segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Do Diário de An(n)a




Do diário de Anna de Bryke, Mestra de Sagas da Escola de Artes Mágicas

Talvez por ter estado muito envolvida com as apresentações no anfiteatro, só hoje me dei conta de que o Castelo vem se esvaziando desde o solstício. As aulas e outras atividades não foram suspensas, mas muitos aprendizes viajam para passar algum tempo com a família – é fácil, porque quase todos são das Terras Férteis , alguns de cidades bem próximas – e os empregados têm direito a uns dias de descanso, um grupo por vez, a fim de que sempre haja alguém para dar conta das tarefas indispensáveis.  Hoje, Lori se viu sozinha para cuidar do desjejum, porque Netta foi com Nils passar uns dias na casa do filho deles; o pão ficou um pouco mais torrado que de hábito e as frutas foram inteiras para a mesa, mas ninguém reclamou. Depois das festas e ritos de solstício, tudo e todos parecem adaptados a um ritmo mais lento.

Não posso dizer que isso me surpreende, pois é o mesmo que acontece na floresta: o inverno é um tempo de recolhimento, de estar dentro de casa com parentes e amigos, de refletir e fazer planos para quando a vida retornar à superfície. Talvez eu estivesse imaginando que seria diferente num lugar como este, sem neve e com pouco frio, apenas uma chuva quase incessante martelando telheiros e janelas. No entanto, aqui também as pessoas se movem mais devagar, procuram mais a companhia umas das outras, aquelas que viajaram certamente estão fazendo o mesmo junto a suas famílias. É o ritmo próprio da estação, um ritmo natural, no fim das contas: afeta a tudo e a todos, não importa se vivemos no Norte ou no Sul, se somos homens, elfos ou mestiços.

Então, em vez de insistir à toa em escrever minhas crônicas, acho que vou me adaptar aos tempos de inverno: comer bastante, visitar meus novos amigos, dormir até mais tarde bem enroscada nos lençóis. No Kieran também, se ele não inventar algum trabalho mágico. E, principalmente, sonhar muito, dormindo ou acordada, pois desses sonhos surgirão as histórias que iremos partilhar quando todos retornarem ao Castelo das Águias.

.......

Como vocês sabem, o Castelo das Águias segue o ritmo das estações do nosso Hemisfério Norte. Lá é inverno, aqui é verão. O ritmo, porém, também fica mais lento por aqui, devido ao calor. E é verdade que, como a Anna, aproveito o final do ano para estar com as pessoas que amo, para reflexão e para planejar o ano que vem.

Espero que você esteja entre os que retornarão, em 2014, para mais um ano no Castelo das Águias.

Até lá! Até breve!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Horizontes : conto de Júlio Soares (conclusão)

Vergena foi surpreendida por uma carga de energia que passou de raspão pela árvore.
– Nair! Saia da minha floresta! – A voz do velho era horripilante. Vergena tomou fôlego e saiu correndo para a esquerda, lançando cargas e desviando de outras. Quando parou de correr, havia trilhado um arco e estava atrás do xamã, que se virou.
– Nair, por que você duvidou de mim? – Ele chorava, segurando o galho com força.
Então Vergena viu algo incrível: duas águias os sobrevoavam, e pousaram entre ambos, olharam para a elfa e então para o mago. – Ah, minhas crias! Vieram ver Nair? Nair, veja, estes são meus pequenos filhotes, feitos pelos poderes que eu consegui, pelos poderes que você duvidou que eu teria algum dia. Vamos, filhotes, se apresentem! – Os animais ficaram parados. – Vamos! Águias estúpidas, seus espíritos me pertencem! Me obedeçam! – Elas piaram em resposta, e mais cinco águias começaram a sobrevoar acima dos dois. Rapidamente elas começaram a atacar o xamã, que, em resposta, começou a se chacoalhar nervosamente.
– Nair, o que você fez com meus filhotes?!
O velho saiu correndo em direção a Vergena, rápido demais para ela processar a informação. Como um raio, ele elevou uma ponta do bastão, mirando a elfa, que só teve tempo de desviar um pouco para a esquerda. Ela sentiu um calor pulsante no ombro direito. Vergena levou a mão para a frente em resposta, e sentiu quando o seu bastão tocou no peito do velho, que parou num suspiro.
Vergena não sentiu pena. Ficaram parados por um tempo, o silêncio e a escuridão pareciam aumentar e fazer pressão sobre o coração da elfa. Ela se moveu mais para a esquerda, e o xamã continuou estático. Afastou-se e notou uma mancha negra em seu peito, onde o bastão dela tocara uma vez.
Minha floresta... Urin, eu? – Ouviu-o dizer. Logo após, um baque surdo contra a terra. Os braços de Vergena pesavam, e ela se ajoelhou. Olhou para as águias, e as agradeceu mentalmente. Elas voaram em várias direções, deixando a maga sozinha.
– Você fez o certo – disse a voz já conhecida de Doron. Ela olhou para trás e viu o guerreiro se aproximar, ele tinha um ou dois arranhões no braço, mas parecia bem. – Ah, não foi nada demais! Só as aquelas águias fantasmagóricas que me assustaram e atrapalharam um pouco.
Ela assentiu.
– Hora de seguirmos adiante, Vergena. Não estamos longe de Mestyen, e o Sol já vai nascer.
– Não. Antes vou enterrá-lo. Ninguém merece ter o corpo desonrado ou ser apagado do mundo. Não importa quem.
Doron ficou em silencio, mas a ajudou a cavar um buraco. Escreveram em um pedaço de madeira a frase “Urin, aquele que passou das expectativas” e deixaram a floresta.
– Obrigado, Vergena. Você me salvou. Apesar de o chute ter doído, você fez a coisa certa – disse Doron no dia seguinte.
– Não agradeça, estamos quites. Você que deu a ideia do exercício da nuvem, afinal. Aliás, como você sabia dele?
– Dei mesmo! Eu me lembrei de que Kieran vivia treinando isso quando era aprendiz do Mestre Mael – ele sorriu de forma nostálgica.
– Como foi para você? Matar alguém... – perguntou, mais tarde, enquanto Vergena fazia um curativo em seu braço.
– Foi tão... fácil. Na hora não existem pensamentos, sentimentos. Apenas a ação. Eu estava irritada com o que ele falava, sobre possuir a floresta. Mas depois eu me arrependi, pensei que ele poderia ter alguma chance de cura, talvez algum ritual pudesse ajudá-lo...
– Não, Vergena. Não podia. Aquele homem cruzou limites que ninguém pode ultrapassar. E é aquilo que acontece quando desrespeitamos as leis da magia. Além do mais, não sinta pena ou fique se torturando por ele. O que aconteceu, aconteceu. Você o honrou, no final de tudo. Será uma guerreira nobre.
– Você aprendeu isso com o Mestre Mael, também?
– Foi. Por que a surpresa? Não faz muito tempo, eu não sou tão velho a ponto de me esquecer das coisas!
Pela primeira vez desde muito tempo, a elfa sorriu. Levantou-se e viu o céu. Estava sem nuvens, e, olhando para baixo, através das árvores dispersas, ela enxergou o horizonte e todas as suas possibilidades.
             Uma nova aventura estava chegando, e Vergena ficou feliz por não ter que enfrentá-la sozinha.

...

Bom, Pessoas, esta foi a fanfic do Júlio Soares. Espero que tenham curtido tanto quanto eu!

E se alguém mais quiser escrever uma história baseada no universo de Athelgard, fique à vontade. Temos umas regrinhas, que vocês podem consultar na Página de Promoções aqui do blog, mas tudo muito simples. Ah, o envio de fics dá também direito a um prêmio. Acho que vocês vão gostar. 

