segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Descobertas


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Bem que me avisaram, lenha úmida não dá bom fogo, pensou Raymond, tossindo enquanto soprava para atiçar as brasas. O vento silvava através das fendas, que eram muitas, espalhadas pelas quatro paredes e até no teto da velha cabana. Não que ele estivesse se queixando, longe disso. Fora uma sorte, em meio à nevasca da tarde anterior, ter encontrado aquele abrigo, ainda que rústico e pelo jeito abandonado. Comida não havia, mas a lareira estava em condições de ser usada, e com as peles que encontrou enroladas num canto ele ficou bem aquecido enquanto as roupas secavam. No fim, dormiu, ignorando os uivos do vento e os roncos da barriga.

Ao despertar, a neve tinha cessado. Isso lhe permitiu sair, catar um pouco de lenha e até pegar uns peixes no rio sinuoso que corria atrás da cabana. Usou para isso uma forquilha improvisada com um galho, e se saiu melhor do que esperava, exceto pelo fato de ter caído sentado no rio ao capturar o quinto e último peixe. Como desforra, assou-o antes de todos os outros, sua própria pele curtindo diante da lareira enfumaçada, as roupas estendidas para secar sobre uma armação de madeira. Raymond não sabia para que servia aquilo, mas suspeitava de que fosse parte de algum instrumento, quem sabe um tambor em que a pele fosse esticada com cravelhas. Achá-lo na cabana de um caçador era um pouco intrigante, mas, se uma coisa ele aprendera em suas andanças, esta fora o fato de que a vida nos surpreende a cada momento. Por que um caçador não poderia fazer música se ele mesmo, que na adolescência ganhara a vida como artista, estava por sua vez a caminho de assumir um posto de guarda-caça?

Um pouco de gordura avivou as brasas, iluminando o sorriso de Raymond ao pensar em sua própria história. Era daquelas boas de contar na feira: um músico e trabalhador itinerante, preso ao roubar uma torta de carne e libertado em troca de se alistar como voluntário de guerra. Matou alguns homens – isso era inevitável – mas salvou várias vidas, inclusive a de um jovem adversário que mais tarde souberam ser o herdeiro de um barão. Quando partiu, resgatado pela família, ele recompensou seu salvador com uma carta que o nomeava guarda-caça em suas terras, uma posição modesta, mas que lhe garantiria o sustento até o fim da vida. Isto é, desde que conseguisse chegar lá, atravessando meio País do Norte numa viagem da qual muitos desistiriam só de olhar o mapa. Mas isso não deteve Raymond de Pwilrie.

- A um belo futuro! – Em voz alta, ele brindou a si mesmo, erguendo uma tigela cheia d´água do rio antes de tirar o peixe da grelha. Queimou os dedos, mas a fome era grande o bastante para que fosse em frente, arrancando a carne da espinha e a engolindo quase sem mastigar. Devorou, assim, os dois primeiros peixes. Estava pensando em como embrulhar os outros para viagem quando ouviu – com uma nitidez que não deixava margem a dúvidas – uma pancada do lado de fora da porta, seguida por palavras abafadas pronunciadas em voz feminina.

Na mesma hora, Raymond se levantou, reagindo com o senso comum do Povo Alto: se era uma mulher que estava lá fora, não precisaria de uma arma de defesa, mas de alguma coisa que cobrisse a sua nudez. Ele tentou chegar até suas roupas, mas o gesto ainda ia a meio quando a porta se abriu.

E de repente ele se viu diante da jovem mais linda e mais estranha do mundo. Vestida em couros e peles, tinha o cabelo preso em várias tranças e olhos grandes, que pareciam iridescentes. Seu rosto de um oval perfeito estava contraído, e Raymond só pôde tapar apressadamente o sexo com as mãos antes que ela lhe tocasse o peito com a ponta de uma lança.

- Ei, calma, moça! Desculpe se fui entrando, achei a casa vazia – disse ele, sentindo sua barriga se encolher de medo. – Desarrumei as peles, mas não mexi em mais nada, só acendi o fogo para grelhar os peixes. Se está com fome...

