segunda-feira, 28 de maio de 2012

Um Ano e um Dia: o Início da Jornada


ATUALIZAÇÃO: não sei se todos já sabem, mas o livro que deveria se chamar "Um Ano e um Dia" mudou de título e foi publicado em março de 2014 como "A Ilha dos Ossos". Informações aqui.


Queridas Pessoas,

Como eu venho anunciando há algum tempo, O Castelo das Águias chegou ao seu primeiro aniversário. O tempo pareceu voar, mas, olhando para trás, dá pra ver quanta coisa aconteceu e quanto retorno eu recebi de leitores de todas as idades e bagagens.

Como era de se esperar, houve críticas. Algumas apontaram falhas que eu reconheço e que me esforçarei para não repetir; outras, depois de refletir a respeito, me parecem ter tido por base as expectativas e o gosto pessoal de quem leu. Como disse Neil Gaiman, às vezes você mostra histórias para as pessoas erradas, e ninguém gosta de tudo.* No entanto, fico feliz e orgulhosa por poder dizer que a maioria dos leitores aprovou, principalmente os jovens que gostam de romance e fantasia e que constituem o público-alvo deste trabalho.

Na página Livro 1 deste blog eu listo as resenhas publicadas até agora. Agradeço por elas a seus autores, bem como aos demais leitores e amigos pelos elogios, críticas e sugestões que serão muito úteis nessa nova etapa da minha jornada.

Vocês sabem que O Castelo é o primeiro livro de uma série, não sabem? Além dos contos do blog ou publicados à parte, como A Encruzilhada, haverá pelo menos duas continuações em forma de romance. Ambas já têm versões preliminares, mas, tal como aconteceu com o primeiro livro, irei reescrevê-las para tornar a narrativa mais ágil e a própria história mais interessante. Na verdade, já estou começando a mexer no segundo volume da série, cujo título provavelmente definitivo será Um Ano e um Dia.

Dito assim parece fácil, mas não é. Escrever é uma aventura; reescrever pode até ser prazeroso, mas gera um bocado de ansiedade, até porque desta vez eu sei que há leitores à espera desse novo trabalho. Por eles, e também por mim, preciso me esforçar para corrigir os problemas da primeira versão, achar a voz do narrador, desenvolver melhor os personagens e seus conflitos. É um trabalho duro, que ocupará boa parte do meu tempo livre nos próximos meses, mas valerá a pena: ao ser publicado, o que a Editora Draco e eu prevemos para meados de 2013, Um Ano e um Dia não irá decepcionar os leitores da série. E, se tudo der certo, conquistará muitos outros.

Continuem comigo! A saga mal começou.

* Introdução a “Coisas Frágeis 2”, edição brasileira pela Conrad.

domingo, 13 de maio de 2012

Em Nome de Thonarr (Epílogo)

- Thonarr! - Sua voz, que não parecia lhe pertencer, os ecos em meio ao trovão. – Este é o templo dos Heróis, e também o seu! Ajude-me, Senhor do Raio! Thonarr!

Gritou mais uma vez e cerrou os maxilares, a avalanche de energia o sacudindo e retesando cada um de seus músculos. Sugado por um vórtex, possuído, trespassado. As palavras eram pequenas para descrever o que sentia. Os raios se sucediam, alguns vindo do céu, outros do martelo que parecia colado às suas mãos. Ele lutou contra o tremor que lhe subia pelas pernas e gemeu, sabendo o que aconteceria se desfalecesse.

Dê-me forças, Thonarr, É só o que peço. Dê-me forças, mantenha-me em pé, ampare este templo que é seu...
Ampare-me...


E de repente a corrente que o arrastava cedeu, e havia duas pessoas junto ao andaime. Uma era um homem alto, com as feições escondidas por um chapéu escorrendo chuva; a outra também parecia masculina, porém menor e mais esguia, e um vislumbre de seu rosto pontudo fez Padraig engolir em seco.

