quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Mensagem para 2015

Pessoas Queridas,

Mais um ano se vai, e nele aconteceu muita coisa. O segundo livro da série foi publicado, assim como alguns e-books; a Editora Draco participou de vários eventos, como a Primavera dos Livros, e eu de outros em que tive o prazer de falar e compartilhar meu trabalho; nos bastidores, escrevi bastante, e espero que boa parte desses textos apareça no ano que vem de uma forma ou de outra.

Os planos para 2015 são ambiciosos, pois eu vou reescrever praticamente "do osso" o terceiro livro da série, cujo título provisório é A Fonte Âmbar. Mais uma vez sairemos do Castelo das Águias e iremos a outra parte de Athelgard, não tão longe quanto a Ilha dos Ossos, mas um lugar igualmente fantástico. Ao mesmo tempo, pretendo ir publicando contos e posts informativos neste blog, alguns deles acompanhados de ilustrações. Tem duas prontas, incríveis, e logo deve haver mais... Não, não são minhas, fiquem tranquilos. Eu disse que são boas, né? ;)

Mas uma tarefa à qual eu quero dedicar todo o empenho possível é a divulgação do meu próximo livro, que deve sair no ano que vem e é voltado para um público um pouco mais novo que o do Castelo. Nele aparece a Anna aos 12 anos com sua família e amigos, bem como os espíritos-guardiões de sua tribo, que a acompanham numa jornada de aventuras e auto-descoberta.

E esses guardiões vão transmitir a vocês os meus desejos para o próximo ano!


Que vocês possam ser muito felizes ao lado de sua família e amigos, ensinando os mais jovens, honrando e amparando os mais velhos, caçando e cantando com a matilha.


Que seu encontro com novas pessoas seja alegre, com mentes e corações abertos e sem o desejo de competir e de sobrepujar o outro, mas sim o de trocar experiências que enriqueçam a todos.


Por fim, que vocês viajem muito, mesmo que só na imaginação; que aprendam coisas novas e nunca percam o poder de se maravilhar com elas, e que saibam reconhecer a magia contida no dia-a-dia. E que calculem a rota, se preciso - mas nunca tenham medo de voar!

A gente se encontra do outro lado. Até o ano que vem!!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Boas Festas!


 Pessoas Queridas,

Embora as postagens aqui não tenham sido tão constantes, este foi um ano de muito movimento em Athelgard. Muita escrita, muitos planos, muitas histórias que em breve serão compartilhadas com vocês.

Neste final de ano, quero agradecer a todos que leem, comentam, participam de alguma forma deste universo. Cada um de vocês é muito importante para mim e nada me deixa mais feliz do que a nossa interação. Assim, tenho a dizer que me emocionei ao receber este desenho da Isabela Lopes, vencedora do concurso cultural que promovi este ano, com Lear e Rosado desejando Boas Festas. Claro que em Athelgard não existe Natal, mas o solstício é um momento de celebração para os magos e artistas do Castelo das Águias - e, sem dúvida, também o é em nossos corações.

Então, a todos vocês, desejo uma ótima celebração, um ótimo final de ano, um tempo de alegria ao lado de seus entes queridos. Que o próximo ano seja repleto de paz, amor, saúde e sucesso!

Pela Magia e pela Arte!!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Kit Artes Mágicas: Promoção no Blog Por Essas Páginas



Pessoas Queridas,

Está rolando uma ótima promoção no blog Por Essas Páginas, capitaneado pela Karen Alvares.

Em comemoração aos seus quatro anos no ar, o blog irá sortear vários diferentes livros e kits de livros. Entre eles, os dois que saíram até agora da Trilogia Grisha, da Leigh Bardugo; Alameda dos Pesadelos, da Karen; a série completa Tempos de Sangue, do Eduardo Massami Kasse; e o que eu chamei de "kit Artes Mágicas", composto por um exemplar de O Castelo das Águias e um de Pão e Arte, um juvenil que publiquei em 2012 pela Editora Escrita Fina. Ou seja, um de magos, um de saltimbancos. ;) Meus livros irão autografados e acompanhados de marcadores do Castelo e de A Ilha dos Ossos.

Para participar, basta acessar o  Por Essas Páginas e preencher os formulários Rafflecopter dos kits desejados. Pode ser um só, podem ser todos... Quanto mais participação, mais chances!

Corram lá - e boa sorte pra vocês!

domingo, 14 de dezembro de 2014

Editora Draco no Kindle Unlimited


Pessoas Queridas,

É com prazer que anuncio que os livros e contos do Castelo, assim como todos os e-books da Editora Draco, estão agora disponíveis através do Kindle Unlimited. É uma espécie de "Netflix de e-books" da Amazon.com.br, que permite baixar um número ilimitado de obras mediante o pagamento de uma taxa mensal. Ou seja, uma biblioteca ao seu dispor, cheia de obras de literatura fantástica!

Cliquem aqui para saber mais - e boa leitura pra vocês!

sábado, 6 de dezembro de 2014

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Promoção 5 Anos de Dragões



Pessoas queridas,

No final de novembro tivemos a famosa "Black Friday", que a maioria de nós aproveitou para comprar o que mais amamos... LIVROS!

Pois saibam que, para nossa alegria, na Editora Draco a Black Friday vai até o dia 10 de dezembro. Na compra de dois ou mais livros, os descontos são de 40%, portanto os dois volumes da série O Castelo das Águias saem por R$ 51,00 - quase o mesmo preço de um exemplar de "A Ilha dos Ossos"! Ou seja, os dois pelo preço de um!

"Mas eu já tenho O Castelo das Águias". Não faz mal, há vários outros títulos para escolher!

"Mas eu não curto fantasia épica". Sem problema! A Draco publica também fantasia urbana, terror, suspense, história alternativa e várias vertentes da ficção científica! E se você comprar cinco livros impressos, ganha outros cinco, à sua escolha, em e-book!

Passem no blog da editora e confiram. Vale a pena!

E tenham um ótimo início de dezembro!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Rumo ao Nazgûl Com




Pessoas Queridas,

No dia 30 de novembro vou estar em São Paulo, participando do Nazgûl Com, um evento inteiramente dedicado a celebrar o universo de J. R. R. Tolkien. Vou tomar parte na mesa redonda "O Papel das Heroínas na Literatura Fantástica", que terá lugar às 14 h, e levarei alguns de meus livros, caso alguém deseje adquiri-los.

Aqui está o hotsite do evento, com todas as informações e atrações. Espero vocês lá!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014



Pessoas Queridas,

Mês passado, eu e Laisa Couto, que acaba de lançar o juvenil "Lagoena", participamos do terceiro Papo com o Dragão, podcast da Editora Draco. Falamos sobre nosso trabalho e sobre a literatura fantástica nacional.

Cliquem aqui e confiram o nosso pingue-pongue! :)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Promoção de Natal do blog Vida Complicada Demais






Pessoas Queridas, 

Com vocês, as palavras da Camila Monteiro, escritora cujo blog literário - o Vida Complicada Demais - inicia hoje uma promoção mega especial! É é claro que a Anna e o Kieran não podiam ficar de fora... Ou será que foi a Anna que aderiu e arrastou o Kieran?

Seja como for, aqui vai uma chance de ganhar um exemplar de O castelo das águias ou de A ilha dos ossos... Ou, melhor ainda, de AMBOS! 

Confiram!  

Sabe o que faz o NATAL ficar ainda mais gostoso?

A expectativa!

Sim, é planejar o que faremos. É programar a festa toda e claro, comprar
e sonhar com os presentes.


Porque sim, nós sabemos que o verdadeiro sentido do Natal não tem nada a  
ver com ganhar presentes, mas tem como esquecer isso? Desde que entendamos o porquê de comemorar essa data, não vejo mal algum em brincar um pouco.


Confraternizar com pessoas que amamos e trocar gentilezas para ver
nossos parentes e amigos felizes também faz parte (pelo menos para mim), então
acredito que essa interação ajuda a criar todo um clima mágico e, olha só, isso
não é Natal?!


Portanto, o Blog Vida Complicada, que adora fazer uma festa, reuniu 9
escritores que trouxeram suas obras para fazer desse nosso Natal uma época
realmente mágica!

