sábado, 31 de dezembro de 2016
domingo, 27 de novembro de 2016
A Grande Noite das Sagas - Epílogo
-- Andi, você fez uma coisa fabulosa! – exclamei, parando de tocar e batendo palmas com entusiasmo; a audiência foi atrás, e os aplausos quebraram a catarse, de forma que o garoto se desgrudou dos amigos e me olhou com o rosto lavado de lágrimas. – Desde nossos primeiros encontros, quando quase era preciso obrigá-lo a falar, até esta noite, na qual contou uma história que mexeu desse jeito com todos... Como você mudou!
-- Graças a você – disse ele, com a voz embargada. – E a meus amigos, e aos outros mestres, e à Escola de Artes Mágicas. E Mestre Kieran, o senhor estava certo – acrescentou, dirigindo-se a meu marido, que ostentava seu famoso sorriso torto. – Eu tinha mesmo que enfrentar esses demônios e dizer a eles que sou mais forte. E agora digo a vocês o que vou fazer: amanhã cedo vou escrever à minha família pedindo que venham me buscar, não para voltar a Kalket, mas para fazer uma visita a Hyldor em seu solar nas montanhas. Vou contar a ele o que aconteceu e encorajá-lo a cantar diante de um público. Posso até estar no palco ou na arena com ele, como Mestra Anna estava aqui comigo. E se ele não quiser, se não acreditar em si mesmo, não vou me sentir culpado nem deixar que isso atrapalhe mais a minha vida. Vou voltar a ser o Príncipe, e, quem sabe? Talvez um dia até o Rei das Canções.
-- Muito bem, garoto! – exclamou Urien, e várias taças e vivas se ergueram na audiência. Era o momento de entrar mais uma vez em cena, mas Finn tomou a iniciativa, agradecendo pelas ótimas histórias que Andi e eu tínhamos contado juntos. Também pela presença de todos, uma vez que a noite ia avançada, e muitos já mostravam disposição de se recolher ou partir. Gurion, o intendente, entrou então em cena, oferecendo hospedagem para os visitantes que preferissem pernoitar no Castelo, e as pessoas estavam começando a se mexer quando, inesperadamente, Camdell bateu com uma colher numa taça de bronze, solicitando a atenção de todos.
-- Caros amigos, queridos aprendizes, não posso deixar que se despeçam sem dizer algumas palavras, ainda mais depois do que presenciamos esta noite – disse ele, visivelmente emocionado. – Em nossa Escola, a Magia costuma despertar através da Arte, mas hoje vimos que o inverso também acontece: que a Magia trouxe de volta a voz e as canções que haviam se calado no coração de um menino. Não sei se Andi continuará conosco ou se voltará para a escola bárdica, mas uma coisa eu sei e digo com segurança: não apenas o seu propósito, mas o meu e o desta escola, foram reafirmados nesta Grande Noite de Sagas. Pela Magia e pela Arte!
-- Pela Magia e pela Arte! – bradaram todos, erguendo as mãos e as taças; o estrondo de vozes que brindavam logo foi emendado pelas primeiras estrofes da Canção do Mago Violeta, uma espécie de hino da Escola de Artes Mágicas, e a noite terminou em meio a um coro de pessoas que cantavam abraçadas, tocadas pela emoção das histórias e, em alguns casos, pela boa cerveja e vinho que não tinham deixado de correr.
Mais tarde, depois de eu ter abraçado cada um dos presentes e de ter ouvido todo tipo de comentário sobre os meus dotes como alaudista -- quase todos piedosos, felizmente –, Kieran e eu voltamos ao aconchego da nossa torre, onde acendemos a lareira e nos abraçamos também. Eu queria fazê-lo admitir que tinha articulado tudo aquilo com Urien – que eles tinham me feito de boba, como Theoddor fizera com Netta, décadas atrás --, mas sabia de antemão que Andi não podia fazer parte de uma trama como aquela, exceto talvez de forma involuntária, como no caso de Hyldor o Belo. Tanta emoção e tanta luta contra os próprios receios não podiam ter sido calculadas. Kieran, porém, continuou a afirmar que não houvera qualquer entendimento com o Mestre de Música para aquela noite; ele apenas lhe revelara saber que eu estava tendo aulas de alaúde, já fazia um bom tempo, e Urien dissera que eu estava indo bem e que gostaria de me ver tocar diante de alguém além dele mesmo.
