quinta-feira, 16 de março de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 4)



-- Oi, rapazes! Desculpem a demora -- disse Nayla, dando-me um leve beijo na face. Sem uma palavra, Cassius pousou uma das cestas no chão, estendendo a mão livre para mim e depois para o músico. Perguntei como andavam as coisas, e ele sorriu, mas seu sorriso foi tímido e muito breve. Tão breve quanto o instante entre minha pergunta e o beijo de Nayla e Thierry.
-- Sentiram falta de nós no mercado -- disse ela, assim que recobrou o fôlego. -- Queriam a todo custo que eu dançasse, mesmo sem música. Por que não apareceu? Eu fiquei esperando você para fazer as compras.
-- Bom, eu estava muito cansado, e o dinheiro estava com você. Mas de qualquer jeito você teve companhia, não teve?
Isso olhando para Cassius, que ficou ainda mais sério e baixou a cabeça. Por sua vez, Nayla pareceu ter ficado ofendida, e, antes que eu me visse envolvido em mais uma discussão, achei melhor sugerir que todos entrássemos. Nada como um bom vinho e almofadas para apaziguar uma briga.
-- Ah, que delícia! - exclamou Nayla, aninhando-se no tapete. -- Como eu queria ter uma casa só para mim! Na minha, quase tenho que expulsar uma das crianças para me sentar.
-- Já disse várias vezes para você vir morar comigo -- replicou Thierry. -- É verdade que teríamos que viver com minha mãe e meu tio, mas sempre é melhor do que aturar quatro irmãos menores.
-- Sim, mas, nesse caso, como ficaria a minha mãe? Meu pai é um inútil, não faz nada a não ser filhos, e ela precisa de ajuda. E não falo só do dinheiro, mas de quem dê uma mão com a casa e com as crianças. Não fique com essa cara, Thierry. Você mesmo vive dizendo que só não dá o fora por causa da sua mãe.
-- Mas que cara eu fiz? Eu concordo com você. Todo filho tem a obrigação de cuidar dos pais, quando eles ficam velhos. Não é mesmo, Cyprien?
-- Claro -- respondi, por entre os dentes cerrados. Em meus pensamentos, vira surgir a imagem de minha mãe, uma imagem imprecisa, apagada, não só pelo tempo que decorrera desde a sua morte, mas também pelo fato de minhas memórias datarem de quando eu era muito pequeno. Tinha apenas quatro anos quando ela se fora. Ainda assim, eu me lembrava de ter desejado ardentemente crescer rápido, quando então mataria meu padrasto e cuidaria de minha mãe até o fim da vida. Infelizmente, não fui capaz de realizar nenhum desses desejos.
Respirei fundo, tentando afastar a dor e o vazio. Lembranças tristes não são boa companhia para ninguém. Além disso, eu não queria parecer abatido diante de meus amigos, e menos ainda de Tina, quando ela finalmente aparecesse. O que teria acontecido para fazê-la demorar tanto?
-- Não, eu não falei com ela -- disse Aymon, a quem interpelei assim que o vi cruzar a porta. -- Passei em frente à casa, e as luzes estavam acesas, mas achei que fosse a mãe ou a prima dela. Na verdade, eu pensava que Tina fosse chegar antes de todo mundo.
-- Tem certeza de que a avisou? -- perguntou Nayla. -- Thierry está sempre se esquecendo de me dizer as coisas.
-- Sim, mas isso é por causa do hábito. -- Não seria eu a falar das outras razões. -- Tina e eu estamos juntos há pouco tempo, e eu fiz questão de ir lá, ontem à noite, para convidá-la. Só não lhe disse que não íamos sair, porque também não sabia, mas de qualquer jeito ela já devia ter aparecido. Se não chegar na próxima hora, acho que vou dar um pulo até a casa dela.
-- Calma, homem! A noite é uma criança! -- riu Aymon.
-- E o meu estômago não espera! Que tal a gente provar logo essas tortas?
Naturalmente, a ideia partiu de Thierry, mas os outros aderiram de imediato, e eu mesmo tratei de acender o fogo e preparar a grelha para as salsichas. Sobre a mesa, além das tortas, havia queijo, pão e os pastéis trazidos por Aymon, e o vinho fora temperado com ervas e canela. As taças ficaram vazias em poucos instantes, e eu ia enchê-las de novo quando, de repente, a porta se abriu, proporcionando-me o prazer e o alívio de ver entrar minha namorada.
-- Tina! Até que enfim! Cyprien estava indócil à sua espera -- disse Nayla. -- Ele já estava até pensando em subir para procurar você.
-- É mesmo? Bom, me atrasei para sair -- disse Tina, contrafeita. Avancei para beijá-la, e ela correspondeu, mas seus lábios estavam tensos, e as mãos pareciam gelo em torno de minha cintura. Enlacei-a, tentando transmitir segurança, enquanto a fitava intensamente em busca de respostas.
-- Sinto muito pelo atraso -- disse ela, por fim, forçando-se a sorrir. -- Espero que isso não tenha estragado os seus planos.
-- Ah, não! Nós já tínhamos decidido ficar por aqui mesmo. E também mal começamos a comer alguma coisa. Quer uma taça de vinho? Todo mundo gostou muito da minha receita.