Sim, você leu certinho, somos 9 escritores e nossas obras!
(Eu também entrei nessa, é claro)

E não pense que peguei leve! Reuni os autores que mais me agradaram esse
ano
(e que continuam agradando) para presentear DOIS de vocês com as obras mais bacanas da literatura literatura nacional - e olha só no que deu:

(Clique sobre o título para ler a resenha) 

1 - O Castelo das Águias - Ana Lúcia Merege (várias resenhas aqui no blog, na página Livro 1!)
2 - A Ilha dos Ossos - Ana Lúcia Merege (vá à página Livro 2!)
4 - Algo além dos Livros (CD de poesia) - Carla Ceres
7 - Não Fuja - FML Pepper
8 - Mocassins e All Stars - Clara Savelli
10 - Um Cântico de Silêncio - Samuel Cardeal
11 - A Torre acima do Véu - Roberta Spindler


Tem como não agradar a todos? Tem livro (e CD) para todo tipo de leitor.
Só pode ser Natal mesmo!

Então faremos assim: sortearemos DOIS leitores e o que tirar o primeiro
lugar terá direito a escolher 6 obras. O segundo colocado fica com as 6 outras!

Cada escritor mandará sua obra no prazo de 30 dias e os ganhadores tem
até uma semana para responder o e-mail que eu enviarei assim que o resultado
sair. A promoção será encerrada no dia 20/12 - pertinho do Natal! 


ATENÇÃO: O formulário mudou. Agora, no campo onde era para curtir uma página, apenas mandam vistá-la, mas seria bem legal que curtissem, pois isso ajuda os autores a aumentarem sua visibiidade na rede. 

Compartilhe os posts, comente e participe. Vamos adorar!


a Rafflecopter giveaway

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Draco no Brasil Comic Con




Pessoas Queridas,

A Editora Draco, responsável pela publicação dos livros e e-books de Athelgard, vai participar do Brasil Comic Con este final de semana. Eu não vou poder estar lá, mas o evento conta com a presença do nosso super-editor Erick Santos e do editor de quadrinhos, Raphael Fernandes, que aproveitam para lançar o novo selo de HQ da Draco, o Contraversão. E, claro, todo o catálogo de livros e HQs vai estar com descontos ótimos!

Para saber mais sobre a participação da editora no evento, basta clicar aqui

E aqui no blog? É, as coisas parecem estar meio paradas. Mas é porque estou preparando uma novidade bem legal pra vocês. Sintam-se à vontade para explorar este universo enquanto isso.

Até breve!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Draco na Primavera dos Livros - RJ



Pessoas Queridas,

Neste finalzinho de outubro, vou estar com outros autores da Editora Draco na Primavera dos Livros, aqui no Rio de Janeiro.

Irei participar de uma mesa chamada "Literatura fantástica: da Odisseia a Harry Potter". Será no dia 31 de outubro - Dia de Halloween - às 17 h, e depois disso estarei por algum tempo no estande n. 51, da Editora Draco. Todo o catálogo estará com excelentes descontos.

Para saber mais sobre a participação da editora e de seus autores no evento, basta clicar aqui.

Agradeço a quem puder divulgar este post e espero, com muito carinho, a visita dos amigos cariocas durante a Primavera dos Livros.

Grande abraço!

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A Confraria do Ganso



       A Confraria do Ganso é uma organização que reúne alguns dos mais importantes bardos e mestres de sagas de Athelgard. A exemplo do Conselho de Magia, ela não leva em conta a raça ou o sexo do bardo, apenas sua excelência na arte de criar, contar e/ou cantar histórias. Esta, no entanto, deve ser atestada por meio de sabatinas e trabalhos apresentados diante de mestres reconhecidos, a não ser no caso de fama e saber notórios.

       A maior parte dos membros da Confraria segue a tradição de uma das três escolas bárdicas das Terras Férteis: a tradição élfica de Kalket, a tradição humana de Kalket – ambas puristas e com regras rígidas -- e a tradição mista de Madrath. Esta agrega elementos das outras duas, admite um diálogo com culturas diferentes -- como a dos elfos das florestas e as dos homens do País do Norte -- e tem performances mais teatrais. A entrada na Confraria se dá por indicação e é motivo de orgulho para os bardos de toda Athelgard, pois as exigências para admissão são bastante grandes.

       As reuniões da Confraria se dão uma vez por ano e são muito concorridas. O grupo, cujo nome faz referência ao simbolismo do ganso como patrono da arte de contar histórias -- aliás, tradicionalmente escritas com a pena dessa ave --, tem um sinete e marcas próprias que são usadas na comunicação entre os membros, tornando possível trocarem mensagens confidenciais, até mesmo em tempos de guerra. Por isso (e por sua esperteza e sorte, ambas proverbiais) é muito comum que bardos sirvam como espiões. 

       Maryan, mestra de Anna, é membro da Confraria do Ganso, e sua discípula – agora mestra de sagas da Escola de Artes Mágicas -- fica muito contente quando recebe um convite para a próxima reunião. Ela planeja sua viagem sob protesto de Kieran, que não se conforma em ficar longe de sua amada para que esta possa encontrar “um bando de velhos que ela nem conhece”.

       E o que vai sair disso?

       Descubram em A Ilha dos Ossos!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Xamanismo e o que vem por aí...



Sempre me interessei por mitologias e sistemas de crenças, mas deixo claro que não pretendo me apropriar de tradições às quais não pertenço. Como todo não-iniciado, conheço os ensinamentos xamânicos em linhas muito gerais, e me identifico com eles por preconizar a integração com a natureza, o respeito pelo semelhante e, sobretudo, aquilo que os Navajo chamam de “Caminhar em Beleza”, ou seja, a busca da harmonia em todos os aspectos.

Anna de Bryke, narradora de “O Castelo das Águias”, é quase humana, mas cresceu com a tribo élfica de sua avó, que imaginei tendo por base os povos nativos americanos (embora não um deles em especial). A tribo vive na Floresta dos Teixos e possui três espíritos-guardiões, o Lobo, a Lontra e o Corvo. De acordo com suas características e após um teste determinado pelo xamã, cada pessoa se torna afiliada de uma Casa ligada a um desses animais.

Por que resolvi falar sobre isso agora? Porque estou concluindo a escrita de um novo livro, destinado a um público um tantinho mais novo do que o da série em andamento e que mostra a Anna aos doze anos de idade, cheia de dúvidas e indagações sobre quem ela é, o que é capaz de fazer, o que lhe está destinado. Nesse livro, previsto para ser lançado no primeiro semestre do ano que vem, a futura Mestra de Sagas do Castelo das Águias empreende uma jornada por uma trilha até então desconhecida, na qual terá a chance de encontrar os guardiões e outros animais nem sempre muito bonzinhos.

Em posts futuros, falarei um pouco sobre eles e seus significados tradicionais. Espero que estejamos juntos nesta jornada!

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Lear e Rosado : Fanart de Isabela Lopes

E como se não bastasse ter escrito a fanfic vencedora do nosso concurso, a Isabela Lopes ainda fez uma ilustração muito fofa, que intitulou "Lear sendo infinito com seu amigo Rosado".



Não sei nem dizer o quanto fico feliz com esse carinho por parte de uma leitora. Aliás, uma só não. Duas, porque a Rafaela, irmã da Isabela, também está acompanhando o blog e mergulhando no universo de Athelgard!

Obrigado, meninas!

Obrigada a todos vocês!

domingo, 17 de agosto de 2014

Ímpeto sob a Lua - Fanfic de Isabela Lopes (vencedora do concurso cultural)



