sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Hino Torto : um poema de Anna de Bryke
Oi, Pessoas! Tudo bem?
O mundo não acabou, a vida continua e também a saga do Castelo. Eu queria trazer mais um conto pra vocês antes do fim do ano, mas nestes dias corridos não pude escrevê-lo, nem quis lançar mão de um dos contos mais longos que têm de ser postados em várias partes.
Assim, o que acabei por trazer foi um poema, acompanhado do link para um post de 2006, quando eu estava acabando de escrever a primeira versão de Um Ano e um Dia. Quem leu o Castelo ou acompanha este blog - e principalmente as poucas e generosas pessoas que fazem ambas as coisas - irá gostar de ler este texto que se entrelaça com a gênese da série, explica um pouco sobre o processo de criação e revela um dos misteriosos poemas de Kieran. Aproveitem, vocês vão lê-lo antes da Anna!
E, por falar nela... É claro que a Mestra de Sagas também arrisca seus poemas. Não são assim tão bons, mas ela tem menos vergonha de mostrá-los. E, assim como o de Kieran, ele traduz os pensamentos dela, ou talvez uma tentativa de se manter serena e otimista em meio à difícil situação em que irá se encontrar no segundo livro da série.
Eis o poema de Anna:
Hino Torto
Se algum dia um deus me tocar,
Que não queira vestir-me a pele;
Já gastei dela cada polegada
Reinventando meu destino.
Se um espírito falar por mim,
Que use sua própria voz:
Com a minha conto histórias,
Não faço profecias.
E se um herói me quiser investir
Do poder em seu nome,
Que me dê uma boa máscara
Para que eu possa fugir no último ato
Sem ser reconhecida.
Serei um ídolo de pés de barro,
Senhora do bizarro,
Oficiante de um estranho rito.
Enquanto me restar uma única palavra,
Nem espada nem magia
Lançarão mais vidas ao abismo.
.......
Adoraria comentários. Mas, se não der, tudo bem.
A todos vocês, adeptos ou não de comemorar o Natal, desejo um bom descanso e dias felizes ao lado de seus amigos e família. Ainda volto antes do fim do ano pra deixar mais um abraço.
Até breve!
Post ilustrado com uma versão fofinha de Anna de Bryke pela querida e talentosa Allana Dilene.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Meu Amor é um Sobrevivente: Guia para Submissão e uma Novidade
Bravas Pessoas,
Como já devem ter percebido, gosto bastante de histórias de amor. Em O Castelo das Águias, além da Anna e do Kieran, tem o Raymond e a Kyara, a Maryan e o Zendak, o Finn e a Sophia e vários outros casais. Em O Jogo do Equilíbrio tem o Cyprien e a Mariotte, em Meu Amor é um Mito tem a Camila e o Hermes e assim por diante. Não que haja romances em todos os meus trabalhos, mas em boa parte deles. E sempre que posso dou um jeito de conseguir, se não um final feliz, pelo menos aquele gostinho de "eterno enquanto dure".
Pois bem. Meses atrás, meu caríssimo editor Erick Santos me surpreendeu com um convite: o de substituir Eric Novello, partilhando com Janaína Chervezan a organização da Série Amores Proibidos. Claro que aceitei na hora e contei para dois ou três amigos, mas guardei a "notícia oficial" para mais tarde, quando fôssemos publicar... tcharaaaan! o guia para submissão de contos!
Como podem ver, depois de vampiros, anjos e personagens mitológicos chegou a vez dos mortais. Estes, porém, devem ser muito especiais, espertos e duros na queda para sobreviver a um cenário pós-catástrofe. Aliás, para quem pretende participar da seleção, uma dica: neste volume da série, mais do que qualquer outro, o cenário será muito importante. Caprichem na ambientação.
O post da editora sugere alguns livros que refletem aquilo que buscamos. O meu é ilustrado com o casal de Jogos Vorazes, Peeta e Katniss.
Desde já, desejo muita inspiração a todas vocês (sim, a coletânea só admite autorAs) e me coloco à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas.
Aguardo sua participação!
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Descobertas
Antes de começar: prefere ouvir esta história narrada por mim? Clique aqui. Se prefere ler, é só seguir em frente!