Até a próxima!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Horizonte : conto de Júlio Soares (parte 3)


Naquela noite Vergena sonhou com águias guerreiras, belas e altivas. Elas voavam em sua volta, amigas. Em meio ao breu, a elfa notou, estranhamente, uma coruja a observando. O animal era diferente dos demais, e tinha uma carga sinistra.
Acordou assustada, suando. Esfregou os olhos e olhou em volta, foi quando teve um susto. Havia a sua frente três enormes lobos, brancos e assustadores, incomuns. Eles estavam quietos, com a boca aberta e os olhos frios feito a morte. Vergena buscou lentamente o seu bastão, que mantinha sempre do seu lado.
Doron! – sussurrou, mas o homenzarrão dormia sob uma árvore próxima. Famintos, os lobos começaram a andar em direção à elfa.
– Doron, acorde! Estamos sendo atacados! – Dessa vez ela falou alto, correndo para a direita, dando um chute na coxa do grande homem. Este gritou, mas, ao mesmo tempo, pegou uma espada curva, se ajoelhando em seguida. Os três lobos seguiram a elfa, dando de cara com o guerreiro.
– Mas o que é isso? – Doron gritou, apavorado. Um dos animais avançou em direção a ele, mas foi atingido no momento em que pulou por um corte rápido. Estranhamente o lobo não caiu, mas virou uma espécie de névoa. Vergena compreendeu que era um espírito. Havia algum mago por perto.
– Mantenha a atenção! – Ela subiu em uma árvore, com o bastão lançou uma carga energética no outro lobo, que ganiu alto antes de se dissolver em energia. Não teve tempo de atacar o último, sentindo garrafas afiadas tomarem conta de seu ombro direito. Olho para o lado e viu uma águia da mesma aparência que a atacava. Tentou se movimentar, deixando o bastão cair.
– O exercício da nuvem, Vergena! – Doron gritou de baixo, desviando do ataque de mais outros dois lobos que surgiam. Ele agora utilizava duas espadas. Vergena tentou se concentrar, mas a dor era forte demais.
Isso não vai terminar assim! Ela imaginou o galho em que se encontrava sumindo. Após alguns segundos, sentiu-se cair, e a águia levantou voo, piando.
Pegou o bastão e disparou jorros de energia mágica em direção ao céu, porém não acertou a águia. Olhou para Doron, que agora estava completamente cercado. Dois lobos tinham as espadas dele presas em suas bocas, e não soltavam de jeito nenhum. O guerreiro puxava os braços, tentando fazer algum movimento – mas os espíritos eram fortes. Vergena correu em direção a ele e estacou a ponta do bastão no terceiro lobo, que imediatamente sumiu. Ela se ajoelhou e falou algumas palavras mágicas, fazendo uma bola de chamas voar em direção a um dos lobos.
Doron se aproveitou da situação e girou o corpo com toda a força, fazendo o animal soltar sua espada e deixar o seu braço direito livre. Utilizou o movimento e levou a lâmina até o pescoço do outro animal.
– Tem algum mago por aqui, Vergena! Temos que encontrá-lo ou não vamos parar de ser atacados! Eu cuido dos animais, você procura por ele!
Ela assentiu com a cabeça e saiu correndo, concentrando toda a sua energia em sua memória, recitando um feitiço de busca. Ela parou abruptamente, fazendo um pequeno círculo em sua volta e erguendo os braços. Aquele era um ritual simples, mas ela tinha que manter a concentração e, ao mesmo tempo, prestar atenção a sua volta para possíveis ataques. Quando começou a recitar as palavras, um barulho a interrompeu:
– Nair, é você? – disse um velho, saindo das árvores. Ele vestia trapos e não usava sapatos, havia um galho em sua mão esquerda, e várias pulseiras e colares o enfeitavam. Era uma espécie de xamã, pelo que ela percebeu. Mas aquele tipo de magia só podia ser feita por magos treinados e sábios. Aquilo era impossível. Vergena fez uma posição de defesa com o bastão em mãos.
– Nair, você deveria estar na Floresta do Sol, eu te pedi para ficar lá.
– Não sou nenhuma Nair, me chamo Vergena de Thaelke, velho. Quem é você?
Ele ficou em silêncio por um momento, alisando o galho de olhos fechados.
 – Nair... não. Não é Nair... Urin, eu. Minha. Minha... – Suas palavras não faziam sentido para a elfa. – Minha floresta!
Com um movimento rápido, gritou e apontou o galho para Vergena, que instintivamente desviou do feixe energético que se seguiu. Então, fez um movimento com o braço e disparou duas descargas de energia em direção ao velho, que se defendeu com facilidade.
– Você disse que eu não podia aprender, Nair! – exclamou. - Você disse! Mas eu aprendi! Toda a Floresta do Sol me ensinou, menos você! Fiquei amigo dos elfos, mas você dizia que alguém como eu jamais iria ser um mago! Olhe para mim, Nair! Olhe! Eu sou um mago e tenho uma floresta, Nair! Agora você gosta de mim?! – Ele atacava rápido e Vergena mal tinha tempo de se defender. Estava recuando demais, e chegou a cruzar os limites do círculo que havia feito.
Forçou o pensamento para focar a energia na mão esquerda, que estava livre. Quando sentiu esta se esquentar o suficiente, lançou mais três rajadas energéticas no velho, que, pego de surpresa, se atirou no chão.
 Vergena aproveitou para se esconder atrás de uma árvore. Tentava pôr os pensamentos em ordem. Chegou à conclusão de que aquele homem provinha do sul, e, com os elfos da Floresta do Sol, aprendera a arte da Magia. Mas possivelmente não foi disciplinado o suficiente e acabou louco.
Ela olhou para cima, e viu uma águia. Não era uma águia-fantasma, como ela notou de cara. O animal a olhou de cima, e ela fitou seus olhos negros. Lembrou-se do dia que o mestre Kieran passara para ela o poder sobre as águias, e da conexão que ela sentia com tal animal.
Me ajude – sussurrou, não tendo certeza de que a águia a entendera. O animal a observou um pouco e seguiu voo. 

....

A seguir: a conclusão!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Horizonte : conto de Júlio Soares (parte 2)



– Ei, ei! Calma! Não precisa se encrespar – disse, surgindo do meio das árvores, um homem enorme. Tinha cabelos louros compridos e lisos, o rosto quadrado era coberto por uma barba rala e seus olhos claros irradiavam travessura. O corpo incrivelmente forte estava coberto por uma malha de ferro e tinha uma espada presa à cintura.
– Quem é você e o que faz aqui? – Vergena estava impassível. Tinha a impressão de ter visto aquele homem antes, mas manteve a guarda.
– Eu sou Doron de Scyllix, amigo de Kieran. Estive em Vrindavahn ano passado como representante do Exército, na questão das águias.
– Amigo de Hillias.
– Sim, já fui amigo de Hillias. Mas ele endoideceu, e eu tive de manter minha postura acima disso. Hillias errou em muitas coisas, mas não em te convidar para ser Mestra das Águias. Vi o que fez na torre aquele dia, o rato molhado te ensinou bem.
– E o que faz aqui? As florestas não são caminhos comuns.
– Não, não são não. E, mesmo assim, aqui está você. Gosta de animais, pequena maga?
– Caminhos comuns são tediosos e fáceis demais.
– Eu vi, e, por isso – fez uma tentativa de expressão perversa que resultou numa careta feia – eu resolvi te seguir. A vi em Caer Fair, e, sabendo que iria até Scyllix, resolvi manter os olhos em você. Agora estou aqui.
– E o que fazia no vilarejo?
– Você é muito chata, sabia? Bom, devo confessar... – fez uma pausa, levando a mão a cintura – que eu buscava... isto! – Mostrou uma garrafa escura. – Eis o melhor vinho de toda Athelgard, produzido por uma família de vinicultores muito antiga, isolada no pequeno vilarejo de Caer Fair. Apenas poucos sabem da existência dessa magnífica bebida no mundo, então mantenha-a em segredo.
A elfa ficou embasbacada, totalmente sem reação. Seus braços caíram, e ela fitou o outro com olhar surpreso.
– Você viajou tanto, chegando a cruzar uma floresta inteira, por uma garrafa de vinho?
– É. – Doron sorriu de orelha a orelha.
Por um momento, ela pensou em rir, mas não o fez. Ainda estava chocada.
– Que seja. Agora você pode seguir seu caminho. Não desejo a sua companhia.
– Eu estava certo sobre você ir até Scyllix, né?
– Sim, estava.
– Então temos o mesmo destino. Por onde você vai?
– Estou seguindo até Mestyen.
– Ah, Mestyen! Aquela cidade maravilhosa, cheia de seus bares e mulheres bonitas, jovens moças que sabem o que querem e não têm medo de viver.  – Doron balançava os enormes braços de forma a tentar ser delicado e romântico. – Eu vou com você. Nada melhor que viajar acompanhado, não?
– Não, você não vai. Gosto de viajar sozinha.
– Então eu vou seguir para Mestyen pelo mesmo caminho. Igual a você, acho estradas chatas, a não ser quando existem distrações entre elas.
– Que seja.
Seguiram o mesmo caminho por dias, em completo silêncio. Doron tentava conversar, mas o máximo que Vergena fazia era dar poucas respostas monossilábicas. Chegou um momento em que ela notou que seu silêncio não o cansaria, então desistiu de se incomodar.
– Você sabe que eu posso estar te seguindo apenas para reportar ao conselho de guerra de Scyllix a sua personalidade, para avaliar se você seria uma boa Mestra das Águias ou não, né? – Doron argumentou certa vez.
Vergena estacou. Nunca havia pensado na hipótese. Doron detinha uma posição de certa importância no exército, ele devia ter alguma influência no conselho de guerra. E, visto que Vergena havia sido convidada por Hillias, poderiam ter mandado alguém para segui-la.
O guerreiro começou a rir desesperadamente, chegando a se ajoelhar. – Você viu a sua cara? Era de doer! É claro que não sou nenhum tipo de espião.
Vergena queria matá-lo.
– Mas, falando sério, Vergena, Kieran falou qual seriam suas atribuições em Scyllix?
– Não, na realidade.
– Pois bem, então me deixe contar a história. As águias só são necessárias enquanto houver guerra, certo? Enquanto não houver guerra, não haverá águias, e, sem as águias, não precisaremos de uma mestra para elas.
Aquilo assustou a elfa.
– O que isso significa?
– Nada demais. Apenas dizendo que você não entrará em Scyllix como uma Mestra das Águias logo de cara. Mas fica tranquila, eles vão te pôr num cargo legal até que haja uma guerra – visto que você recebeu o poder sobre as águias. Sem guerra, imagino que você cuidará das defesas mágicas das torres, ou algo do tipo.
A informação era um pouco assustadora para Vergena, mas ela não se deixou abalar.
– Que assim seja, então. Scyllix é meu destino, e serei grande lá, seja cuidando das águias, seja da proteção da cidade.
– É assim que eu gosto. Espere! Aquela coruja é um pouco estranha, não acha?
Apontou para uma árvore. Vergena viu que o animal era realmente estranho. Nunca vira uma coruja tão branca e com aspecto tão assustador. Lançou uma pedra em direção a um galho, para assustar o animal, sua presença não agradava à maga.
– Vamos dormir, já está escurecendo – disse ao guerreiro, que logo concordou.
.....
(Continua...)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Horizonte : conto de Júlio Soares (Parte 1)