       Um tom escarlate estampou-se na cara de Lear Encanta-Dragões ao ver a tábua que, em um baque, fez ranger o chão.
       – Pare de bobagens! Não basta o que este porco fez para nós? Temos que ficar aqui construindo um cercado! – desabafou Erdon.
        – A culpa não é do coitado – disse Lear. sereno. – Você se preocupa com ele?
       – Claro que sim! Só não quero que cause mais problemas – afirmou Erdon, concentrado em sua batida num prego.
        – Então... ficou sabendo de alguma coisa sobre Razek? O que será que ele estava fazendo no lago? – perguntou o Encanta-Dragões, observando o porco descansar do desjejum.
       – Nem imagino, mas que ele teve sorte de não ter caído na armadilha com o porco, isso teve – respondeu Erdon.
        A noite banhou o Castelo das Águias, o céu se encheu de estrelas triunfantes, o orvalho já pairava no gramado. Lear e Erdon terminaram a construção do cercado improvisado para o porco, este agora tinha nome, batizado pelo Encanta-Dragões de Rosado.
      Todos os mestres e aprendizes foram convocados para o jantar no Salão das Águias, era imenso e bem iluminado. Lear avistou Erdon e o convidou para sentar-se na mesma mesa em que estava.
       – Como vai o Rosado? – perguntou Erdon ao se ajeitar na cadeira perto da janela.
       – Ele está bem. Teve noticias de Razek? – indagou Lear dando um gole na limonada.
       – Sim, acredita? Ele tinha encontrado um dente de dragão na floresta! E deve estar solto, é por isso que nos convocaram para jantar mais cedo. 
         Nesse momento, Anna de Bryke, Mestra de Sagas, corria em direção a Lear, e disse, recuperando o fôlego:
        – Lear, sei que você gosta muito do porco, tenho que lhe avisar... Um dragão estava rodeando o quintal. Acho que ele quer o porco! – exclamou. 
        Lear se levantou às pressas e saiu em disparada. Anna, percebendo a reação dele, foi se aprontar com arco e flechas, dizendo a Erdon:
         – Chame ajuda ao primeiro mestre que encontrar, urgentemente! 
        Lá fora uma Lua cheia iluminava o céu estrelado. Ventos fortes assomavam. Era a hora. Lear chegou primeiro, logo atrás vinha Anna. Erdon veio em seguida com o Mestre Kieran de Scyllix, e Razek, que quis acompanhá-los.
         Lear chamou a atenção do dragão e ele voou em sua direção. Rosado percebeu que Lear estava tentando salvá-lo. Rosado não queria perder seu amigo. Saiu aos berros, conseguindo quebrar o cercado, e correr para a floresta. Ao ver isso, Lear desmaiou. Anna foi logo atrás junto com Kieran. Razek se surpreendeu com a atitude do porco
         – Não acredito que vi isso! – disse arregalando os olhos.
        A flecha velozmente acertou a asa do Dragão. Ele se comprimiu. Kieran aproveitou para fazer um feitiço. Entoou palavras desconhecidas e o bicho pôs se a dormir. Rosado todo contente correu para Lear e o lambeu.
         – Rosado, meu filho, você está vivo! - foi o que disse o rapaz ao acordar.
         Depois disso, com a coragem do porco, ele foi nomeado mascote do Castelo das Águias e todos o trataram bem.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O Passo Além do Círculo - Epílogo: Cinco Magos, Dois Amantes e um Mundo a Descobrir



               O festival do solstício de inverno era sempre muito animado, mas o daquele ano passaria às crônicas do Castelo das Águias como o melhor de todos. Era o último de Lear, aquele de quem toda a Escola sentiria saudade, e que, como se esperava, deu tudo de si para bem desempenhar seu papel. Desde a conversa que tivera com os mestres na Ala Amarela até a outra, ainda mais secreta, com Mestre Kieran – durante a qual os madrugadores foram brindados com um espetáculo de águias, soldados e catapultas criados por ilusionismo na muralha -, o Encanta-Dragões andava compenetrado, empenhado em provar seu valor, e o resultado foi uma atuação que era a própria essência da Arte transformada em Magia.
               Tarja também participou da peça, mas seu papel era discreto: uma das aldeãs que clamavam aos Heróis por boa caça e colheita. Isso a manteve nos bastidores boa parte do tempo, sem ver as reações de Razek, que dessa vez estava sentado entre os espectadores. Enquanto a peça se desenrolava na arena, ela pensava mais uma vez sobre a decisão que tinha tomado a respeito dos dois, o quanto aquilo a comprometeria e afetaria seu futuro, mas, principalmente, o quanto estava ansiosa para que pudessem conversar. Talvez não houvesse como fazê-lo na festa, mas seria em breve, e isso talvez já acarretasse algumas mudanças. Só esperava que resultassem em algo bom para os dois.
              Quando a peça acabou, uma breve fala do Mentor Camdell foi a deixa para que a festa tomasse conta do Castelo. Música irrompeu de um canto do palco, tocada por artistas contratados na cidade, pois tanto Mestre Urien quanto os aprendizes que o haviam auxiliado na apresentação queriam dançar e se divertir. Pares se juntaram, amigos formaram uma roda, cerveja e vinho jorraram dos barris enquanto mais um assado girava no espeto. Alegria!
              Os cinco magos recém-ordenados estavam por ali, orgulhosos em suas tiaras e trajes de ritual. Lear fora o único a trocá-lo pelas roupas que usara na peça, mas de qualquer forma ele estaria colorido e reluzente. Lahini e Galdor usavam mantos verdes, elegantes e discretos, enquanto Vergena impressionava numa túnica azul e prateada. Gwyll também vestia azul, e seu olhar vez por outra pousava em Tarja, mas nunca se detinha mais do que um momento. E qualquer um, até mesmo ela, percebia que ele já começava a viver em outro universo.
              Em meio à confusão e às risadas, Tarja escapuliu dos amigos que a puxavam para a roda e foi até uma das mesas, onde se serviu de queijo e pão com nozes e passas. Não podia ingerir carne nem álcool até que terminasse a cerimônia na qual seria uma das assistentes, a qual estava marcada para a noite seguinte, mas outras guloseimas eram permitidas. Feito o prato, ela se afastou da mesa, passando por Mestra Anna, que dançava numa roda com os aprendizes mais novos, e pelos dois homens que a olhavam: Nardus, já meio alto e de cara triste, e Mestre Kieran, com seu sorriso indecifrável. Razek estava com ele, ambos segurando taças que deviam conter suco de fruta, porque também não podiam tomar cerveja nem vinho.
               Os olhos do rapaz estavam presos em Tarja. Ele trocou algumas palavras com Kieran, que apenas assentiu com a cabeça. Depois, pegou outra taça e se aproximou de Tarja, com seu melhor sorriso. Parecia um pouco o do Mal, a marca do mestre que Razek venerava e às vezes imitava. A diferença é que era fácil decifrá-lo.
             - Framboesa – anunciou o rapaz, entregando-lhe a taça. – Está bem doce, é bom depois desse queijo horrível.
             - Queijo delicioso – contestou Tarja, e tomou um gole do suco. – Isso também está bom. Quer dançar?
             - Depois. Agora quero falar com você – disse Razek. Isso a intrigou um pouco – afinal, era ela quem queria falar com ele – mas Tarja se limitou a assentir e a deixar que o rapaz a conduzisse para longe da arena, onde estavam os músicos. Buscando um lugar mais isolado, acabaram por se afastar do anfiteatro e a se sentar num banco de madeira, ao lado do galpão de Mestre Tomas, onde os sons da festa chegavam até eles como um murmúrio a distância.