Bem que me avisaram, lenha úmida não dá bom fogo, pensou Raymond, tossindo enquanto soprava para atiçar as brasas. O vento silvava através das fendas, que eram muitas, espalhadas pelas quatro paredes e até no teto da velha cabana. Não que ele estivesse se queixando, longe disso. Fora uma sorte, em meio à nevasca da tarde anterior, ter encontrado aquele abrigo, ainda que rústico e pelo jeito abandonado. Comida não havia, mas a lareira estava em condições de ser usada, e com as peles que encontrou enroladas num canto ele ficou bem aquecido enquanto as roupas secavam. No fim, dormiu, ignorando os uivos do vento e os roncos da barriga.
Ao despertar, a neve tinha cessado. Isso lhe permitiu sair, catar um pouco de lenha e até pegar uns peixes no rio sinuoso que corria atrás da cabana. Usou para isso uma forquilha improvisada com um galho, e se saiu melhor do que esperava, exceto pelo fato de ter caído sentado no rio ao capturar o quinto e último peixe. Como desforra, assou-o antes de todos os outros, sua própria pele curtindo diante da lareira enfumaçada, as roupas estendidas para secar sobre uma armação de madeira. Raymond não sabia para que servia aquilo, mas suspeitava de que fosse parte de algum instrumento, quem sabe um tambor em que a pele fosse esticada com cravelhas. Achá-lo na cabana de um caçador era um pouco intrigante, mas, se uma coisa ele aprendera em suas andanças, esta fora o fato de que a vida nos surpreende a cada momento. Por que um caçador não poderia fazer música se ele mesmo, que na adolescência ganhara a vida como artista, estava por sua vez a caminho de assumir um posto de guarda-caça?
Um pouco de gordura avivou as brasas, iluminando o sorriso de Raymond ao pensar em sua própria história. Era daquelas boas de contar na feira: um músico e trabalhador itinerante, preso ao roubar uma torta de carne e libertado em troca de se alistar como voluntário de guerra. Matou alguns homens – isso era inevitável – mas salvou várias vidas, inclusive a de um jovem adversário que mais tarde souberam ser o herdeiro de um barão. Quando partiu, resgatado pela família, ele recompensou seu salvador com uma carta que o nomeava guarda-caça em suas terras, uma posição modesta, mas que lhe garantiria o sustento até o fim da vida. Isto é, desde que conseguisse chegar lá, atravessando meio País do Norte numa viagem da qual muitos desistiriam só de olhar o mapa. Mas isso não deteve Raymond de Pwilrie.
- A um belo futuro! – Em voz alta, ele brindou a si mesmo, erguendo uma tigela cheia d´água do rio antes de tirar o peixe da grelha. Queimou os dedos, mas a fome era grande o bastante para que fosse em frente, arrancando a carne da espinha e a engolindo quase sem mastigar. Devorou, assim, os dois primeiros peixes. Estava pensando em como embrulhar os outros para viagem quando ouviu – com uma nitidez que não deixava margem a dúvidas – uma pancada do lado de fora da porta, seguida por palavras abafadas pronunciadas em voz feminina.
Na mesma hora, Raymond se levantou, reagindo com o senso comum do Povo Alto: se era uma mulher que estava lá fora, não precisaria de uma arma de defesa, mas de alguma coisa que cobrisse a sua nudez. Ele tentou chegar até suas roupas, mas o gesto ainda ia a meio quando a porta se abriu.
E de repente ele se viu diante da jovem mais linda e mais estranha do mundo. Vestida em couros e peles, tinha o cabelo preso em várias tranças e olhos grandes, que pareciam iridescentes. Seu rosto de um oval perfeito estava contraído, e Raymond só pôde tapar apressadamente o sexo com as mãos antes que ela lhe tocasse o peito com a ponta de uma lança.
- Ei, calma, moça! Desculpe se fui entrando, achei a casa vazia – disse ele, sentindo sua barriga se encolher de medo. – Desarrumei as peles, mas não mexi em mais nada, só acendi o fogo para grelhar os peixes. Se está com fome...
Apontou com o queixo para a lareira, um gesto cuidadoso, que se tornou mais confiante quando a moça baixou a arma. Sem deixar de encará-lo, ela deu alguns passos para o lado e pegou um peixe, refletiu por um instante e pôs a lança sob o braço, ficando com as mãos livres para comer. Ao que parecia, estava com tanta fome quanto Raymond.
- Não tem nenhum tempero, mas a carne é boa. Pode comer tudo, se quiser – disse ele, com expectativa. – E mais uma vez me desculpe por ter invadido sua casa.
