bryke – disse a amiga, piscando o olho.

Maryan sorriu, cansada, e não respondeu. Não havia o que dizer diante desse tipo de comentário. Doce ou azeda, aquela era a realidade, ela teria que se adaptar se quisesse continuar ali. Principalmente achar uma ocupação em que se sentisse útil – e que, de preferência, não a deixasse dolorida, desgrenhada e enregelada dentro das roupas ainda cheirando a leite.

Momentos depois, Pylos deu o trabalho por terminado e dispensou o aprendiz. Narhi o ajudou a guardar as ferramentas e Maryan lavou os copos, após o que deixaram a oficina. Ficava aberta, como todos os locais de trabalho e produção em Bryke, sendo a única preocupação resguardá-la da chuva e da neve que cairia no inverno. Já a casa era mantida com a porta encostada, quando estavam ausentes – e a exclamação de Narhi, ao empurrá-la, fez Maryan saber que tinham visitas.

- Zendak! E... Anna! Mas que surpresa! – disse, em tom alegre. Maryan entrou em seguida e se deparou com o xamã sentado junto ao fogo, mexendo alguma coisa numa panela. Perto, de pernas cruzadas – e tendo no colo o livro subtraído por Zendak há dois dias - estava uma garotinha de quatro ou cinco anos, morena como a tribo, mas de aparência mais humana que élfica. Seu rosto, erguido para os recém-chegados, mostrava um sorriso tímido, que se ampliou ao ouvir o elogio de Narhi ao seu colar de contas.

- Foi Tikka que me deu. A avó fez flechas para ela – contou. – Ficaram muito boas.

- A avó dela é prima de Zendak – disse Narhi, dirigindo-se a Maryan – Nós conhecemos as duas na floresta, mas esta é a primeira vez que Anna nos visita. A que se deve essa honra?

- Vim devolver o livro – disse Zendak. – Mostrei para Anna, que gostou muito, mas fez perguntas que não sei responder. Acho que Maryan sabe.

- Perguntas? Que perguntas? – indagou a Mestra de Sagas. Foi como uma fórmula mágica: na mesma hora, a menininha se pôs a folhear o livro, apontando uma gravura aqui e outra ali enquanto desatava a tagarelar.

- Tem esses homens aqui. Viu só? Eles estão com lanças, mas Zendak disse que é um jogo e eu quero saber se eles são amigos e por que usam essa roupa engraçada. E aqui nessa folha tem um lobo com uma corda no pescoço. Ele está rosnando para um javali, mas se ele não se soltar o javali pode matar ele. Os dentes dele são muito...

- É um cão de caça – interrompeu Maryan.

Anna ergueu a cabeça e a fitou com olhos brilhantes, cheios de expectativa. Maryan se sentou a seu lado, no chão, e pegou o livro, pensando na melhor forma de explicar sobre cães e cavaleiros a quem jamais saíra da floresta.

- Você conhece lobos e pensou que este era um – disse, por fim. – Mas é outro animal: um cão. Nunca viu cães?

- Acho que não.

- Tudo bem. São animais que vivem perto das pessoas, como as nossas cabras, mas são parentes dos lobos e comem carne. Alguns são treinados para ajudar os homens a caçar. Eles estão assim, presos em coleiras – apontou – mas vão ser soltos logo, ou então os homens que estão ali perto vão matar o javali. Entendeu? Os cães ajudam os homens.

- Elfos também? –perguntou Anna.

- Não, elfos não costumam ter cães. Nem caçam, no lugar de onde eu venho. Só os que são das tribos, nas floretas como a dos Teixos.

- E tem outras florestas? – admirou-se a criança.

- Tem! Espere um momento. – Levantou-se, indo até a pilha de livros e escolhendo um volume. Sentou-se de novo ao lado de Anna e o abriu na primeira página, ilustrada com um mapa de Athelgard.

- Aqui, está vendo? Todos nós vivemos nesta terra, e nela existem florestas, montanhas e cidades. Eu vim desta aqui, Kalket, nas Terras Férteis. Agora, estamos na Floresta dos Teixos. – Pegou a mão da menina, fazendo-a acompanhar o trajeto. – É longe, não é? E, veja, tem outras florestas, e em algumas vivem tribos parecidas com a sua.

- E outras diferentes, como os Lobos Cinzentos e Ursos Negros – intrometeu-se o xamã. – Não se esqueça delas.

- Ora, não esqueci – replicou Maryan. – Só não posso dizer tudo de uma vez.

- E já disse muita coisa – sorriu Pylos. – Você se entusiasmou, Maryan. Até esqueceu que estávamos aqui.

- Entendeu por que dissemos que deve esperar pelas crianças e começar a escola? – perguntou Narhi. Maryan a encarou, tentando retrucar, mas, antes que conseguisse, já um dedinho curioso lhe espetava o braço.

- Como é que as pessoas sabem onde é para desenhar cada floresta?

- Xiii... Isso vai longe. É melhor comermos primeiro – disse Narhi. – O que você tem aí, Zendak?

- Cogumelos e algumas raízes. – Ergueu a panela, mostrando o conteúdo acastanhado e aromático. – Cozinhei com umas ervas para dar mais gosto.

- Ótimo! Vou pegar verduras. Pode trazer o pão e o queijo, Maryan?

- Claro, mas para vocês – disse a amiga, pondo-se de pé. – Já vi o bastante de queijo e leite por hoje.

- Imagino. – Narhi franziu o nariz. – Vai voltar lá amanhã?

- Não sei – respondeu Maryan, com um suspiro. – Creio que Effimon não ficou impressionado com o meu trabalho.

- Mas tem alguém que ficou – disse Pylos.

Inclinando a cabeça, ele apontou para Anna, que continuava concentrada no exame do mapa. Seu dedo corria sobre as linhas e, às vezes, os lábios se moviam, como se falasse consigo mesma. Não havia como ouvi-la, mas, conhecendo as crianças, Maryan sabia que estava fazendo perguntas, e que nem sua imaginação nem sua inteligência poderiam encontrar sozinhas todas as respostas.

E, conhecendo a si mesma, compreendeu que acabara de encontrar pelo menos uma ocupação para o inverno.

.....

É hora de dar uma respirada. Mas não se esqueça de voltar para a Parte 4!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O Primeiro Outono - Parte 2


Se alguém lhe perguntasse, Zendak não teria dificuldade em admitir seu gosto pelas coisas curiosas. Nem sempre brilhantes, às vezes nem mesmo bonitas: essas coisas o atraíam por ser diferentes, porque o faziam pensar e entender o mundo de um jeito como nunca o vira antes. Com as pessoas também era assim, por isso ficou tão feliz com a chegada dos seguidores de Odravas. Dos próprios corpos, com pele clara e cabelo reluzente, às casas de pedra cheias de objetos que desconhecia, eles eram um desafio, um enigma que o xamã se dedicara a decifrar naqueles últimos anos e que, mesmo agora, continuava a estimular sua mente.

Aquele livro, por exemplo. Vendo as gravuras e fazendo duas perguntas, já aprendera coisas novas, e sabia exatamente com quem devia partilhá-las. E havia a recém-chegada, com seus olhos cinzentos, a determinação patente na maneira como se enrolava na manta e mordia o pão queimado, coberto pela coisa repulsiva feita de leite.