- Loki – murmurou, o fôlego alterado ao pronunciar o nome daquele que os devotos chamavam de Esquerdo. – E... Woden, o Senhor do Vento – concluiu, vendo o bastão que o homem mais alto segurava na mão direita. Como o martelo, ele brilhava envolto em fios de pura energia, porém esta era de um azul sem traços de rubi. Loki também tinha um bastão, do qual a energia se evolava sob a forma de uma névoa alaranjada. Num só movimento, os dois apontaram seus bastões para o piso rachado, protegendo, escorando, sustentando o peso que, por longos e cruciais momentos, repousara apenas sobre Padraig. Ele os fitou incrédulo, depois ao martelo, sem compreender como viera a fazer parte da tríade de Heróis – e foi quando duas mãos pousaram em seus ombros, ao mesmo tempo em que se ouvia uma voz grossa esbravejar.

- O que está fazendo, garoto? Preciso desse martelo!

- Eu... Senhor do Raio... – Padraig começou a balbuciar, mas foi interrompido pelo Preste Drusius.

- Deixe o menino, Adso, ele acabou de fazer um esforço enorme. – Virou-o para si, encarando-o com olhos bondosos e marejados de lágrimas. – E eu não sei bem como... mas nos livrou do desastre.

Padraig abaixou a cabeça, incapaz de responder o que quer que fosse. Adso se aproximou, ainda resmungando, e pegou o martelo como se fosse uma pluma. Outros homens emergiram do corredor, entre eles alguns artesãos, que não levaram mais do que uns instantes para erguer as vigas e escorar o piso. Estranhamente, passavam sem hesitar entre os raios azuis e alaranjados, levando Padraig a se indagar se eram capazes de ver os Heróis.

E quanto a eles próprios, Woden e Loki – será que se mostravam a outros olhos além dos seus?

- Pronto! Por agora está seguro – disse Adso, em cujas mãos o martelo perdera o brilho. – Muito obrigado pela ajuda, mestre.

- Não há de quê – uma voz grave respondeu de sob o chapéu de Woden. Mortificado, Padraig viu a Liz se extinguir nos bastões, e então os Heróis avançaram, tornando-se visíveis à luz da lanterna.

- Gwyll...! – murmurou ele, reconhecendo o meio-elfo de cabelo eriçado. – Então vocês não eram...?

- Woden e Loki? Não. Éramos só nós – disse Kieran de Scyllix, tirando o chapéu e fitando-o com dois olhos brilhantes. – Mas isso não se aplica a Thonarr. Ele, sim, esteve aqui. E agiu através de você para manter este lugar inteiro.

- De mim? – Padraig contemplou as mãos, trêmulas e vazias. – Da minha fé?

- Sim, filho, mas fé nós também temos – disse o Preste, com suavidade. – Você tem algo além disso: uma vontade tão forte que torna real o que é invisível.

- Ou seja: Magia – concluiu o garoto, olhando para Kieran. Este assentiu, sorrindo, e estendeu a mão, mas Padraig se esquivou, seus olhos se voltando para Gwyll com uma espécie de desafio.

- Magia. Sim. Mas Thonarr esteve aqui – disse. – Thonarr, o verdadeiro, o que existe. Não um maldito símbolo.

- É claro – concordou o meio-elfo. – Isso porque você é um devoto. Mas...

- Silêncio, garoto – rosnou Kieran. Seus olhos se encontraram com os do Preste, num entendimento sem palavras, e Padraig pôde ouvir um suspiro escapar de entre os lábios de Drusius.

- Que seja, então. Confio-lhe o menino – disse, mas o sorriso de Kieran o fez acrescentar, em outro tom:

- E pode deixar que me encarrego de falar com a mãe dele.



Poucos dias depois, usando uma tiara de bronze e uma túnica que lhe chegava aos pés descalços, Padraig recebia as boas-vindas no Castelo das Águias. Fora da época, pois o ingresso ao Primeiro Círculo se dava habitualmente no Solstício de Inverno, mas os mestres haviam decidido não esperar, tão diferente era ele de todos os aprendizes. Naturalmente, iria estudar Matemática e Música, as sagas e os segredos da natureza, além das artes e ofícios da Ala Violeta; as tabelas, símbolos e regras da Magia estavam a cargo de uma elfa, Thalia de Erchedel, que levaria pelo menos dois anos para promovê-lo ao próximo Círculo. Desde agora, porém, fora assegurado a Padraig um contato estreito com o Mentor, o único a poder orientá-lo no estudo e na prática da Magia da Alma. Isso o deixou orgulhoso, mas também com um pouco de medo, pois ficaria em posição de destaque aos olhos de toda a Escola. Como recém-chegado, não queria atrair atenções, muito menos a má-vontade dos colegas. Mas Mestre Kieran o sacudira pelo ombro e rosnara que aceitasse a carga que acompanhava seu Dom.