Apontou com o queixo para a lareira, um gesto cuidadoso, que se tornou mais confiante quando a moça baixou a arma. Sem deixar de encará-lo, ela deu alguns passos para o lado e pegou um peixe, refletiu por um instante e pôs a lança sob o braço, ficando com as mãos livres para comer. Ao que parecia, estava com tanta fome quanto Raymond.

- Não tem nenhum tempero, mas a carne é boa. Pode comer tudo, se quiser – disse ele, com expectativa. – E mais uma vez me desculpe por ter invadido sua casa.

- Ah, não é minha – replicou ela, entre duas mordidas no peixe. - Entrei para secar os pés, mas não vi seu fogo, porque a fumaça ficou aqui dentro em vez de subir pela abertura.

- Lenha ruim – ele explicou, e arriscou um sorriso. A moça também sorriu. Tinha dentes muito brancos, de um jeito que só se via no Leste, e a pele era morena como a de Raymond, mas nem lhe passou pela cabeça que pudesse estar diante de uma conterrânea. Ao contrário, algumas coisas na moça nem pareciam ser próprias de uma pessoa: não só os olhos brilhantes, mas principalmente as orelhas, que eram alongadas como as de um lobo. Ele puxou pela memória, resgatando fiapos de histórias ouvidas aqui e ali sobre o povo das orelhas pontudas, que vivia nas cidades do Sul e construía palácios. Não parecia ser o caso desta, mas mesmo assim aquilo o acalmou: ela podia ser de uma raça diferente da sua, mas pelo menos era gente. Não um demônio ou uma criatura qualquer da floresta.

- Vou pegar minha roupa – Raymond falou, sem jeito. A moça assentiu, sem tirar os olhos dele, mas sua expressão perdera toda a dureza do início. Agora parecia apenas curiosa – e em que medida ele não tardaria a comprovar, quando, passando perto dela para pegar as roupas, sentiu uns dedos finos e ásperos roçando os pelos do seu peito.

- Como você tem cabelo aqui? – ela sussurrou.

O tom era reverente, como o de quem faz uma descoberta. Raymond encolheu os ombros, sentindo uma espécie de vergonha ao perceber que a estranheza era recíproca: a moça também nunca vira uma pessoa como ele. Espero que não ache que sou um demônio, pensou. De qualquer jeito ela não parecia ter medo, pois continuou a tocá-lo, primeiro no peito – o pelo negro, os músculos que ainda conservava apesar de estar muito magro – , depois nas faces, cobertas por uma barba cheia após duas luas sem navalha. Ele fechou os olhos sob seu toque, desejando fazê-lo durar, e estremeceu ao ruído da lança sendo largada no chão. Que fosse, então, o que devia ser. Leves como asas, as mãos da moça percorreram os tendões nos braços de Raymond, e ele inspirou fundo, saboreando cada instante do prazer de ser descoberto.

...

ATUALIZAÇÃO: Já que gostaram da ideia, este conto teve uma continuação. Clique aqui para saber o que aconteceu uns dias depois.

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E, para quem ainda não viu: não deixem de conferir a ilustração que a Angela Takagui fez do casal. Ficou linda! Basta clicar aqui.

Até breve!

7 comentários:

  1. pois é, ana... o diferente pode ser muito interessante, pelo visto. Desencadear a descoberta do amor, ò céus! Adorei o 'silvar'.

    Beijos,
    vânia

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  2. "Silvar" só não é tão bom quanto "adejar"... :)

    Obrigada pela leitura e pelo comentário. Eu vou dar uma atualizada no post, esqueci de linkar o desenho que a Angela fez do simpático casal. :)

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  3. Eu acho que por aqui não tem ninguém tão inocente ao ponto de achar que os dois sentaram conversaram e trocaram apenas estórias... Faça a continuação sim, e mantenha este tom. Ficou na medida certa, com tudo dentro, e o que tem que estar de fora, fora.

    Beijos,
    vania
    p.s foi muito bom te ver hoje.

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    1. adejar é lindo. E uma das minhas palavras preferidas.

      beijos,
      v.

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  4. Vou pensar, meninas. Vou pensar com carinho.

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