O mundo era infinito.

A jovem elfa Vergena de Thaelke tinha os olhos sobre o horizonte. As luzes do sol se fundiam àquela linha de possibilidades, e as cores dançavam em passos dourados e violetas. Ela fechou os olhos, sentindo a brisa balançar seus cabelos. Era o primeiro dia desde que deixara o Castelo das Águias para seguir seu próprio destino como futura Mestra das Águias. Disseram-lhe para seguir o caminho de barco até Erchedel e, de lá, prosseguir até Scyllix. Mas aquilo seria fácil demais para a maga. O mundo era muito grande e incrível para ela buscar atalhos. Resolveu pegar um rumo através das florestas até Mestyen, de onde enfim pegaria um barco até Erchedel e outro para a cidade dos guerreiros.

No dia anterior, Vergena havia encontrado o seu antigo mestre, Kieran, e sua esposa, Anna de Bryke. Ambos, apesar das diferenças de idade e cultura, faziam um belo casal.

– Vá acompanhada de toda a proteção dos Heróis e do Grande Espírito, Vergena – disse-lhe Anna, carismática.

– Tenho certeza de que será a melhor Mestra das Águias que Athelgard jamais virá a conhecer, Vergena – a voz de Kieran tinha um misto de hesitação e orgulho.

– Agradeço, mestre. Você sempre foi e será o meu maior professor e inspirador. Eu sei que as pessoas desconfiam de mim devido ao fato de Hillias ter me convidado para esse cargo, mas provarei que não sou como ele. Serei, além de Mestra, amiga das águias.

– Eu sei que será, Vergena – respondeu o seu professor. – Você sempre vence as suas lutas.

– Sei que ouviremos muitas histórias sobre você – complementou Anna. – Já está convidada para, um dia, voltar ao Castelo e contá-las você mesma.

– Eu virei sim, muito obrigada.

Agora só tinha como companhia as lembranças e suas provisões. Seguiu caminho pela costa, passando pela Floresta das Águias, para dar uma última olhada nos animais que tanto respeitava e admirava.

– Espero que sejamos bons amigos – disse às aves, antes de seguir pela floresta.

Após quatro dias de viagem, ela encontrou uma pequena vila, que logo viu ser Caer Fair. As casas eram pequenas e ornamentadas com símbolos nas portas. Eram versões primitivas de sigilos de proteção que aprendera a fazer nas aulas do Segundo Círculo. Foi até o mercado para se reabastecer de água e alimentos. A idosa que a atendeu tinha olhos vigilantes:

– É incomum elfos andarem por essas bandas. Principalmente magos.

– Você é observadora, senhora. Aprecio isso.

– Obrigado. Mas você não o é menos que eu, vi que olhava para os símbolos que tenho nas paredes com muita curiosidade.

Era verdade, Vergena estava atenta aos sigilos ali encontrados. Eram vários deles, pintados em tinta branca, aparentemente às pressas.

– Sim, não pude deixar de notar.

– Estes são símbolos da Antiga Sabedoria de meu povo que são utilizados para proteção e expulsão de espíritos malignos. Ultimamente a vila anda sendo atacada por forças desconhecidas. Nós só podemos nos defender e aguardar o Sol voltar pela manhã. – Fez uma pausa. – Pelo que eu vejo, você está seguindo para a floresta. Se me permite um conselho: volte para casa. As sombras guardam poderes obscuros e poderosos demais.

– Como ousa, velha?! Eu sou uma Maga do Círculo Menor, sei muito bem como me cuidar. Agradeço sua preocupação, mas meu caminho é por minha conta. – Havia uma fúria contida em sua fala.

Seguiu viagem por dias, dormindo na relva, banhando-se em riachos e bebendo água da chuva. Arriscava-se pouco a caçar, pois achava os poucos animais que encontrava pequenos e fáceis de capturar. Todos os dias ela parava por algumas horas para treinar seu domínio da Magia da Forma e do Pensamento e artes marciais. Vergena gostava de treinar sempre o básico, aprendido no Primeiro Círculo da Escola de Artes Mágicas, pois acreditava que uma base forte era importante para se tornar uma maga cada vez melhor.

Certo dia, encontrando uma clareira, aproveitou para treinar suas habilidades mágicas. Fez um círculo de proteção para afastar possíveis perigos e sentou-se no centro. Cruzou as pernas e fechou os olhos, tranquilizando a respiração e relaxando os músculos. Quando abriu as pálpebras, focou o olhar no céu, observando as nuvens. Prestou atenção em uma delas, de tamanho médio e formato singular. Lentamente, começou a imaginar a composição dela, sentindo o frio e a umidade de cada partícula da nuvem. Imaginou esta se dissolvendo lentamente, como se fosse limpa por uma borracha. Não demorou muito até que a nuvem sumisse completamente do céu. Voltou então o olhar para uma árvore à sua frente, e, com um pouco mais de esforço, as folhas começaram a cair, grudando em seu cabelo.

– Você é boa, menina. Aquele rato molhado do Kieran iria se orgulhar de ver isso – interrompeu uma voz grossa e irônica. Vergena deu uma cambalhota para trás, pegando a espada curta e seu bastão, atenta e pronta para lançar uma carga energética na direção da voz.

Continua...

E então? Deu para saber quem é o personagem que vai contracenar com a Vergena a partir de agora? Deixem aqui seus palpites - e não deixem de conferir a ilustração exclusiva da Angela Takagui no próximo post!


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Vergena de Thaelke


No primeiro livro da série, Vergena é uma das aprendizes do Terceiro Círculo, a quem mais se destaca no grupo de combate mágico. Ela dá um bom trabalho a Kieran, usando o estilo élfico de luta - que se caracteriza pela agilidade e rapidez dos ataques - para confundir e cansar o mestre. Sua habilidade no combate e também na Magia chamam a atenção de Hillias, que a convida para assumir o cargo de Mestra das Águias em Scyllix - um arranjo que seria proveitoso para o elfo, mas que acaba sendo endossado por Kieran perante as autoridades do exército. Afinal, Vergena tem todas as qualidades que se esperam de uma Mestra das Águias, bem como uma atitude decidida e um coração leal.

A ligação entre Kieran e Vergena é tão forte que, em dado momento, Anna chega a pensar que há algo mais entre eles do que uma relação de mestre e aprendiz. Com a ida da jovem elfa para Scyllix, o contato permanece como uma orientação a distância, ao mesmo tempo que Vergena tenta se adaptar à vida militar e às pessoas bem diferentes que conhece na Escola de Guerra.

O início disso vocês vão saber a partir do próximo post deste blog. Mas não por mim, e sim por um outro autor, que se inspirou no universo de Athelgard para criar uma história.

Adivinharam? Isso mesmo! Acabei de receber a primeira fanfic do Castelo, escrita pelo Júlio Soares, que fez uma bela resenha do livro e se empolgou com ele. A imagem acima, no traço da maravilhosa Angela Takagui. é um trechinho recortado de uma ilustração maior, feita especialmente para o conto do Júlio e que retrata um outro personagem favorito dos leitores do Castelo.

Quem saberia dizer quem é? Aguardo seus palpites!