- Ah, não é minha – replicou ela, entre duas mordidas no peixe. - Entrei para secar os pés, mas não vi seu fogo, porque a fumaça ficou aqui dentro em vez de subir pela abertura.
- Lenha ruim – ele explicou, e arriscou um sorriso. A moça também sorriu. Tinha dentes muito brancos, de um jeito que só se via no Leste, e a pele era morena como a de Raymond, mas nem lhe passou pela cabeça que pudesse estar diante de uma conterrânea. Ao contrário, algumas coisas na moça nem pareciam ser próprias de uma pessoa: não só os olhos brilhantes, mas principalmente as orelhas, que eram alongadas como as de um lobo. Ele puxou pela memória, resgatando fiapos de histórias ouvidas aqui e ali sobre o povo das orelhas pontudas, que vivia nas cidades do Sul e construía palácios. Não parecia ser o caso desta, mas mesmo assim aquilo o acalmou: ela podia ser de uma raça diferente da sua, mas pelo menos era gente. Não um demônio ou uma criatura qualquer da floresta.
- Vou pegar minha roupa – Raymond falou, sem jeito. A moça assentiu, sem tirar os olhos dele, mas sua expressão perdera toda a dureza do início. Agora parecia apenas curiosa – e em que medida ele não tardaria a comprovar, quando, passando perto dela para pegar as roupas, sentiu uns dedos finos e ásperos roçando os pelos do seu peito.
- Como você tem cabelo aqui? – ela sussurrou.
O tom era reverente, como o de quem faz uma descoberta. Raymond encolheu os ombros, sentindo uma espécie de vergonha ao perceber que a estranheza era recíproca: a moça também nunca vira uma pessoa como ele. Espero que não ache que sou um demônio, pensou. De qualquer jeito ela não parecia ter medo, pois continuou a tocá-lo, primeiro no peito – o pelo negro, os músculos que ainda conservava apesar de estar muito magro – , depois nas faces, cobertas por uma barba cheia após duas luas sem navalha. Ele fechou os olhos sob seu toque, desejando fazê-lo durar, e estremeceu ao ruído da lança sendo largada no chão. Que fosse, então, o que devia ser. Leves como asas, as mãos da moça percorreram os tendões nos braços de Raymond, e ele inspirou fundo, saboreando cada instante do prazer de ser descoberto.
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ATUALIZAÇÃO: Já que gostaram da ideia, este conto teve uma continuação. Clique aqui para saber o que aconteceu uns dias depois.
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E, para quem ainda não viu: não deixem de conferir a ilustração que a Angela Takagui fez do casal. Ficou linda! Basta clicar aqui.
Até breve!
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Kyara e Raymond
A história de Kyara e Raymond é a primeira que Anna conta a seus novos amigos do Castelo das Águias. E talvez seja aquela que mais tem influência em sua vida.
Quando era uma jovem caçadora da Casa do Lobo, Kyara saiu em perseguição a um gamo e se afastou demais da Floresta dos Teixos. Ao se abrigar em uma choupana abandonada, deparou-se com o primeiro ser humano que via em sua vida, e que também era um estrangeiro naquelas paragens: um ex-artista e soldado chamado Raymond de Pwilrie.
Tal como Naheen, o Mestre de Ciências do Céu do Castelo, e Cyprien, herói de O Jogo do Equilíbrio, Raymond era um membro do Povo Alto, amante das artes e das estrelas. Sua natureza sonhadora, porém, até agora não o havia ajudado muito no sentido de ganhar a vida. Em paga de um favor prestado a um nobre, ele recebeu uma oferta de trabalho como guarda-caça, atividade que desconhecia, mas na qual acabou por se sair melhor do que esperava... graças à ajuda, também inesperada, da jovem elfa que conheceu naquela noite.
Raymond e Kyara viveram juntos por vários anos e tiveram uma filha a quem deram o nome de Anna. Infelizmente, a pequena família foi destruída pela guerra, sobrando apenas Kyara e uma segunda Anna: sua neta, nascida de um ato de violência cometido por mercenários. Levada pela avó para a Floresta dos Teixos, a pequena Anna se tornou uma Mestra de Sagas e sempre considerou Kyara e Raymond como uma espécie de casal-modelo.
E, talvez por isso, não veja problemas em entrar num relacionamento com alguém que é diferente dela em quase todos os sentidos.