-- Não pensamos numa plateia tão grande, nem falamos sobre isso hoje, mas a situação de Andi veio a calhar. Foi importante você estar lá com ele – disse Kieran.
-- Você também – repliquei. – Ele gostou da ideia de lutar contra os demônios interiores. E teve forças para isso, mesmo sendo tímido.
-- Sim. Eu me surpreendi com a história dele. Já tinha percebido que o garoto tem uma vontade muito forte, mas o que ele fez em Kalket mostra que o Dom é bem mais poderoso do que pensava. Talvez eu devesse... Mas não. – Sacudiu a cabeça, afastando seus próprios desejos. – Se ele precisa falar com o tal Hyldor para ir em frente, que fale, e se precisa voltar para a escola bárdica, que volte. Esse é mesmo o caminho que deve seguir. Só não duvido de que a Magia vá alcançá-lo mais à frente, como aconteceu com Lara.
-- E comigo – falei; ele sorriu, supondo que eu estivesse brincando, mas o encarei tranquilamente e com olhos sérios. – O que Camdell disse no fim é uma verdade para mim também. Aqui reafirmo todos os dias o meu propósito, que é partilhar histórias, e vejo a Magia acontecer através delas. E hoje estou especialmente feliz, pois muita gente esteve aqui e vai levar consigo um pouco dessa Magia para suas vidas.
-- É verdade – disse ele, com um suspiro. – E ouvir isso de você me faz supor que esta Noite de Sagas não será a última. Na verdade, me arrisco a dizer que teremos outra em breve. Estarei errado?
-- Talvez na próxima lua – respondi, e franzi a testa. – Mas eu pensei que você tinha parado de ler meus pensamentos.
-- E eu parei – Kieran garantiu, afastando uma mecha de cabelo que me caíra no rosto. O fogo tremulou, realçando o brilho em seus olhos, e eu fechei os meus enquanto ele me abraçava, devagar, seus lábios roçando minha orelha para sussurrar as palavras que não dissera a mais ninguém, em toda a sua vida.
E elas terminaram de tecer o encanto que me envolvera e transformara durante aquela Noite de Sagas.
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quinta-feira, 24 de novembro de 2016
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terça-feira, 22 de novembro de 2016
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terça-feira, 15 de novembro de 2016
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
A Grande Noite das Sagas - Parte 7
Muitas luas atrás, tendo finalmente compreendido qual a minha função no Castelo, eu conseguira que os aprendizes do Primeiro Círculo contassem suas próprias histórias. Algumas eram divertidas, outras um pouco tristes; várias, em princípio, pareciam corriqueiras, mas juntos havíamos conseguido encontrar o sentido e resgatar a Magia contida nas pequenas coisas.
Isso também acontecera com Andi, embora ele houvesse preferido deixar de lado alguns episódios. Eu tinha certeza de que neles estavam as raízes de sua inibição. No entanto, a Noite de Sagas era um momento descontraído, um momento em que ele podia contar qualquer história, mesmo uma que houvesse escutado ou lido num livro, e o desafio se limitava a fazê-lo diante de todos. Era como eu, com o alaúde do qual tirava as primeiras notas, tentando não olhar diretamente para ninguém a não ser Urien e Kieran. Muitas pessoas estavam sorrindo, e várias continuariam a fazê-lo ainda que eu errasse ou hesitasse. Mas o que quer que estivesse nos olhos daqueles dois me falaria de carinho e orgulho verdadeiros.
Fiz um sinal com a cabeça para Andi. Ele engoliu em seco mais uma vez, respirou fundo, depois assentiu também e se dirigiu ao público, a voz um pouco trêmula de nervosismo – como esperar que fosse diferente? –, mas alta e clara o bastante para que todos pudessem ouvi-lo bem.