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Promoção: 4 anos da Editora Draco


Por essa nem eu esperava...

A Editora Draco está fazendo quatro anos e, como em toda boa festa, os convidados levam brindes. Todo o catálogo está com descontos incríveis! Na compra de 4 títulos, por exemplo, Meu Amor é um Sobrevivente sai a R$ 20,90; O Castelo das Águias a R$ 21,00; Excalibur, a inacreditáveis R$ 26,90. E ainda tem a Trilogia Punk, a série Tempos de Sangue, a Space Opera, Sherlock Holmes, Erótica Fantástica, Imaginários e muito mais.

Deem um pulinho lá no blog da Draco e confiram. Pra quem gosta de ler é um prato cheio, e pra quem tem amigos leitores também: a promoção é válida até o Natal!

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Gwyll, Tarja e Razek


No primeiro livro da série eles aparecem pouco, são apenas citados como aprendizes do Terceiro Círculo. Mas, nos contos aqui do blog, já se meteram em algumas confusões, inclusive por conta do que - pelo menos na cabeça de dois deles - é um confuso triângulo amoroso.

Gwyll, Tarja e Razek fazem parte do grupo de combate mágico, portanto são aprendizes ligados a Kieran e à Magia do Pensamento. São também meio-elfos e de idades próximas. No entanto, cada um tem um jeito muito próprio de ser. Tarja, filha de um elfo e uma mulher humana, veio de uma cidade pequena e sonha em percorrer o mundo e viver aventuras; Gwyll tem facilidade para a Magia da Forma e pretende se tornar um dos mestres da Escola de Magia de Riverast, entrando para os Círculos mais elevados. Razek, por sua vez, é descendente da tribo élfica da Floresta do Sol e é tido como o aprendiz mais encrenqueiro da Escola de Artes Mágicas. Sua especialidade é o uso do fogo, mas nem sempre ele consegue controlar o elemento ou sua própria raiva. Especialmente quando vê sua amada Tarja se aproximar muito de Gwyll. :)

Ainda teremos muitas histórias para contar sobre esses aprendizes, juntos ou separados. Por ora, podemos encontrar Gwyll encarnando um controverso herói do Etta nas partes finais de um conto estrelado pelo Padraig, que tem seu início aqui.

Razek, por sua vez, é o pivõ de um plano infalível (e desastrado) de Lear Encanta-Dragões no conto O Javali.

O trio de aprendizes está junto num conto sobre o passado de Razek, "O Fogo Interior", que começa aqui. E seu futuro, em relação ao primeiro livro da série, é vislumbrado neste aqui.

Visitem... e depois me digam o que acharam!

.....

Antes que alguém pergunte: sim, o visual de Razek foi inspirado no "Zuko" do filme "O Último Mestre do Ar". O personagem do livro já existia na primeira versão, de 2005, e algumas de suas características lembram as do Zuko da série animada. Depois que vi o filme, então, Razek passou a "aparecer" em minha cabeça como um Dev Patel de traços élficos. Imaginação é coisa que se deve respeitar, por isso foi essa a referência que passei para a artista, a querida e talentosa Angela Takagui.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Excalibur e Solarpunk : Lançamento


Pessoas Queridas,

É com orgulho e prazer que eu, Gerson Lodi-Ribeiro e a Editora Draco vimos convidá-los para o lançamento conjunto das duas coletâneas, bem como do livro de contos do Gerson. Vários autores estarão presentes ao evento, portanto não deixem de vir, mesmo que chovam cães e gatos. Vai valer a pena!


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Meu Amor é um Sobrevivente: Pré-Venda e Promoção


Atenção, Pessoas e... Criaturas! :)

O que esperávamos por tanto tempo finalmente chegou. Não, não é o Apocalipse, mas sim o mais novo volume da Coleção Amores Proibidos: Meu Amor é um Sobrevivente. Com organização de Janaína Chervezan e desta que vos fala, traz contos inéditos de nove talentosas autoras da Literatura Fantástica nacional e um prefácio superinteressante de Ana Carolina Silveira. E na pré-venda ainda tem uma promoção especial envolvendo qualquer outro volume da série.

E então? Corra antes que o mundo acabe!

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Diários da Reescrita 5 : Vozes e Pontos de Vista



Pessoas Queridas,

Por mais de uma vez, mencionei as dores e as delícias de esperar o resultado de uma leitura crítica. Pois é, ele ainda não chegou, mas no último final de semana recebi um feedback muito importante, e o que é melhor: de viva voz. Isso porque a leitora crítica do próximo livro, que mora em outro estado, fez uma visita ao Rio de Janeiro e a esta ansiosa contadora de histórias, antecipando alguns dos comentários que serão lidos quando eu me sentar para fazer os ajustes finais no texto.

A maior parte dos comentários foi favorável (ueba!), e dentre esses houve um que me deixou muito feliz, pois senti que estou no caminho certo. Refere-se aos pontos de vista e às vozes dos dois narradores que já conhecemos nessa série, Anna de Bryke no primeiro livro e Kieran de Scyllix no segundo. De acordo com minha leitora, é possível perceber claramente a diferença entre as formas como cada um deles conta a história, e o melhor: neste segundo livro eu não cedi (palavras dela) à "tentação de sair do personagem para favorecer o texto". Ou seja, não emprestei a maior habilidade e disposição para contar histórias de Anna ao novo narrador, que é também uma pessoa instruída, mas tem um temperamento fechado e frequentemente casmurro.

Dizendo assim, parece óbvio, e é, mas também é uma armadilha da qual muitas vezes os escritores não se apercebem. Com a narrativa em terceira pessoa creio ser ainda mais difícil (saberei se houver um quarto livro!), já que é preciso prestar atenção não apenas àquilo que o personagem vê e faz, mas também à leitura que ele faz das coisas e dos acontecimentos. Um exemplo que considero bem-sucedido é o de George Martin: ao escrever sob o ponto de vista de Bran, por exemplo, ele faz observações sobre coisas nas quais só uma criança iria reparar. Por outro lado, a visão de duas pessoas diferentes na mesma situação (Sam e Jon, digamos), pode fornecer diferentes abordagens e desdobramentos para um cenário ou acontecimento. Em primeira pessoa creio que seja mais fácil, mas já vi alguns livros que mesmo assim falham em estabelecer diferenças entre a voz do narrador e outros personagens que se manifestam por discurso direto. A situação mais flagrante são os romances epistolares, ou aqueles em que aparecem cartas e diários: não é possível que uma senhora que passa os dias bordando no bastidor escreva do mesmo jeito que um soldado no front, mas sim, vi livros em que isso acontece.

No caso desta série, as diferenças começam no gênero, passam pela idade, background e e história de vida e seguem com o temperamento e a profissão. Anna é jovem, gregária, cresceu entre pessoas amorosas e tem o ofício de contar histórias, de forma que Vrindavahn, da primeira vez que a vê, já se transforma em um cenário provável para sua aventura pessoal:

Vista de cima, Vrindavahn tinha um aspecto acolhedor. As construções imponentes, ornadas de colunas, que davam tanta fama às cidades grandes não faziam a menor falta naquelas ruas estreitas, calçadas por seixos redondos, onde se alinhavam as casinhas de madeira e tijolos. Os únicos prédios de pedra eram o do Conselho Municipal e o templo, dedicado ao Deus Único e aos Heróis cultuados pelos homens. Eles tinham fundado a cidade – a arquitetura deixava isso bem claro – e ainda estavam em maioria, mas muitos tinham sangue élfico. Famílias mistas eram comuns nas Terras Férteis, principalmente após o último tratado, que reunira toda a região numa só Liga de defesa e ajuda mútua.

(Anna, em O Castelo das Águias)


No segundo livro, a intenção não é recontar a história que já conhecemos através de Anna, mas, ao lhe dar prosseguimento, perceber onde ela errou e onde acertou ao se apaixonar por um mago 18 anos mais velho, que fez coisas terríveis no passado e que olha para um lugar desconhecido como um militar pensando na melhor forma de conquistar o território. E que "cospe" as palavras pelo canto da boca em vez de pronunciá-las graciosamente.


Se eu precisasse escrever um relato sobre a Ilha dos Ossos, não gastaria mais que cinco linhas. Todo o centro era ocupado por um maciço pedregoso, e à volta havia pequenas praias, a maioria no lado oposto àquele que se voltava para a Ilha Albatroz. Os piratas se concentravam nas duas praias desse trecho, que eram muito próximas, porém separadas pelo rochedo do forte. A maior tinha o atracadouro de osso e os depósitos onde estocavam suprimentos; na outra, eu soube mais tarde, ficavam os prisioneiros, amontoados em duas cabanas onde eu não alojaria um cão.

(Kieran, no segundo livro cujo título é surpresa).