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Para ler um conto sobre o primeiro encontro de Kyara e Raymond, é só clicar aqui.
O casal foi retratado pela artista Angela Takagui especialmente para o blog do Castelo.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
As Casas Nobres de Athelgard e as Onze Cidades
A história das Terras Férteis é a história da convivência entre várias raças. Desde os primeiros Homens que habitaram a região, sobrevivendo como caçadores e coletores, até os Vanir e posteriormente os Elfos Brilhantes, houve conflitos e luta pelo poder.
Com ciência e tecnologia mais avançadas, os Elfos rapidamente assumiram uma posição dominante, sujeitando os descendentes dos Homens e dos Vanir - agora indistinguíveis uns dos outros graças a gerações de miscigenação - a uma condição inferior, principalmente nas chamadas Onze Cidades. Estas são os maiores centros urbanos das Terras Férteis, e cada qual foi fundada por uma família élfica que se atribuiu o status de nobreza.
Por tradição, cada família tem como símbolo uma pedra preciosa, que é usada em seus escudos de armas e sob a forma de joias. Pode-se reconhecer um membro da nobreza pela pedra do brinco que usa na parte superior da orelha direita desde o nascimento, o que acaba por deixá-la permanentemente dobrada para baixo. Já os bastardos reconhecidos pelas Casas Nobres têm direito a um brinco da mesma pedra no lóbulo da orelha. Brincos usados por pessoas não pertencentes à nobreza não podem ostentar nenhuma das onze pedras, embora estas possam ser utilizadas em colares, braceletes e outras joias.
Antes da criação da Liga das Terras Férteis - que extinguiu os direitos da nobreza, tanto élfica quanto humana, e unificou a moeda e boa parte da legislação do Sul de Athelgard - cada uma das Onze Cidades se desenvolveu de forma independente, de acordo com a geografia, o clima ou mesmo os interesses da família dominante. Para citar um exemplo: Bergenan, uma cidade de planície, desde o início abrigou muitas fazendas de grãos e de criação de animais, e foi lá que surgiu a primeira Escola de Ciências da Terra. Já Scyllix, árida e de topografia acidentada, sempre sofreu com os ataques de inimigos do Oeste, o que levou os cidadãos a se militarizarem cada vez mais.
Como parte do acordo de criação da Liga, e embora as cidades precisassem de atividades variadas para continuar a existir, cada uma passou a ser a principal responsável por um aspecto da administração, da economia e do desenvolvimento cultural. Isso ocorreu mais ou menos de acordo com o que parecia ser a "vocação" da cidade, e assim continuou desde então, apesar da insatisfação de boa parte da população, à qual determinadas atividades acabam por ser impostas à revelia.
Estas são as Casas Nobres, suas respectivas cidades e atribuições principais:
Casa Safira – Scyllix – Defesa das Terras Férteis
Casa Topázio – Bergenan – Agricultura e Pecuária
Casa Lázuli – Kalket - Comércio e Comunicações
Casa Esmeralda – Ardost - Educação e História
Casa Diamante – Madrath – Artes
Casa Ônix – Kawles – Administração
Casa Coral – Thaelke – Diplomacia
Casa Turquesa – Erchedel – Leis
Casa Ametista – Donnes – Ciências Aplicadas
Casa Âmbar – Herrien – Ciências Puras
Casa Rubi – Riverast – Cura, Magia e Religião
Há descendentes de Casas Nobres vivendo em diferentes cidades das Terras Férteis e (raramente) em outras regiões de Athelgard, mas cada uma das Onze maiores continua a abrigar o o solar de cada família fundadora. Ali vive o chefe da família com parentes de vários graus, agregados e empregados quase sempre humanos ou mestiços. Alguns ramos familiares menores se estabeleceram em cidades diferentes da sua e cresceram a ponto de rivalizar em riqueza, poder e influência com os fundadores, como acontece com um ramo da Casa Âmbar de Herrien que, estabelecido em Scyllix, acabou por se tornar inimigo político da da Casa Safira.
De um modo geral, os membros das antigas Casas Nobres são respeitados e ocupam posição de destaque na sociedade, contribuindo para que continuem a se considerar acima das demais pessoas. Eles seguem tradições próprias e se comportam como se ainda fossem membros da nobreza, com todos os direitos que cabiam a seus antepassados.