Sim, ele queria saber mais sobre ela.

Esse era mais um motivo para fazer o que pretendia fazer agora.

O ruído da cascata foi crescendo à medida em que Zendak se aproximava da cabana de Kyara. Três anos atrás, para surpresa dos que a julgavam morta ou perdida para sempre, sua prima retornara de uma longa estada entre os humanos, trazendo a neta ainda bebê para que crescesse em meio à tribo. Os parentes se ofereceram para alojá-las, mas, talvez por precisar de algum tempo a sós, ela preferiu ocupar a antiga cabana junto à queda d’água, que costumava ser usada para defumar peixe antes que a tribo descobrisse um lugar melhor rio abaixo. Os cantos ainda cheiravam levemente a fumaça, mas o ambiente era limpo e seco, enfeitado com móbiles e pinturas feitas pela criança.

Anna estava prestes a passar pelo seu quarto inverno. Tinha olhos como os dos elfos, grandes e oblíquos; usava tranças e roupas de couro macio, como qualquer menina da tribo, mas seu rosto era inequivocamente humano. Zendak a encontrou sentada à frente da casa, junto a um cesto cheio de penas que separava em outros dois, menores. Em um, as penas longas e retas que serviriam para emplumar flechas; em outro, as pequenas, destinadas a adornos e outros fins.

- Guarde essa aí – disse Zendak, vendo-a pegar uma pena marrom. – Com ela posso cantar e transformar você numa corujinha.

- Pode nada! E a avó, como fica? – replicou a menina. Estava rindo, mas nesse riso havia uma ponta de desconfiança. Ninguém jamais sabia quando Zendak falava a sério.

- Tenho uma coisa para você ver. – Sentou-se ao lado dela, pousando o livro no colo, e o abriu ao acaso. – O que acha dessas pinturas?

- Bonitas. Quem é esse aqui? – perguntou Anna, apontando um dos homens a cavalo. – Que bicho é esse na roupa dele?

- Não sei – admitiu Zendak. – Um lagarto?

- Não é lagarto não, porque tem asas. - Anna franziu a testa, pensou por um momento antes de passar a outra página. Outro mistério.

- Essa lança é muito comprida. É para tirar urso da toca?

- Eu soube que é um jogo – respondeu o xamã. – Dois homens a cavalo com lanças, um tenta derrubar o outro.

- Mas ninguém se machuca? – tornou a criança. – Eles são amigos?

- Não sei – disse Zendak, de novo. – Mas conheço uma pessoa – a pessoa que me emprestou esse livro – que pode explicar tudo isso a nós dois. O que você acha?

- Eu quero! – exclamou Anna, com vivacidade. – Me leva lá?

- Levar onde? – perguntou a avó, surgindo à porta da cabana. No frio matinal, usava uma túnica sem mangas e calças de couro, que, embora recém-lavadas, exibiam manchas acastanhadas deixadas pelo sangue de animais. Kyara sempre fora boa caçadora. Quando menino, Zendak ouvira inúmeros elogios à sua habilidade, mas estes se transformaram em lamento quando, seguindo o rastro de um cervo, a prima desaparecera na floresta. Várias causas tinham sido imaginadas, mas, depois de muita discussão, não conseguiram decidir se o mais provável fora uma queda ou um urso.

Foi dificil acreditar que Kyara houvesse partido com um homem.

O casamento fora feliz, mas terminara abruptamente em meio a uma guerra, e a filha que poderia tê-la confortado morrera dando à luz a pequenina Anna. Zendak sabia que, ao trazer a neta para a floresta, Kyara não queria apenas lhe dar uma família, mas também mantê-la a salvo de outras guerras, atrocidades e injustiças que vira nas terras humanas. No entanto, não havia como mantê-la para sempre alheia à sua herança. Era nisso que ele pensava ao trazer o livro.

Kyara folheou as páginas em silêncio enquanto ouvia seus argumentos. Não o interrompeu, porque ninguém interrompia o xamã, mas sua contrariedade era visível na expressão e nos gestos. Ainda assim, o que ele dizia fazia todo sentido, por isso ela pensou bem antes de dar uma resposta evasiva.

- Eu não sei se Anna tem idade para ouvir sobre essas coisas – disse, por fim. – O mundo é grande, mas é cheio de perigos. Enquanto ela é criança...

- Exatamente. O mundo é grande – replicou Zendak. – É bom que ela comece a conhecê-lo desde já. E que seja através dos elfos de Bryke, porque eles têm todas essas coisas – os mapas, os livros, as lunetas – e são boa gente, que veio procurando paz e não guerra. Nós não sabemos muito sobre o mundo além da floresta, e os homens – encolheu os ombros – bom, ela terá de conviver com eles um dia, então é melhor que vá aprendendo um pouco a esse respeito.

- Por que insiste nisso? – indagou Kyara, franzindo o cenho. – Por que fica dizendo que ela terá de conviver com os homens?

- Por quê? É só olhar para ela. – Zendak fez um carinho no cabelo de Anna, traçou o contorno de sua orelha com o dedo. – Hoje ela é uma criança, mas imagine-a daqui a quinze, vinte... ou, digamos, cinqüenta anos. Conforme for crescendo, ela irá perceber cada vez mais que é diferente de todos aqui, e quando envelhecer será mais ainda. É claro – apressou-se a acrescentar – sua neta pode acabar concluindo que prefere ficar entre nós, voltar para a floresta e ser feliz, e isso vai ser ótimo para todos. Mas antes disso ela tem que cruzar o rio. Tem que conhecer outros da mesma raça. E é melhor que se prepare bem antes de ir.

- Hunf! Não sei no que isso pode ajudar – Kyara fungou, afetando desprezo. – Os homens não são como nós. Não importa o que digam, nunca se sabe o que estão pensando. Muito menos o que farão.

- Pode ser. Mas, se Anna souber como eles vivem, conhecer os costumes e as histórias deles, isso será melhor do que nada. Além disso, é bom que conheça também as pessoas de Bryke. Não vejo tão longe para saber como ela irá crescer – disse, em tom reflexivo. – Mas longe o bastante para saber que nós e os elfos brilhantes seremos cada vez mais um único povo.

- Seremos. Se você continuar a alimentá-los no inverno.

- Eles me alimentam também – sorriu o xamã. – Alimentam meus pensamentos. Bom, e então? Posso levar Anna até a vila?

- Levaria de qualquer jeito – resmungou Kyara. – Mas não a deixe chegar perto das cabras. Não confio naqueles chifres. E preste atenção em tudo que aquela gente disser a ela.

- Serei todo ouvidos – prometeu Zendak.

.....

O xamã vai lá. E você? Corra para a Parte 3!

terça-feira, 26 de julho de 2011

O Primeiro Outono - parte 1

Este conto faz parte de uma série de histórias envolvendo Zendak, xamã da Tribo da Floresta dos Teixos, e Maryan, mestra de sagas e seguidora de Odravas. São inspiradas na música (brasileira e não muito recente) que para mim é o tema do casal. Daqui ao fim da série, quem acertar qual é ganha um brinde surpresa do Castelo das Águias ;)



O Primeiro Outono

Da terra, junto à terra e com os filhos da terra. Fora sua decisão viver assim, e não desistiria. De sua casa em Kalket, com os pórticos sustentados por colunas de pedra e o jardim de videiras, até a vila de Bryke, tivera quase duas luas para refletir: tempo bastante para decidir que cumpriria seu propósito de viver numa comunidade Odravas. Seria difícil, principalmente nos primeiros tempos, mas lá estavam seus amigos, pessoas que tinham ido antes e aberto caminho, e todos afirmavam estar bem e felizes.