Não sei se esse pequeno trecho dá a ideia de como eles são diferentes, em vários sentidos. Mas posso garantir que quem ler o segundo livro encontrará um estilo narrativo um pouco diferente do primeiro, que condiz com o personagem e até com a própria história: não mais um romance de formação/aventura romântica com mensagem ecológica, mas uma quest com direito a monstros e batalhas.

Quanto ao terceiro, a ideia é fazer com que eles se alternem, introduzindo ainda outros narradores em pequenos capítulos - um exercício para mim, que eu espero seja do agrado daqueles que lerem. Porque no fundo é esse o objetivo de todo contador de histórias.

Até a próxima e um grande abraço!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Uma Pequena Trapaça


- Raymond, preste atenção! Você vai ter que se arranjar sozinho da próxima vez!

Kyara deu um último arremate no laço que formava a armadilha e franziu a testa. Deitado de costas na grama, Raymond de Pwilrie olhava para o céu, pensando, não em quando choveria, nem em quando voltariam os pássaros que eles apanhavam com visgo, mas numa canção que ouvira de um menino, anos antes, num Festival do Vinho em sua terra natal. Fazia frio, os fogos acesos na praça tinham se extinguido, mas o pequeno Haney estava contente ao lado do irmão mais velho. Tinham tocado o dia todo e enchido dois chapéus com moedas, garantindo as próximas refeições da família. Agora subiam de mãos dadas a ladeira que levava à sua casa, pequena e pintada de branco, na confusão indecifrável do Labiri

- Raymond!

A voz quase ríspida de Kyara o empurrou de volta ao presente. Ela estava mostrando como armar um laço para pegar coelhos, mais uma das várias coisas que lhe ensinara a fim de que ele se saísse bem no seu futuro trabalho como guarda-caça. Algumas eram fáceis de aprender, mas outras dependiam da prática, e Raymond se aproveitara disso para pedir que ela mostrasse de novo, assim prolongando a estada deles na cabana perto do rio. Estavam lá havia um quarto de lua, e no que dependesse dele poderiam ficar mais um ano inteiro, pescando, cantando e fazendo amor. Mas não havia como ignorar o fato de que ambos tinham um rumo a seguir.

Rumos opostos. Era isso que ele gostaria de esquecer.

Kyara empilhou algumas folhas sobre o laço para disfarçá-lo. Raymond se levantou e foi até ela, tendo na mão um punhado de florzinhas que deixou cair, parte nas folhas, parte sobre a cabeça da elfa, onde ficaram presas em seu cabelo. Ela o olhou, ainda com o cenho franzido, mas em seguida riu, porque Raymond tinha espetado flores na barba e feito uma trilha que descia pelo peito até mais abaixo.

- Que tal? – perguntou, girando sobre os próprios pés.

- Lindo! Não volte a deitar, ou um coelho pode mordê-lo aí – replicou Kyara. – Seria um jeito bem doloroso de conseguir carne!

Raymond arregalou os olhos, surpreso, depois também riu, deixando-se puxar para o solo e para os braços da elfa. Apertou-a contra si, respirando o cheiro de ervas em seu cabelo negro, e foi nesse momento que ela disse:

- Amanhã eu vou embora.

As palavras soaram como um tapa na cara de Raymond. Ele a afastou de si, não com violência, mas com desgosto, e abraçou os próprios ombros nus. Num piscar de olhos, a floresta se tornara mais fria. Kyara o fitou por um momento, depois abanou a cabeça e se levantou, andando em direção à cabana de caça.

Raymond continuou onde estava, sem se importar com a umidade que começava a penetrar em seus ossos. Mais uma vez, lembrou-se de Pwilrie, de Sara dançando ao som do pandeiro e de Haney com seus cachos negros, mas a imagem dos irmãos logo se dissipou, substituída pela da moça de boca séria e olhos oblíquos. Ele cerrou os dentes, praguejando baixinho, e tentou afastá-la, mas desde o início sabia que seria inútil. Kyara estava colada nele, ainda que não pudesse vê-la nem tocá-la, e a ideia de que não voltaria a fazê-lo após aquela noite roia seu coração.

Desarvorado, ele concluiu que tinha de fazer algo a esse respeito, mas todas as soluções que lhe ocorriam pareciam impossíveis. Kyara não parava de falar em sua floresta e sua tribo, ao passo que ele não podia abrir mão do trabalho honesto com que o nobre agradecido o recompensara. Não quando sabia muito bem o que era ser escorraçado e passar fome.

No entanto, sem Kyara, ele iria se sentir assim pelo resto da vida.

Uma coruja piou sentidamente no oco de uma árvore. Raymond se ergueu num sobressalto e recolheu suas roupas, depois correu até a cabana, já a essa altura aquecida pelo fogo que Kyara havia acendido. Havia carne em espetos sobre a grelha, com um dos lados começando a torrar e o outro ainda cru.

A jovem elfa havia se metido entre as peles de dormir e tinha o rosto voltado para a parede. Raymond pensou que houvesse pegado no sono – Kyara dormia a qualquer hora quando estava cansada – mas, quando tornou a olhar para ela depois de virar os espetos, deparou-se com um par de olhos brilhantes a observá-lo.

- Raymond, venha comigo – disse Kyara, baixinho.

- Ficar com você? Claro, já vou. Eu só estava...

- Não é isso. Venha comigo quando eu partir – replicou ela, como ele temia. – Vamos viver juntos na Floresta dos Teixos.

- Não posso. – A resposta brotou sem esforço; ele já sofrera bastante pensando naquilo. – Olhe, bela, sinto muito, mas isso não seria bom para nenhum de nós. Eu sou humano, vou envelhecer, acabaria por me tornar um fardo para você e sua família. É melhor que vá viver entre os de minha própria raça.

- Mas não tem que ser assim – contrapôs Kyara. – Minha tribo adota você, nós vivemos juntos e você aprende a caçar direito. – Sublinhou a última palavra com um breve sorriso. – Se um dia não puder mais, nós o ajudamos. Prometo.

- Eu sei, bela – murmurou Raymond. – Eu sei.

Respirando fundo, ele escorregou para dentro das peles e se apertou contra o corpo de Kyara. Não havia maneira de dizer a verdade sem magoá-la: que ele queria ficar com ela, sim, queria com todas as forças, mas não podia se imaginar metido numa floresta com uma tribo de elfos. Não para sempre.

- O meu... O homem que me deu trabalho precisa de mim lá. Estou sendo esperado – inventou ele, por fim. – Eu dei minha palavra quando aceitei. Isso é importante.

- Claro, muito importante – disse Kyara; e por alguns momentos não disse mais nada. Então, quando Raymond tentava achar coragem para propor a outra solução, ela o surpreendeu com uma pergunta.

- Nós podemos ter filhos?

- O quê? – Ele se assustou, depois julgou ter entendido. – Bom, eu gostaria, sim. É claro. Crianças são...

- Não, Raymond. Que você quer, eu sei. Perguntei se nós podemos – disse ela, impaciente. – Eu, da tribo, e você, do Povo Alto. Podemos?

- Ah, isso. Sim, bela, podemos. – Correu a mão pelo corpo dela, liso e quase sem curvas, mas mesmo assim continuou a falar com segurança. – Já vi esses que chamam de meio-elfos. Parecem quase humanos, mas têm olhos muito grandes e... outras diferenças. – Tocou a orelha de Kyara, perfurada por um brinco de osso, e prendeu a respiração antes de arriscar. – Você quer ser mãe de um meio-elfo?

- Eu quero – disse Kyara – que você seja o pai dos meus filhos.

Raymond a encarou em silêncio, comovido, e afastou uma das tranças descuidadas que lhe pendiam sobre a face. Em toda a sua vida – humana, mas afinal não tão curta -, ele jamais ouvira aquilo de uma mulher. Sabia, de alguma forma, que iria acontecer, mas não pensara que ficaria feliz a ponto de ter vontade de abrir a porta e sair dançando noite adentro, nu, em plena floresta. Parecia bom demais para ser verdade, por isso ele procurou se assegurar de que havia entendido bem.

- Você vem comigo, então? Seu povo não vai sentir sua falta?

- Sim... e o xamã vai me procurar numa viagem de sonho e dizer a eles como estou. Mas eu sou livre para ir onde quiser. Já você tem que estar onde disse que estaria, porque deu sua palavra. Quando se promete e não se cumpre, o espírito adoece. Os homens sabem disso, não é?

- Claro, quer dizer... Alguns. Eu sabia. É por isso que, para ficarmos juntos, você precisa vir comigo – disse Raymond. Isso lhe trouxe apenas uma pequena onda de remorso, que passou tão logo ele jurou para si mesmo nunca mais mentir para ela. Tudo era válido no amor e na guerra, inclusive uma pequena trapaça. E tinha a vida inteira para compensar.