             - Então – disse Tarja, mal haviam se acomodado. – O que você queria dizer?
             - Eu, hum... Bom, não é nada de mais. – Razek assumiu um ar inocente. – É que Padraig faz aniversário por estes dias, e a mãe dele resolveu dar um jantar para alguns amigos. Não os da Escola, mas os que ele tem na cidade, gente do Templo e coisa assim. Só que nós dois partilhamos um quarto e temos estado bem próximos... então, ele me convidou para esse jantar, e eu quero saber se você viria comigo.
              - Na casa de Padraig? – Tarja franziu a testa. – Mas eu não sou tão amiga dele.
              - Não, mas eu... eu não quero ser o único meio-elfo à mesa. Sério! – exclamou o rapaz, vendo que ela sorria. – São todos humanos, acho que até um preste, e vão ficar olhando para a minha cara e as minhas orelhas. Gosto do Padraig e quero estar lá, mas preferia não passar por isso sozinho.
              - E por que eu, então? – desafiou a moça. Razek abriu a boca, pronto para responder, depois pensou melhor e ficou em silêncio. Parecia pouco à vontade, e Tarja sabia exatamente qual a razão, por isso decidiu não prolongar o desconforto do rapaz.
               - Não precisa ficar vermelho – disse ela, tocando-lhe a face. – Estou só brincando. Claro que vou com você.
               - Vai mesmo? Não precisa, se não quiser.
               - Vou, sim. Talvez seja divertido. E ouvi dizer que a mãe de Padraig cozinha bem – sorriu Tarja. Razek também sorriu. Seus dentes pareciam ainda mais brancos em contraste com a pele morena, e os olhos eram brilhantes. Ele hesitou um momento, depois se aproximou e a beijou de leve nos lábios, um toque de calor em meio à noite de inverno.
               - E depois disso – falou, baixinho. – Quer dizer, não a festa, mas a cerimônia de Vergena. Quando acabar o trabalho mágico. Vamos ficar juntos?
               - Engraçado você falar nisso – respondeu Tarja, no mesmo tom. – Eu estava para perguntar se você gostaria de se mudar para o meu quarto, depois que Vergena for para Scyllix.
               Suas palavras provocaram um turbilhão em Razek. Ele estremeceu, tocou o ombro de Tarja, depois afastou a mão, como se temesse machucá-la. Por fim, depois do que pareceu um longo tempo, murmurou:
                - Você e eu... quer dizer, nós viveríamos juntos? Não só como amigos, mas...
                - Como amigos – Tarja confirmou – e às vezes mais do que isso, quando nós dois quisermos que seja assim. Seria o mesmo que agora, só que moraríamos no mesmo quarto.
                - Sem o Gwyll no Castelo – lembrou Razek, com os olhos cintilando.
                - Sem o Gwyll – concordou Tarja, mas algo na expressão dele a fez acrescentar: - Mas, por favor, não pense que isso é mais do que realmente é. Gosto de você, Razek, quero tentar fazer com que isso cresça, mas não posso prometer nada. Não sei se vou seguir outros caminhos, conhecer outras pessoas. E não quero que você, também, se feche para isso.
                - Mas sou fechado – disse o rapaz, com resolução. – Sempre me neguei a tudo e a todos até que a conheci. E não sei explicar por que isso acontece; tudo que sei é que sempre quis estar com você, você e mais ninguém, e que ficava morto de raiva quando a via com outro.
                - Raiva de mim? – indagou Tarja, ao que Razek sacudiu a cabeça.
                - De você, não. Raiva dele, e de mim também, por ser desse jeito. Mas talvez não seja culpa minha. Você saiu aos elfos da sua família e não vê problema em estar com várias pessoas; já eu tenho um lado humano, que sente ciúmes, e um lado que vem da minha tribo, onde num relance você pode passar a amar alguém para a vida toda. É assim que eu sou, Tarja – concluiu, largando a taça para segurar os dois ombros da amiga. – E é assim que eu gostaria que fosse entre nós, mas finalmente entendi que não posso apressar o tempo. Se para você tem de ser aos poucos, então que seja. Eu estou pronto para tentar.
                 Calou-se, as mãos nos ombros dela, os lábios apertados no esforço de conter sua emoção. Tarja meneou a cabeça, também comovida: aquele fora o maior discurso que ela já ouvira de Razek... e, para sua alegria, parecia inteiramente sincero.
                 - Bom – replicou ela, disfarçando com um sorriso. – Parece que Padraig vai perder seu companheiro de quarto.
                 - Ele não vai se importar, e não será por muito tempo – disse Razek. – De qualquer forma, assim que Vergena partir...
                 - Você faz o quê? – perguntou uma voz feminina, fingidamente zangada. Tarja e Razek se voltaram e se depararam com Vergena, que se aproximava a passos lentos, toda brilhante em sua tiara e manto prateados. Alguém vinha atrás dela, um homem alto e de ombros largos que Tarja supôs ser Kieran, mas logo suas roupas revelaram tratar-se do Encanta-Dragões. Por que ele estava ali e não na festa?
                 - Vocês sumiram de repente – disse Vergena, com um sorriso que desmentia o cenho franzido. – Achei que tinham desistido de ajudar no meu ritual.
                 - Claro que não! Estamos só conversando – Tarja garantiu. – Qualquer outra coisa fica para depois de amanhã.
                 - Digo o mesmo – declarou Lear. – Mestre Kieran acha que eu devo assistir a essa cerimônia de Mestra das Águias, e, além disso, receber uns ensinamentos sobre defesa e combate. Então, estou como vocês. Nada de carne, nem vinho, nem... nada.
                 - Bom, a Magia tem um preço – filosofou Vergena. – Vamos precisar nos abster de coisas várias vezes por ano, talvez por tempo prolongado, se quisermos seguir esse caminho. E só entramos no Quarto Círculo. Ou melhor – acrescentou -, acho que na verdade ainda estamos no Terceiro, e tudo que fizemos se limitou a dar um passo para fora dele. Nem fomos muito longe.
                 - Mas vamos – disse Lear. – Estamos indo, principalmente eu e você; e Riverast tem seus próprios desafios. Penso onde isso vai nos levar. – Ergueu a cabeça, olhando para as estrelas. – Se voltaremos a nos ver, se vamos estar muito diferentes daqui a cinco, dez ou vinte anos. O que vocês acham?
                  - Eu vou ser o mesmo. – Razek jamais faria confidências ao Encanta-Dragões.
                  - Eu não faço ideia – disse Vergena, olhando para a amiga. – E você, Tarja? Ainda tem um ano ou dois aqui em Vrindavahn. Como acha que vai ser o futuro?
                  Tarja encolheu os ombros, sorriu, mas ficou em silêncio. Na verdade, não sabia o que falar, embora houvesse passado muito tempo dizendo a si mesma que poderia controlar seu destino e inventando cenários ora bons, ora alarmantes. Agora, porém, sabia que não havia certezas, e não se afligia com isso. Tudo que sabia é que fizera escolhas, e deveria continuar a fazê-las e a esperar que fossem acertadas.
                 Pois a verdade é que nenhum mestre, nenhum ensinamento, nada poderia antecipar por completo aquilo que ela encontraria após o primeiro passo para além do círculo.