E de fato estavam – felizes por haver sobrevivido ao inverno, por contar com a ajuda da tribo local e assim não morrer de frio e de fome, por ter um teto sobre as cabeças e, ao final de quatro anos, algumas cabras, hortas e a maioria dos sonhos intactos. Tinham o que sempre buscaram, a vida simples e frugal recomendada pelo sábio Odravas.

Ele jamais dissera que seria fácil.

Maryan se embrulhou na manta antes de levantar. Fazia frio no cômodo, usado como sala e cozinha pelos amigos e que, desde sua chegada há três dias, servia-lhe também como quarto improvisado. Pylos e Narhi dormiam num aposento anexo, que recebia o sol da manhã. Saíam cedo para ordenhar as cabras e abrir a oficina de cantaria. Eram as únicas pessoas em Bryke a saber talhar pedra, por isso forneciam blocos para todas as construções, uma ironia quando se pensava que ambos eram arquitetos de renome nas Terras Férteis. Agora tinham calos nas mãos como qualquer trabalhador. Nascemos todos nus, a natureza nos quer iguais, dizia Odravas.

De joelhos no chão, Maryan avivou as brasas da lareira e as alimentou com musgo e gravetos. Encaixou uma grade de ferro em dois suportes pouco acima do fogo e sobre ela pôs uma fatia de pão coberta com queijo de cabra. Enquanto esperava que derretesse, fez suas abluções – a água fria, sempre fria, do Rio da Lontra – e foi até a janelinha lateral para jogar fora o conteúdo do jarro. Então, ainda embrulhada na manta, virou-se para conferir o desjejum.

E ali, de pé, no meio do cômodo, deparou-se com um dos elfos da tribo.

O susto só não foi maior porque Maryan já conhecera alguns deles, e além disso sabia que eram amistosos e solícitos com as pessoas de Bryke. Mesmo assim, a presença inesperada a fez recuar. O elfo sorriu, seus dentes muito brancos em contraste com a pele morena e – agora ela percebia – marcada com tatuagens sobre o olho direiro e na face esquerda. O olho era circundado com um sombreado cuidadoso, e no rosto havia um símbolo que lembrava uma asa. Todo o conjunto era emoldurado por cabelos negros e longos, enfeitados com penas pintalgadas de branco e preto. O xamã da Casa do Corvo, pensou Maryan, lembrando do que os amigos tinham contado sobre ele. Era a pessoa a quem deviam sua sobrevivência no primeiro e terrível inverno.

E, segundo afirmavam, a criatura mais desconcertante do mundo.

- Acho que a assustei. Sinto muito – disse ele, sem deixar de sorrir. – Entro sem avisar porque sou amigo de Narhi e Pylos. Meu nome é Zendak.

- Sou Maryan – disse ela, sem saber como cumprimentá-lo. A saudação dos elfos brilhantes era um toque das mãos abertas, a dos Odravas um beijo, mas o xamã não era uma coisa nem outra. Por fim, ela decidiu oferecer a mão, unindo sua pele delicada à palma áspera de Zendak.

- Seu toque é macio – comentou ele. – Você não corta pedra como Narhi. Você cria esses, ahn... cabras?

- Não, eu...

- Que bom! Eu não gosto daquilo ali – torceu o nariz para seu desjejum, que borbulhava na lareira. Maryan se apressou a retirá-lo do fogo, usando um garfo longo, e colocá-lo num prato, não sem antes perceber que a parte de baixo estava inteiramente queimada. Zendak, enquanto isso, se abaixara e folheava um dos livros que ela deixara no chão, olhando com interesse para as gravuras.

- Quem é essa gente? – apontou. – Humanos, estou vendo, mas e essas roupas?

- São cavaleiros do País do Norte. Essas roupas se chamam armaduras. São só para lutar – disse Maryan. – Em batalha ou em torneios.

- Torneios?

- Jogos. Um tenta derrubar o outro do cavalo.

- Parece divertido. Nós gostamos de jogos por aqui. Temos um parecido com esse, de derrubar o rival, mas é com troncos no rio e não com cavalos - disse o xamã. Sob os cílios longos, seus olhos tinham um brilho vivo, inteligente e, de alguma forma, cheio de calor. Maryan decidiu que simpatizava com ele.

- Vou comer, se não se importa – disse, e mordeu estoicamente o pão queimado. – Posso lhe oferecer alguma coisa? Frutas?

- Este livro? – ele a surpreendeu, erguendo o volume. – Eu tenho alguém a quem mostrar as gravuras.

- Oh, bem, elas são muito bonitas – disse Maryan, engolindo em seco. – Eu o daria, mas é que o livro foi um presente... de um de meus mestres, sabe, nas Terras Férteis. Eu não poderia...

- Eu devolvo – disse Zendak.

Com uma rapidez e uma decisão que a impediram de reagir, ele fechou o pesado livro nórdico, meteu-o sob o braço e saiu, só se voltando por um momento a fim de sorrir para Maryan. O que foi isso, ela pensou, aturdida. Era como se não lidasse com uma pessoa e sim com a chuva ou o vento. Qualquer força imprevisível da natureza.

Mais tarde, comendo com os amigos que tinham retornado da oficina – queijo e pão, mais uma vez, acompanhados de legumes e pinhões – Maryan contou sobre seu estranho visistante e o livro do qual ele se apossara sem que ela houvesse chegado a concordar. Fez dessa uma história divertida, pois era assim que lhe parecia agora. No entanto, não deixou de lamentar a perda do livro, ao que a opinião dos amigos se mostrou dividida.

- Ele vai devolver – disse Pylos. – As gravuras o deixaram curioso, mas o livro não tem nenhuma utilidade para ele.

- Por outro lado, Zendak tem várias coisas que não lhe servem de nada – ponderou Narhi. – Ele mesmo disse: “sou um corvo, gosto de tudo que brilha”. Lembra da cabana dele, no alto da árvore-mãe?

- Lembro. De fato, é cheia de coisas que ele provavelmente não vai usar. No entanto, eu não me preocuparia se fosse você – disse Pylos, dirigindo-se a Maryan. – Tudo para a tribo se baseia em trocas... se Zendak achar por bem ficar com o livro, vai aparecer com algum presente, e pode acreditar que vai ser alguma coisa da qual você precisará vivendo aqui. Um manto de inverno, por exemplo.

- Não vou usar isso – protestou Maryan. – Tenho mantas excelentes, que vão durar anos, e Bryke já conta com dois ou três tecelões. Não preciso me cobrir com peles de animais!

- Pensávamos assim quando chegamos – disse Narhi, balançando a cabeça. – Nenhum de nós queria usar as peles, nem comer a caça que eles abatiam. No fim do inverno, eram poucos os que tinham conseguido ficar sem prová-la.