Kyara se ergueu sobre o cotovelo, franzindo o nariz, e olhou para Raymond, que apenas encolheu os ombros. Ambos estavam cientes de que a carne sobre a grelha tinha virado carvão. Talvez, com sorte, achassem um coelho numa das armadilhas ao longo do rio. Mas só iriam cuidar disso mais tarde.

- Quem sabe já levamos daqui nosso primeiro filho – sonhou Raymond. – Menino ou menina?

- Tanto faz. Que saiba caçar. – Kyara estudou o rosto dele, tocou os dedos longos e fortes pousados em seu ventre. – Se for menino, que tenha mãos como as suas. Mas talvez seja melhor uma menina, com o seu cabelo, e a sua boca, e esse jeito de apertar os olhos quando ri.

- Fechado – disse Raymond, e lhe apertou a mão. – Vai se chamar Anna.

....

Anna? Como assim? Esses são os pais da Anna de Bryke?

Não, não são. Anna recebeu o nome da mãe; Raymond e Kyara são os seus avós. Para saber mais sobre eles e inclusive ver uma linda arte, venha aqui.

Para ler um conto sobre quando se conheceram, o lugar é este.

Boa leitura! E não esqueça de deixar aqui suas impressões.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Enquanto a Chuva Cai (Final)


- Eu disse desde o início que queria conhecer outros lugares  – falei, e fiz uma pausa, preenchida por Kieran com o estalo da chave na fechadura. – Quero muito ir a um festival de teatro em Madrath e conhecer a primeira comunidade Odravas, na Floresta do Sol. Também quero ir a Kalket, fazer os testes da escola bárdica, mas sei que terei de passar alguns anos me preparando para isso.

- Ah. Bom, esses lugares são todos nas Terras Férteis – disse Kieran, parecendo mais tranquilo. – Não vai ser tão difícil.

Abriu a porta, revelando o interior aconchegante do nosso quarto. O piso era de madeira, coberto com tapetes e, desde o último outono, uma pele de urso que ganhamos de minha avó; as paredes eram decoradas com tapeçarias; o pequeno quarto de banho contava com água quente e a cama tinha lençóis e travesseiros macios. Eu nunca vivera com tanto conforto e apreciava o que tinha agora. Ainda assim...

- O que você tem? – perguntou Kieran de repente. Voltei-me e o encontrei sentado na pele de urso, diante da lareira que acabara de acender. A luz do fogo punha em evidência ora um, ora outro detalhe do seu rosto, mas o brilho era sempre o mesmo no interior dos olhos escuros. Olhos inquiridores.

- Não é nada. – Sentei-me ao lado dele, de pernas cruzadas, e peguei sua mão. – Só estava pensando nas viagens que pretendo fazer.

- Este ano não vai ser possível – disse ele prontamente. – É a vez de Finn e Sophia acompanharem os aprendizes do Terceiro Círculo a Riverast. No próximo ano serei eu, e se quiser você pode vir comigo. Acho que vai gostar de conhecer a Cidadela dos Magos.

- Claro que sim, mas isso é só no final do ano que vem. Ainda falta muito – repliquei.

- Como assim, falta muito? Você acabou de chegar a Vrindavahn! – exclamou Kieran. – E ambos temos compromissos com a Escola. Não podemos nos ausentar a cada três luas para que você visite as maravilhas de Athelgard!

- Eu sei, mas...

- Anna, sua vida agora é aqui – cortou ele, fitando-me com o cenho franzido. – Este é o lugar que escolhemos. Preciso acreditar que você é feliz comigo.

- Que ideia! Claro que sou – protestei. Era verdade, mas eu teria continuado a frase com um “é só que...” se algo no rosto de Kieran não me fizesse calar. O tom de suas palavras fora sério, quase duro; as sobrancelhas continuavam franzidas, mas os olhos não brilhavam de raiva e sim com uma mescla de amor, expectativa e uma ponta de angústia. Com toda a segurança que ele sempre demonstrara, o que vi naquele momento foi um homem atormentado, e eu sabia qual a razão.

Eu era a razão.

Kieran tinha medo de que eu fosse embora.

Respirei fundo, tentando achar as palavras certas para explicar o que eu sentia. Queria dizer que estava tudo bem, que eu o amava, que teríamos um filho e envelheceríamos juntos, mas que, além disso, eu tinha sonhos e planos dos quais não iria abrir mão. E que ele sabia disso tudo muito bem, portanto eu não devia ter que repetir.

E foi talvez por pensar dessa forma que, no fim, acabei por não dizer nada. Ou talvez tenha sido o jeito como ele me olhou e segurou meu rosto entre as mãos. Do lado de fora, a chuva tinha aumentado, e na torre nós tínhamos uma lareira e uma pele de urso quentinha. Além disso, tínhamos um ao outro. Naquela noite, esse era o lugar perfeito para se estar.

E Kieran logo achou um jeito de torná-lo ainda melhor.

Horas mais tarde, saí da cama onde ele dormia a sono solto e fui até a janela. A chuva caía em pancadas, escorria pelos vidros, borrava os contornos da paisagem lá fora. Mais um dia branco, um dia e amor e sagas, e eu sabia que aproveitaria cada momento abrigado pelas torres do Castelo. Mas também sabia que a chuva e o inverno não durariam para sempre.

E ali de pé, abraçando meus próprios ombros, perguntava-me o que aconteceria quando os caminhos estivessem secos.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Enquanto a Chuva Cai (Parte 1)


Começou com a chuva.

Desde o início de nossa correspondência, eu soubera por Camdell que o inverno em Vrindavahn era muito úmido. No castelo, a meio caminho entre o sopé e o topo da Montanha das Águias, todos os dias amanheciam envoltos numa névoa branca e transcorriam sob chuva persistente, ora fina, ora pesada, mas sempre em quantidade suficiente para manter os caminhos empoçados. Enquanto isso, no interior dos edifícios, os pisos ficavam salpicados de pegadas e os tapetes adquiriam um leve cheiro de bolor.

Naquele início de noite, fiquei à janela da sala de jantar olhando a chuva. Kieran tinha vindo comigo e disputava com Algias uma partida de batalha, enquanto os outros mestres residentes conversavam sentados à mesa. Rydel foi o último a entrar, já se livrando do manto, que estendeu para secar diante da lareira. Como de hábito, não tinha usado capuz, e seus cabelos dourados estavam escorridos e colados na testa. Ele cumprimentou a todos, depois veio para perto de mim e pousou a mão em meu ombro.

- A chuva não para – comentou, olhando pela janela. – É nessas horas que perco toda a determinação de me mudar para uma comunidade no Norte. Se aqui já faz esse frio...

- Frio? Aqui está úmido, mas não frio de verdade – repliquei. – Em Bryke, nesta época, também chove, mas já começam a cair os primeiros flocos de neve. Mais uma lua e serão rajadas, e a floresta vai se cobrir de branco. É lindo – assegurei, dirigindo-me não só a ele mas às três ou quatro pessoas que tinham passado a prestar atenção. – Mas quem chega das Terras Férteis custa a se adaptar.

- Elfos também? – perguntou Urien, e franziu a testa quando eu disse que sim. – Bom, então não estou tão mal. Fui uma vez ao Norte durante o inverno, quando passei uma lua estudando com um mestre em Osenbrit, e foram os trinta dias mais miseráveis da minha vida. Toda manhã, para sair de casa, era preciso tirar a maldita neve da frente do porta. Horrível.

- Peguei uma tempestade de neve perto de Siberlint – disse Finn, sem explicar o que fora fazer lá. – Foi bem difícil, é verdade. Mas há quem goste da neve, mesmo sendo das Terras Férteis. Camdell, por exemplo.

- Sim, eu gosto, mas só pelo motivo citado por Anna – disse o Mentor. – É linda uma paisagem toda branca. Mas o frio não é nada agradável.

- E você, amor? – Voltei-me para meu marido. – O que acha da neve?

- Não sei – disse Kieran, quase ríspido. – Nunca vi.

Um coro de “oooooohs” fingindo decepção saiu dos lábios de Finn, Sophia e Urien. Kieran se voltou para o tabuleiro e moveu um de seus guerreiros, com raiva, ameaçando o mago de Algias. Não compreendi aquele súbito mau-humor, mas preferi não ir adiante com o assunto.

Não até estarmos sozinhos.

O jantar daquela noite foi substancioso, para nos aquecer por dentro, mandou dizer a cozinheira. Quando acabou, conversamos por quase uma hora antes de voltar a nossos aposentos. A chuva ainda caía, por isso Kieran e eu puxamos os capuzes sobre a cabeça, tentando adivinhar e nos desviar das poças d´água no pátio.