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Parte 6.5

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É isso, Pessoas Queridas. O conto chegou ao fim. Mas todos esses jovens magos (e os não tão jovens) têm muitas histórias pela frente, assim como seus aprendizes, os artesãos e, claro, a nossa Mestra de Sagas.

Espero que continuem conosco para que possamos compartilhá-las.

Até breve!

Ana Lúcia Merege

sábado, 2 de agosto de 2014

Promoção Livros e Mimos e Concurso Cultural - Resultado


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Olá, Pessoas Queridas,
É com muito prazer que venho comunicar o resultado do nosso Concurso Cultural. Não recebi um grande número de fanfics, mas fiquei muito feliz e comovida ao ver que algumas pessoas se interessaram pelo meu trabalho a ponto de se inspirar para escrever sobre ele!

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Concurso Cultural (1 vencedor)


Adoraria premiar todo mundo com um livro, mas infelizmente isso não é possível. Então, vou anunciar a vencedora: foi a Isabela Lopes dos Santos, com a fanfic intitulada “Ímpeto Sob a Lua”. Além de ser a mais bem escrita, a autora juntou os dois temas propostos para escrever uma história criativa e divertida.

Isabela, você tem direito de escolher um dos livros (O Castelo das Águias ou A Ilha dos Ossos) para compor seu kit. As demais competidoras (só meninas!) podem entrar em contato também, pois precisarei do endereço de todo mundo para enviar bottons e marcadores. Quero agradecer muito e parabenizar a todas pelo bom trabalho!

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Sorteio de um kit contendo contendo 1 Livro da Série "O Castelo das Águias" + caderno temático + 4 marcadores + 2 imãs de geladeira + 1 boton (1 vencedor)
Obs.: o vencedor desse sorteio ganhará o kit que sobrar do concurso cultural. O vencedor do concurso escolherá qual livro deseja ganhar, e o que ele não escolher será o prêmio do vencedor desse sorteio.

Michely Reis, você não venceu o concurso de fanfic, massssss foi sorteada para ganhar o outro kit com livro! Só que a Isabela tem a prioridade da escolha, certo?

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Sorteio de 3 kits contendo contendo camiseta de "A Ilha dos Ossos" ou caderno temático + 4 marcadores + 2 imãs de geladeira + 1 boton (3 vencedores)


E isso não para por aqui! Ainda sorteamos três participantes da promoção para ganhar o kit de mimos. E os prêmios vão para: Giselle de Oliveira, Sáah (Sabrina) Nunes Finoti e Sabrina Caparros!!

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Meninas, todas vocês devem entrar em contato comigo via e-mail anamerege@gmail.com para combinarmos detalhes do envio. Fico esperando!

E a todos que participaram – nesse caso, rapazes também – o meu muitíssimo obrigada pelo interesse e pelo carinho. Espero que continuem a visitar o blog, a checar as postagens da página do Facebook e – claro – que venham a ler também os livros e contos de Athelgard. Ainda tem muita saga pela frente!