-- Em nome de Woden, Thonarr e Loki, e em nome de Bragi, o Trovador, abram bem seus olhos e ouvidos! Esta é a minha história – começou ele, e tornou a respirar profundamente. – E ela começa num dos momentos mais importantes: quando, no primeiro encontro com nossa nova Mestra de Sagas, ela nos disse que toda vida tem batalhas que precisamos travar e vencer.
Fez uma pausa, controlando a tensão, e então falou como se aquilo o desafogasse:
-- E Mestre Kieran me fez ver que o maior inimigo está dentro de nós mesmos.
Um breve murmúrio percorreu os convidados: ninguém imaginava que ele iria citar o Carrasco. O próprio Kieran tinha franzido as sobrancelhas e se inclinado para a frente, como se esperasse o que iria sair dali, ao passo que meus dedos tropeçaram em meio a um acorde. Mas Urien foi o único a dar mostras de haver percebido.
-- Então, amigas e amigos, eu tenho um nome – o meio-humano prosseguiu, nervoso, mas sem gaguejar. – Andi ap Llyr, é claro, mas também Andi de Kalket, pois é minha cidade, de onde vim aos doze anos, abandonando um aprendizado que começou quando eu era pequeno demais para me lembrar. Era esse nome que eu esperava tornar famoso por meio da arte. E, de fato, quando tinha apenas dez anos de idade, eu era conhecido como o Príncipe das Canções ou o Herdeiro de Hyldor. Alguém terá ouvido falar dele?
-- Hyldor, o Belo? – As sobrancelhas de Urien se ergueram. – Se é ele mesmo, trata-se... Bem, tratava-se... de um bardo muito famoso.
-- É verdade. Todos o requisitavam, festas eram marcadas de acordo com o lugar onde ele estaria. Mas não sei o que é feito dele hoje – comentou Mestre Tomas, e os olhares retornaram a Andi: estava claro que ele sabia. – Ouvi dizer até que estava morto.
-- Não – fez o menino, com um gesto enfático. – Não está morto. Mas suas canções se calaram, como... como...
-- Como as suas não irão se calar! Continue, Andi! – exclamei, num impulso. Ele me olhou, aflito, mas se lembrou de respirar bem fundo e fechar os olhos, como eu havia lhe ensinado em caso de pânico. Estou com você, querido, pensei, e repeti os poucos acordes que sabia o mais suavemente possível. Acalme-se. Vai lhe fazer muito bem contar essa história.
E aos poucos – bem aos poucos – a língua do jovem meio-humano começou a destravar. Para recobrar a segurança, ele usou outro dos truques que eu ensinara, voltando atrás na história e contando como tinha sido seu aprendizado com uma mestra de Kalket; como fora à procura de Hyldor, numa visita deste à cidade, e como o grande bardo não lhe dera atenção, até que, por um golpe do acaso, viu-se na contingência de contar com o menino para acompanhá-lo ao longo de uma noite de sagas. Foi Hyldor que deu a Andi os apelidos de Príncipe e Herdeiro das Canções, deixando claro, antes de mais nada, que o Rei era ele próprio e que o menino teria mais chances de se tornar grande ao seguir seus passos. Ele insistiu para se tornar uma espécie de mentor de Andi, embora vivesse noutra cidade, e os dois passaram a trocar correspondência e se encontraram várias vezes ao longo dos três anos seguintes. No entanto, vaidoso como era, Hyldor começou a reclamar da interferência da mestra que o garoto ainda tinha em Kalket, e a se zangar quando ele aceitava convites que considerava menores, e a dar conselhos que, analisados de perto, mostravam que pretendia manter Andi para sempre sob a sua sombra. E como acreditar que seja um bom mestre aquele que teme ser superado pelo aprendiz?
-- Foi assim que chegamos a um impasse – disse Andi, com a respiração rápida, mas a voz firme. – E, por menos que eu quisesse, os argumentos de meus pais e minha mestra falaram mais alto, portanto eu disse a Hyldor que nosso vínculo estava desfeito. E ele pareceu ter aceitado. Mostrou-se um pouco sentido, mas de um jeito gracioso, de forma que eu não percebi o que existia por trás.
