domingo, 2 de abril de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 7)



Por puro reflexo, levantei-me, e Tina mal conseguiu compor a saia antes que Mandol irrompesse casa adentro. Vinha com um ar de alarme -- não desespero, não como se trouxesse um caso de vida ou morte, mas tudo em sua expressão era um agoniado pedido de ajuda. Sem ter mais como reagir, perguntei o que havia, e ele fez uma cara grotesca, apontando na direção da janela aberta.
-- Vá ver o que ele fez, pelo amor de Deus -- disse, e é claro que isso fez com que eu me precipitasse porta afora. -- Maldita a hora em que eu me ofereci para tomar conta desse garoto!
-- Que houve? - perguntou Tina, vindo atrás de mim. -- Ele caiu do berço, ou...
-- Não! Oh, não! -- respondi, e não pude dizer mais nada, tamanha foi a raiva que senti ao me deparar com o quadro.
Alfonz não caíra do berço, nem se ferira como eu imaginara a princípio. Também não parecia ter se engasgado, e nem mesmo, pelo riso com que me recebeu, sentia algum desconforto por causa dos dentes. Não, ele não fizera mais do que abrir a própria fralda. Infelizmente, o conteúdo lhe parecera tão atraente a ponto de ele o haver esfregado por todos os lados.
-- Mandol. -- Cerrei os punhos, voltando-me, bem devagar, para o músico parado junto à porta. -- Escute, você foi me chamar... Não, melhor ainda, invadiu minha casa,  numa hora em que eu estava com a minha namorada... Porque não é capaz de trocar a fralda do seu neto?
-- Mas, Cyprien! Entenda, ele... ele sujou tudo! - exclamou Mandol. - Ele passou o negócio no berço, na cara, no cabelo...! Eu não sabia por onde começar!
-- Ah, não? Ou simplesmente era mais fácil me chamar para fazer o trabalho sujo?
-- Cyprien, por favor -- disse Mandol, com uma humildade que eu nunca vira nele. -- Eu sei que atrapalhei vocês dois. Me desculpe! Mas me ajude. Por favor, eu não sei o que fazer, e o menino não pode ficar assim!
-- É claro -- resmunguei, marchando a passos duros para o berço.
-- Quer que eu ajude? -- perguntou Tina. -- Não tenho grande prática, mas...
-- Oh, não! Eu tenho bastante, pode deixar. -- Irritado, puxei as pontas do lençol, procurando um trecho limpo onde pudesse colocar Alfonz. -- Eu não tenho filhos, mas sou o maior quando se trata de fraldas. E o melhor é que estou sempre à disposição, não é, Mandol?
-- Desculpe -- repetiu ele, baixando a cabeça. Encarei-o, a raiva não permitindo que eu visse ali meu bom mestre de música, mas apenas o velho tonto que acabara de estragar a minha noite. Porque ele a estragara, sem dúvida alguma. Quão sedutor eu poderia parecer, aos olhos de Tina, depois de realizar aquela gloriosa façanha?
-- Tina, eu... Bom... Talvez seja melhor você voltar lá para casa -- disse eu, sem coragem de olhá-la. -- Lá, com certeza, você vai ficar mais à vontade. E enquanto isso, Mandol, que tal esquentar um pouco d'água? Não posso limpar essa criança sem lhe dar um banho completo.
-- Ah, sim! Pode deixar -- disse Mandol, apressando-se a cumprir as ordens. Tina hesitou por alguns instantes, depois saiu, deixando-me às voltas com Alfonz e com a raiva que me apertava a garganta. Eu estava farto daquilo, farto de ser tratado como um eterno aprendiz, farto de ser lembrado ou de me lembrar de tudo que Mandol e outras pessoas haviam feito por mim. Estava farto de ser explorado. De que valia ser hábil em tantas artes, se tudo que conseguia era um peso cada vez maior sobre as minhas costas?
-- Olhe aqui a água -- disse Mandol, ressabiado. -- Não sei se está quente demais, ou...
-- Não - respondi, secamente. -- É assim mesmo.
- E, Cyprien, você... você não levou assim tão a mal, não é? -- arriscou ele, depois de alguns momentos. -- Olhe, eu não ia trocar a fralda, ia deixar para a mãe dele quando chegasse, mas o garoto é aquilo que você sabe. Um pestinha, para não dizer pior. E quando eu vi o que ele tinha feito, não pensei... Nem lembrei, na verdade, que você estava...
-- Por favor, Mandol. -- Respirei fundo, tentando me controlar antes de falar outra vez com ele. -- Não vamos discutir, está bem? Deixe-me acabar com isso e voltar para Tina, se é que ela ainda vai querer alguma coisa comigo. Amanhã, podemos conversar com calma, mas agora vamos ficar quietos. É um favor que fazemos a nós dois.
-- Sim, mas eu... Oh, está bem -- murmurou ele, encolhendo os ombros. -- Eu só estava explicando, mas, se é assim que você quer...
-- É, é assim que eu quero.
Isso pareceu deixá-lo um tanto chocado, mas mesmo assim ele assentiu, e ficou em silêncio enquanto eu completava o banho de Alfonz. Felizmente, dessa vez ele não atirou muita água para os lados, ficou quieto até para pôr a fralda, o que, com a sua energia, costumava ser uma operação difícil. Seus olhos, da cor do mel escuro e com pestanas longas, fitavam-me de um jeito sério, como que a me assegurar da sua boa vontade. Era quase como se ele soubesse que já causara confusão suficiente para um dia.
-- Pronto, aqui está o seu neto -- falei, entregando-o a Mandol. -- Agora, se me permite, acho que vou indo... Ou devo esperar, para a hora em que ele tiver fome?
-- Ah, não! Eu já dei o leite a ele -- replicou o músico, em tom de dignidade ofendida. Resmunguei algo que soou como um boa-noite e saí, ainda irritado, mas ao mesmo tempo disposto a me esquecer de tudo e voltar aos braços de Tina. Isso se ela ainda quisesse, é claro. Depois daquilo, o mais provável é que pensasse duas vezes antes de ficar comigo.

*****Parte 1
         Parte 6

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