- Bom, vocês não tiveram tempo de construir as estufas – argumentou Maryan, com teimosia. – Agora já dispõem de legumes e frutas, sem falar no centeio, que, segundo eu soube, deu muito bem este ano. A propósito, quando poderei começar a fazer alguma coisa? Nunca trabalhei com a terra, mas acho que não terei dificuldade em aprender.

- Certamente não. Mas é cedo para você se comprometer com alguma coisa – respondeu Narhi. – Se fosse artesã, seria diferente, mas uma mestra de sagas... Achamos que é melhor experimentar vários trabalhos antes de se decidir por um.

- E tem o plano da escola – lembrou Pylos. – Se aquele grupo de Erchedel vier mesmo para cá, serão cerca de vinte crianças. Precisaremos de quem se encarregue da educação deles, e você faria isso melhor do que ninguém.

- Talvez. Mas, se vierem, será no verão, e ainda estamos no outono. Preciso fazer alguma coisa nesse meio-tempo.

- É claro. Mas não precisa ter pressa – disse Pylos. – A necessidade cria a ação, como ensina Odravas. Quando menos esperar, você estará realizando alguma coisa.

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Novos e interessantes personagens te esperam na Parte 2!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Passando o Bastão da Palavra...


Queridos Amigos e Leitores,

Aproveitando o ensejo de que ficarei fora uns dias - e neles irei a lugares que certamente vão inspirar novas histórias - hoje sigo um velho costume tribal e passo a vocês o bastão da palavra. Ou seja, é a sua vez de falar...!

Quero saber de vocês, visitantes contumazes ou não, o que gostariam de encontrar aqui neste blog (o livro a R$ 9,90 não vale, evidentemente). A sério: para fazer deste um espaço legal, informativo e participativo, como pretendo que seja, quero que me deem algum retorno. Por exemplo:

- O que vocês preferem ler: informações sobre o universo e os personagens ou os contos paralelos, como "O Fogo Interior"?

- Para quem já leu O Castelo das Águias: que personagem secundário, independente de o ter achado bem desenvolvido ou não no livro, você gostaria que fosse apresentado aqui (tal como apresentamos Rydel, Camdell e Lara, entre outros)?

- Para quem, tendo lido ou não, tem pelo menos uma ideia de como é: alguma sugestão de tema para um conto?

- Last, but not least: estou pensando em promover um concurso de fanfic e fanart do Castelo, dentro de certas regras relativas à coerência com o texto cânone e à adequação etária, já que tenho leitores de 12 e 13 anos de idade. Naturalmente haveria premiação - livros (não apenas o Castelo), camisetas e marcadores - e publicação no blog das histórias e desenhos vencedores.

Quero saber de vocês se gostam da ideia, se se gostariam de participar e principalmente se dariam uma força na divulgação, seja em seus blogs, nas redes sociais, para seus filhos, sobrinhos, alunos... Afinal, como devem saber, não há nada melhor do que o boca-a-boca para promover esse tipo de iniciativa!

Então, pessoal, é isso. Adoraria que se manifestassem, respondessem a estas perguntas, enfim, sinalizassem o que seria, para vocês, a melhor forma de aproveitar este espaço. Se não quiserem ou puderem, tudo bem; as sementes foram plantadas. Se são rosas, florescerão.

Grande abraço,

Até breve!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Lara de Kalket


De todos os magos que Anna de Bryke conhece no Castelo das Águias, Lara é a que, de início, lhe parece mais enigmática. Meio-elfa, tem um aspecto frágil, e de fato parece ser protegida pelos outros mestres, principalmente Kieran, Thalia e o próprio Mentor Camdell.

Uma das possíveis explicações para isso surge quando Anna fica sabendo que Lara foi casada com Hillias , o mago de cabelos dourados que é também um Mestre de Combate na Escola de Guerra de Scyllix. O casamento não deu certo, e seu final parece ter envolvido outras pessoas e outras questões além do próprio relacionamento do casal - questões ligadas à Magia dos Nomes, especialidade de Lara, e ao domínio das águias guerreiras. Ou será que as coisas entre Lara e Hillias não chegaram, de fato, a um final?

Só existe uma forma de descobrir... Lendo O Castelo das Águias!

Lara de Kalket é retratada aqui pelo traço da primeira artista que alguma vez se ocupou de meus personagens: minha irmã, Luiza Merege. Aguardamos comentários. ;)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Meu Amor é um Anjo - Lançamento


Pessoas Queridas,

Este blog é dedicado ao Castelo das Águias e histórias associadas, mas eu não poderia deixar de anunciar este lançamento da Editora Draco. Trata-se do segundo volume da Coleção Amores Proibidos, iniciada no ano passado com Meu Amor é um Vampiro. Aqui, asas e auréolas substituem presas e capas negras em histórias ora ternas, ora divertidas, mas sempre contadas com mestria por nossas autoras.

Três delas estarão dia 16 de julho na Livraria Blooks, aqui no Rio, para autografar o livro. Como prefaciadora, também terei a honra de lá estar. Esperamos por vocês com muito carinho e a certeza de que curtirão a leitura.

Apressem-se... O Amor já está no ar!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Lear, o Encanta-Dragões


Lear é um dos alunos mais adiantados da Escola de Artes Mágicas, membro do Terceiro Círculo do aprendizado. Ter chegado até esse ponto mostra que passou com sucesso por duas iniciações e que tem talento – embora, na opinião de alguns mestres, este seja mais para a Arte do que para a Magia.

Filho de uma família abastada de Madrath, Lear, ao que tudo indica, teve uma infância feliz e protegida. É um jovem confiante, com excelente opinião de si mesmo, que chega a parecer egocêntrico, mas que, visto de perto, se revela como ingênuo e imaturo. Apesar disso, tem princípios, um bom coração e até bastante presença de espírito, traços que se revelam nos momentos de crise.

Além de ”estrelar” as peças montadas pelos aprendizes, Lear costuma transformar em espetáculos seus próprios rituais mágicos, usando grandes gestos, trajes extravagantes e muita Magia da Forma para colorir tudo que faz. Pensando grande em relação a seu futuro, atribuiu a si mesmo o título de Encanta-Dragões, com o qual pretende sair pelo mundo ajudando os fracos e oprimidos.

E, claro, receber aplausos por isso.

Lear de Madrath foi desenhado por mim. Por favor, não joguem tomates.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Fogo Interior (Final)

- Moleque idiota! Olhe o que fez! – rosnou o recém-chegado, a voz mais soturna que nunca. – Sabia que tinha sido você!

- M-Mestre Kieran – balbuciou Razek. – Eu não...

- Não o quê? Vai negar? – cortou Kieran. Parando quase em cima do aprendiz, ele apontou para as árvores, marcadas por feridas recentes e cicatrizes antigas. Razek relanceou os olhos por elas e baixou a cabeça. Seu rosto queimava de vergonha, mas mesmo assim ele tentou dizer algo em seu favor.

- Eu não queria fazer isso. Foi um acidente, como hoje com os blocos. Eu juro!

- Ah, sim! Aquilo foi acidente – retrucou o mago. – E a primeira vez, aqui na floresta, quem sabe. Mas e todas as outras? Vai dizer que também foi acidente? Ou vai admitir que foi um idiota, descontando sua raiva nas árvores porque tem medo de desafiar Lear e Gwyll?

