segunda-feira, 30 de julho de 2012

Talismãs (Parte 2: A Saga da Caçadora Ingênua)


Todos nós, quando olhamos uns para os outros, vemos pistas que conduzem à história de cada um. A minha pode ser lida nos calos que tenho nas mãos: os da pena de escrever, resultado de vários anos de aprendizado das sagas, e os de puxar a corda do arco, que endureceram aos poucos desde que eu era menina. A avó que me criou, de quem herdei os olhos de elfo, liderava um grupo de caça na Floresta dos Teixos. Eu costumava acompanhá-la, mas depois passei a sair apenas com os jovens da minha idade. Foi numa dessas ocasiões que tudo aconteceu.

Era um inverno frio, mais frio do que podem imaginar os que nunca saíram das Terras Férteis. Havia neve em todos os caminhos e sobre os tetos das casas, e a água do Rio da Lontra estava cheia de pedacinhos de gelo. Muitos de nós dormíamos de parka, o agasalho pesado que usávamos, pois se o vestíssemos de manhã o acharíamos duro como madeira. E todos preferíamos ficar no interior das cabanas a ter de nos aventurar no mundo branco lá de fora.

Eu estava saindo pouco, em parte por causa do frio, mas também porque assumira vários deveres. Maryan, minha mestra, tinha dado à luz seu segundo filho, e eu a ajudava com a mais velha, preparava sua comida e buscava lenha. Em tempos mais calmos isso caberia ao pai das crianças - meu primo Zendak - mas nesses dias ele tinha preocupações maiores. As reservas de carne da tribo estavam diminuindo, e como nosso xamã era ele que tinha de guiar os caçadores até a presa. Ele ficava o tempo todo em sua cabana, no alto da árvore mais antiga da floresta, e os jovens da Casa do Corvo se revezavam para zelar por seu corpo enquanto o espírito fazia longas jornadas. Ao regressar, dizia onde podia haver um gamo ou um javali; os caçadores seguiam as pistas, mas quase sempre voltavam de mãos vazias.

Numa daquelas tardes, aproveitei a chegada de amigos que fariam companhia a Maryan e fui à casa de um outro primo, que tinha um filho da minha idade. Os pais tinham saído com o grupo de minha avó, mas Tyshen recebera a ordem de ficar e se ocupar de algumas tarefas do tipo que todos detestávamos fazer. Querendo animá-lo, ofereci ajuda, e nós nos sentamos na frente da casa, costurando peles de veado enquanto conversávamos.

Estávamos nisso quando um grupo de jovens apareceu na trilha que levava à casa do xamã. Dois eram um pouco mais velhos que nós e já considerados adultos, membros da Casa do Lobo; os outros eram garotos e garotas da nossa idade. Eles contaram que Zendak tinha despertado por uns momentos e falado sobre um grande cervo que errava procurando comida num bosque de bétulas, um pouco ao norte de onde ficava a nossa aldeia. Não ia ser difícil pegá-lo, mas tínhamos de ser rápidos – e o “tínhamos”, nesse caso, se referia a nós mesmos, pois todos os caçadores se achavam fora de alcance.

A perspectiva nos entusiasmou, e Tyshen entrou rápido para pegar suas lanças e a faça de caça. Também corri até minha casa, que não era longe, peguei meu arco e uma aljava de flechas recém-emplumadas, mas não vesti perneiras nem calcei as botas de pele. Isso aconteceu em parte pela pressa, mas em parte por uma espécie de rebeldia: a maioria das pessoas usava botas na neve, mas podiam sair de mocassins se não se importassem com os pés molhados. Já eu não tinha escolha: ou calçava as botas ou minha avó se recusava a me levar para a floresta. Eu já tinha perguntado a razão, mas a peguei num dia de mau-humor e não tive resposta, por isso achei que fosse apenas um dos cuidados que Kyara tomava para me proteger. E para que essa proteção, se eu tinha treze anos, era quase uma adulta recebendo a tatuagem do Lobo? Saí de mocassins.