Um grande abraço,

Ana Lúcia Merege


quinta-feira, 31 de julho de 2014

O Passo Além do Círculo: Cap. 6.5: Um Convite, um Desafio e um Futuro Possivelmente Brilhante



- Theran e eu estudamos juntos há mais de cinquenta anos e não nos perdemos desde então. Cada um seguiu seu caminho, e, nessas voltas que o mundo dá, ele acabou por regressar a Riverast e se tornar um dos mestres associados à Escola. Recentemente, um de seus antigos aprendizes lhe escreveu a respeito de uma cidade no País do Norte, aliada das Terras Férteis, onde gostariam de empregar um mago para ajudar a manter a paz na região; e, como ele sabia que eu tinha estado por aqueles lados  e conhecia vários jovens de talento, consultou-me sobre a possibilidade de enviar um deles para lá. Assim...
- Não precisa dizer. O senhor pensou em mim. – Lear prendeu o fôlego, imagens de castelos rústicos e montanhas nevadas invadindo-lhe a mente. – Mas por que acha que eu poderia...
- Você já vai ver! – disse Anna, entusiasmada. – Finn, leia para ele o que o Thane está pedindo!
- Claro. Meu amigo transcreve aqui – disse o meio-elfo, procurando as frases na carta. – Escute. Estas são as palavras de Herrin, Thane de Leighdale:
Minha dama e eu gostaríamos de empregar um jovem que conhecesse o suficiente de Magia para criar em nossos rivais um senso de temor e respeito, e assim manter nosso povo em segurança. Ele terá de aparecer em ocasiões como a festa da primavera e a da cidade e dar demonstrações de seu poder, coisas simples, mas de aspecto grandioso, que encham os olhos de nossa gente; poderá ter de acompanhar nossos embaixadores e, se necessário, os exércitos, mas esperamos que sua presença desencoraje as ameaças. Ele será alojado no castelo e receberá o tratamento mais digno...
- ... e daí para a frente ele se estende sobre as condições, que são excelentes; o pagamento é o bastante para tornar você um homem rico, se decidir sair após três anos de contrato – disse Finn. – Então, o que parece até agora? Não acha que a posição vem a calhar? Para impressionar o povo de Leighdale com espetáculos e inibir os rivais?
- Eu não... não sei se entendi bem o que eles procuram, mestre – murmurou o rapaz, confuso. – Não são bem espetáculos, parece, e... e eu acho que eles esperam que o mago vá à guerra...
- Não, Lear, eles querem é que não haja guerra – tornou Finn, persuasivo. – Lembra-se de Kieran ter-lhe dito que, numa batalha, adoraria ter você por perto para afugentar o inimigo com seu ilusionismo? E você pensa rápido, é criativo, cheio de recursos. É isso que eles querem, Lear, e não um velho mago rabugento, por mais que tenha experiência.
- O que, aliás, não iriam conseguir – disse placidamente Lara. – Poucas pessoas sairiam das Terras Férteis para viver num lugar como aquele.
- Mas é um bom lugar – rebateu a Mestra de Sagas. – Não é lá muito grande, mesmo para o País do Norte; mas tem um porto, solo fértil, clima ameno a maior parte do ano e, pelo que eu soube, governantes quase sempre justos. Aqui, eu encontrei um livro que narra uma viagem pela região.
Lear pegou o volume retirado da sacola que Anna trouxera consigo, agradeceu, mas o deixou fechado sobre o colo. Agora já fazia uma ideia melhor do que fora proposto e não lhe parecia tão intolerável a ponto de descartá-lo sem refletir, mas, mesmo com os elogios de Finn, não poderia dizer que estava entusiasmado. Passar três anos de sua vida numa remota cidade do Norte – três anos em que seria bem tratado e muito bem pago, sim, mas teria de conviver com costumes estranhos, com o frio, com pessoas que talvez fossem boas, mas que, provavelmente, seriam mais rudes e ignorantes do que aquelas que encontraria em Riverast. E além de tudo, mesmo que pudesse praticar ao longo daqueles anos, como faria para prosseguir na Senda?
- Eu ainda não sei – admitiu, com desânimo. – Suponho que o senhor e os demais me considerem despreparado para trabalhar com os mestres de Riverast, mas, pelo que entendi, há chances de que me indiquem no futuro. Como eu faria para estudar, isto é, quem me orientaria se eu fosse para o Norte como um iniciado do Terceiro Círculo? Não deve haver outros magos em Leighdale.
- É verdade, mas nós poderíamos continuar a ser seus mestres – disse Finn, para surpresa do rapaz. – Continuaríamos a nos corresponder com você – eu, principalmente, mas você vai precisar dos outros também. Kieran e Lara estão dispostos a ajudar e até mesmo Camdell tem meios de alcançá-lo, se necessário. Nós proporemos pesquisas e exercícios, enviaremos livros, daremos toda a orientação de que precisar; você não seria o primeiro a se instruir dessa forma. Por outro lado, a experiência vai amadurecê-lo, o que você também precisa; pois a verdade, meu rapaz, é que o ambiente na Escola de Riverast pode não ser o melhor para você, não como você é agora. Ele favorece os eruditos e os ambiciosos, mas não é tolerante com os artistas. E nós – não apenas eu, todos nós – detestaríamos vê-lo abrir mão disso para ter suas outras qualidades reconhecidas. Entende agora o que fizemos?
Suas mãos apertaram as do aprendiz, transmitindo o mesmo calor que lhe emanava dos olhos. Lear engoliu em seco, ainda hesitante, porém calmo e estranhamente – docemente – emocionado. Então seus mestres não o diminuíam por causa da Arte; queriam que se fortalecesse, não que mudasse. Sabiam que ele valia o esforço.
Imagens distantes, porém muito nítidas, invadiram sua memória, vindas do passado – sua chegada ao Castelo, ainda menino; a acolhida dos artistas da Ala Violeta e a do próprio Finn, tempos depois, elogiando seu talento para a Magia da Forma – e se misturando a outras que só podiam ser vislumbres do futuro. Havia um porto, como Mestra Anna dissera, e um castelo, com uma dama gentil e um senhor de meia-idade que o tratava como a um sobrinho querido; havia guerreiros, artesãos, crianças e camponeses, e todos olhavam para o mago como se olhassem para um Herói que andasse sobre a terra. Não era nada como o que sonhara antes, mas era uma porta que se abria. E quem seria ele se não tentasse improvisar?
- Aquelas pessoas nunca viram um mago, Lear. Pense em como vão amar você. – A voz de Anna veio ao encontro de seus pensamentos. – E a experiência de viver no Norte – outras terras, outras paisagens. Você vai voltar mais seguro e muito mais poderoso.
- Se decidir, vou lhe dar algumas aulas especiais – ajuntou Lara. – Para o que eles querem, você provavelmente vai ter de lançar mão de muitos encantos em espiral... rimas e cantigas sempre ajudam a manter a concentração.
- Obrigado, mestra. Muito obrigada aos três – disse Lear, soltando as mãos de Finn para apertar, ao mesmo tempo, as das duas mulheres. – Ainda não resolvi, mas vou pensar, prometo, e... Puxa. É muita coisa de uma só vez.
- Nós entendemos – sorriu Anna. – Também fiquei assim quando Camdell me ofereceu uma posição aqui. Levei quase uma lua pensando antes de aceitar.
- E quase o tempo de cinco respirações antes de me dizer sim – atalhou uma voz grossa, em tom irônico, por trás das costas de Lear. Este se voltou com um sobressalto, largando as mãos de Anna e Lara como se houvessem lhe dado um choque: tão absorto estivera em suas ideias sobre o futuro que não percebera a aproximação de Mestre Kieran, ainda que ele usasse botas de couro e pisasse forte. Gwyll vinha atrás, com sapatos macios e passo leve, os lábios curvados num sorriso que parecia de triunfo. Algum dos planos que sempre urdia em silêncio tinha dado certo.
- Você ganhou, Finn. O moleque é todo seu – disse Kieran, sentando-se ao lado da esposa. – Você e Sophia têm dois cada um, eu fico só com Vergena, mas até que é bom. Vou ter trabalho preparando a cerimônia em que ela vai se tornar a Mestra das Águias.
- Tarja e Razek vão ser os auxiliares – disse Gwyll, lançando um olhar significativo para Lear. – A partir de hoje, vão observar as restrições do trabalho mágico, assim como a gente.
- E por aqui? – perguntou Kieran, também se dirigindo ao Encanta-Dragões. – Como foram as coisas?
- Bom... Posso dizer que tive muitas surpresas. – Lear escolheu as palavras com cuidado. – Gostei muito de saber que consegui a espada, e fiquei triste por não ir a Riverast. Mas a proposta para trabalhar no País do Norte foi... Puxa. – Balançou a cabeça, sem saber como se explicar. – Eu nunca teria esperado isso. E, como ia dizendo, não sei o que fazer. Vou precisar de um tempo para pensar no assunto.
- É? Bom, em seu lugar eu nem pensaria – replicou o Mestre das Águias. – O que você faria se não aceitasse? Voltaria para Madrath? Ou iria para outra cidade, trabalhar como ajudante de algum daqueles velhos que fazem espetáculos de luzes?
- É mais ou menos o que querem em Leighdale – argumentou Lear. – O senhor deve ter lido a carta. Eles falaram claramente sobre eventos.
- Sim... e também sobre diplomacia, sobre defesa, sobre proteção. É isso que eles querem, garoto. E é uma coisa decente de se fazer com o Dom. – Calou-se por um momento, aproveitando para comer a fatia de pão que estivera cobrindo com mel. – Além disso, você vai endurecer um bocado vivendo naquelas terras – vai crescer de uma vez por todas. Já está mais do que na hora.
Lear baixou o rosto de faces vermelhas e não retrucou. Fez-se um silêncio breve, um tanto incômodo, no qual ecoavam as últimas palavras ditas: Lear devia endurecer, portanto devia passar por privação e sofrimento. A menos que estivesse muito enganado acerca do vocabulário do Carrasco.
“Ao menos não me considera um caso perdido”, pensou o rapaz.
- Bom, então é isso. Lear vai refletir, não há razão para pressa, e será bom que leia a carta com atenção. – Finn voltou a guardá-la no envelope e a estendeu ao aprendiz. – E nesse meio-tempo há muitas coisas para resolvermos. Temos as cinco iniciações do Terceiro Círculo, temos as demais...
- E o auto – lembrou Anna. – Hoje à tarde vai haver ensaio. Espero que você possa vir, Lear.
- Também espero – disse ele, voltando-se para Finn. – Ou o senhor quer marcar alguma coisa?
- Não, hoje à tarde eu e Sophia vamos à cidade para uma visita. Você pode ir para o seu ensaio.
- À tarde? Que pena, eu estava planejando uma volta pelas muralhas, como fiz com Gwyll – disse Kieran, erguendo as sobrancelhas. – Ele não demonstrou muito interesse pelos encantos de defesa, mas você terá de aprendê-los se for para o Norte. Amanhã, então? À sexta hora?
- Tão cedo? Não podíamos...
- Não – disse o Carrasco, em tom enfático. Lear esperou que dissesse o porquê, mas Kieran se limitou a comer outro pedaço de pão com mel, deixando a explicação por conta de um ressabiado Gwyll.
- O encanto se beneficia do nascer ou pôr do sol – disse ele, olhando de soslaio para o mestre. – E eu me interessei sim, mas... hum, o senhor pressionou um pouco.
- É verdade. Precisava acabar com uma dúvida. Mas você vai achar o passeio divertido – disse Kieran, dirigindo-se a Lear.
Uma pausa, e o Sorriso do Mal se desenhou em seus lábios antes que ele completasse:
- Quando se trata de você, eu não duvido de nada.