Razek deu um passo atrás, como se houvesse levado uma chicotada. Era a segunda injustiça de Kieran, mas o pior de tudo era estar vindo justamente dele – do homem que admirara e procurara imitar nos últimos quatro anos. Tudo isso para que, no fim, ele o tratasse como um imbecil.

- Não fale assim comigo – disse ele, e se esforçou para sustentar o olhar do mestre. – O senhor não me conhece assim tão bem para saber. Não sou covarde!

- Ah, não? E as árvores? – replicou o outro. – Por que, a cada golpe, você gritava um nome – Gwyll, Lear, até mesmo Tarja? Que tal lutar com um deles? Ou ao menos com alguém que possa se defender?

- Eu lutaria – disse Razek, acalorado. – Lutaria até com o senhor.

- Duvido! Você não passa de um moleque arrogante – provocou o mago. – Destrói as árvores e as flores, mas não enfrenta um oponente de verdade. Agora mesmo – prosseguiu, dando um passo na direção do rapaz. – Eu sei que você está morto de raiva. Então por que não me ataca?

- Se atacar, vou machucar o senhor – disse Razek. Um véu avermelhado lhe cobria os olhos, e através dele Kieran riu, fazendo o sangue borbulhar em suas veias.

- Você, me machucar? Quero ver – zombou, e isso foi a gota d’água.

Com um grito selvagem, Razek atacou.

A energia o percorreu como um raio antes de explodir num jorro pelas mãos. O impacto foi tão grande que o atirou para trás, atordoado, porém já consciente do estrago que poderia ter causado a seu alvo.

Que desta vez não era apenas uma árvore.

- Mmm-Mestre – balbuciou o rapaz, forçando-se a erguer os olhos. Esperava pelo horror – o corpo de Kieran destroçado, ou ao menos ferido, as roupas ensanguentadas – mas não havia horror nenhum, exceto em seu próprio coração. Diante dele estava apenas o mestre, vivo e ileso, tendo nas mãos uma esfera de brilho estranhamente translúcido.

Pura energia mágica.

- Muito bom – disse ele, ainda grave, mas o tom era oposto ao de momentos atrás. – Você é melhor do que eu pensava. É uma arma de guerra.

- Melhor? – Razek piscou enquanto se punha de pé. – O senhor não me achava...

- O que, um moleque estúpido? É mesmo. Tem que ser, para desperdiçar sua força desse jeito – respondeu Kieran.

Suas mãos se moveram, girando a esfera de forma a concentrar o brilho, depois a comprimindo para dissipar a energia. Razek o observava em silêncio. Tinha os braços cruzados e às vezes precisava esfregá-los, pois de repente voltara a sentir frio. Todo o fogo se esvaíra naquele único jato.

- Você percebeu do que é capaz – disse o mago, depois de alguns momentos. – Tornei sua energia visível para que não duvidasse. Mas o caminho que está seguindo não é bom. Isso – apontou para as árvores – é inadmissível. Posso lhe dar uma oportunidade de consertar, mas será a única.

- Claro que sim, mestre – prometeu Razek, ansioso. – Eu faço o que o senhor mandar.

- Ótimo. É assim mesmo que funciona – disse Kieran, com um sorriso torto. – O primeiro passo é contar ao Finn, que certamente fará um sermão. Você vai ouvir cada palavra sem abrir a boca. Depois, vai procurar Rydel ou Sophia, e um deles deve lhe dar instruções sobre a cura das árvores. E eu vou pedir ao Mentor que o oriente em alguns exercícios, algo que o ajude a se equilibrar, porque, rapaz – fez uma pausa, fitando-o com olhos estreitos – se não dosar esse fogo, ele vai queimar tudo e todos, mais cedo ou mais tarde. A começar por você mesmo.

Razek engoliu em seco e assentiu. À sua frente via se desenhar um futuro improvável, reto como uma lâmina, com longas horas de estudo e meditação antes que, por fim, aprendesse a controlar seu próprio poder. Era necessário – agora entendia – mas desalentador. Principalmente comparado aos planos que tinha até uma hora atrás.

- Você parece preocupado. E tem razão. – Kieran continuava a sorrir. – Vai ter muito trabalho para chegar onde quer. E ainda precisa encontrar tempo para o mestre de armas.

Razek arregalou os olhos e o encarou. Essa já era uma história diferente. Suas mãos, crispadas pelo frio, começaram a se aquecer, não com o fogo habitual mas com um calor suave, que se espalhou pelo corpo enquanto Kieran continuava a falar.

- Há uns dias, Gwyll me pediu que incluísse Tarja no grupo de combate. É razoável – disse ele. – Porém mais ainda é manter o equilíbrio do grupo, fazendo vocês começarem ao mesmo tempo. Hoje, com os blocos, eu ia dizer para unirem esforços. Só que você se descontrolou logo no início.

- Feito um imbecil – suspirou Razek.

- Pois é – concordou Kieran. - Mas mesmo assim você e Tarja têm bom potencial. Vão progredir rápido se trabalharem juntos. Isto é, na Magia do Pensamento. O resto é com você.

- A Magia da Alma, não é? Sei disso – afirmou Razek. – Hoje mesmo eu vou...

- Que Magia da Alma! – cortou o mestre. – Estou falando de Tarja. Você e ela vão ficar mais uns três anos aqui em Vrindavahn, enquanto Gwyll vai embora no ano que vem. Quem sabe...?

Ergueu uma sobrancelha, o gesto mais amistoso que o rapaz o vira fazer até então. Era estranho e, de alguma forma, revelador – uma pista, supôs Razek, para o passado que Kieran sempre mantivera em segredo. Talvez ele também perdesse o controle quando era mais jovem. E talvez houvesse outras coisas em comum, afinidades que poderiam aproximá-los ao longo do tempo e torná-los amigos. Talvez...

- Então? Vai ficar aí com esse sorriso tonto? Ou voltamos ao castelo?

A pergunta ríspida o trouxe de volta ao presente. Kieran estava a alguns passos de distância e o esperava, com o ar impaciente de costume. Razek o seguiu sem perguntas. Haveria tempo para elas mais tarde. Por enquanto, bastava a sensação de estar em paz, tendo à frente um futuro promissor e um novo fogo dentro do peito.

Um fogo que, pela primeira vez, aquecia em vez de incendiar.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O Fogo Interior - Parte 4

- Ei, amigo. Muita energia hoje – disse Gwyll, assim que deixaram a sala. – Pena que você ainda a controle tão mal.

- Isso é problema meu – grunhiu Razek.

- Mas a gente pode ajudar – tornou o outro, com um sorriso que afetava boas intenções. Razek franziu a testa e ia responder quando outra aprendiz se intrometeu entre os dois.

- Podemos sugerir alguns exercícios. – Era Vergena, uma elfa de rosto longo que Mestre Kieran elogiava com freqüência. – Você devia reforçar a prática da concentração. O exercício da nuvem, lembra? Esse é muito bom.

- Mas é do Primeiro Círculo! – protestou Razek.

- E daí? É lá que está a base – replicou a elfa. – Se a base for fraca, tudo o mais irá desmoronar.

- Vá esperando – murmurou Razek. Vergena deu de ombros e passou por ele, tomando a direção da Ala Branca, onde ficavam os dormitórios dos aprendizes. Provavelmente ia pegar sua espada. Razek imaginou que Gwyll seguiria pelo mesmo caminho, por isso ficou surpreso ao vê-lo parar junto à saída principal da Ala Azul. E ainda por cima com Tarja a seu lado! Aquilo não podia ser bom sinal.