Uma trilha bem marcada conduzia ao bosque de bétulas. O chão tinha restos de neve e fiquei com os pés úmidos, o mesmo acontecendo com outros de nós que não tinham calçado as botas. Pelo meio do caminho sentimos que o vento virou, o que devia nos servir de alerta: não demoraria a nevar. Mesmo assim, nos sentimos encorajados a prosseguir, ainda mais quando chegamos ao bosque e vimos o rastro deixado pelo cervo. Estava bem fresco e o seguimos com facilidade, sempre em direção ao norte, mal percebendo os primeiros flocos de neve que caíam sobre os ombros e os capuzes das parkas. Logo se transformaram em rajadas. Tivemos medo de que isso apagasse os rastros e apertamos o passo, sem perceber que estávamos nos afastando das trilhas conhecidas.

Já estava escuro quando enfim avistamos o cervo. Meus pés estavam molhados, muito mais do que em qualquer outra caminhada na neve, mas, envolvida com a caçada, não percebi que haviam começado a latejar. Cercamos a presa, andando sempre contra o vento, e quando estávamos a uma distância razoável atiramos, vários ao mesmo tempo e mirando os pontos vitais. Felizmente, já éramos bons o bastante para acertar de primeira - e, enquanto alguns de nós cumpriam os ritos, entoando um canto em homenagem ao espírito do animal que dera a vida por nós, outros já começavam a prepará-lo para a viagem de volta. Era um cervo pesado demais para ser carregado e não tínhamos trenós, de modo que o melhor jeito foi esfolá-lo e cortá-lo em pedaços que, depois, pusemos nos ombros. Fiquei com um dos maiores, porque todos sabiam que eu era a mais forte do grupo, e até aí nada demais; o que não sabíamos era de uma outra diferença, que começou a se fazer sentir assim que tentamos reencontrar a trilha. Porque meus pés, que tinham latejado, depois ficado doloridos e por fim se tornado insensíveis, estavam agora como dois blocos de madeira, que eu mal conseguia sentir ao encostá-los no chão.

Ainda me lembro da expressão dos meus amigos nesse dia: como ficaram desamparados, e como senti tanta pena deles quanto imagino que sentiram de mim. Eu era diferente de todos, tinha curvas e pelos onde eles não tinham, mas nunca imaginaram o estado em que podiam ficar meus pés até que eu tirasse os mocassins. Estavam inchados, com cor e aspecto estranhos e também estranhos ao toque, embora eu não sentisse os dedos deles pressionando minha carne. Era assustador. Mesmo assim, alguma coisa tinha de ser feita, e discutimos o que seria melhor: acender um fogo para aquecer meus pés ou regressar o quanto antes à aldeia. E como não tivéssemos madeira seca nem um lugar para nos abrigar da neve, que caía cada vez mais forte, escolhemos a segunda opção. Isso me levou a andar boa parte da noite amparada por dois amigos, com os pés que eu mal conseguia sentir enrolados na camisa de Tyshen e protegidos por fora com cascas de bétula.

Isso salvou meus pés.

A dimensão do que tinha acontecido eu só soube depois, quando os cuidados tinham sido tomados, por isso não entendi o desespero de minha avó quando me viu entrar em casa. Ela também mal acabara de chegar, vira minhas botas em um canto, mas não se preocupara porque achava que eu estava com Maryan. Por outro lado, minha prima fora informada por algumas crianças de que eu tinha ido à floresta, mas não sabia sobre as botas, ou poderia ter me avisado sobre o que aprendera ao ler as sagas dos homens: é que, ao contrário dos elfos, nós não apenas podemos sentir frio, mas podemos ser congelados por ele, assim como congelamos a carcaça de um animal sob a neve. Por causa do frio, podemos até perder uma parte do corpo, como minha avó já vira acontecer. Felizmente, ela também sabia o que devia ser feito - e assim aqueceu água e mergulhou meus pés, e depois de novo e de novo, e não deixou que ninguém os esfregasse nem acendesse um fogo muito próximo. Isso teria sido um desastre. Zendak, que despertou de vez na manhã seguinte, preparou um unguento que aliviou a dor, e assim tratamos as queimaduras até que elas sarassem. Tudo que restou foram as marcas, além de um renovado respeito pela neve e pelos conselhos e cuidados de minha avó.

