O mundo estava vindo abaixo.
Sua mãe tinha tentado sondar o que se passara no Castelo, mas Padraig a despistara com comentários vagos sobre a paisagem e as torres. Com o Preste, mais cedo, houvera um silêncio constrangido, depois uma forçada disgressão por assuntos que não incluíam a Magia ou Mestre Camdell. Ele dissera a si mesmo que o conselho não significava nada, que o Mentor quisera apenas usar uma frase de efeito, mas no fundo aquilo o incomodava, como uma luz piscando sobre seu rosto quando tentava dormir. Talvez fosse exatamente isso: a mente, o espírito, as convicções até agora tão arraigadas postas em jogo e a decisão em suas mãos. Seguir obedecer, teria sido mais fácil. Mas não podia ignorar as perguntas que surgiam a cada momento.
Sem saber o que fazer, ele dirigira suas preces a Thonarr, pedindo que o orientasse naquele momento de confusão. O Herói não o atendera – orar não lhe sugerira uma resposta, nem lhe trouxera conforto – mas uma chuva forte começou a cair logo depois, e com ela os trovões que eram o atributo de Thonarr. De alguma forma ele se manifestava. E talvez quisesse dizer alguma coisa, mas Padraig não teve tempo de refletir, pois sua mãe o chamou com urgência para vedar as janelas da estalagem. No teto, goteiras deixavam passar grossos fios d´água, e o chão fora enlameado pelos sapatos das várias pessoas que se abrigavam ali. A maioria pediu algo para comer, por isso o assado acabou rápido, obrigando-os a improvisar. Não havia mãos a medir entre os que cozinhavam e os que serviam.
Padraig estava na cozinha, picando frutas para mais uma rodada de ponche, quando escutou o alarido vindo do salão. As vozes eram muitas, mas, antes mesmo de acorrer, ele reconheceu a do Irmão Liam, um jovem iniciado do Templo que escapulia com frequência para um trago n´ ”A Espada e o Lírio”.
- Toda a ajuda possível, sim, é o que estão pedindo; mas nada de mulheres e crianças, e tem de ser rápido – dizia, os olhos arregalados como pratos. – Temos que tirar o que pudermos antes que desabe.
- O que vai desabar? – Padraig ergueu a voz acima da balbúrdia.
- O andar superior de uma das alas do templo – disse Liam, como ele esperava e temia. – Já estava com problemas, e o peso da água...
Encolheu os ombros, como se desse a explicação por encerrada. De fato, não fora preciso mais do que isso para que alguns homens se dirigissem à porta. Os mais resolutos correram para o templo, outros ficaram ali olhando a chuva como se refletissem. Padraig se demorou por um instante junto deles, mas sua hesitação foi cortada pelo raio que riscou o céu, bem diante de seus olhos, no momento em que os voltava para o templo. O ribombar de um trovão lhe encheu os ouvidos, e de repente não havia mais o que ponderar.
- Filho! – A voz de Moira às suas costas, quando já se afastava. – Paddy, não vá! Eles não querem crianças no templo!
- Não sou criança – gritou ele dentro da chuva. Caía pesada como uma cortina, quase o impedindo de ver o templo embora estivesse tão próximo. Ele se orientou guiado pelo hábito, esbarrando nos homens apressados que acorriam de todas as direções.
- Por aqui, venham! – Diante do templo, o porteiro gesticulava com uma lanterna. – O Preste Goliath está ali em frente, Ele dirá a todos o que devem levar, e para onde.
- E os artesãos? – indagou Padraig, lembrando-se do encontro na Ala Violeta. –Eles não estão tentando arrumar o piso?
- É tarde demais pra isso – respondeu o porteiro. Seus olhos fundos encararam o garoto de um jeito que lhe causou arrepios. Alheios à conversa, os outros homens passaram por eles e se juntaram à brigada comandada pelo Preste Goliath, que transportava móveis e arcas de um lado para o outro. Era o que também devia fazer, contudo seus pés relutavam em levá-lo pelo mesmo caminho, e ele não saberia dizer o que o fez dar meia-volta e seguir pelo corredor oposto.