- O que está esperando? Temos aula de Matemática – disse, como se Gwyll não estivesse ali.

- Eu sei. Já estou indo. – A voz dela, cheia de expectativa. – Só vamos dar uma palavra com Mestre Kieran.

- Eu quase consegui convencê-lo a aumentar o grupo de combate mágico – informou Gwyll, passando o braço em torno dos ombros de Tarja.

Na mesma hora, as chamas se acenderam dentro de Razek, dessa vez no estômago, fazendo-o enrijecer o corpo e apertar as mãos. Então é assim, pensou, engolindo a saliva como fogo líquido. Era por isso que Tarja andava tão ligada àquele sujeito – ela, com quem há tão pouco tempo ele partilhara seus sonhos mais secretos!

- Razek! Você está estranho! – exclamou a moça, franzindo as sobrancelhas. – Seu rosto está escuro... meio vermelho, sei lá. Está sentindo alguma coisa?

- Nada. Você ainda não sabe? – replicou ele, e recuou esquivando-se à mão estendida. – Eu nunca sinto nada além de frio e calor.

Virou as costas, ignorando as vozes dos dois que o chamavam pelo nome. Seu corpo estava quente com a raiva que vinha de dentro. Se crescesse ainda mais, poderia rebentar, por isso Razek nem cogitou em se meter entre as paredes de uma sala de aulas. Em vez disso, seguiu em frente, rumando para os fundos da ala Azul, que confinavam com a parte mais antiga das muralhas.

Havia um portão ali, normalmente trancado, mas desta vez o jovem deu com ele aberto de par em par. Provavelmente o tinham esquecido assim depois de dar passagem a alguma carroça. Para onde estava indo essa não era a melhor saída, e além disso sua ausência devia ser informada à Escola, mas Razek estava farto de regras: sem olhar para trás, cruzou o portão e desceu a trilha sinuosa que levava à orla da floresta.

O frio era ainda mais intenso entre as árvores. Razek ergueu o capuz do manto e apertou o passo, dirigindo-se ao lugar que elegera para seus exercícios. Era uma clareira num diminuto bosque de carvalhos, um recanto descoberto por acaso ao procurar um ramo para seu bastão de poder. Até onde sabia ninguém mais andava por ali, pois ficava longe das trilhas coloridas, margeadas por plantas medicinais, em que os mestres de Ciências da Terra e Artes da Cura costumavam conduzir os aprendizes. Ao contrário, era um lugar sóbrio, cercado pelas árvores e juncado de pedras arredondadas. O solo era coberto por relva esparsa. Algumas vezes havia também flores brancas, inclusive no inverno, o que Razek sempre achara estranho. Na véspera, ou dois dias antes, ele se lembrava de ter pensado assim ao vê-las. Mas hoje não estavam mais.

Razek se acomodou no chão, entre as raízes de um carvalho. Encostou-se ao tronco nodoso, alinhando vértebra por vértebra enquanto se concentrava na respiração. O objetivo era afastar a raiva, mas, assim que conseguiu relaxar um pouco, a ideia de se superar nos exercícios voltou com toda força à sua mente. Por que não, se estava ali sozinho, sem ninguém que o atrapalhasse nem zombasse ao vê-lo falhar?

Ainda que mínimo, o relaxamento o fizera voltar a sentir as mãos geladas. Razek esfregou uma na outra, olhando em torno à procura de algo em que concentrar sua energia. Árvores e pedras eram grandes demais para que tentasse movê-las, mas – ele sorriu de leve ao se lembrar – talvez não fosse má ideia repetir o exercício sugerido por Vergena. Era coisa de iniciante, mas ajudava na concentração. E Razek fazia aquilo muito bem quando estava no Primeiro Círculo.

Erguendo a cabeça, ele se pôs a contemplar o céu coberto por nuvens finas, quase transparentes. Observou-as por alguns momentos e se decidiu pela maior, de contornos que lembravam um pano esfiapado. O exercício exigia que concentrasse a atenção sobre a nuvem até fazê-la sumir, o que os aprendizes mais novos achavam impossível antes de compreender a natureza mutável da água. Então, para a maioria, tornava-se quase fácil.

Razek apertou os olhos e com eles a imagem da nuvem. Ela ficava mais fina a cada instante, desfazendo-se como um véu esgarçado. Por fim, os últimos fiapos nevoentos se diluíram contra o céu, e o aprendiz se ergueu de um salto, sentindo-se repleto de poder. Seus olhos pousaram numa pedra, uma das menores da clareira, mas ainda assim maior e mais densa do que qualquer objeto que houvesse conseguido deslocar. Era um bom teste para sua recém-adquirida confiança.

- Agora – murmurou para si mesmo. Com um gesto calculado, estendeu a mão, reunindo sua energia antes de focá-la sobre a pedra - e de recuar, frustrado e já furioso, ao perceber que seus esforços tinham sido inúteis.

- Pedra idiota! – exclamou, chutando o solo e arrancando alguns talos de relva. – Por que não obedece? Por quê?

Esmurrou o ar, um movimento que o fez girar e bater com o ombro no tronco do carvalho. O choque foi pequeno, mas doeu, e a reação foi imediata, sob a forma de um grito e uma descarga de pura energia. Atingida, a casca externa do carvalho se rompeu, deixando à mostra uma parte do cerne. Era como uma ferida em carne viva, e quem olhasse para as árvores da clareira veria muitas outras. Mais tarde, quando seu ânimo esfriasse, Razek iria se arrepender, como acontecia todas as vezes, mas por enquanto a raiva continuava a dominá-lo, fazendo-o desferir repetidos golpes contra a árvore.

- Para você, Gwyll! – exclamou, visualizando o rosto dele sobre o tronco e o fendendo de alto a baixo com um talho. – E esse é para você, Lear. Engula esse sorriso imbecil. E você, sua traidora...

- Pare já com isso! – ordenou alguém atrás dele. Razek se voltou com um sobressalto, sentindo um aperto no punho, embora mão alguma o tocasse. A sensação permaneceu quando baixou o braço, mas a pressão relaxou, permitindo que mexesse o pulso e os dedos doloridos.

Então, a poucos passos de distância, viu surgir uma figura de pesadelo.

Um homem alto, de cabelos negros e desgrenhados e olhos como brasas, que marchava furioso em sua direção.

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Agora complicou! Nâo deixe de ler a conclusão da história clicando aqui!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Fogo Interior - Parte 3

Os blocos de madeira continuavam alinhados no parapeito. Eram uns vinte, de cores e tamanhos diferentes, e Mestre Kieran acabara de separá-los em dois grupos.

- Vocês estão no mesmo nível – disse. – Tentem juntos. Não se preocupem um com o outro.

Tarja assentiu e voltou a estender a mão sobre sua parte dos blocos. Razek fez o mesmo, fitando a pedra no anel de poder que usava desde a última estação. Era uma turmalina negra, que nenhum outro aprendiz tinha escolhido, mas que o atraíra por ser uma das que mais fortaleciam a vontade. Era nisso, afinal, que residia o poder.