Eu disse “tudo”? Bem, não foi só isso. Além da carne, que foi consumida por todos, e das cicatrizes, guardei uma outra lembrança dessa caçada. Toco nele quando sinto que meu dia-a-dia me aproxima demais dos elfos, fazendo-me esquecer de que sou humana. Mas acho que será mais fácil me lembrar disso numa cidade como Vrindavahn.

...

As palavras de Anna foram recebidas em silêncio. Em todo o semicírculo, os olhos deslumbrados das crianças estavam presos nela, acompanhando suas mãos, que abriam uma pequena bolsa de pele macia. Dali a Mestra de Sagas retirou um outro pedaço de couro, duro e enegrecido, que confiou à posse curiosa do aprendiz mais próximo.

- É um pedaço do mocassim que usei na caçada – explicou. – Está nessa bolsa junto com outros objetos que foram e são importantes, não apenas como talismãs, mas porque ajudam a contar minha história. E agora eu tenho uma proposta para vocês – acrescentou, relanceando os olhos por todo o grupo. – A partir do próximo encontro, quem pode trazer alguma coisa que considere importante e contar a história que tem por trás? Que tal começar por vocês aqui à direita?

- Nós? – Andi olhou assustado para Orm e Freydis, querendo confirmar que era com eles.

- Vocês mesmos. Ficaram bem interessados pelo que vi, e todos têm jeito de que gostam de contar histórias. Então, o que acham?

- Eu concordo! - exclamou Freydis.

- Eu também – disse Orm. – E posso ser o primeiro. Mas não esperem uma história tão boa – avisou, voltando-se para os demais aprendizes. – Não sou nenhum mestre de sagas. Só um filho de militar que nunca saiu de Vrindavahn.

- E que adora comida e cerveja – disse Andi, com uma risadinha.

- E a história vai ter tudo isso – prometeu Orm, com ar solene. – Esperem, que vocês vão ouvir... A Saga do Padeiro Aprendiz!

Em breve! E se quer saber como começou essa contação de histórias, clique aqui!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Talismãs (Parte 1: A Nova Mestra de Sagas)


As crianças foram chegando como quem não quer nada. Era uma tarde clara de primavera, e os jardins da Ala Amarela estavam floridos, desprendendo nuvens de pólen que flutuavam no ar. Andi passou entre dois canteiros e espirrou, provocando risos que serviram para aliviar a tensão da expectativa. Ninguém sabia muito bem o que estava por vir.

- De qualquer jeito, aposto que ela vai ser melhor do que o Shanion – Freydis sussurrou ao ouvido de Orm, que caminhava ao seu lado. – Eu sei que ele é um bom Mestre de Sagas, mas não saía daqueles poemas intermináveis. E além disso estava sempre com a mesma cara, como se estivesse morrendo de tédio.

- É, por esse lado acho que será melhor – disse Orm, com os olhos voltados para a moça sentada numa esteira sobre a grama.

Morena, vestida de linho creme e com os cabelos presos numa trança, Anna de Bryke sorria para os aprendizes. Os primeiros a chegar a cumprimentaram e ficaram de pé, sem saber se deviam entrar na sala usada por Shanion. Suas portas estavam abertas às costas da nova mestra. Ela, porém, os convidou a se acomodar ali mesmo, e após hesitar por um instante eles começaram a arrumar as esteiras e almofadas que Anna trouxera para o jardim. Havia livros também, mas estavam fechados; quando os últimos alunos chegaram, apertando-se contra os colegas para ocupar as pontas das esteiras, ficou patente que iriam começar por uma conversa, e que esta seria bem menos formal do que a apresentação feita por Mestra Lara no primeiro encontro.