A essa altura, eu estava tão envolvida com aquilo que mal sabia como continuava a tocar, mas de alguma forma meus dedos continuavam reproduzindo os mesmos acordes, e a generosidade do Grande Espírito me fez lembrar que era o momento de imprimir-lhes um ritmo mais marcado. Andi respirou algumas vezes, seguindo o mesmo compasso, e correu o olhar pela audiência, perguntando-se talvez o que estariam pensando da história. Ou o que pensariam dele, quando finalmente chegasse ao ponto que lhe causava tanta dor.
-- Então, nosso vínculo se desfez, mas achei que continuássemos amigos. E eu ainda o admirava, como o grande bardo que era – disse Andi, ainda em voz alta, mas em tom reflexivo. – Quando voltou a Kalket, fui ver sua apresentação no Anfiteatro Máximo; ele tinha me escrito dizendo fazer questão de que eu estivesse num lugar de honra. E lá estava eu, com minha mestra, com mais dois alunos de música...
-- Aí vem – resmungou Urien, balançando a cabeça.
-- ... quando Hyldor o Belo anunciou uma canção composta para um dos presentes – prosseguiu o menino. – E começou a cantar, jamais dizendo meu nome, mas desde os primeiros versos deixando claro para todos que me conheciam. Era de mim que ele falava... E me chamava de ingrato e Príncipe dos Traidores.
-- O quê? -- disparou Freydis, sem conseguir se conter. – Traidor, você? Porque não quis mais jogar o joguinho dele?
-- Que idiota! – Orm cerrou os punhos.
-- Deixem-no falar! – exclamei, vendo que Andi hesitava. -- Quero muito saber como terminou esse espetáculo no Máximo de Kalket!
-- Bem, aí é que está – respondeu o menino. -- Não terminou como deveria, ou, pelo menos... não como Hyldor queria. E não foi nada do que todos esperavam. Porque ao ouvir aquilo, mesmo com minha mestra, meus amigos e muitos outros indignados, eu não consegui dizer nem fazer nada. Fiquei sem ação e sem palavras -- só que com muita, muita, muita, muita raiva! Tanta raiva que poderia explodir, e o anfiteatro junto comigo, do mesmo jeito que o Ruivo explodiu aquela chaleira!
-- Foi acidente! – defendeu-se o rapaz, mas os risos foram breves. Ninguém queria perder o que vinha em seguida.
-- Então, enquanto ouvia Hyldor cantar com aquela voz linda, tocar a harpa com mestria, mas ao mesmo tempo dizer coisas tão injustas, eu senti minha cabeça doer como nunca antes. – A voz de Andi se firmara, ao contrário das minhas mãos. – Doía e doía e eu tive que segurá-la, e quanto mais doía mais uma ideia tomava conta da minha mente: é que ninguém devia poder cantar uma canção tão mentirosa. Eu não sabia de onde essa ideia tinha saído, mas era o que eu sentia... Era o que eu queria, não sei como, que acontecesse. E de repente...
-- O quê? – Um coro de vozes, um rumor de corpos se deslocando para a ponta dos bancos e se inclinando sobre as mesas.
-- De repente, todos no anfiteatro estavam gritando de surpresa, e Hyldor estava segurando a garganta, apavorado – respondeu o menino, fazendo um grande gesto com as mãos. – Correram para socorrê-lo, achando que estivesse sufocado, mas ele respirava muito bem e até podia falar. Só quando tentava cantar a voz falhava. Foi o fim de sua apresentação. Claro que eu também fiquei assustado, e não consegui comer nem dormir direito durante muitos e muitos dias. Tinha certeza de que tinha sido eu... mas, ao mesmo tempo, não fazia ideia de como. E minha raiva passou, e agora eu só sentia pena e muita culpa por ter feito Hyldor ficar sem suas canções.
-- Ele mereceu! – exclamou o Comandante Owen, dando um tapa na mesa.
-- Ele é um bardo! – replicou Urien, parecendo afrontado. – Não poder mais cantar... Que destino!
-- Sim! Ele não devia! Haveria outras maneiras – as vozes se cruzaram e se confundiram entre as mesas, até que Andi conseguisse se fazer ouvir.