A passagem estava às escuras, o chão alagado; o som da chuva se projetava no túnel formado pelas paredes, trazendo-lhe uma forte sensação de clausura. Foi um alívio chegar ao fim. Ele sorveu o ar saturado de chuva, depois ergueu os olhos, sabendo de antemão o que iria ver.
A chuva. O patamar. Vultos borrados, no extremo do corredor, apressando-se a descer as escadas. E, em meio a isso tudo, o andaime abandonado pelos artesãos, ainda tendo em volta algumas vigas com as quais, talvez, pensavam escorar o piso a fim de consertá-lo. Mas até eles, pelo jeito, achavam que era tarde demais.
- Padraig!
Uma voz grave soou no corredor que acabava de abandonar. Alarmado, o menino se voltou, mas não viu nada além de escuridão, logo quebrada pelo súbito clarão de um raio. Ele tornou a dar as costas para o túnel, esquadrinhando o espaço à sua volta – e então, por um instante mais curto que um bater de pálpebras, enxergou um vulto maciço no alto do andaime.
A reação foi imediata: um grito de susto, não isento de medo, tão inesperada foi a visão. Fugaz, também: apenas um momento se passara e a figura não estava mais lá. Restava apenas o andaime, lavado pela chuva e estremecendo ao sopro do vento, os repetidos clarões dos relâmpagos iluminando-o por partes. O topo, o meio, de novo o topo, as vigas, o martelo...
Martelo?
Padraig protegeu os olhos com a mão e deu alguns passos sob a chuva. Sua impressão estava correta: um grande martelo de ferro fora deixado numa das tábuas do andaime. Talvez, afinal, os artesãos tivessem vindo, pensou. Talvez pretendessem voltar e foram desencorajados, pelas pessoas ou pela chuva.
E se não fosse assim – teria dado tempo?
No instante seguinte ele estava junto ao andaime, agarrado àquele fio de esperança e ao martelo que empunhara sem saber o porquê. Seu coração batia descompassado, mas as mãos estavam firmes, e assim permaneceram enquanto os raios caíam cada vez mais perto. Os trovões se sucediam, enchendo seus ouvidos num vozerio contínuo, até o ponto em que nada lhe restou senão responder.
- THONARR!
Sua voz cresceu no espaço em meio à tempestade. Uma espiral vibrante de calor o percorreu dos pés à cabeça, um forte pulsar entre os olhos – e de repente foi como se um raio dardejasse do centro de seu corpo às mãos erguidas. O martelo brilhou, envolto em tonalidades elétricas, projetando uma luz rubi-azulada que se estendia como uma trilha até o alto do andaime. Á sua luz, Padraig viu claramente a fissura no piso, sentiu em todo o corpo o tremor da estrutura precária, e então não conseguiu conter um novo grito.
Acabava de compreender o que tinha nas mãos.
Epílogo
quarta-feira, 9 de maio de 2012
terça-feira, 8 de maio de 2012
O Castelo das Águias chega à Apple!
Pessoal,
Em meio à escrita do último capítulo do conto do Padraig (sim, ele vai ser concluído!) e aos preparativos para a retomada do segundo livro da saga, não posso deixar de repassar a novidade trazida pela Editora Draco.
A partir de agora, "O Castelo das Águias" está disponível através da Apple, podendo ser baixado em iPhone, iPad ou iPod touch por apenas $ 4,99. O mesmo acontece com outros livros da editora, tornando cada vez mais fácil ler a LitFan nacional por um custo acessível e sem abarrotar ainda mais as nossas já superlotadas estantes.
O que vocês estão esperando?
Até breve, com novidades!
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Promoção de Aniversário: Resultado da Promo "Caça ao Tesouro"
Olá, Pessoas!
Pois é, vários procuraram, mas só um encontrou o tesouro...
Dentre os e-mails enviados para a promoção, só um tinha as respostas corretas para as três perguntas. Curiosamente, foi o primeiro a chegar, e veio de uma pessoa que gostei muito de conhecer: a também escritora Astreya Bhael!
Aqui estão as perguntas e suas respostas:
1. Quais são as Três Casas da Tribo da Floresta dos Teixos?
R. Lobo, Corvo e Lontra.
2. Em qual das alas do Castelo das Águias fica o laboratório de Alquimia?
R. Ala Verde.
3. Quem foi substituído por Rydel como Mestre de Ciências da Terra?
R. Theoddor.
Por ter acertado tudo, a Astreya ganhou um exemplar autografado de O Castelo das Águias, mais uma camiseta e um marcador, que serão enviados assim que ela me mandar seu endereço com CEP. Parabéns, Astreya! Espero que goste dos prêmios!