Parte 6

Epílogo

domingo, 27 de julho de 2014

Entrevista Para o Site Três Sagas


Pessoas Queridas,

Fui entrevistada pelo Vagner Abreu, do site Três Sagas, sobre meu trabalho como escritora: o processo criativo, as influências, como tudo começou. Compartilho com vocês aqui.

Em breve voltarei com a continuação do conto "Um Passo Além do Círculo" - mas antes disso vai-se encerrar a promoção de Livros e Mimos, bem como o concurso cultural que premia fanfics baseadas no conto "O Javali". Quem ainda quiser participar, corra lá na nossa página de Promoções!

Espero vocês!

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Passo Além do Círculo - Cap. 6 : Um Piquenique, uma Carta e uma Notícia de Arrasar



       Um desjejum em companhia de Finn, o simpático mestre de Magia da Forma, era sem dúvida uma ocasião menos temível do que estar diante dos Sete na sala de reuniões. Ainda assim, Lear teve uma noite difícil, na qual, além de ter custado a pegar no sono, teve sonhos tumultuados e acordou pelo menos meia dúzia de vezes. Por fim, já pelo meio da madrugada, o cansaço o fez mergulhar num sono mais pesado, do qual só acordou com as pancadas fortes de Irena à sua porta.
       - Menino Lear, não tinha que estar de pé à sexta hora? Há quanto tempo o sino tocou! – A voz aguda, sem cerimônia, da criada que o conhecia desde os dez anos de idade. – Pule da cama e vá encontrar os mestres, ande! Que vexame!
       - Calma, Irena, estou indo! – Um olhar para a janela, um sobressalto: se já não eram sete horas, faltava pouco. Lear se vestiu a toda pressa, jogou o manto sobre o ombro e saiu quase voando, passando por Irena, que sobraçava uma cesta de vime cheia das trouxinhas de meias e camisas sujas deixadas à porta pelos aprendizes. Tão rápido quanto pôde, fez suas abluções na casa de banho e ajeitou o cabelo diante do espelho, franzindo o cenho ao ver os pelos castanhos que despontavam em seu queixo e acima do lábio superior. Era constrangedor apresentar-se para um encontro como aquele sem ter feito a barba.
       Ainda prendendo o manto, ele atravessou um longo corredor, no interior da Ala Branca, para depois cruzar o pátio que dava acesso à Amarela. Fazia um bom tempo que não ia lá, porque as aulas de Sagas e Princípios da Magia tinham cessado no Segundo Círculo, e a Magia dos Nomes era estudada na Ala Azul pelos aprendizes do Terceiro. A própria imagem que guardava do lugar tinha sido alterada pelo tempo – e assim, ao entrar no jardim da ala, o Encanta-Dragões se surpreendeu ao achá-la ainda menor do que se lembrava.
        Provavelmente ainda não eram sete horas, mas Lear se congratulou consigo mesmo por ter vindo cedo, uma vez que Mestre Finn já se encontrava à sua espera. Estava bem agasalhado contra o frio, os cabelos como sempre alvoroçados, sentado de pernas cruzadas sobre uma grande toalha onde também fora disposto o desjejum. Havia uma cesta grande com pães, um prato com frios e queijos, uma travessa com frutas e outras com bolinhos de canela; havia mel, leite e uma jarra de cerveja fraca, além de canecas e talheres que – Lear notou com certa apreensão – não eram para duas e sim para quatro pessoas. Por um momento ele fantasiou – e temeu – que os outros comensais fossem Thalia e Kieran, justamente os que a princípio poderiam se opor a sua ida para Riverast; mas Kieran devia estar nas muralhas com Gwyll, e as duas mulheres que, momentos após sua chegada, saíram de uma porta aberta para o jardim não se pareciam com a Mestra de Princípios da Magia.
       Mais uma vez, ele tivera sorte.
       - Bom dia, Lear. Faz algum tempo que não nos falamos, não é? – perguntou Lara, a mestra de Magia dos Nomes, com seus modos discretos. Anna de Bryke vinha atrás dela, com um prato coberto na mão e uma sacola de pano a tiracolo. As duas se acomodaram ao redor da toalha, trocando cumprimentos com Finn e elogiando o aspecto da comida enquanto Lear se esforçava para controlar sua ansiedade.
       - Vocês não começaram ainda, certo? – perguntou Anna, sem que o rapaz soubesse se falava da conversa ou do desjejum. – Eu trouxe um doce de amêndoas e mel que fiz ontem à tarde, mas só sobrou um para cada; o trabalho mágico do Kieran não exige que ele se prive dessas guloseimas.
       - E você não toma cerveja. Não precisávamos ter trazido – disse Finn, olhando significativamente para Lear. O rapaz franziu a testa, buscando o sentido daquelas palavras, mas suas conjecturas foram interrompidas por Lara, que lhe oferecia uma caneca de leite. Seus dedos eram tão finos que mal pareciam sustentar o peso da caneca cheia, por isso ele se apressou a pegá-la, pensando, enquanto bebia, na história que corria na Ala Branca acerca de um antigo romance entre Lara e Kieran. Os dois teriam se envolvido em Scyllix, quando ela ainda era casada com o mago e mestre de combate Hillias, e encerrado o caso no barco que os trouxera a Vrindavahn, portanto muito antes de Kieran ter sequer ouvido falar sobre Anna; mas o mais curioso - pensou Lear, relanceando o olhar de uma para a outra – era o fato de que, à exceção de serem ambas versadas em sagas, não tinham nada em comum. Lara era frágil, tinha cabelos claros e pele quase translúcida, enquanto a morena Anna tinha um aspecto sólido, com ossatura larga e dedos de arqueira. Não era tão bonita quanto Lara, embora não fosse nada feia; sem dúvida combinava bem melhor com Kieran, que passara a juventude como soldado e devia gostar de mulheres fortes. Isso, ou a teoria de Urien, para quem as origens camponesas do antigo Mestre das Águias o faziam preferir as moças de ancas largas, capazes de dar à luz uma dúzia de filhos.
       Urien sempre tinha uma boa tirada.
       - Pensei que estivesse preocupado, Lear – comentou Finn, servindo-se de um pedaço de queijo. – Mas pelo jeito me enganei. Você não para de sorrir enquanto olha para Anna.
       - O quê? Eu não... – gaguejou Lear, trazido bruscamente de volta à sua presente e aflitiva condição. – Eu não estava olhando para ela... quer dizer, talvez sim, mas...
       - Quem sabe estava se perguntando o porquê de eu estar aqui – a Mestra de Sagas veio em seu socorro. – Isto é, além do fato de meu marido ter saído cedo e me deixado sem companhia para o desjejum.
        - A verdade é que chegamos a uma conclusão a seu respeito – disse Finn, agora num tom bem mais sério. – Duas conclusões, para ser exato, mas isso não é tudo; e eu sugiro que se prepare, meu rapaz, pois terá de tomar uma decisão que pode mudar completamente a sua vida.
        - Uma... uma decisão? – Lear pousou a caneca sobre a toalha, bem devagar, sentindo todo o seu sangue afluir às faces. – Mas eu pensei que fosse o senhor... quer dizer, que fossem os mestres, como um grupo, que decidissem tudo...
         - Sei ao que está se referindo, e sim, a decisão a esse respeito é nossa. Mas um caminho se abriu à sua frente, assim como aconteceu com Nardus e Vergena, e é você que deve escolher segui-lo ou não. Anna e Lara podem ajudá-lo nisso, e esta é a razão de estarem aqui. Mas essa é a última parte. Antes de tudo, tenho duas notícias a lhe dar, e quero que escute com atenção. Você está pronto?
         Lear engoliu em seco e assentiu. Os mestres se entreolharam, fazendo acenos entre si como se recordassem um código ou uma sequência de falas. Então, voltando-se outra vez para o aprendiz, Finn começou:
         - O que falei sobre a cerveja tem fundamento: você deve se manter em trabalho mágico, pois lhe darei sua espada no ritual do solstício. No entanto – emendou, antes que o maravilhado Encanta-Dragões soltasse uma exclamação de alegria -, lamento dizer que não podemos recomendá-lo aos mestres de Riverast. Não por enquanto. E é aí que entra algo com que nenhum de nós contava.
       Calou-se, tomando fôlego, ao mesmo tempo que observava a reação de Lear. O aprendiz estava em silêncio, os lábios entreabertos, tentando – e por enquanto não conseguindo – dizer alguma coisa que traduzisse aquilo que sentia. Em uma fração de momento, ele saíra de uma onda de euforia para uma decepção brutal, não totalmente inesperada, era verdade, mas com a qual não estava preparado para lidar. Acabrunhado, ele sacudiu a cabeça e olhou para Finn como se implorasse, embora desta vez não houvesse como se iludir acerca de uma segunda chance.
       Seu destino fora selado.
       - Sinto muito que seja assim. A decisão de promovê-lo ao Terceiro Círculo foi unânime, é bom que você saiba, mas concluímos que não valeria a pena propor seu ingresso na Escola de Magia. Nós...
       - Por que o “nós, mestre? Sei que não foi o senhor – interrompeu Lear. – O senhor queria que eu fosse para Riverast, não queria?
       - Mas é claro, meu rapaz! Nenhum de nós tem a intenção de prejudicá-lo! – Finn estendeu a mão por cima das travessas, pousou-a sobre o punho trêmulo do aprendiz. – Na verdade, todos concordam que poderia tentar ser aceito, mas alguns, baseados no que conhecem sobre a Escola, acham melhor que não o faça ainda; que teria mais chances, e aproveitaria mais sua estada lá, se praticasse durante dois ou três anos. No fim, essa ponderação venceu, e acabou ganhando força quando recebi a solicitação de um antigo colega.
        Dizendo isso, ele pegou um grande envelope, lacrado de verde - estivera a seu lado o tempo todo, mas Lear não o notara -, e tirou de dentro uma folha de elegante papel de linho. Trocou um novo olhar com as duas mestras, que o encorajaram em silêncio, e deu um leve pigarro antes de prosseguir.