-- Mas depois ele pôde cantar de novo. Aquilo só durou por algum tempo – explicou, apaziguando a maior parte dos ânimos. – Ele ainda não tem coragem de cantar em público, mas conseguiu na presença dos físicos e magos que procurou para ajudá-lo. Mas antes de saber disso eu me senti tão mal que puni a mim mesmo, ainda que sem querer. Eu também não conseguia mais cantar diante de uma plateia. Nem cantar, nem contar histórias, nem mesmo tocar, embora continuasse praticando quando estava sozinho. E, sendo assim, fui obrigado a deixar a escola bárdica. E ninguém mais voltou a me chamar de Príncipe das Canções.
Um novo murmúrio tomou conta da audiência, mas esse tinha um tom diferente: os lamentos não eram por Hyldor, mas sim pelo menino. Ele causara mal ao bardo, porém mais ainda a si mesmo, e nada disso tinha sido premeditado. Foi o que ele mesmo disse, ao prosseguir com sua história, após um breve intervalo de que precisou para se munir de coragem.
-- Durante algum tempo, não contei nada a ninguém, mas todos sabem o que acontece quando se tem o Dom da Magia. De um jeito ou de outro ele vem à tona, e eu não conseguia mais usar a arte para expressá-lo. Coisas estranhas começaram a acontecer comigo, em minha casa, nos lugares onde eu estava, e finalmente alguém alertou os magos da cidade, que confirmaram o Dom. Um deles se ofereceu para ser meu mestre, mas outro, sabendo que eu tinha abandonado um aprendizado na música, sugeriu que procurasse a Escola de Artes Mágicas do Mentor Camdell. Talvez aqui eu me desenvolvesse de um jeito melhor, ele disse. Eu relutei, no começo, mas depois decidi tentar, e... o que é que eu posso dizer agora? – acrescentou, com as faces vermelhas, a voz novamente trêmula, mas não de timidez. -- Este lugar... e meus amigos, e Mestra Anna, que está aqui comigo, enfrentando o julgamento de todos... isso me devolveu o... o meu propósito...
Sua voz diminuiu à medida que a emoção o dominava. Ele parou de falar e se inclinou para a frente, cobrindo o rosto com a mão. Foi quando Freydis correu para o tablado e o abraçou com força. Orm estava com eles no momento seguinte, um garoto maior e mais largo de ombros, abarcando os dois. Outras pessoas se levantaram, o murmúrio crescendo com palavras de elogio e encorajamento, mas a maioria ficou onde estava, esperando para ver onde aquilo iria chegar.
E, antes que o clímax começasse a se tornar longo demais, segurei minha própria vontade de abraçá-los e de chorar e retomei o controle da história.
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domingo, 30 de outubro de 2016
A Grande Noite das Sagas - Parte 6
-- Ah, então pelo menos para tocar ele sobe ao tablado, não? Bom, já é alguma coisa! – disse Urien, erguendo as sobrancelhas de um jeito cômico. – E é ótimo para mim. Se estou mesmo dispensado, posso beber à vontade. Esse vinho é excelente. Você não sabe o que está perdendo.
-- Pois é, mas hábitos são hábitos. Ninguém da minha família bebe ou jamais bebeu vinho. É verdade que também não comem queijo, uma coisa que eu adoro. Mas queijo de cabra era o que mais me ofereciam em Bryke.
Apertei os lábios, lembrando-me das várias coisas que existiam na vila Odravas, mas não no interior da floresta onde eu vivia com minha tribo. O intercâmbio crescera ao longo dos anos, mas algumas coisas continuavam a ser consideradas apenas “nossas” e outras pertencentes só a “eles”. Isso criava alguns problemas, às vezes, para ambos os lados.
E um deles resultara na história que finalmente eu me propusera a contar.
-- Atenção, amigas e amigos! Nossa querida Anna atenderá a seus pedidos e nos brindará com outra narrativa! – exclamou Finn, e o aviso foi recebido com palmas e assovios. – Andi ap Llyr, aprendiz do Segundo Círculo, irá acompanhá-la ao alaúde, e... Conan, você também?