Seu nome acabava de ser pronunciado, o olhar dos mestres convocando-o à sua presença. Ele se adiantou, consciente de que esses eram os primeiros passos numa longa jornada, e estendeu as mãos, sobre as quais o Mentor depositou uma pena e um livro. As páginas eram brancas, assim como a sua túnica: um símbolo da pureza e inocência dos aprendizes. Só mais tarde encontraria as cores que representavam seu poder.

Os dedos de Camdell tocaram o ponto entre suas sobrancelhas. Uma pedra brilhava no anel em seu indicador, um rubi com toques de fogo, pois a cor da Magia da Alma era também a dos devotos. Sim, sua fé estava em boas mãos. Ele ergueu a cabeça, olhando para os olhos do mago, e sentiu que um pacto fora selado, embora nem uma palavra lhes houvesse saído dos lábios.
Para ele, assim como para seu novo mestre, bastava o que tinha sido dito pela voz de Thonarr.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Em Nome de Thonarr (Parte 8)

O mundo estava vindo abaixo.

Sua mãe tinha tentado sondar o que se passara no Castelo, mas Padraig a despistara com comentários vagos sobre a paisagem e as torres. Com o Preste, mais cedo, houvera um silêncio constrangido, depois uma forçada disgressão por assuntos que não incluíam a Magia ou Mestre Camdell. Ele dissera a si mesmo que o conselho não significava nada, que o Mentor quisera apenas usar uma frase de efeito, mas no fundo aquilo o incomodava, como uma luz piscando sobre seu rosto quando tentava dormir. Talvez fosse exatamente isso: a mente, o espírito, as convicções até agora tão arraigadas postas em jogo e a decisão em suas mãos. Seguir obedecer, teria sido mais fácil. Mas não podia ignorar as perguntas que surgiam a cada momento.

Sem saber o que fazer, ele dirigira suas preces a Thonarr, pedindo que o orientasse naquele momento de confusão. O Herói não o atendera – orar não lhe sugerira uma resposta, nem lhe trouxera conforto – mas uma chuva forte começou a cair logo depois, e com ela os trovões que eram o atributo de Thonarr. De alguma forma ele se manifestava. E talvez quisesse dizer alguma coisa, mas Padraig não teve tempo de refletir, pois sua mãe o chamou com urgência para vedar as janelas da estalagem. No teto, goteiras deixavam passar grossos fios d´água, e o chão fora enlameado pelos sapatos das várias pessoas que se abrigavam ali. A maioria pediu algo para comer, por isso o assado acabou rápido, obrigando-os a improvisar. Não havia mãos a medir entre os que cozinhavam e os que serviam.

Padraig estava na cozinha, picando frutas para mais uma rodada de ponche, quando escutou o alarido vindo do salão. As vozes eram muitas, mas, antes mesmo de acorrer, ele reconheceu a do Irmão Liam, um jovem iniciado do Templo que escapulia com frequência para um trago n´ ”A Espada e o Lírio”.

- Toda a ajuda possível, sim, é o que estão pedindo; mas nada de mulheres e crianças, e tem de ser rápido – dizia, os olhos arregalados como pratos. – Temos que tirar o que pudermos antes que desabe.

- O que vai desabar? – Padraig ergueu a voz acima da balbúrdia.

- O andar superior de uma das alas do templo – disse Liam, como ele esperava e temia. – Já estava com problemas, e o peso da água...