- Bom, pessoal, já nos conhecemos, mas esta é a primeira vez em que estamos realmente juntos. – A voz era calma, com timbre agradável e um leve sotaque do Norte. – Nestes dias, pensei muito no que ia lhes dizer e em como conduzir nossos encontros. Mas não sabia por onde começar, até que vi o trabalho dos artistas na festa de Primavera... e percebi onde se encontra a alma de tudo.

Freydis ergueu as sobrancelhas e tornou a olhar para Orm. Este encolheu os ombros: também não tinha entendido. Outras crianças se entreolharam, algumas perplexas, outras parecendo perguntar onde aquilo os levaria. Anna percebeu sua inquietude e sorriu, um brilho bem-humorado nos olhos escuros e oblíquos.

- Vamos partir do início. O que é uma saga? Pode responder – disse, dirigindo-se a Arton, o primeiro dos vários que tinham erguido a mão.

- Mestra, uma saga é uma história, pode ser também um poema, que conta os feitos de heróis ou dos nossos antepassados – disse o pequeno elfo. – Algumas são verdadeiras, como a das Onze Cidades. Outras se misturam com lendas e trazem símbolos que temos de analisar para entender. Isso é uma saga, mestra.

- Ótimo. Resumiu muito bem. Mas, partindo daí, quem pode me dizer por que as sagas só falariam de heróis e antepassados? Por que não de nós mesmos e do que acontece aqui e agora?

Um murmúrio se elevou como uma nuvem sobre as crianças. Anna se demorou a observar seus rostos, tão diferentes uns dos outros – queixos pontudos de elfo; bochechas humanas, pálidas ou rosadas; olhos de todos os formatos e matizes – e tão iguais na expressão que faziam ao se concentrar em busca da resposta. Por fim, a meio-elfa Lysia de Ardost se aventurou devagar, como quem pisa em solo desconhecido.

- Sagas são histórias antigas. Têm significado, não são simples como as coisas que acontecem conosco.

- Ah, não? Então o que fazemos não tem significado? – Anna provocou. – Vocês estão aqui hoje, mas um dia serão magos e magas de quem se esperam grandes feitos. Ninguém irá contar a sua história?

- Bom, então sim, mas...

- Eu entendi, mestra! – exclamou Conan, um garoto humano de cabelos castanhos. – As histórias que acontecem conosco podem um dia virar sagas, se ganharmos fama. É isso, não é?

- Mas e se não ganharmos? – A pergunta brotou espontânea dos lábios de Freydis. – Se formos pessoas comuns, dessas que vemos por aí. Nossas histórias não têm significado?

- Claro que não – disse Conan.

- Claro que sim! – contestou o elfo Adrael.

- Eu também acho que sim, mas que isso não é o bastante para se transformar numa saga – opinou Orm. – Sagas têm de ter heróis, batalhas, traição, Magia...

- Mas isso sempre há – disse Anna, sua voz se sobrepondo ao burburinho que começava a surgir entre os aprendizes. – Toda vida contém emoção – batalhas que travamos para nos superar, para conseguir o que queremos – e, de certa forma, toda vida contém Magia. Basta olhar para a Natureza à nossa volta.

- Mestre Rydel diz isso – lembrou Lysia. – O Mentor também.

- E têm razão. Não importa quem a gente seja – afirmou a Mestra de Sagas. – Todos temos nossas histórias e nelas somos os heróis. Quem pode nos contar uma sua?