-- Não, mestre. É que Orm veio dizer que Mestra Anna queria o tambor emprestado – explicou o mais velho dos meus ex-alunos, que se juntara a outros colegas para tocar nos intervalos das sagas. Agradeci e peguei o tambor de couro e a baqueta, lembrando-me – e sorrindo por isso – da primeira vez que o usara para contar histórias da tribo em minhas aulas no Castelo. Jamais um Mestre de Sagas deve ter sido olhado com tanta estranheza.
Andi pegou o alaúde e se juntou a mim no tablado. Não falou mais, apenas olhou nos meus olhos e assenti quando lhe disse que contava com ele. Sua garganta se moveu, mostrando que engolia em seco, e eu me dirigi em pensamento aos Guardiões da minha tribo, pedindo que ficassem do nosso lado.
Se nada desse certo, que ao menos soubessem que eu fizera o melhor que possível.
-- Hey-heya! Pelas presas do Lobo, as penas do Corvo e os bigodes da Lontra! – proferi, em alto e bom som; e então me detive por um instante, observando o espanto em vários olhares. – Um jeito diferente de começar uma saga, não é mesmo? Eu deveria evocar os Heróis, já que sou humana, ou me referir ao Fogo Primordial, se fosse contar uma história como os bardos élficos. Não é assim?
-- Acho que é. Sim. É o que se espera – disseram vozes desencontradas em meio à audiência. Quase todas vinham de pessoas que me conheciam pouco, mas três ou quatro aprendizes e até Mestre Tomas entraram no jogo, embora com expressões diferentes, sorrindo com o canto da boca e piscando para mostrar que sabiam do que eu estava falando. Pisquei também, em reconhecimento, e prossegui, fixando-me ora em um, ora em outro olhar repleto de assombro.
-- Pois abram bem os olhos e os ouvidos. – Era o sinal para que Andi começasse a tocar, bem discretamente, criando uma atmosfera de segredo e de aconchego. -- A história que vou contar é a de alguém que estudou durante anos para ser uma Mestra de Sagas, mas cujo aprendizado decorreu de forma diferente do comum, dentro dos princípios do sábio Odravas. Alguém sabe dizer qual seu preceito fundamental?
-- Da terra – começou Rydel, mas estacou quando desferi um sonoro golpe no tambor. Sorri, fazendo um sinal para encorajá-lo, mas um dos aprendizes já prosseguia:
-- Junto à terra... – Nova batida do tambor.
-- E com os filhos da terra! – concluiu um pequeno coro, igualmente brindado com uma batida.
-- Exato. Era o que dizia Odravas. E seus seguidores criaram muitas vilas, como a de Bryke, junto a florestas onde viviam tribos como a minha. Os resultados foram muito diferentes de lugar para lugar, mas de quase todas saíram pessoas como eu: com sangue das tribos, porém educados por elfos brilhantes. E para não ferir os princípios de Odravas, a educação e o aprendizado sempre respeitavam ao máximo as tradições da tribo hospedeira. Imaginam como era?
-- Devia ser divertido! – exclamou o aprendiz conhecido como Ruivo.
-- Eu iria adorar – disse Freydis.
-- Um pouco confuso, não? – perguntou, timidamente, o mais moço dos Prestes que viera do templo de Bragi. Era a resposta que eu esperava para imprimir entusiasmo à minha voz.
-- Sim! – exclamei, batendo duas vezes no tambor e erguendo a baqueta, para que todos me encarassem como se eu fosse uma louca. -- Era confuso, e divertido, e um desafio constante. Todos os livros que tínhamos para ler falavam de coisas que nunca tínhamos visto, e as que víamos tinham sempre mais importância. Só aprendíamos a ler os mapas do céu dos elfos brilhantes depois de provar que sabíamos nos orientar na floresta; só aprendíamos a história de Athelgard depois de conhecer a da tribo, dos nossos antepassados. E o jeito da tribo de contar histórias é diferente do jeito como se conta nas Terras Férteis. Então, embora minha mestra tocasse bem a harpa e o alaúde, ela não fez questão de que eu aprendesse desde o início. Para quê? Eu era da tribo! Eu podia muito bem usar...