E pra vocês que não ganharam, continuem ligados nas promoções. A das fanfics continua valendo, e em breve haverá outras, sempre anunciadas no Twitter e aqui no blog.
Até breve e obrigada por participar!
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Promoção de Aniversário: Resultado da Promo Seguidores
Caríssimas Pessoas,
Conforme anunciado, estou disponibilizando o resultado do sorteio da primeira promoção do aniversário do Castelo das Águias. Muito obrigada por participarem e divulgarem!
Entre os seguidores do Twitter, o sorteio foi via hashtag utilizando o Twicket. A vencedora foi a pessoa cujo Twitter é @483THForeverNow, ou seja: a Cândida Desirée.
Já entre os seguidores do blog, atribuí um número a cada um deles e fiz o sorteio pelo Random.org, que forneceu o número 23. Este correspondia na lista à Jéssica Marise.
Parabéns a vocês, Cândida e Jéssica! Agora é só entrar em contato comigo através do e-mail anamerege@gmail.com e fornecer o endereço de envio, com CEP, até a meia-noite do dia 29 de abril. Espero que curtam bastante "O Castelo das Águias".
E para quem não ganhou, não desanimem! Até o dia 2 de maio, ainda podem concorrer a um kit livro + marcador + camiseta respondendo às três perguntas da Caça ao Tesouro. Isso sem falar nos escritores que se inspirarem no universo do Castelo para contar suas histórias. Confiram na página das Promoções aqui do blog!
E continuem comigo. Ainda temos muitas sagas para narrar ao redor do fogo!
Conforme anunciado, estou disponibilizando o resultado do sorteio da primeira promoção do aniversário do Castelo das Águias. Muito obrigada por participarem e divulgarem!
Entre os seguidores do Twitter, o sorteio foi via hashtag utilizando o Twicket. A vencedora foi a pessoa cujo Twitter é @483THForeverNow, ou seja: a Cândida Desirée.
Já entre os seguidores do blog, atribuí um número a cada um deles e fiz o sorteio pelo Random.org, que forneceu o número 23. Este correspondia na lista à Jéssica Marise.
Parabéns a vocês, Cândida e Jéssica! Agora é só entrar em contato comigo através do e-mail anamerege@gmail.com e fornecer o endereço de envio, com CEP, até a meia-noite do dia 29 de abril. Espero que curtam bastante "O Castelo das Águias".
E para quem não ganhou, não desanimem! Até o dia 2 de maio, ainda podem concorrer a um kit livro + marcador + camiseta respondendo às três perguntas da Caça ao Tesouro. Isso sem falar nos escritores que se inspirarem no universo do Castelo para contar suas histórias. Confiram na página das Promoções aqui do blog!
E continuem comigo. Ainda temos muitas sagas para narrar ao redor do fogo!
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Em Nome de Thonarr (Parte 7)
Padraig não tinha como saber, mas, pouco tempo depois de ter voltado para a cidade, seu nome se tornara conhecido por todos no Castelo das Águias. Os aprendizes com quem conversara tinham-se encarregado de falar sobre ele aos quatro cantos: com os mestres, como Shanion – que ergueu o lábio, num gesto de desdém característico, ao ouvir sobre o menino que acreditava num Thonarr de carne e osso - , com os companheiros de Círculo e até com os artesãos e os empregados do Castelo. Entre outras observações, discutiam o significado das palavras de Camdell, que os intrigavam pelo simples fato de terem sido ditas: até onde se lembravam, o Mentor jamais lhes dera qualquer conselho.
As perguntas se multiplicaram em ecos pelos corredores até chegar aos ouvidos de Kieran. Isso aconteceu em torno da hora do crepúsculo, propiciando uma entrada abrupta, quase violenta na sala de refeições.
- O garoto esteve aqui! – exclamou ele, dirigindo-se sem rodeios a Camdell. – Por que ninguém me chamou?
- Você já falou com ele – respondeu o Mentor, sem se abalar. – Despertou a curiosidade que, agora, começa a trazer mais indagações. Ele tem de achar as respostas antes de decidir o que realmente quer.