-- Quero, sim. Obrigada.
-- Acomodem-se, vocês dois -- ofereceu Nayla. -- Deixem que eu acabo de servir o vinho.
-- Isso mesmo, Tina. Sente-se aqui comigo -- disse eu, reclinando-me sobre as almofadas. Tina fez menção de aceitar o convite, mas, logo em seguida, retraiu-se, recuando na direção da lareira acesa. Vi a tristeza brilhar em seus olhos à luz das chamas. Foi nesse momento que decidi ir direto ao assunto.
-- O que aconteceu? -- Era uma pergunta de todos, mas ninguém mais a teria feito. -- Não estou falando do atraso, mas dessa cara triste com que você chegou. Algum problema em casa? Sua mãe disse alguma coisa quando você saiu para me encontrar?
-- Ah, sim. -- Tina sorriu levemente, avançou um passo, roçando a ponta dos dedos em minha mão estendida. -- Ela disse para eu me divertir e deixar de sonhar com o impossível. E também para não incomodar você com as minhas asneiras, pois você é uma joia de rapaz e ela não me perdoaria se eu o deixasse escapar. Foi isso que ela disse quando eu estava saindo.  
-- E olhe que não foi pouco -- disse Thierry, tentando fazer graça. -- Se me elogiassem assim, acho que eu até ficaria vermelho.
-- Não ligo para os elogios -- falei, sem nenhum esforço, porque dessa vez não era mentira. -- Só quero saber por que sua mãe disse todas essas coisas. O que significa, por exemplo, “sonhar com o impossível”? Não deve ter nada a ver comigo... Ou será que tem?
Falei, e no instante seguinte já me arrependera, pois aquele era um assunto que só dizia respeito a nós dois. Felizmente, minha suposição foi logo descartada -- e o melhor de tudo é que Tina, para provar que não era eu a causa de sua tristeza, aconchegou-se ao meu lado nas almofadas, beijando-me com os lábios macios aos quais me habituara na última lua. Passei suavemente os dedos em sua face. Ainda era possível sentir o rastro deixado pelas lágrimas.
-- Vamos, bela. Diga o que houve -- pedi, quase num sussurro. -- Aqui somos todos seus amigos.
-- É verdade, Tina. Talvez possamos ajudar -- disse Cassius, muito sério. Surpreendi-me por ser ele o primeiro a se acercar de nós. Logo depois, Nayla e Thierry também vieram para mais perto, e por fim Aymon se sentou diante de Tina, completando o círculo de olhos e ouvidos atentos. Então, vendo que não podia nos deixar de fora daquilo, Tina suspirou e disse:
-- Édobec.
-- O quê? -- fez Nayla, franzindo a testa.
-- Édobec -- esclareci, quase conseguindo compreender tudo. -- É aquele velho que roubou os legumes no verão passado. Tina deve estar triste por causa da pena que ele recebeu.
 -- É isso mesmo, Tina? -- perguntou Cassius, não muito convencido.
-- Também. Ou talvez não, porque, quando ele foi preso, não fiquei triste e sim revoltada. Como é que podem deixar uma pessoa na prisão, durante um ano inteiro, por ter roubado comida para dar aos filhos? Não, não existe justiça, para nós, nesta cidade.
-- Também acho -- disse eu. -- Mas não deve ter sido isso que fez você chorar.
-- Não, realmente não foi -- admitiu ela. -- Na verdade, foi o outro lado da história que me deixou triste. Vocês devem se lembrar de que Édobec é nosso vizinho de rua...
-- É mesmo! -- exclamou Aymon.
-- ... E assim, minha mãe e minha prima se dão com a mulher dele, e eu mesma, numa certa época, fui muito amiga dos filhos. Pois bem, eles passaram todo esse ano com dificuldades, mas ultimamente falavam com uma certa esperança, fazendo planos para quando Édobec saísse da prisão. O genro dele falava em voltar para as estradas, o filho estava querendo se estabelecer noutra cidade, enfim, todos eles pensavam em deixar este ano para trás e recomeçar tudo. Mas hoje, depois de ter saído a sentença, a mulher e a filha dele entraram em desespero, e então começaram a ir de casa em casa, chorando e pedindo aos vizinhos que fizessem alguma coisa. Foi de cortar o coração, aquelas duas infelizes, gritando, se desgrenhando, dizendo que o pai ia morrer, que o marido ia ficar aleijado por causa das chicotadas. E minha mãe e as outras vizinhas pedindo calma, tentando consolar as duas, mas no fundo sabendo muito bem que talvez estivessem certas. Ele pode não suportar... É um homem de quase sessenta anos... E por causa de uns malditos legumes, ele pode... Pode...
Parou, lutando contra as lágrimas que voltavam a lhe apertar a garganta. Sem poder fazer mais nada, abracei-a, esperando que desabafasse, mas ela respirou fundo algumas vezes e conseguiu se dominar. Aymon foi buscar um copo d’água, e, enquanto Tina o bebia em pequenos goles, procuramos dizer alguma coisa que servisse para confortá-la. 

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Parte 1

         Parte 3

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