Encolheu os ombros, como se desse a explicação por encerrada. De fato, não fora preciso mais do que isso para que alguns homens se dirigissem à porta. Os mais resolutos correram para o templo, outros ficaram ali olhando a chuva como se refletissem. Padraig se demorou por um instante junto deles, mas sua hesitação foi cortada pelo raio que riscou o céu, bem diante de seus olhos, no momento em que os voltava para o templo. O ribombar de um trovão lhe encheu os ouvidos, e de repente não havia mais o que ponderar.

- Filho! – A voz de Moira às suas costas, quando já se afastava. – Paddy, não vá! Eles não querem crianças no templo!

- Não sou criança – gritou ele dentro da chuva. Caía pesada como uma cortina, quase o impedindo de ver o templo embora estivesse tão próximo. Ele se orientou guiado pelo hábito, esbarrando nos homens apressados que acorriam de todas as direções.

- Por aqui, venham! – Diante do templo, o porteiro gesticulava com uma lanterna. – O Preste Goliath está ali em frente, Ele dirá a todos o que devem levar, e para onde.

- E os artesãos? – indagou Padraig, lembrando-se do encontro na Ala Violeta. –Eles não estão tentando arrumar o piso?

- É tarde demais pra isso – respondeu o porteiro. Seus olhos fundos encararam o garoto de um jeito que lhe causou arrepios. Alheios à conversa, os outros homens passaram por eles e se juntaram à brigada comandada pelo Preste Goliath, que transportava móveis e arcas de um lado para o outro. Era o que também devia fazer, contudo seus pés relutavam em levá-lo pelo mesmo caminho, e ele não saberia dizer o que o fez dar meia-volta e seguir pelo corredor oposto.

A passagem estava às escuras, o chão alagado; o som da chuva se projetava no túnel formado pelas paredes, trazendo-lhe uma forte sensação de clausura. Foi um alívio chegar ao fim. Ele sorveu o ar saturado de chuva, depois ergueu os olhos, sabendo de antemão o que iria ver.

A chuva. O patamar. Vultos borrados, no extremo do corredor, apressando-se a descer as escadas. E, em meio a isso tudo, o andaime abandonado pelos artesãos, ainda tendo em volta algumas vigas com as quais, talvez, pensavam escorar o piso a fim de consertá-lo. Mas até eles, pelo jeito, achavam que era tarde demais.

- Padraig!

Uma voz grave soou no corredor que acabava de abandonar. Alarmado, o menino se voltou, mas não viu nada além de escuridão, logo quebrada pelo súbito clarão de um raio. Ele tornou a dar as costas para o túnel, esquadrinhando o espaço à sua volta – e então, por um instante mais curto que um bater de pálpebras, enxergou um vulto maciço no alto do andaime.

A reação foi imediata: um grito de susto, não isento de medo, tão inesperada foi a visão. Fugaz, também: apenas um momento se passara e a figura não estava mais lá. Restava apenas o andaime, lavado pela chuva e estremecendo ao sopro do vento, os repetidos clarões dos relâmpagos iluminando-o por partes. O topo, o meio, de novo o topo, as vigas, o martelo...

Martelo?

Padraig protegeu os olhos com a mão e deu alguns passos sob a chuva. Sua impressão estava correta: um grande martelo de ferro fora deixado numa das tábuas do andaime. Talvez, afinal, os artesãos tivessem vindo, pensou. Talvez pretendessem voltar e foram desencorajados, pelas pessoas ou pela chuva.

E se não fosse assim – teria dado tempo?

No instante seguinte ele estava junto ao andaime, agarrado àquele fio de esperança e ao martelo que empunhara sem saber o porquê. Seu coração batia descompassado, mas as mãos estavam firmes, e assim permaneceram enquanto os raios caíam cada vez mais perto. Os trovões se sucediam, enchendo seus ouvidos num vozerio contínuo, até o ponto em que nada lhe restou senão responder.

- THONARR!

Sua voz cresceu no espaço em meio à tempestade. Uma espiral vibrante de calor o percorreu dos pés à cabeça, um forte pulsar entre os olhos – e de repente foi como se um raio dardejasse do centro de seu corpo às mãos erguidas. O martelo brilhou, envolto em tonalidades elétricas, projetando uma luz rubi-azulada que se estendia como uma trilha até o alto do andaime. Á sua luz, Padraig viu claramente a fissura no piso, sentiu em todo o corpo o tremor da estrutura precária, e então não conseguiu conter um novo grito.