Fechando os olhos, ele inspirou três vezes, bem devagar. Ao abri-los, seus dedos já formigavam, carregados de uma energia que se apressou a direcionar para os blocos. Na mesma hora, alguns deles tremeram, e o mais próximo chegou a dar um pequeno salto. Mas isso foi tudo.

Razek apertou a boca e tentou pela segunda vez. Em vão: o resultado foi ainda mais medíocre. Frustrado, ele passou a mão pela testa, molhada de suor apesar do frio, e olhou para os blocos de Tarja. Alguns tinham se virado sobre a face lateral, mas fora isso estavam imóveis. A moça continuava com a mão estendida, porém agora em silêncio, e a atenção de Mestre Kieran se voltava toda para ela.

Ele pensava que Razek havia desistido.

Como uma labareda, a energia subiu pelo corpo do rapaz, da base da coluna até o centro do peito, fazendo disparar o coração. Sem refletir, ele tornou a estender a mão, pronunciando uma palavra de poder – e no instante seguinte não apenas seus blocos, mas também os de Tarja eram arremessados como pedras por todos os cantos da sala.

- Ai! – fez Lear, atingido no queixo. Sua voz se perdeu em meio às exclamações dos demais. Aquilo fora totalmente inesperado. O próprio Razek não o previra e estava ali, sem saber o que fazer com as mãos. Foi preciso que Mestre Kieran lhe dissesse.

- É melhor recolher os blocos. – O tom seco, neutro, uma reprovação sem dúvida. – E depois vá sentar. Você pode tentar de novo, Tarja. Sem interferência dessa vez.

Do chão, onde já estava agachado pegando os blocos, Razek o encarou indignado. Não tinha como negar o que fizera, mas fora sem querer, o mestre não podia estar pensando o contrário. Não Mestre Kieran, que sempre tinha sido tão justo.

- Olhe, eu achei esse aqui – disse Gwyll, aproximando-se com um dos blocos maiores. Tarja se abaixara também para pegar os que tinham caído por perto. As mãos de ambos se encontraram sobre o parapeito, mãos claras e hábeis com a mesma ametista em seus anéis.

Razek teve vontade de morrer.

Dali em diante a aula perdeu o interesse para ele. Nem a segunda tentativa de Tarja – só um pouco melhor que a anterior – nem as proezas do Terceiro Círculo o fizeram sequer erguer as sobrancelhas. Só voltou a prestar atenção quando Kieran, depois dos comentários de praxe, lembrou a todos que mais tarde haveria um treino de combate mágico.

- Será no pátio principal da Ala Branca. Aberto a todos – disse, mas logo fez uma ressalva: - Como espectadores, é claro.

Ergueu o canto da boca, daquele jeito que Tarja apelidara de Sorriso do Mal. Razek desviou os olhos, irritado com aquilo - e mais ainda com as risadinhas do grupo de combate. Eram uns oito aprendizes, todos do Terceiro Círculo, que tinham em comum o ser mais aptos para a Magia do Pensamento do que para a da Forma. O outro requisito era gostar de lutar, já que o combate se dava ao mesmo tempo em dois níveis: não só o da Magia, mas também o do Metal. Os que se encaixavam nesse perfil tinham aulas com um mestre de armas na cidade e exercícios mágicos específicos, orientados por Mestre Kieran, que passava a ser o principal responsável por seu aprendizado. A julgar pelo que diziam, tinham o dobro do trabalho dos outros, mas Razek teria dado tudo para se juntar a eles.

Mesmo que alguns dos idiotas estivessem no grupo.

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Não desanime! A história só chegou ao meio. Tome fôlego e siga para a Parte 4.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Fogo Interior - Parte 2

Razek era um garoto cheio de raiva. Fora essa a conclusão do Preste de sua aldeia, que tentara aconselhá-lo a pedido da família; era essa a imagem de si mesmo que tinha trazido para o Castelo das Águias, onde chegara há quatro anos, depois que um mago viajante enxergou nele traços do Dom. Foi uma surpresa para todos e uma alegria para seus pais, incapazes de lidar com tanta revolta mal contida no corpo do menino de doze anos. Para piorar, nem era um corpo forte, a menos que se comparasse apenas com os outros meio-elfos. Diante dos garotos humanos era uma lástima, um magricela que não ganhava uma única briga, e as zombarias e humilhações faziam sua vida negra.

- Deixe eles para lá – aconselhava seu irmão, quando o via chorar de raiva. – Eles são fortes agora, mas vão envelhecer mais rápido e morrer antes da gente. Veja o avô, com quase cem anos de idade e ainda à frente da oficina. Vamos ficar como ele, enquanto os outros vão estar enrugados e trêmulos. Não é uma boa vingança?

- Não é, não. Para ser boa tinha que ser agora – dizia Razek.

Pensando dessa forma, era natural que encarasse a ida para a Escola de Artes Mágicas não apenas como uma oportunidade, mas também como uma forma de dar o troco aos desafetos de infância. Ansiava pelo dia em que voltaria à aldeia, poderoso em seu manto de estrelas, para ser temido e admirado por todos. É claro que boa parte desses planos eram pura criancice. As ilusões acerca da Magia se dissiparam nas primeiras luas, quando compreendeu que só progrediria através de muito estudo e trabalho duro. Quanto aos mantos vistosos, eram apenas para os idiotas. À exceção dos trajes rituais, magos de verdade usavam roupas simples, como as de Mestre Kieran. Era a ele, agora, que Razek procurava impressionar.

E, além do professor – bom, talvez houvesse mais alguém.

Razek espiou sobre a lombada do livro aberto à sua frente. Como de costume, Tarja sentara na mesa seguinte em companhia de dois imbecis, Lear de Madrath e Gwyll, um meio-elfo de cabelos claros e sorriso fácil. Os três estavam com as cabeças unidas e liam o mesmo livro, cochichando em voz baixa, embora Mestre Kieran tivesse dito várias vezes que não gostava daquilo. Desta vez, porém, ele parecia não se importar. Talvez nem percebesse, ocupado em acompanhar os esforços de Nardus com os blocos de madeira. Tanta concentração e mal haviam se movido algumas polegadas. Como ele podia esperar mudar de Círculo no solstício de inverno?

- Bom. – A voz de Mestre Kieran parecia sair de uma caverna. – Não adianta forçar por hoje, Nardus, mas amanhã quero que treine antes do desjejum. Talvez ajude estar com a cabeça vazia. Sua vez, Tarja.

A moça se levantou, indo até a janela em cujo peitoral estavam os blocos de madeira. Era a única fonte de luz no aposento, um salão no segundo andar da torre que chamavam “da Magia” justamente por ser a sala de aula de Finn e Kieran. Como toda a Ala Azul, suas paredes eram de pedra, aumentando ainda mais o frio que entrava pela janela. Alguns aprendizes estavam encolhidos, e a própria Tarja esfregou as mãos antes de erguê-las suavemente sobre os blocos.

Kieran inclinou a cabeça, indicando que podia começar. Do seu lugar, Razek pôde ver os lábios da amiga se movendo, murmurando alguma fórmula destinada a concentrar sua energia. Gwyll e Lear tinham parado de falar e acompanhavam o exercício, mas a garota na mesa de trás não se conteve e se inclinou para sussurrar no ouvido de Razek:

- Eu acho que ela não consegue.