O burburinho cessou de imediato frente ao desafio. Freydis olhou para Orm, que coçava a cabeça, depois para Andi, cujos olhos arregalados estavam fixos na mestra. Então, voltou-se para Conan e Arton, o humano e o elfo sempre prontos a tagarelar sobre o que quer que fosse. Mas dessa vez nem eles se dispunham a falar.

- Ninguém? Bom, então eu vou começar – disse Anna, cruzando as pernas. – Vou contar uma história que se passou comigo. E pode ser... hum, vejamos...

- O que você está olhando? – sussurrou Freydis, vendo a expressão de Andi como que congelada.

- Os pés dela – articularam, sem som, os lábios do meio-elfo. A menina franziu a testa e acompanhou seu olhar. Só então, com um choque, viu o que ele via: a pele mais escura, de aspecto áspero, em alguns dedos e no peito de um dos pés morenos e descalços de Anna.

- Pare de olhar assim – sussurrou Freydis, embora não tão baixo a ponto de não ser ouvida por Orm na outra metade da esteira.

- Os pés? Já tinha visto. Ela deve tê-los queimado – disse ele.

- Não, não os queimei – disse Ana, gentilmente.

Orm sentiu um abismo se abrir embaixo dele. Andi baixou a cabeça, vermelho até as orelhas, e começou a balbuciar um pedido de desculpas, que a mestra interrompeu com um gesto despreocupado.

- Marcas e cicatrizes fazem parte de quem somos – disse. – Na maioria das vezes, não há por que ter vergonha.

- E como aconteceu, Mestra Anna? – ousou Freydis, sentando-se bem ereta. – Se não queimou os pés, como foi que ficaram assim?

- Boa pergunta – sorriu Anna de Bryke. – E dá uma boa história. Pois bem, prestem atenção, pois eu vou lhes contar... a Saga da Caçadora Ingênua.

Curiosos? Aguardem o próximo post! :)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Freydis, Andi e Orm


Ao chegar ao Castelo das Águias, Anna se depara com três desafios. O primeiro, proposto por Kieran de Scyllix, é entender a complexidade do lugar onde passou a viver; o segundo é entender, hum, o próprio Kieran. Já o último se refere a adaptar suas experiências e seu conhecimento a fim de se tornar a Mestra de Sagas da Escola, o que não é tão fácil. Felizmente há uma coisa a seu favor: a boa recepção que Anna tem por parte de seus aprendizes, principalmente estes três.

Freydis é a única menina da Escola que não tem sangue élfico. É alegre, decidida e gosta de aventuras, tendo para isso o estímulo de seu padrasto, o Conselheiro Thorold de Grimdale, que ela acredita ser seu verdadeiro pai. Ao visitarem a floresta e presenciarem a metamorfose das águias, Freydis dá a Anna uma pena dourada, que mais tarde servirá à Mestra de Sagas como um talismã.

Andi é o mais quieto do grupo e às vezes um pouco hesitante, mas tem uma ótima memória para as sagas. Meio-elfo, ele faz parte do grupo que considera Kieran um carrasco, mas, dos três amigos, é aquele que tem mais desenvolvido o Dom da Magia.

Orm pertence a uma família de militares e é neto do Comandante Owen, que está à frente da guarnição de Vrindavahn. É um garoto ativo e determinado, que gosta de atirar com arco e presta muita atenção a tudo que vê. Seu avô tem dúvidas sobre deixá-lo continuar no Castelo ou enviá-lo à Escola de Guerra em Scyllix, mas o impasse não se resolve no primeiro livro da série.

Ainda é cedo para saber se algum desses três seguirá de fato o Caminho da Magia. No entanto, sua passagem pelo Primeiro Círculo do aprendizado irá lhes ensinar muita coisa sobre o mundo e sobre si mesmos.

Uma série de contos narrados pelas crianças (e também uma da jovem Anna de Bryke) começa aqui.