- Eu poderia ajudá-lo – argumentou Kieran.
- Mais tarde, sim. Agora só iria pressioná-lo – disse Thalia, da outra ponta da mesa.
Kieran franziu o cenho e se voltou para a elfa. Ela estava perto de Shanion, como vinha acontecendo nos últimos tempos, mas, como sempre, não tardara a acorrer em defesa de Camdell. Como se fosse necessário.
- Eu sei que você o quer na Escola. Eu também quero – tornou brandamente o Mentor. – Mas o menino tem de sentir que está fazendo a coisa certa. Sentir. Não raciocinar. Você compreende?
- Claro. – Kieran respirou fundo, puxou a cadeira próxima à de Lara. – Não é o meu jeito de lidar com as coisas, mas, de qualquer modo...
- Até parece – murmurou Lara, de si para si, com um risinho. Seus olhos claros se encontraram com os de Kieran, escuros e estreitos, guardiões de tantos segredos. Ele trabalhava na esfera do Pensamento, sim. Tinha a vontade mais ferrenha, mais direcionada que ela já vira, incluindo a de Hillias. Mas Lara sabia muito bem o que os sentimentos podiam levá-lo a fazer.
Mais cedo que de hábito, ele se recolheu a seus aposentos, numa das torres mais antigas do Castelo. Seu quarto ficava no segundo andar, com a janela voltada para o pátio interno e outras construções; não era a melhor vista que poderia ter, mas permitia que observasse o movimento na Ala Azul, onde tinham lugar as aulas de Magia da Forma e Pensamento. Sua vigilância prevenira e reparara vários desastres provocados por aprendizes descuidados ou, pelo contrário, mais aplicados do que seria bom para eles mesmos. Esta noite, porém, a Ala parecia tranquila, e, depois de um breve instante de observação, ele deixou a janela e se voltou para a estante na parede oposta.
Ao contrário do que se poderia pensar, Kieran não mantinha um só livro de Magia em seu quarto, à exceção dos grimórios que continham suas próprias anotações. Todos os demais tratavam de seus outros interesses: livros sobre a história das Terras Férteis, relatos acerca de guerra e estratégia militar e muitas obras literárias, principalmente de poesia élfica. Tinha também alguns volumes de sagas e o exemplar do Etta em que aprendera as primeiras letras, as páginas amassadas e sujas por seus dedos de garoto do campo. Ele também, naquele tempo, encontrara conforto nas histórias sobre os Heróis.
Kieran pegou o livro e se pôs a folheá-lo, ao mesmo tempo em que caminhava de um lado a outro do quarto. O volume era humilde, com uma encadernação barata e várias páginas soltando, mas algumas pareciam saltar aos olhos por outro motivo: aquelas que o menino, e mais tarde o jovem Kieran ap Fergus visitara com frequência, embora seu aprendizado o houvesse levado a descrer dos Heróis. Ainda assim, as sagas continham mensagens, ensinamentos e símbolos poderosos que nenhum mago digno desse nome ousaria negar.
Seus dedos correram sobre as páginas, descuidados como outrora. O livro se abrira numa história sobre três Heróis, Thonarr, Woden e Loki, aquele a quem os homens se referiam como o Esquerdo. A maioria dos meninos com quem crescera preferia Thonarr, embora muitos se declarassem devotos de Thýrr, patrono de Scyllix e dos guerreiros. Kieran, porém, sempre gostara mais de figura de Woden, com seu cajado e o olho encoberto pelo chapéu de viagem, e o interesse cresceu à medida em que avançava no aprendizado da Magia. Como ele, Woden era aquele que entoava encantamentos e que adquirira um Dom por meio de sacrifícios. Era inteligente, misterioso e às vezes sombrio. E, além disso, tinha um elo mágico com os corvos. Isso o fazia enxergar longe, mesmo com um olho só.
Kieran também via muitas coisas através das águias.
O livro estava aberto na figura de Woden quando ele ouviu os gritos. Não eram de pânico ou de raiva – as guerras o tinham ensinado a distinguir – mas um aviso, um chamado que vinha dos arredores da Torre dos Ventos. Ele correu até a janela, surpreendendo-se com a rajada de chuva que o atingiu antes mesmo de tê-las visto.