- Devíamos ter trazido uma lâmpada. Assim vamos molhar os pés – comentei.

- Melhor que congelá-los como daquela vez– foi a resposta seca.

- Ah, foi por isso que você fez cara feia, antes do jantar, quando perguntei o que achava da neve? – brinquei. – Não gosta dela pelo que quase me aconteceu?

- Seria uma boa razão para não gostar. Mas não se trata disso. – Apertou os lábios, depois me puxou mais para perto de si e continuou a falar enquanto caminhávamos. – As pessoas aqui não se conformam com o fato de eu nunca ter saído das Terras Férteis a não ser para fazer a guerra no Oeste. Já houve muitas discussões inúteis, por isso prefiro evitar o assunto. Principalmente na frente de Urien. Ele insiste em dizer que um mago como eu já deveria ter viajado por toda Athelgard.

- Urien diz muita bobagem. Não há mal nenhum em ainda não ter saído daqui; eu mesma nunca tinha visto o mar até vir para Vrindavahn. Teremos muito tempo para nossas viagens – disse eu. Pensava que assim iria animá-lo. Ele, porém, franziu a testa, inalando profundamente o ar gelado enquanto se detinha à soleira de nossa porta.

- Você quer muito viajar, não é? – soltou, lançando-me um olhar penetrante. Não gosto quando faz isso: tenho a impressão de que ele tenta ler meus pensamentos, se é que não os lê de verdade.

E, quando acontece, não tenho como não me colocar em posição defensiva.

Opa...! Como será que termina essa discussão? Leia aqui - e curta o desenho da Anna feito pela Luiza Merege!

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Escrevendo A Dama da Floresta



Pessoas Queridas,

Tal como outros autores da coletânea "Excalibur", também venho contar um pouco sobre o processo de criação do meu conto "A Dama da Floresta". Mas lá no blog da Editora Draco.

Se quiserem saber como foi, basta clicar aqui. E me digam se o trechinho postado despertou sua curiosidade.

Até a próxima!

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Brasil Fantástico: Lançamento no Rio e em Porto Alegre


Pessoas Queridas,

Quem estiver no Rio de Janeiro ou Porto Alegre amanhã tem um encontro imperdível... com o folclore brasileiro e alguns de seus recriadores!

A partir das 15 horas teremos o lançamento simultâneo da coletânea Brasil Fantástico, da Editora Draco. Em Porto Alegre, o evento incluirá um debate sobre as lendas nacionais na literatura fantástica com Samir Machado de Machado, Simone Saueressig, Cesar Alcázar, Vivian Ferreira e Andre Zanki Cordenonsi, com a mediação do mais brasileiro dos estrangeiros, Christopher Kastendsmidt.

Já no Rio, a sessão de autógrafos conta com Clinton Davisson, Grazielle de Marco, Marcelo Jacinto Ribeiro e alguns convidados muito especiais, como o mestre da FC Gerson Lodi-Ribeiro e o nosso simpático editor Erick "Sama" Santos. Ah, sim... Ouvi dizer que uma tal de Ana Lúcia Merege também vai estar por lá! :)

E então? Prontos para uma boa charla ou bate-papo sobre os mitos brasileiros?

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Excalibur : uma Entrevista sobre a Coletânea


Pessoas Queridas,

Este é o blog de uma mestra de sagas, e o que tais pessoas mais gostam de fazer é ler/ouvir histórias e passá-las adiante. Pediram-me para falar sobre as histórias compiladas em Excalibur e assim o fiz, liberando até mesmo um trechinho do meu conto, A Dama da Floresta.

O resultado vocês conferem aqui. Se der água na boca... bom, era essa a intenção. :)

Até breve!
...

A ilustração é de uma das lendas arturianas que menciono em meu conto. Vocês conhecem... né?

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Deuses Esquecidos : livro 2 da série Tempos de Sangue


Pessoas Queridas,

Abrimos espaço neste blog para divulgar o trabalho de um ótimo escritor e excelente amigo: Eduardo Massami Kasse, autor de O Andarilho das Sombras que agora lança o segundo livro da série Tempos de Sangue. Pela Draco, claro!

Nosso editor, Erick Santos, é quem conta tudo sobre a pré-venda de mais um volume desta saga medieval, repleta de aventuras e ambientada num cenário incrível. É só clicar aqui. Da minha parte, já vou reservando um exemplar!

Até breve - e esperem por mais novidades!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Excalibur em Pré-Venda!



Rufem os tambores! Soem as fanfarras!

Excalibur, nossa antologia arturiana, já está em pré-venda! São 13 autores - mesmo número dos Tesouros da Bretanha - em 12 contos que homenageiam o universo do Rei Artur e o recriam em vários estilos e cenários, desde o mundo celta até um futuro longínquo.

Para conferir, passe no blog da Draco, onde nosso editor, Erick Santos, conta tudo sobre a pré-venda. Temos inclusive uma ótima promoção, envolvendo outra das incríveis antologias da editora. Garanto que vale a pena!

E não deixem de aparecer por aqui, de novo, ao longo da semana. As novidades da Draco para este semestre ainda não acabaram!

Espero por vocês! 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Terras Que Não Estão no Mapa



No intervalo entre duas etapas do trabalho com o próximo livro - acabei de reescrevê-lo, aguardo a leitura crítica para os retoques finais - meu trabalho principal vem sendo uma novela protagonizada por Thorold, o pai da Freydis e atualmente conselheiro da cidade de Vrindavahn.

Quem leu o primeiro livro da série deve se lembrar de que Thorold não é natural da cidade, nem mesmo das Terras Férteis. Anna - que até agora não viajou muito, mas leu dezenas de livros ilustrados - diz que ele parece "um bárbaro das Terras Geladas". A novela que escrevo agora vai mostrar que é quase isso, e também mostrar os costumes da gente naquele lugar, que o nome já entrega como sendo baseado no universo dos vikings; mas, se você for olhar no mapa... Caramba. Onde estão as Terras Geladas?

Pois é, Pessoas. Para grande frustração minha, as Terras Geladas não existiam claramente na minha cabeça quando desenhei o mapa. Digo frustração porque imagino que alguns leitores se darão ao trabalho de procurá-las, e eu queria que estivessem lá para facilitar o entendimento, mas não estão. Por outro lado, considero positivo o fato de o universo não estar completamente mapeado, pois isso significa que ele ainda se encontra em expansão - e, sendo assim, muitas histórias podem surgir quando e onde menos se espera.

Reforçando esse argumento, eu ia falar sobre outras terras que não aparecem no mapa de Athelgard, mas então me lembrei de que a história de sua criação foi explicada ao escritor A. Z. Cordenonsi e reproduzida num excelente artigo. Deixo aqui o link e o recomendo a quem quer que se interesse por cartografia fantástica.

Quanto às Terras Geladas, se isso interessar à minha dúzia e meia de leitores, não é difícil imaginar onde estão. Na porção noroeste do mapa, localizem o Cabo Svaltarr, passem bem longe de Pengell - onde estão os tiranos mais malvados de Athelgard - e subam, sempre pelo litoral, até a região do Bosque dos Sons. Lá vive uma tribo de elfos que vocês só conhecerão no Livro 3 e terminam os domínios dos Jarls como o tio de Thorold, Sigurd Barbagris.

Boa viagem!

Ilustrado com um mapa da antiga Islândia (e alguns supostos monstrinhos) em homenagem aos vikings deste mundo de cá.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Diários da Reescrita 4: A Expansão do Universo


Pessoas Queridas,

Depois de quase três anos, eis que chegamos ao centésimo post deste blog. Isso é um motivo para comemorar - em breve teremos outros, bem concretos - mas também de uma parada estratégica, facilitada pelo término de uma etapa do trabalho, a fim de avaliar o que tem sido feito e pensar no futuro. Principalmente essa segunda parte, já que, ao longo do trabalho de reescrita, muitas ideias foram surgindo para o futuro de Athelgard e de seus habitantes.

Não sei se o livro conseguiu transmitir essa ideia - a maior parte das resenhas afirma que sim - mas o Castelo das Águias é apenas um dos cenários desse universo. Como se pode ver pelo mapa, há muito mais, e algumas das outras regiões foram não apenas mencionadas no romance mas também visitadas em contos e novelas, como O Jogo do Equilíbrio. Ali não há elfos nem magos, mas uma sociedade humana de costumes bem diferentes, permitindo outros voos narrativos e consequentemente uma experiência diferente para quem lê.

O cenário do Jogo será retomado em breve, em contos e possivelmente uma nova série, que depois irá se entrelaçar com a do Castelo das Águias. Esses são planos a médio prazo. No entanto, quando se faz da escrita uma profissão é preciso ter foco, e o foco no momento é traçar diretrizes para trabalhar no terceiro volume da série atual.