Acabava de compreender o que tinha nas mãos.

Epílogo

terça-feira, 8 de maio de 2012

O Castelo das Águias chega à Apple!


Pessoal,

Em meio à escrita do último capítulo do conto do Padraig (sim, ele vai ser concluído!) e aos preparativos para a retomada do segundo livro da saga, não posso deixar de repassar a novidade trazida pela Editora Draco.

A partir de agora, "O Castelo das Águias" está disponível através da Apple, podendo ser baixado em iPhone, iPad ou iPod touch por apenas $ 4,99. O mesmo acontece com outros livros da editora, tornando cada vez mais fácil ler a LitFan nacional por um custo acessível e sem abarrotar ainda mais as nossas já superlotadas estantes.

O que vocês estão esperando?

Até breve, com novidades!

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Promoção de Aniversário: Resultado da Promo "Caça ao Tesouro"


Olá, Pessoas!

Pois é, vários procuraram, mas só um encontrou o tesouro...

Dentre os e-mails enviados para a promoção, só um tinha as respostas corretas para as três perguntas. Curiosamente, foi o primeiro a chegar, e veio de uma pessoa que gostei muito de conhecer: a também escritora Astreya Bhael!

Aqui estão as perguntas e suas respostas:

1. Quais são as Três Casas da Tribo da Floresta dos Teixos?

R. Lobo, Corvo e Lontra.

2. Em qual das alas do Castelo das Águias fica o laboratório de Alquimia?

R. Ala Verde.

3. Quem foi substituído por Rydel como Mestre de Ciências da Terra?

R. Theoddor.

Por ter acertado tudo, a Astreya ganhou um exemplar autografado de O Castelo das Águias, mais uma camiseta e um marcador, que serão enviados assim que ela me mandar seu endereço com CEP. Parabéns, Astreya! Espero que goste dos prêmios!

E pra vocês que não ganharam, continuem ligados nas promoções. A das fanfics continua valendo, e em breve haverá outras, sempre anunciadas no Twitter e aqui no blog.

Até breve e obrigada por participar!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Promoção de Aniversário: Resultado da Promo Seguidores

Caríssimas Pessoas,

Conforme anunciado, estou disponibilizando o resultado do sorteio da primeira promoção do aniversário do Castelo das Águias. Muito obrigada por participarem e divulgarem!

Entre os seguidores do Twitter, o sorteio foi via hashtag utilizando o Twicket. A vencedora foi a pessoa cujo Twitter é @483THForeverNow, ou seja: a Cândida Desirée.


Já entre os seguidores do blog, atribuí um número a cada um deles e fiz o sorteio pelo Random.org, que forneceu o número 23. Este correspondia na lista à Jéssica Marise.


Parabéns a vocês, Cândida e Jéssica! Agora é só entrar em contato comigo através do e-mail anamerege@gmail.com e fornecer o endereço de envio, com CEP, até a meia-noite do dia 29 de abril. Espero que curtam bastante "O Castelo das Águias".

E para quem não ganhou, não desanimem! Até o dia 2 de maio, ainda podem concorrer a um kit livro + marcador + camiseta respondendo às três perguntas da Caça ao Tesouro. Isso sem falar nos escritores que se inspirarem no universo do Castelo para contar suas histórias. Confiram na página das Promoções aqui do blog!

E continuem comigo. Ainda temos muitas sagas para narrar ao redor do fogo!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Em Nome de Thonarr (Parte 7)



Padraig não tinha como saber, mas, pouco tempo depois de ter voltado para a cidade, seu nome se tornara conhecido por todos no Castelo das Águias. Os aprendizes com quem conversara tinham-se encarregado de falar sobre ele aos quatro cantos: com os mestres, como Shanion – que ergueu o lábio, num gesto de desdém característico, ao ouvir sobre o menino que acreditava num Thonarr de carne e osso - , com os companheiros de Círculo e até com os artesãos e os empregados do Castelo. Entre outras observações, discutiam o significado das palavras de Camdell, que os intrigavam pelo simples fato de terem sido ditas: até onde se lembravam, o Mentor jamais lhes dera qualquer conselho.