Eram duas, como os corvos de Woden, e majestosas, com sua grande envergadura e as penas douradas. Voavam sem esforço, apesar do vento cada vez mais forte, mas isso iria mudar rapidamente à medida em que suas asas se encharcassem. Elas avistaram o mago junto à janela e tornaram a gritar, fazendo com que seus olhos as seguissem quando, num vigoroso bater de asas, deixaram as imediações da Torre dos Ventos. Iam em direção a seu lar, a floresta; mas, em vez de voar em linha reta, fizeram uma curva pronunciada, passando diante dos olhos de Kieran e contornando boa parte do castelo. Ele se debruçou sobre o parapeito, tentando não perdê-las de vista, mas foi um longo momento antes que voltassem ao rumo esperado. Ao se afastarem, gritaram pela terceira vez, o som se perdendo em meio ao ruído agora furioso da chuva.
Siga-nos, mestre. Venha ver.
Sem hesitar, Kieran subiu correndo até o andar superior e se dirigiu à janela. Ficava do lado oposto à do seu quarto, descortinando boa parte de Vrindavahn - e foi exatamente no centro da cidade que ele viu o que atraíra as águias.
Por um instante, sua única reação foi ficar parado, tentando compreender o que tinha diante dos olhos. Para um homem comum, não havia nada além de uma tempestade com raios, mas ele via o brilho da energia mágica que impregnava toda a região ao redor do templo de Bragi. Com certa dificuldade, conseguia ver pessoas se movendo por ali, mas o brilho não parecia vir de nenhuma delas e sim do próprio ar, da chuva que envolvia a cidade como um manto líquido. O mais estranho, porém, era a forma como os resquícios da energia permaneciam no templo, um lugar que normalmente não teria atraído aquele tipo de vibração. Porque era uma vibração, uma força que não provinha de homem ou elfo e sim da própria natureza, e como tal podia vir a causar uma catástrofe.
A não ser que alguém interferisse para evitar.
Os tratados de Magia diziam que a chuva devia cair onde era necessária, tal como o fogo precisava arder onde houvesse uma centelha. Kieran pensou nisso por um momento antes de perceber a quantidade de pessoas correndo em direção ao templo, as vibrações de angústia e desespero que se desprendiam de cada uma delas. Então, teve certeza do que devia fazer.
Passando às pressas por seu quarto, ele pegou um manto e um chapéu que o protegessem da chuva e deixou a torre, enveredando por um corredor da Ala Azul até a sala em que – se não quisessem problemas com ele – seus aprendizes deviam estar praticando para um teste de habilidade no dia seguinte. Pensara encontrar vários deles ali, mas, para sua surpresa, viu apenas Gwyll, que suava com o esforço de fazer flutuar alguns cadernos com a força do pensamento.
- Mestre! – exclamou o meio-elfo, arregalando os olhos. Como era de se esperar, a concentração foi por água abaixo, os cadernos caindo no chão com um ruído abafado. Kieran não perdeu tempo perguntando pelos demais. Apenas explicou o que ia fazer, acrescentando que sua ajuda seria bem-vinda, embora não necessária. Gwyll hesitou por um instante, depois assentiu, cheio de um brio que revelava o mago habilidoso que um dia viria a ser. Infelizmente, faltavam alguns anos – e foi acompanhado de um rapazinho magro, orelhudo e de cabelos eriçados que o Mestre das Águias rumou a todo galope para o templo de Bragi.
Parte 8
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Promoção de Aniversário de O Castelo das Águias
Pessoas Queridas,
Para quem não lembra, O Castelo das Águias foi lançado no dia 26 de abril de 2011, numa das filiais da Livraria da Travessa aqui no Centro do Rio. O tempo passou rápido e aqui estamos nós, um pouco mais velhos e (quem sabe) um pouco mais sábios, à espera de que chegue a hora de soprar a primeira velinha. Parabéns, Anna e Kieran! E parabéns a vocês, amigos e leitores, sem os quais nada disso seria possível!
Para comemorar - e também para ampliar o nosso círculo - estou lançando três promoções simultâneas. Uma é para seguidores do twitter e do blog, outra para quem gosta de brincar de detetive e a terceira é para quem curtiu o universo do Castelo e gosta de escrever. Os prêmios são variados e bem legais. Dê uma olhada na nossa página de promoções e escolha a sua.