E, justiça seja feita, também não costumam fugir de seus deveres, embora geralmente sejam mais fiéis às suas famílias e à sua raça do que à população ou à Liga das Terras Férteis.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Excalibur: resultados da seleção para a coletânea
Ladies and Gentlemen,
Muitos de vocês já devem saber, mas não posso deixar de noticiar aqui no blog o resultado da seleção para a coletânea Excalibur, da qual sou co-organizadora juntamente com Erick Santos. Os autores, inclusive os convidados, e os títulos de seus contos vocês conferem no blog da Editora Draco.
Quero agradecer e parabenizar a todos que enviaram seus trabalhos. Já estou entrando em contato com os autores e iniciando o trabalho de copidesque. Àqueles que tiverem dúvidas, peço que me escrevam usando o endereço anamerege@gmail.com.
E para aqueles que aguardam o segundo volume da série do Castelo, uma boa notícia. Apesar da parada obrigatória para cuidar da coletânea, minha meta, relativa à reescrita do livro, foi batida por ampla margem, com o que a previsão de publicação está mantida para meados do ano que vem.
Enquanto isso, muito trabalho a ser feito. Muito suor, muita adrenalina, muita inspiração. E a certeza de que colheremos belos frutos.
Até breve!
....
Post ilustrado com imagem retirada daqui. Só uma antecipação do meu conto "A Senhora da Floresta", que sairá na Excalibur.
domingo, 14 de outubro de 2012
Sino dos Ventos, Sino de Adeus
Quando ela saísse, os sinos tocariam pela última vez.
Thalia estava deitada sobre o colchão nu, vestindo as roupas que não chegara a tirar. Tinha passado a noite ali, sozinha, no quarto que Shanion desocupara havia apenas três dias – o quarto que ela visitara tantas vezes desde que o Mestre de Sagas viera para o Castelo. Tinham sido vários anos, ao longo dos quais ela se habituara a estar cercada por arcas elegantes e pela estudada desordem de livros e papéis. E, claro, também se habituara a Shanion: um amante pouco exigente, às vezes descuidado, mas sobretudo um amigo com quem ela podia conversar e falar com franqueza.
Foi numa dessas noites, naquele mesmo quarto, que ele lhe dissera que ia partir. E o dissera sem subterfúgios, como se fosse uma das coisas corriqueiras sobre as quais sempre falavam, aconchegados sob a manta de lã. Aquilo a atingira, embora ela soubesse que não havia razão. Como qualquer membro legítimo de uma Casa Nobre, Shanion devia agir de acordo com o que fosse melhor para a família e se casar com a pessoa escolhida por eles, como os irmãos de Thalia tinham feito tantos anos antes. Que ela própria houvesse rompido um compromisso para poder ascender aos últimos Círculos da Magia era apenas um detalhe, tão irônico quanto o fato da prometida de Shanion também ser uma maga. Casada, ela seria a senhora de um solar, mas nunca uma mestra da Escola de Riverast nem membro do Alto Conselho. Jamais lhe enviariam avisos através do fogo ou dos sonhos, nem as mensagens cifradas que, no Castelo das Águias, Thalia era a única a receber. Ela as partilhava com Camdell, porque entendia que ele também tinha esse direito, embora houvesse se afastado do Conselho na época da Cisão. Teria partilhado muito mais se ele quisesse. Mas até nisso, como em tantas outras coisas, Camdell era diferente de todos os seus amigos.
Um ruído seco, de madeira contra pedra, subiu até ela vindo do térreo. Rydel tinha acordado e aberto a janela. Sua voz límpida se fez ouvir em seguida, com a frase que ele repetia todas as manhãs. Eu te saúdo, lindo dia! Isso no sol ou na chuva, o que incomodava Shanion, para quem os seguidores de Odravas se mascaravam sob um estado de perpétua felicidade. Aquilo não era real, argumentava. Havia dias miseráveis, com chuva e vento; havia pensamentos mesquinhos e momentos de tristeza. Ele mesmo, quando lhe contou sobre a partida, não parecia feliz, já que preferiria ter escolhido ou ao menos sido consultado sobre a futura esposa. Por outro lado, reconhecia que precisava ir em frente, que não havia como progredir em sua posição na Escola de Artes Mágicas, onde tudo que se exigia de um Mestre de Sagas era que ensinasse os textos mais básicos a crianças desatentas.
Como se nada do que ficava para trás tivesse importância.