As perguntas se multiplicaram em ecos pelos corredores até chegar aos ouvidos de Kieran. Isso aconteceu em torno da hora do crepúsculo, propiciando uma entrada abrupta, quase violenta na sala de refeições.

- O garoto esteve aqui! – exclamou ele, dirigindo-se sem rodeios a Camdell. – Por que ninguém me chamou?

- Você já falou com ele – respondeu o Mentor, sem se abalar. – Despertou a curiosidade que, agora, começa a trazer mais indagações. Ele tem de achar as respostas antes de decidir o que realmente quer.

- Eu poderia ajudá-lo – argumentou Kieran.

- Mais tarde, sim. Agora só iria pressioná-lo – disse Thalia, da outra ponta da mesa.

Kieran franziu o cenho e se voltou para a elfa. Ela estava perto de Shanion, como vinha acontecendo nos últimos tempos, mas, como sempre, não tardara a acorrer em defesa de Camdell. Como se fosse necessário.

- Eu sei que você o quer na Escola. Eu também quero – tornou brandamente o Mentor. – Mas o menino tem de sentir que está fazendo a coisa certa. Sentir. Não raciocinar. Você compreende?

- Claro. – Kieran respirou fundo, puxou a cadeira próxima à de Lara. – Não é o meu jeito de lidar com as coisas, mas, de qualquer modo...

- Até parece – murmurou Lara, de si para si, com um risinho. Seus olhos claros se encontraram com os de Kieran, escuros e estreitos, guardiões de tantos segredos. Ele trabalhava na esfera do Pensamento, sim. Tinha a vontade mais ferrenha, mais direcionada que ela já vira, incluindo a de Hillias. Mas Lara sabia muito bem o que os sentimentos podiam levá-lo a fazer.

Mais cedo que de hábito, ele se recolheu a seus aposentos, numa das torres mais antigas do Castelo. Seu quarto ficava no segundo andar, com a janela voltada para o pátio interno e outras construções; não era a melhor vista que poderia ter, mas permitia que observasse o movimento na Ala Azul, onde tinham lugar as aulas de Magia da Forma e Pensamento. Sua vigilância prevenira e reparara vários desastres provocados por aprendizes descuidados ou, pelo contrário, mais aplicados do que seria bom para eles mesmos. Esta noite, porém, a Ala parecia tranquila, e, depois de um breve instante de observação, ele deixou a janela e se voltou para a estante na parede oposta.

Ao contrário do que se poderia pensar, Kieran não mantinha um só livro de Magia em seu quarto, à exceção dos grimórios que continham suas próprias anotações. Todos os demais tratavam de seus outros interesses: livros sobre a história das Terras Férteis, relatos acerca de guerra e estratégia militar e muitas obras literárias, principalmente de poesia élfica. Tinha também alguns volumes de sagas e o exemplar do Etta em que aprendera as primeiras letras, as páginas amassadas e sujas por seus dedos de garoto do campo. Ele também, naquele tempo, encontrara conforto nas histórias sobre os Heróis.

Kieran pegou o livro e se pôs a folheá-lo, ao mesmo tempo em que caminhava de um lado a outro do quarto. O volume era humilde, com uma encadernação barata e várias páginas soltando, mas algumas pareciam saltar aos olhos por outro motivo: aquelas que o menino, e mais tarde o jovem Kieran ap Fergus visitara com frequência, embora seu aprendizado o houvesse levado a descrer dos Heróis. Ainda assim, as sagas continham mensagens, ensinamentos e símbolos poderosos que nenhum mago digno desse nome ousaria negar.

Seus dedos correram sobre as páginas, descuidados como outrora. O livro se abrira numa história sobre três Heróis, Thonarr, Woden e Loki, aquele a quem os homens se referiam como o Esquerdo. A maioria dos meninos com quem crescera preferia Thonarr, embora muitos se declarassem devotos de Thýrr, patrono de Scyllix e dos guerreiros. Kieran, porém, sempre gostara mais de figura de Woden, com seu cajado e o olho encoberto pelo chapéu de viagem, e o interesse cresceu à medida em que avançava no aprendizado da Magia. Como ele, Woden era aquele que entoava encantamentos e que adquirira um Dom por meio de sacrifícios. Era inteligente, misterioso e às vezes sombrio. E, além disso, tinha um elo mágico com os corvos. Isso o fazia enxergar longe, mesmo com um olho só.