Esta é a primeira de uma série de ilustrações da artista Angela Takagui feitas especialmente para o blog do Castelo. Enjoy!

terça-feira, 26 de junho de 2012

Doron de Scyllix


À primeira vista ele não passa de um brutamontes desajeitado, e ainda por cima chega a Vrindavahn com o propósito de garantir que as águias douradas continuem a ser usadas como armas de guerra. No entanto, uma segunda conversa é suficiente para mostrar o que se esconde por trás daquele jeitão sem cerimônia.

Companheiro de infância de Kieran, Doron frequentou junto com ele a Escola de Guerra em Scyllix e se tornou Mestre de Combate, encarregado de treinar futuros soldados. Seu pai é um herói de guerra e possui uma fazenda vizinha à Fonte Âmbar, onde Seril, irmã de Kieran, tem uma criação de carneiros. Doron tenta promover a reconciliação entre Kieran e Seril, embora ele mesmo tenha dificuldade em ser aceito pelos dois. Muita coisa parece ter mudado desde os tempos do Exército. No entanto, o conflito entre os representantes de Scyllix e os de Vrindavahn logo será acirrado, e o Mestre de Combate deixará bem claro onde está sua lealdade.

O desenho acima é de Angela Takagui. Com jeitão de metaleiro e o cabelo bem mais longo do que eu imagino, Doron de Scyllix também foi retratado por Ana Clara Thomazini .

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Anel do Escorpião : publicada nova prequel de O Castelo das Águias



Pessoas Queridas,

Conforme anunciado, mais uma história ambientada no universo de O Castelo das Águias foi publicada na Série Contos do Dragão, da Editora Draco. Desta vez, recuamos ainda mais no passado, chegando aos tempos de juventude de um personagem que, embora não apareça em carne e osso no primeiro livro da série, teve uma importância fundamental na vida de Kieran de Scyllix. Alguém consegue adivinhar quem foi?

Aguardo palpites... e, enquanto isso, aqui vai o link para a compra de O Anel do Escorpião pela Amazon, em formato Kindle.

Boa leitura!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Um Ano e um Dia: o Início da Jornada


ATUALIZAÇÃO: não sei se todos já sabem, mas o livro que deveria se chamar "Um Ano e um Dia" mudou de título e foi publicado em março de 2014 como "A Ilha dos Ossos". Informações aqui.


Queridas Pessoas,

Como eu venho anunciando há algum tempo, O Castelo das Águias chegou ao seu primeiro aniversário. O tempo pareceu voar, mas, olhando para trás, dá pra ver quanta coisa aconteceu e quanto retorno eu recebi de leitores de todas as idades e bagagens.

Como era de se esperar, houve críticas. Algumas apontaram falhas que eu reconheço e que me esforçarei para não repetir; outras, depois de refletir a respeito, me parecem ter tido por base as expectativas e o gosto pessoal de quem leu. Como disse Neil Gaiman, às vezes você mostra histórias para as pessoas erradas, e ninguém gosta de tudo.* No entanto, fico feliz e orgulhosa por poder dizer que a maioria dos leitores aprovou, principalmente os jovens que gostam de romance e fantasia e que constituem o público-alvo deste trabalho.

Na página Livro 1 deste blog eu listo as resenhas publicadas até agora. Agradeço por elas a seus autores, bem como aos demais leitores e amigos pelos elogios, críticas e sugestões que serão muito úteis nessa nova etapa da minha jornada.

Vocês sabem que O Castelo é o primeiro livro de uma série, não sabem? Além dos contos do blog ou publicados à parte, como A Encruzilhada, haverá pelo menos duas continuações em forma de romance. Ambas já têm versões preliminares, mas, tal como aconteceu com o primeiro livro, irei reescrevê-las para tornar a narrativa mais ágil e a própria história mais interessante. Na verdade, já estou começando a mexer no segundo volume da série, cujo título provavelmente definitivo será Um Ano e um Dia.