Conto com sua participação!
...
Kieran e Anna no traço de Marina Hiei
terça-feira, 17 de abril de 2012
Em Nome de Thonarr (Parte 6)
O resto da visita transcorreu sem surpresas. A reação de Padraig às palavras de Gwyll erguera um muro entre o garoto e os três rapazes; eles continuaram a tratá-lo com gentileza, mas sem mais tentativas de camaradagem. Lear foi praticamente o único a falar, mostrando o exterior de algumas das Alas e, no fim, a biblioteca e a sala de estudos do prédio principal. Um grupo de aprendizes se achava ali, meninos provavelmente mais novos do que Padraig, preenchendo uma grande folha de papel com símbolos que copiavam de enormes livros abertos.
Símbolos, símbolos, símbolos. Não, a Magia não era tão real quanto Thonarr.
- Bom, então... A não ser que queira ver os nossos quartos e a cozinha, acho que é tudo – disse Lear, sem jeito. – Há muito mais, é claro, mas não podemos levá-lo às outras alas sem permissão dos mestres.
- Já vi bastante coisa, obrigado – disse Padraig. Os aprendizes se entreolharam, preparando-se para dizer adeus, e foi quando o Preste Drusius surgiu de uma porta no final do corredor.
- Veja só, nos encontramos! – comentou ele, com ar satisfeito. – Gostou do Castelo, Padraig?
- Eu...
- Ele não viu muita coisa – disse uma voz suave às costas do Preste. Este se afastou para o lado, permitindo que o novo personagem aparecesse diante do garoto.
Anos mais tarde, Padraig teria dificuldade para explicar o que sentiu ao ver o Mestre Camdell pela primeira vez. Sua lembrança mais forte era a de ter dito a si mesmo que o Mentor era humano – ou melhor, que havia algo de humano em seus olhos, e que isso se sobrepunha a todas as evidências de ele pertencer a outra raça. Ele avançou com um sorriso nos lábios e a mão erguida, um gesto que logo se modificou para permitir um cumprimento à maneira dos homens.
- Sophia me falou a seu respeito – disse. – É muito bom vê-lo aqui. Sua visita o ajudou a refletir sobre o que ouviu de Kieran?
Pego de surpresa, Padraig hesitou. Sabia que fora rude com os aprendizes e não queria sê-lo também diante de um mestre, mas Camdell era uma dessas pessoas para as quais não se pode mentir. Seus olhos cor de âmbar, ao mesmo tempo sérios e sorridentes, pareciam capazes de penetrá-lo, ler as dúvidas e os desejos mais secretos de seu coração. Ele engoliu em seco, pensando em como explicar, e foi então que Gwyll se antecipou à sua resposta.
- Mestre, ele é devoto de Thonarr. Acredita que os Heróis existem de verdade. Eu expliquei o que aprendemos com Mestre Shanion, mas Padraig não concorda.
- Ah, Shanion – disse o Mentor, pensativo. – Nosso atual Mestre de Sagas não é a pessoa mais indicada para dar essa explicação. Não a um rapaz como Padraig.
- Se me permite, Mestre Camdell... Todas as explicações que deseje, o menino pode obtê-las comigo – disse o Preste Drusius. O tom era amável, mas Padraig sentiu uma nota de tensão, que o Mentor poderia ter ampliado com uma só palavra. Esse, porém, não seria Camdell.
- Meu caro Preste, parece-me que o rapaz tem perguntas, mas nenhum de nós pode respondê-las neste momento. Se ele crê em Thonarr – olhou nos olhos de Padraig, provocando-lhe um calafrio – e se isso lhe confere poder, uma transformação virá, mais cedo ou mais tarde. Só ela pode trazer a compreensão de muitas coisas que hoje parecem incertas. Então talvez não tenha mais dúvidas quanto ao caminho.
Fez uma pausa, durante a qual o mundo pareceu parar – ou ao menos o de Padraig.
Então, inspirou profundamente, seus olhos adquirindo um brilho de chama ao aconselhar:
- Não ouça nenhum de nós antes de ouvir a voz de Thonarr.
E isso foi tudo.
Parte 7
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