- Cala essa boca – foi a resposta imediata. Soou mais alta do que gostaria, atraindo o olhar de vários colegas e – para seu azar – o do próprio Kieran, que se voltou bruscamente e o encarou com o cenho franzido.

- Venha cá, você também – disse ele. Razek abriu a boca, pronto para protestar, mas alguma coisa na expressão do mestre o fez mudar de ideia. De cabeça baixa, envergonhado até os ossos, ele caminhou para a janela, sentindo o olhar dos companheiros em suas costas. Queimava como fogo, assim como a raiva dentro dele.

Por que não ficara de boca fechada?

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Continua na Parte 3!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Fogo Interior - Parte 1

- Meninas e meninos, atenção! Mestre Finn irá dar os anúncios do dia. Parem um pouco de falar e escutem, por favor!

A voz aguda do intendente ecoou pelo salão, calando mestres e aprendizes que conversavam embrulhados em seus mantos. Eram seis horas de uma manhã de inverno – não tão fria, é claro, como se estivessem no Norte, mas mesmo assim bem mais do que estavam acostumados. Por conta disso a lareira estava acesa, as portas fechadas para conservar o calor, e a cozinha servira porções de mingau acompanhando o desjejum de pão, frutas e queijo de cabra. Estava quente, e os primeiros a se servir tiveram que esperar, soprando o vapor das colheres e das tigelas. Todos menos Razek, que nunca ouvia conselhos. Seu mau-humor matinal crescera com a queimadura no céu da boca. Por que cargas d’água tinham servido aquela porcaria fervendo?

- Está melhor? – perguntou Tarja, a seu lado. Era uma moça esguia, meio-elfa como ele e um ano mais velha; tinham sido muito próximos, mas nos últimos tempos Razek se afastara, porque Tarja passara a viver colada no pessoal do Terceiro Círculo. Eram uns idiotas, sempre humilhando os aprendizes do Segundo a pretexto de ajudá-los com os trabalhos. O pior era ouvir Mestre Finn elogiá-los por isso, ampliando aquele sorriso que parecia pregado em seu rosto.

Se bem que hoje ele não estava sorrindo.

- Bom dia – começou, depois de um leve pigarro. – Hoje está frio, mas é improvável que chova. Para o grupo que está trabalhando com Mestre Tomas, ele avisa que a madeira chegou e que os aguarda, a partir da oitava hora, no galpão da Ala Violeta. E ontem à noite recebemos notícias de Mestra Thalia, que visita a família em Erchedel. Ela informa que tudo está bem e que estará de volta em dez dias. Até lá, receio que o Primeiro Círculo precise continuar me tolerando.

Um leve aplauso, misturado a umas poucas vaias brincalhonas, partiu dos aprendizes mais novos. Normalmente isso teria feito Mestre Finn sorrir, mas dessa vez ele continuou sério, os olhos fixos em algum ponto no fundo do salão.

- Agora preciso tocar num assunto delicado – disse. – Ontem à tarde, empregados do Castelo foram à floresta e notaram várias plantas danificadas. Flores e ramos arrancados, e, principalmente, o tronco de alguns carvalhos cheios de cortes que não podem ter sido feitos por animais. Não sabemos quem foi nem o motivo, mas, se alguém aqui está envolvido, peço-lhe que venha conversar comigo em particular. Prometo que as conseqüências serão mais brandas do que se tivermos de lançar mão de outros meios.

Um silêncio profundo se abateu sobre os aprendizes. Alguns – os idiotas de sempre – tinham o cenho franzido, como se perguntassem quem teria cometido tamanha indignidade, mas a maioria parecia apenas curiosa. Tarja, no meio-termo, demonstrava um leve pesar, o que Razek considerou uma boa atitude. Tudo bem, não estava certo destruir as flores e os arbustos, ele lamentava que houvesse acontecido. Mas dar tanta importância àquilo, como se a pessoa tivesse matado alguém... aí já era demais.

Terminado o desjejum, os aprendizes foram cuidar dos compromissos da manhã. Os mais novos, com onze ou doze anos e recém-chegados à Escola, tinham aula sobre Princípios da Magia, e Razek ficou satisfeito ao ver Finn acompanhá-los à Ala Amarela. Isso deixava as aulas de Magia do Segundo Círculo nas mãos de Kieran, seu professor favorito. Ao contrário de Finn, ele não tentava ser amigo dos aprendizes. Nem tinha aquele jeito arrogante, condescendente, que Razek sempre odiara em Thalia. Em vez disso, era duro, frequentemente ríspido, sempre desafiando os alunos a fim de que se superassem. Com um mestre assim, podia-se realmente aprender, embora nem sempre da maneira mais fácil.

Mas o que até agora fora fácil na vida de Razek? Ele não conseguia se lembrar de nada.

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Nota: Este conto se passa algumas luas antes dos acontecimentos narrados em O Castelo das Águias. Foi inspirado pela pergunta de um leitor do conto A Encruzilhada, publicado em Imaginários 1: que tipo de mestre Kieran de Scyllix virá a ser quando tiver aprendizes?

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Curioso? Vá para a Parte 2!

domingo, 15 de maio de 2011

Finn e Sophia de Riverast


Os meio-elfos Finn e Sophia são dois dos mestres que estão na Escola de Artes Mágicas desde a fundação. Ambos conheceram Camdell em Riverast, onde se tornaram entusiastas do método que propunha para o aprendizado. No entanto, os dois eram amigos desde muito antes, mantendo uma relação amorosa que, esporádica a princípio, acabou por se fortalecer em Vrindavahn. Atualmente vivem em aposentos interligados, na Ala Rosada do Castelo das Águias.

Poucas pessoas na Escola podem dizer que conhecem o passado do casal, mas a impressão é unânime: ambos tiveram pelo menos uma experiência dolorosa. Isso os deixou tanto sensíveis quanto cautelosos. No caso de Finn, essas características se manifestam de forma a torná-lo sempre gentil e simpático, mas relutante em se envolver emocionalmente com quem quer que seja – mais propenso à camaradagem do que à amizade, na avaliação de Anna de Bryke. É também um pacifista confesso, mais relutante em se envolver em brigas e conflitos do que a própria Anna.

Apesar de seus temperamentos e métodos divergentes, o fato de trabalharem em estreita colaboração fez com que Finn se aproximasse de Kieran de Scyllix, ao mesmo tempo que criou uma certa cisão entre os aprendizes mais avançados da Escola. Os mais voltados para os rituais e a Magia da Forma, como Lear de Madrath, tendem a se aproximar de Finn, enquanto os que trabalham mais com o poder do pensamento buscam a orientação de Kieran e o têm como modelo.

Tão ponderada e reflexiva quanto Finn, Sophia é mais calorosa, com o temperamento próprio de uma cuidadora. Ensina a todos os aprendizes do Segundo e do Terceiro Círculos, mas tem sob sua responsabilidade aqueles que pretendem trabalhar especificamente com as Artes da Cura, como a jovem elfa Lahini. Simpática e amistosa, ela se dá bem com todos os mestres, especialmente Camdell e Rydel. Também se aproximará de Anna e a ajudará a entender melhor o que é a Magia... embora não o que se passa na cabeça de certos magos do Castelo.

Finn e Sophia são retratados aqui no traço de Allana Dilene.