Dito assim parece fácil, mas não é. Escrever é uma aventura; reescrever pode até ser prazeroso, mas gera um bocado de ansiedade, até porque desta vez eu sei que há leitores à espera desse novo trabalho. Por eles, e também por mim, preciso me esforçar para corrigir os problemas da primeira versão, achar a voz do narrador, desenvolver melhor os personagens e seus conflitos. É um trabalho duro, que ocupará boa parte do meu tempo livre nos próximos meses, mas valerá a pena: ao ser publicado, o que a Editora Draco e eu prevemos para meados de 2013, Um Ano e um Dia não irá decepcionar os leitores da série. E, se tudo der certo, conquistará muitos outros.

Continuem comigo! A saga mal começou.

* Introdução a “Coisas Frágeis 2”, edição brasileira pela Conrad.

domingo, 13 de maio de 2012

Em Nome de Thonarr (Epílogo)

- Thonarr! - Sua voz, que não parecia lhe pertencer, os ecos em meio ao trovão. – Este é o templo dos Heróis, e também o seu! Ajude-me, Senhor do Raio! Thonarr!

Gritou mais uma vez e cerrou os maxilares, a avalanche de energia o sacudindo e retesando cada um de seus músculos. Sugado por um vórtex, possuído, trespassado. As palavras eram pequenas para descrever o que sentia. Os raios se sucediam, alguns vindo do céu, outros do martelo que parecia colado às suas mãos. Ele lutou contra o tremor que lhe subia pelas pernas e gemeu, sabendo o que aconteceria se desfalecesse.

Dê-me forças, Thonarr, É só o que peço. Dê-me forças, mantenha-me em pé, ampare este templo que é seu...
Ampare-me...


E de repente a corrente que o arrastava cedeu, e havia duas pessoas junto ao andaime. Uma era um homem alto, com as feições escondidas por um chapéu escorrendo chuva; a outra também parecia masculina, porém menor e mais esguia, e um vislumbre de seu rosto pontudo fez Padraig engolir em seco.

- Loki – murmurou, o fôlego alterado ao pronunciar o nome daquele que os devotos chamavam de Esquerdo. – E... Woden, o Senhor do Vento – concluiu, vendo o bastão que o homem mais alto segurava na mão direita. Como o martelo, ele brilhava envolto em fios de pura energia, porém esta era de um azul sem traços de rubi. Loki também tinha um bastão, do qual a energia se evolava sob a forma de uma névoa alaranjada. Num só movimento, os dois apontaram seus bastões para o piso rachado, protegendo, escorando, sustentando o peso que, por longos e cruciais momentos, repousara apenas sobre Padraig. Ele os fitou incrédulo, depois ao martelo, sem compreender como viera a fazer parte da tríade de Heróis – e foi quando duas mãos pousaram em seus ombros, ao mesmo tempo em que se ouvia uma voz grossa esbravejar.

- O que está fazendo, garoto? Preciso desse martelo!

- Eu... Senhor do Raio... – Padraig começou a balbuciar, mas foi interrompido pelo Preste Drusius.

- Deixe o menino, Adso, ele acabou de fazer um esforço enorme. – Virou-o para si, encarando-o com olhos bondosos e marejados de lágrimas. – E eu não sei bem como... mas nos livrou do desastre.

Padraig abaixou a cabeça, incapaz de responder o que quer que fosse. Adso se aproximou, ainda resmungando, e pegou o martelo como se fosse uma pluma. Outros homens emergiram do corredor, entre eles alguns artesãos, que não levaram mais do que uns instantes para erguer as vigas e escorar o piso. Estranhamente, passavam sem hesitar entre os raios azuis e alaranjados, levando Padraig a se indagar se eram capazes de ver os Heróis.

E quanto a eles próprios, Woden e Loki – será que se mostravam a outros olhos além dos seus?

- Pronto! Por agora está seguro – disse Adso, em cujas mãos o martelo perdera o brilho. – Muito obrigado pela ajuda, mestre.