Kieran também via muitas coisas através das águias.

O livro estava aberto na figura de Woden quando ele ouviu os gritos. Não eram de pânico ou de raiva – as guerras o tinham ensinado a distinguir – mas um aviso, um chamado que vinha dos arredores da Torre dos Ventos. Ele correu até a janela, surpreendendo-se com a rajada de chuva que o atingiu antes mesmo de tê-las visto.

Eram duas, como os corvos de Woden, e majestosas, com sua grande envergadura e as penas douradas. Voavam sem esforço, apesar do vento cada vez mais forte, mas isso iria mudar rapidamente à medida em que suas asas se encharcassem. Elas avistaram o mago junto à janela e tornaram a gritar, fazendo com que seus olhos as seguissem quando, num vigoroso bater de asas, deixaram as imediações da Torre dos Ventos. Iam em direção a seu lar, a floresta; mas, em vez de voar em linha reta, fizeram uma curva pronunciada, passando diante dos olhos de Kieran e contornando boa parte do castelo. Ele se debruçou sobre o parapeito, tentando não perdê-las de vista, mas foi um longo momento antes que voltassem ao rumo esperado. Ao se afastarem, gritaram pela terceira vez, o som se perdendo em meio ao ruído agora furioso da chuva.

Siga-nos, mestre. Venha ver.

Sem hesitar, Kieran subiu correndo até o andar superior e se dirigiu à janela. Ficava do lado oposto à do seu quarto, descortinando boa parte de Vrindavahn - e foi exatamente no centro da cidade que ele viu o que atraíra as águias.

Por um instante, sua única reação foi ficar parado, tentando compreender o que tinha diante dos olhos. Para um homem comum, não havia nada além de uma tempestade com raios, mas ele via o brilho da energia mágica que impregnava toda a região ao redor do templo de Bragi. Com certa dificuldade, conseguia ver pessoas se movendo por ali, mas o brilho não parecia vir de nenhuma delas e sim do próprio ar, da chuva que envolvia a cidade como um manto líquido. O mais estranho, porém, era a forma como os resquícios da energia permaneciam no templo, um lugar que normalmente não teria atraído aquele tipo de vibração. Porque era uma vibração, uma força que não provinha de homem ou elfo e sim da própria natureza, e como tal podia vir a causar uma catástrofe.

A não ser que alguém interferisse para evitar.

Os tratados de Magia diziam que a chuva devia cair onde era necessária, tal como o fogo precisava arder onde houvesse uma centelha. Kieran pensou nisso por um momento antes de perceber a quantidade de pessoas correndo em direção ao templo, as vibrações de angústia e desespero que se desprendiam de cada uma delas. Então, teve certeza do que devia fazer.

Passando às pressas por seu quarto, ele pegou um manto e um chapéu que o protegessem da chuva e deixou a torre, enveredando por um corredor da Ala Azul até a sala em que – se não quisessem problemas com ele – seus aprendizes deviam estar praticando para um teste de habilidade no dia seguinte. Pensara encontrar vários deles ali, mas, para sua surpresa, viu apenas Gwyll, que suava com o esforço de fazer flutuar alguns cadernos com a força do pensamento.

- Mestre! – exclamou o meio-elfo, arregalando os olhos. Como era de se esperar, a concentração foi por água abaixo, os cadernos caindo no chão com um ruído abafado. Kieran não perdeu tempo perguntando pelos demais. Apenas explicou o que ia fazer, acrescentando que sua ajuda seria bem-vinda, embora não necessária. Gwyll hesitou por um instante, depois assentiu, cheio de um brio que revelava o mago habilidoso que um dia viria a ser. Infelizmente, faltavam alguns anos – e foi acompanhado de um rapazinho magro, orelhudo e de cabelos eriçados que o Mestre das Águias rumou a todo galope para o templo de Bragi.

Parte 8