- É a coisa mais simples. Nem vou deixar instruções à minha sucessora – dissera ele, e olhara em torno, onde ainda estavam seus livros e outros objetos. – Aliás, não vou deixar nada, exceto os móveis que já estavam neste quarto. Ah, menos os sininhos de vento. Gosto tanto deles, e creio que não é exatamente um roubo. Ou eu deveria falar com o intendente? O que você acha?
- Acho que pode levar – disse Thalia, pouco à vontade. Por estranho que parecesse, naqueles anos que já durava sua amizade com Shanion ela também passara a gostar dos sinos, que ficavam pendurados diante da porta como um móbile. Tilintavam à menor brisa e soavam com uma bela melodia sempre que alguém entrava, o que a incomodara no início, pois fazia saber aos demais moradores da Ala Rosada que o Mestre de Sagas tinha companhia. Ele, porém, que geralmente era tão sério, só admitindo como arte o que estivesse dentro de seus elevadíssimos padrões – ele, Shanion de Ardost, se encantara por aqueles sininhos de louça colorida, delicada, porém barata, uma quinquilharia vendida por uma artesã humana no mercado de Vrindavahn.
E, por alguma razão que nem ela mesma saberia explicar, Thalia os escondera e os levara consigo na última noite que passara na Ala Rosada.
Os ruídos agora eram mais altos do lado de fora. A maga se levantou e foi até a janela, espiando por uma fresta o caminho de pedras que se via lá embaixo. Rydel estava saindo, com o cabelo faiscando ao sol e as orelhas aprumadas de quem jamais usara uma pedra de nobreza. Dois empregados passaram em seguida com um carrinho cheio de folhas secas, e fora de suas vistas aprendizes do Primeiro Círculo faziam a costumeira algazarra. Nada como aquela manhã, três dias atrás, quando as arcas e caixas de Shanion eram postas na carroça que o levaria embora para sempre. Naquele dia estava chovendo muito, e as despedidas tinham acontecido no refeitório, restando apenas o cocheiro contratado e seu ajudante para acompanhar a partida do Mestre de Sagas. Ela mesma lhe desejara boa sorte diante de todos os outros, depois de ter passado a noite em seus aposentos da Ala Amarela. Tudo para não estar com Shanion quando ele desse pela falta dos sinos.
E, tolo que ele era, não deduzira que aquilo fora obra de Thalia. Pouco mais tarde, após ele ter ido embora, ela soube que ele andara procurando pelos sininhos, que perguntara ao intendente e aos empregados se os tinham tirado do quarto e acusara os aprendizes de lhe pregarem uma peça. Para cúmulo de tudo, chegara a pedir ajuda aos magos do Castelo, mas todos eles tinham dado de ombros. Por fim, partiu, e Thalia ficou longe de seu quarto por duas noites, até voltar pé-ante-pé com os sinos embrulhados em um pano.
E agora eles estavam ali, tilintando à brisa da manhã, e soaram com mais força quando ela acabou de abrir a janela. Tinha fechado os olhos e tentava ignorar os outros sons, os risos e as vozes das crianças, o ranger das rodas do carrinho e o canto dos pássaros. Em sua mente só devia haver os sinos, um som que guardaria para sempre a memória de suas noites com Shanion. Fora um período bom, mas tinha acabado. Essa era a coisa certa em que acreditar.
Thalia exalou longamente o ar em seus pulmões e abriu os olhos. O quarto não era o mesmo, sem as arcas e os tapetes trazidos do solar da Casa Esmeralda e com as estantes nuas. Em uma ou duas luas elas seriam preenchidas com os livros da nova Mestra de Sagas, cuja chegada não apenas Camdell mas também Lara, Rydel e – por razões que só ele sabia – Kieran de Scyllix aguardavam com prazer e ansiedade. Que ela fosse feliz ali, pensou Thalia, desejando poder ser mais sincera. Que todos fossem felizes, principalmente Shanion em sua nova vida. Ela também voltaria a sê-lo tão logo deixasse aquele quarto.
Os sinos ainda soavam quando ela saiu sem olhar para trás.
...
Este conto se passa pouco antes da chegada de Anna de Bryke ao Castelo das Águias, para substituir Shanion como Mestra de Sagas. Ela ocupou o antigo quarto dele e herdou os sinos de vento. Mas não por muito tempo. :)
Se vocês não conhecem a Thalia, cliquem aqui para saber mais e apreciar uma ilustra exclusiva deste blog!
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