Um insight a esse respeito surgiu em conversa com meu editor, Erick Santos, durante a II Odisseia de Literatura Fantástica. Ao me ouvir afirmar que o primeiro livro se passa apenas no Castelo das Águias e os demais em outras regiões, e que os conflitos pessoais de Anna e Kieran dividirão espaço com questões maiores (que seria de uma série de Alta Fantasia sem o tema Luz X Trevas?), o Erick afirmou: "Mas isso é que é legal. Afinal, se for para ficar em um lugar só, por que criar todo um universo, para que um mapa?"

E foi aí que eu me toquei de que era verdade. Se optasse por ficar num lugar só, trabalhando (mesmo que os aprofundasse) os personagens que criei no primeiro livro, eu estaria perdendo a oportunidade de apresentar a meus leitores um universo bem mais vasto, sem falar na chance de me divertir e me deleitar em cenários outros que aqueles vislumbrados das janelas do Castelo das Águias. O Kieran, que como diz uma amiga minha é "um cara cansado de guerra", talvez não se importasse muito, mas a Anna se rebelaria, sem falar no Thorold, na Freydis, no Cyprien e demais saltimbancos e no... Não. Vou resistir a falar sobre ele, que afinal só deve aparecer nas sagas do Castelo daqui a um tempinho e revolucionar tanto a Magia quanto a Arte.

Mas a resistência é só por aqui. Só pra não ter spoiler, que realmente é um negócio chato. Nos meus cadernos, nos arquivos do laptop que armazenam material para histórias futuras e principalmente na minha cabeça, já rolam muitas histórias sobre esse e outros personagens. Athelgard, de que os mais sábios dos elfos ainda não conhecem a metade, foi inteiramente palmilhada e o futuro se desenrola por gerações de descendentes dos personagens de agora.

Um dia - eu espero - partilho tudo isso com vocês. :)

.......

Athelgard é um universo fantástico construído a partir de referências múltiplas, mas a base principal são os mitos nórdicos. Assim, ilustramos este post com uma representação dos Nove Universos da mitologia escandinava, que tiramos daqui.

terça-feira, 23 de julho de 2013

A Trilha dos Sonhos (Conclusão)



As últimas notas da melodia se desmancharam no ar. Kieran pousou as mãos nos joelhos, sentindo, ou melhor, intuindo a presença de alguém nas vizinhanças da torre. Logo, o som de passos tranqüilos veio substituir o som da harpa em seus ouvidos.

- Kieran? – A voz de Finn, do outro lado da porta. – Pode abrir por um instante?

- Está aberta – respondeu Kieran. Finn entrou, sem esperar convite, e tornou a fechar a porta atrás de si. Estava com as roupas que usara no jantar, mas agora carregava um livro grosso, que forneceu o pretexto para estar ali.

- Vim buscar isso na Torre da Magia. – Era a que usavam para as aulas. – Fazia tempo que eu não ouvia você tocar harpa. Algum motivo especial?

Kieran franziu o cenho e não deu resposta. Finn pousou o livro sobre a mesa e se sentou, olhando francamente para o homem que teimava em chamar de amigo.

- Foi por causa da carta, não foi? – perguntou, embora soubesse a resposta. – Eu vi como você ficou ao ler aquilo. Seja quem for, e como for, essa Anna de Bryke mexeu com você.

Cruzou os braços, esperando uma réplica, mas Kieran continuou em silêncio. Não sabia o que pensar de tudo aquilo. Para um Mestre de Magia, visões como as que tivera eram comuns, mas quase sempre era preciso se concentrar, dirigindo sua vontade para o objeto ou a pessoa que desejava ler. Dificilmente o mergulho era espontâneo. Ainda mais com tanta profundidade, a ponto de sentir a tensão no corpo de Anna e o sopro do vento na floresta.

- Você tem alguma coisa a ver com ela – Finn continuava a buscar explicações. – Com ela ou com o lugar, a tal Floresta dos Teixos. Esteve lá alguma vez? Quem sabe há alguns anos, com suas tropas do Exército?

- “Minhas tropas” eram as águias guerreiras – disse Kieran. – Combatíamos no Oeste, perto da fronteira com as Terras Férteis. Não no País do Norte.

- Nem conheceu alguém da tribo? Tente se lembrar.

- Não, não conheci ninguém – rebateu o outro, impaciente. – Escute, Finn, onde você está querendo chegar?

- A lugar nenhum. Só quero ajudar você – afirmou o meio-elfo. – Uma visão que vem assim, sem que haja uma busca, só pode ser importante. Pode significar muito para o seu futuro. E se ela estiver ligada àquela outra, da sua juventude...

- Espere. – Kieran ergueu a mão, como um escudo. – Vamos deixar uma coisa bem clara. Eu posso ter tido uma visão um dia e supor, com uma razoável dose de certeza, que a mulher correndo para os meus braços seria alguém importante para mim; e eu posso ter contado isso a você, quando trocávamos experiências, porque afinal íamos ter que trabalhar juntos. Mas daí a tecer considerações sobre o meu futuro existe uma grande distância.

- Não são considerações. Só estou dizendo que as visões podem estar ligadas – argumentou Finn. – Estão separadas por anos, eu sei, mas como era a mulher que aparecia da primeira vez?

- Eu já disse. Não dava para ver o rosto.

- Mas, mesmo assim, você viu que ela era morena – replicou o meio-elfo. – E além disso usava uma trança, exatamente como Anna de Bryke.

- O que não quer dizer nada. O mundo está cheio de morenas de tranças. Devo ir atrás de cada uma delas?

- Não... mas dessa, talvez – sugeriu Finn. Sua voz tinha um tom irônico, mas não maldoso. Com toda a provocação, via-se que estava querendo ajudar, e isso era mais do que a maioria das pessoas já tinha feito por Kieran. Ainda assim, a intromissão em sua torre e em sua vida já passara dos limites, contrapondo-se à boa vontade que, até agora, ele tivera em relação a seu companheiro da Ala Azul.

- Não vou atrás de ninguém – disse, e sua convicção cresceu a cada palavra. – Vi uma mulher diante de um castelo e vi uma garota na floresta, que talvez sejam a mesma pessoa, mas não me interessa saber. Se existe alguém para mim, ela deve seguir seu caminho, assim como eu sigo o meu, até nos encontrarmos.

- E enquanto isso – disse Finn – você toca harpa, e os desejos que nascem daí constroem a mesma realidade que surgiria da sua vontade mágica. Não é um caminho mais longo?

- Talvez. – Kieran deu de ombros, seus dedos pousando de novo sobre as cordas do instrumento. – Mas é o melhor caminho.

De leve, como não o julgaria capaz alguém que visse a força de suas mãos, ele tocou então umas poucas notas – uma sequência que, de alguma forma, lembrava a sucessão de passos na estrada. Finn ouviu tudo em silêncio, depois inclinou a cabeça, sinal de que não iria contestar sua decisão. Talvez até a tivesse compreendido. De qualquer forma, não haveria mais explicações.

- Muito bem. Você sabe o que faz – disse ele, após alguns momentos. – Não voltarei ao assunto, mas, se um dia quiser conversar...

- Posso contar com você – completou Kieran. – Vou me lembrar.

- Ótimo. E pratique bastante – acrescentou Finn, já com o livro na mão. – A prática é o segredo de tudo, você sabe.

Kieran ergueu um canto da boca e não respondeu. Às suas costas, a porta se moveu suavemente, e logo os passos de Finn se afastaram pelo corredor.

Deixado a sós, ele relanceou os olhos pelo quarto, que por alguma razão lhe parecia maior do que antes. As paredes de pedra eram geladas, embora fossem revestidas por tapeçarias, e a cama era grande demais. Só as janelas tinham o tamanho certo. Talvez fossem até pequenas para acolher o vento, aquele companheiro fiel que espalhava sua música no ar. O vento, porém, havia cessado, deixando-o cercado de silêncio e de uma solidão que o incomodava pela primeira vez em tantos anos.

Mas não muito. Nem por muito tempo, ele sabia, e essa certeza era quente como a sensação de vitória. Mesmo a espera, por maior que fosse, não seria um fardo; agora finalmente ele tinha um nome pelo qual chamá-la, e até talvez pudesse acompanhar cada passo da sua história nos cadernos em que ela se retratava com as tranças negras e aquela parka desajeitada. E, além disso, um par de pernas fortes, capazes de vencer a mais difícil das trilhas.

Quando chegasse a hora, elas trariam Anna em segurança até o Castelo das Águias.

...

Para saber mais sobre as primeiras visões de Kieran, relativas à morena de tranças, talvez você queira ler o conto "Promessas da Lua", que remete o personagem aos seus dezoito anos e a uma rivalidade de juventude. Comece por aqui.