- Não há de quê – uma voz grave respondeu de sob o chapéu de Woden. Mortificado, Padraig viu a Liz se extinguir nos bastões, e então os Heróis avançaram, tornando-se visíveis à luz da lanterna.

- Gwyll...! – murmurou ele, reconhecendo o meio-elfo de cabelo eriçado. – Então vocês não eram...?

- Woden e Loki? Não. Éramos só nós – disse Kieran de Scyllix, tirando o chapéu e fitando-o com dois olhos brilhantes. – Mas isso não se aplica a Thonarr. Ele, sim, esteve aqui. E agiu através de você para manter este lugar inteiro.

- De mim? – Padraig contemplou as mãos, trêmulas e vazias. – Da minha fé?

- Sim, filho, mas fé nós também temos – disse o Preste, com suavidade. – Você tem algo além disso: uma vontade tão forte que torna real o que é invisível.

- Ou seja: Magia – concluiu o garoto, olhando para Kieran. Este assentiu, sorrindo, e estendeu a mão, mas Padraig se esquivou, seus olhos se voltando para Gwyll com uma espécie de desafio.

- Magia. Sim. Mas Thonarr esteve aqui – disse. – Thonarr, o verdadeiro, o que existe. Não um maldito símbolo.

- É claro – concordou o meio-elfo. – Isso porque você é um devoto. Mas...

- Silêncio, garoto – rosnou Kieran. Seus olhos se encontraram com os do Preste, num entendimento sem palavras, e Padraig pôde ouvir um suspiro escapar de entre os lábios de Drusius.

- Que seja, então. Confio-lhe o menino – disse, mas o sorriso de Kieran o fez acrescentar, em outro tom:

- E pode deixar que me encarrego de falar com a mãe dele.



Poucos dias depois, usando uma tiara de bronze e uma túnica que lhe chegava aos pés descalços, Padraig recebia as boas-vindas no Castelo das Águias. Fora da época, pois o ingresso ao Primeiro Círculo se dava habitualmente no Solstício de Inverno, mas os mestres haviam decidido não esperar, tão diferente era ele de todos os aprendizes. Naturalmente, iria estudar Matemática e Música, as sagas e os segredos da natureza, além das artes e ofícios da Ala Violeta; as tabelas, símbolos e regras da Magia estavam a cargo de uma elfa, Thalia de Erchedel, que levaria pelo menos dois anos para promovê-lo ao próximo Círculo. Desde agora, porém, fora assegurado a Padraig um contato estreito com o Mentor, o único a poder orientá-lo no estudo e na prática da Magia da Alma. Isso o deixou orgulhoso, mas também com um pouco de medo, pois ficaria em posição de destaque aos olhos de toda a Escola. Como recém-chegado, não queria atrair atenções, muito menos a má-vontade dos colegas. Mas Mestre Kieran o sacudira pelo ombro e rosnara que aceitasse a carga que acompanhava seu Dom.

Seu nome acabava de ser pronunciado, o olhar dos mestres convocando-o à sua presença. Ele se adiantou, consciente de que esses eram os primeiros passos numa longa jornada, e estendeu as mãos, sobre as quais o Mentor depositou uma pena e um livro. As páginas eram brancas, assim como a sua túnica: um símbolo da pureza e inocência dos aprendizes. Só mais tarde encontraria as cores que representavam seu poder.

Os dedos de Camdell tocaram o ponto entre suas sobrancelhas. Uma pedra brilhava no anel em seu indicador, um rubi com toques de fogo, pois a cor da Magia da Alma era também a dos devotos. Sim, sua fé estava em boas mãos. Ele ergueu a cabeça, olhando para os olhos do mago, e sentiu que um pacto fora selado, embora nem uma palavra lhes houvesse saído dos lábios.
Para ele, assim como para seu novo mestre, bastava o que tinha sido dito pela voz de Thonarr.