   Continua...

    Parte 5


    Parte 6,5

terça-feira, 15 de julho de 2014

Athelgard no Anime Friends



Pessoas Queridas,

Este ano a Editora Draco participa do Anime Friends, um dos maiores eventos de entretenimento pop da América Latina. Vai ter lançamentos (inclusive de "Meu Amor é um Sobrevivente", que organizei com a Janaína Chervezan), palestras do Eduardo Massami Kasse e do Raphael Fernandes e - vejam que legal - TODO o catálogo da editora com desconto, inclusive os livros desta Mestra de Sagas. 

Cliquem aqui para conhecer a programação da Draco no Anime Friends e vejam também os links de compra de ingressos antecipados. Vale a pena! 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Passo Além do Círculo - Cap. 5: Encontro Esclarecedor


          Um vento frio, cheirando a chuva e a montanha, agitava as folhas das árvores que cercavam o lago. Junto às raízes de um carvalho, um rapaz estava sentado, um meio-elfo de cabelos claros e espetados como pontas de lança. De costas para a trilha, catava vez por outra uma pedrinha no chão e a atirava no lago, não para fazê-la quicar, mas sim para que flutuasse e girasse continuamente no ar sem tocar a superfície da água. Até o momento, conseguira controlar quatro delas. Tinha jogado um pouco mais, porém duas ou três haviam caído – e o jeito como davam voltas no ar lembrava um número de saltimbanco, as raízes de boa parte da Magia praticada no Castelo das Águias. Essa era apenas uma pequena parte do que ele estava prestes a deixar para trás. 
          Tarja se aproximou sem ruído, carregando uma lâmpada a cuja luz podia observar o jogo. Gwyll não deu mostras de perceber sua presença. Sem se voltar, acrescentou mais uma pedrinha ao círculo, sustentou o movimento um pouco mais e inverteu-lhe o sentido, depois estendeu a mão espalmada, pronunciando algumas palavras em voz baixa. Uma a uma, as pedras abandonaram a ciranda e flutuaram até sua mão, e só depois de pegar a quinta ele se virou, sorrindo para a moça que o observava em silêncio.
          - Oi – falou, soltando as pedrinhas.
        - Oi – disse Tarja, e se sentou no chão ao lado dele, sem tocá-lo. Pousou a lâmpada com todo cuidado sobre uma pedra chata e encarou o rapaz, cujo rosto parecia ainda mais fino em meio ao jogo da luz com as sombras.
        - Você sabe por que eu pedi que viesse – disse Tarja, respirando fundo. – Queria falar de nós antes que você fosse embora. Falar sobre o futuro – acrescentou, como se já não houvesse sido clara o bastante.
        Gwyll assentiu com um gesto lento e desviou os olhos para o lago. Parecia estar procurando as palavras certas, embora já houvesse decidido o que ia dizer: nada diferente do que tinha dado a entender, em atitudes e conversas veladas, ao longo dos últimos tempos, e nada que a moça já não soubesse. No entanto, por alguma razão, ela precisava que ele o dissesse às claras. 
       - O futuro – começou Gwyll, ainda reticente. – O futuro que eu planejo para mim está em Riverast. Não por alguns anos, como para a maioria de nós, mas para décadas, talvez para toda a minha vida. E chega um ponto, como você sabe, em que o caminho de um mago se torna...
      - Solitário – Tarja completou, sem esforço: era o que sempre ouviam quando se tratava dos Círculos mais altos da iniciação. – Eu sei disso, Gwyll. E entendo. Mas ao mesmo tempo suponho que você não se propõe a ficar só, a não se relacionar com ninguém até que chegue a esse ponto, então... se entre nós as coisas sempre foram tão harmônicas... pensei, por que não esperar que possamos ficar juntos, de novo, quando eu chegar a Riverast? Mesmo que acabe terminando depois de algum tempo. Você não disse isso, eu sei – acrescentou, antes que ele retrucasse alguma coisa. – Mas tem-se esquivado de mim, e... e uma coisa que nunca tinha feito antes... entrou no jogo dos garotos que ficam me empurrando para o Razek. Não sei o porquê disso agora, mas...
        - Tarja – Gwyll interrompeu, olhos brilhantes cravados nos dela. – Ninguém empurrou você pra ele, para começar. Vocês é que voltaram a se aproximar depois daquela história com as árvores. E você tem estado com ele, tanto quanto comigo. Não venha me dizer que não.
        - Digo, sim, porque não é do mesmo jeito – replicou a moça. – Eu gosto muito do Razek, isso é verdade. Gosto do que tenho com ele e não quero perder isso. Mas o que tenho com você também é bom, e eu não sei por que sou obrigada a escolher.
        - Você não tem que escolher, Tarja. Eu escolhi – afirmou Gwyll, surpreendendo-a pela primeira vez. – Não vou dizer que foi pensando em você, e muito menos por causa do Razek. Na verdade, eu faria a mesma coisa se ele não existisse, mas fico feliz que exista porque... Ah, Tarja. – Calou-se, relanceando os olhos para o lago. – Eu gosto muito de você, mas nossos caminhos são diferentes. Quero seguir o meu sem me preocupar se estou deixando alguém para trás – alguém que talvez mude seus próprios planos por mim, e que eu terei de abandonar para ingressar no Oitavo Círculo. Ao contrário, quero que você siga em frente, passe o tempo que tiver de passar em Riverast e depois vá correr mundo, até que decida se estabelecer e começar sua família. É o que você quer, não é? Desde que a conheço, não está sempre falando nos seus futuros filhos?
       - Que eu nem sei se vou ter! – replicou Tarja, perplexa. – Por que acha que eu tenho tantas certezas sobre o futuro? Aliás, como pode ter tanta certeza sobre o seu, ou pelo menos sobre o fato de que vai querer isso para sempre? Por que não vive um dia de cada vez?
          - Porque não sou assim! – respondeu ele no mesmo tom, que misturava a surpresa e uma espécie de frustração. – Desde o início eu soube que queria os Círculos mais altos e estou trabalhando de acordo. Para que serve treinar sua vontade se você não tem um alvo bem claro? Veja Mestre Kieran, por exemplo. Desde bem novo – isso é segredo: Mestre Finn me contou, mas fica entre nós -, Mestre Kieran tinha visões sobre seu próprio futuro, no qual ele era casado e tinha um filho. As coisas foram acontecendo de forma a ele decidir que era isso mesmo que queria, uma família, então não se envolveu com ninguém em Riverast nos cinco anos que passou lá. Quando ainda era Mestre das Águias, ele voltou à Escola de Magia para a iniciação do Sexto Círculo, e de novo, quatro anos atrás, para a do Sétimo. Então, no inverno passado, ele recebeu uma carta do seu antigo mentor convocando-o para o ordálio do Oitavo Cìrculo, com muitas chances de ser aceito – e simplesmente declinou, porque pretendia se casar, embora não soubesse quando e nem tivesse ainda com quem. Na época, segundo Mestre Finn, muita gente disse que ele era um tonto, mas... Bom, você sabe o que aconteceu depois.
        - Sim, claro. Ele achou alguém que se parecia com a mulher das visões, se apaixonou e foi correspondido – respondeu Tarja. – E, sim, é claro que o fato de ele estar esperando por isso há tantos anos trabalhou a seu favor; mas você não acha que as coisas poderiam ter dado errado? Mestra Anna não podia ter gostado de outro, ou acabar sendo morta por aquele monstro do Hillias, ou simplesmente não ter vindo para o Castelo das Águias?
         - Ela poderia ter sido morta – admitiu o rapaz. – Algumas coisas não se tem como impedir, e Mestre Kieran sabe disso. Mas ele tinha toda a certeza de que encontraria a mulher por quem esperou durante tantos anos, e aposto que estava certo de que ela iria gostar dele, mesmo que a consciência não o tenha deixado influenciá-la. Porque é isso que acontece, Tarja, quando você dirige sua vontade para um objetivo. E é por isso que eu também sei que vou chegar aos Círculos mais altos. Sem desvios.
           - Desvios – repetiu a moça, devagar.
          - Isso. Não me entenda mal. – Gwyll estendeu as mãos, pousou-as nos joelhos dela. – Eu gosto muito de você, sempre vou gostar, quero mesmo que continuemos amigos. Mas não quero me envolver com você nem com ninguém. O que acontecer por prazer, ou por diversão, não será nada de que eu não possa me esquecer no dia seguinte. E no futuro pretendo abrir mão até mesmo disso, como Mestre Camdell.
          - Você? – fez ela, incrédula. – O mesmo garoto que chamam de Herdeiro de Loki?
        - Eu mesmo. E esse tempo já ficou no passado, em nome do meu objetivo. Enfim – completou, encolhendo os ombros. – Você entendeu como pretendo viver minha vida em Riverast.
       - É. Eu entendi. – Tarja ergueu a cabeça, respirou fundo, depois soltou o ar pelo nariz, em pequenos haustos. – E, de coração, desejo boa sorte nessa sua escolha. Eu já devia ter entendido sem precisar desta conversa, mas foi bom termos falado.
       - Foi sim – disse ele, mas agora parecia ansioso por concluir a conversa. – O que acha de voltarmos para o castelo antes que esfrie mais? E eu nem vou dormir muito, tenho que estar de pé à sexta hora para dar uma volta pela muralha com Mestre Kieran. Acho que ainda não decidiram de quem vou receber a espada.
          - Tudo bem, vamos – concordou Tarja, erguendo-se sobre os pés, que estavam frios e um pouco dormentes. Não tinha mais o que dizer depois de todo aquele arrazoado de Gwyll. Se ele afirmasse que não queria dividir sua atenção com Razek – embora essa fosse uma ideia absurda: Razek sentia ciúmes de Gwyll, não o contrário – ou ainda se dissesse estar disposto a ter outras pessoas, outras experiências, então sim, talvez ela ainda tivesse por que argumentar. Mas contra aquelas frases cuidadosamente arrumadas, aquele muro de convicções atrás do qual se escondera seu namorado amável e brincalhão – contra todas aquelas certezas, o que ela ganharia em insistir?
         Os dois se despediram com um leve beijo nos lábios e os votos, por parte dela, de que ele tivesse uma boa conversa com Mestre Kieran. Deveriam ter ido juntos até a torre, mas Tarja pretextou uma fome repentina para ir à cozinha, onde pão e frutas eram mantidos à disposição de quem trabalhasse até tarde. Gwyll  falou em esperá-la, mas – ele também não sabia o que dizer – concordou bem rápido em subir direto para o quarto, uma vez que teria de se levantar em poucas horas. 
         Tarja ficou no corredor por uns momentos, segurando a lâmpada acesa, depois deu meia-volta e subiu para o dormitório por outra escada. Cruzou uma passagem entre dois corredores e se dirigiu à porta de Razek, mas antes que pudesse bater – o que ela ia fazer por impulso, na sequência dos passos que a tinham levado até ali – uma voz soou dentro do quarto, narrando uma experiência malfadada no laboratório de alquimia. Era uma voz de rapaz, mais para grave e de timbre agradável...  e não era a de Razek, mas sim a de Padraig, seu colega de quarto. O meio-elfo também disse alguma coisa, momentos depois, mas a moça já havia se afastado da porta. Não fazia sentido entrar no quarto onde estavam os dois. Ela hesitou por um instante, calculando o tempo que Gwyll devia ter levado a subir e as possibilidades de haver reunião em seu quarto, depois deu de ombros e se encaminhou à escada que conduzia à torre.
         A porta de Gwyll e Lear estava fechada, mas a voz abafada de um deles podia ser ouvida lá dentro. Tarja não esperou para saber quem era. Em vez disso, entrou em seu próprio quarto, segurando a lâmpada de modo a não deixar que a luz incidisse sobre o rosto de Vergena, cujas formas se adivinhavam sob as cobertas. Supunha que a elfa estivesse dormindo, mas, quando regressou pé ante pé da casa de banho, foi surpreendida pelo par de olhos brilhantes que a fitavam numa interrogação.
           - Acho que era aquilo mesmo – disse Tarja, encolhendo os ombros. Havia desalento em sua voz, mas – ela mesma percebeu – menos do que esperava. Vergena teve um daqueles seus sorrisos sérios. Sem desviar os olhos da amiga, ergueu um lado da manta, e Tarja deslizou para se aninhar no espaço vazio ao seu lado. A mão da elfa lhe afagou os cabelos e ela fechou os olhos, sabendo, em seu coração, que esse silêncio lhe faria mais falta do que toda a eloquência de Gwyll. 

         Continua...

Parte 4

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