-- O TAMBOR! – gritaram várias vozes, assombradas e divertidas. Assenti, e então comecei a percutir ritmadamente o tambor, os acordes de Andi se ajustando em uma harmonia perfeita. Éramos um duo, mas não estávamos cantando, e sim contando uma história da qual a próxima parte ainda era minha. Mas só a próxima parte.
-- Eu me concentrei em contar e escrever histórias – continuei, ante a fascinação da audiência. -- Registrei todas que conhecia da tribo e escrevi um livro que foi enviado a vários Mestres de Sagas. Um deles chegou às mãos do Mentor Camdell, e começou a correspondência que, ao fim de poucos anos, acabaria por me trazer ao Castelo das Águias. Mas o que aconteceu? Esse convite nos pegou de surpresa! Maryan ainda ia começar a me ensinar um instrumento, pois só depois de alguns anos eu deveria passar pelos testes da escola bárdica! Então o que fazer? Alguém tem ideia?
-- Você aprendeu? – perguntou Amina, completamente arrebatada pela história e o som.
-- Não aprendeu! Ela sempre tem um harpista ou alguém tocando alaúde ao fundo – disse um dos mestres da Ala Violeta.
-- É mesmo? Mas então ela não poderia... – começou o jovem Preste, logo silenciado por vários olhares zangados. Inclusive do seu superior, Preste Drusius. No entanto, mais uma vez ele me dera a deixa que eu esperava, por isso sorri e o encarei, detendo as batidas no tambor e elevando minha voz acima da plateia.
-- O que eu não poderia, Preste? Fale sem medo!
-- Eu... Eu não quis...
-- Você está sem graça – disse Urien, sorrindo lentamente. – Mas seu engano é comum. A escola bárdica forma Mestres de Música, como eu, que têm de dominar pelo menos dois instrumentos; e Mestres de Sagas, como Anna, que devem ter de cor um repertório de histórias. A maioria deles toca harpa ou alaúde, para fazer o acompanhamento, e eu brincava com Anna dizendo que ela devia aprender, mas isso não é uma exigência da escola no caso dela. Estou falando a verdade – acrescentou, erguendo a taça. – Olhem, tem vinho aqui, ainda não estou completamente bêbado.
-- Que bom! – exclamei, entre as gargalhadas do público. -- Assim vai se lembrar de como lhe agradeci... e do quanto nunca poderei agradecer o bastante por sua ajuda, por seu tempo, até por sua implicância, que me fizeram finalmente começar a aprender. Você também, Kieran – acrescentei, olhando para meu marido. – Eu queria que fosse uma surpresa, mas pelo jeito você sempre soube que eu estava tendo aulas de alaúde com Urien. Os calos nos meus dedos me traíram, não foi mesmo? E você não disse nada, só me apoiou... do jeito que faz sempre, me desafiando a ir além do que é fácil e confortável para mim.
Respirei fundo, olhando dentro dos olhos dele, e soltei:
-- E é o que vou fazer agora, trocando de lugar com meu aprendiz, para que ele termine a minha história e conte a sua.
A garganta de Andi se moveu mais duas vezes, e seus olhos me fitaram cheios de receio, mas mesmo assim ele deu uns passos duros à frente e me entregou o alaúde. Empunhei-o, meus dedos correndo sobre a madeira, e sorri para o menino, mas minha expressão estava séria: eu não queria pressioná-lo, mas ele aceitara a proposta, e agora tinha de fazer o que prometera. Ia contar uma história, possivelmente a mesma que ensaiara diante de Freydis e Orm; podia ser que se engasgasse um pouco, mas os meus dedos também estariam atrapalhados nas cordas do alaúde, de forma a fazê-lo sentir que não estava sozinho. Era o jeito que eu tinha encontrado de fazê-lo quebrar sua barreira.
E, ao tocar os primeiros acordes, não fazia ideia de como aquilo iria acabar.
*****
Talvez a maneira de contar histórias acompanhada apenas de tambor pareça estranha a quem pensa (acertadamente) em skalds nórdicos e bardos celtas quando falamos das sagas do Castelo. Mas o que a tribo da Anna faz é algo como isto aqui. Eu, pelo menos, acho legal.
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