quarta-feira, 11 de março de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 10)

Foi no terceiro dia após sua visita às obras, num fim de tarde frio e ventoso em que Theoddor trabalhava no jardim de ervas. O aviso foi trazido por um adolescente, filho e ajudante de um dos pedreiros, cuja pressa em encontrá-lo e pedir ajuda demonstrava um claro senso de justiça. Pelo menos isso.


-- Mestre, está havendo uma briga séria lá no galpão de trabalho. Aquele artista de Pwilrie... ele está sendo acusado de roubo – afirmou o rapaz, sem fôlego, os olhos arregalados. – Ele diz que nunca antes pegou nada, só que o pessoal...
-- Oh, pelas joias de Freya! Será possível? – Levantou-se quase de um salto, sem ligar à dor nos joelhos. – Corra na frente, menino, e diga que estou indo! Diga que esperem por mim antes de tomarem qualquer atitude!
O garoto assentiu e disparou entre os canteiros. Theoddor o seguiu, o mais rápido possível, alarmado com a urgência e com o caminho que as coisas poderiam tomar. Os sons da briga já se ouviam bem antes de chegar ao galpão, diante do qual todos os artesãos e operários da obra estavam reunidos. Também boa parte dos aprendizes mais velhos, inclusive os Três Espertinhos – Marla, Elina e Donovan --, cuja intervenção, sob a forma de protestos e dos próprios corpos usados como escudo, era o que impedia Cyprien de Pwilrie de ser agarrado e espancado pelos homens furiosos.
Não que ele mesmo não soubesse se defender.
-- Estou avisando. O próximo que tocar em mim sai de braço quebrado – Theoddor o ouviu dizer, num tom pausado em que procurava conter os limites de sua raiva. Tinha os pés bem plantados no chão, um joelho flexionado, como se pronto para saltar; as mãos estavam abertas, e os dedos longos eram muito fortes. Isso já fora comprovado por um dos gesseiros, que estava numa ponta do grupo, com expressão dolorida, massageando o próprio braço. Theoddor passou por ele e se aproximou de Ruaridh, que já esperava encontrar ali, à frente dos acusadores, com a cara toda vermelha e os punhos cerrados.
-- Ainda bem que o senhor chegou. Eu mal estou conseguindo me segurar – bufou ele, assim que viu Theoddor. – Nós pegamos esse daí saindo com duas pranchas de madeira; não tinha registrado isso no livro, e ainda se fez de desentendido, disse que tinha perguntado ao Ranald e ele respondeu que podia levar o que quisesse! E que não sabia que devia anotar, e que era a primeira vez que tirava alguma coisa do galpão!
-- Mas eu nunca tinha pegado nada, a não ser ferramentas, que sempre ponho de volta! – replicou o saltimbanco. – Por que me acusa do que não fiz?
-- E por que você não anotou? – indagou, de braços cruzados, Ranald, um carpinteiro cuja família trabalhava havia gerações para a de Theoddor. – Eu não disse simplesmente que podia levar. Disse para fazer como manda a regra, e ontem mesmo eu me dei ao trabalho de escrever um aviso e deixar bem à vista na parede. E você tem dois bons olhos, não tem?
-- Aviso? – Theoddor se voltou para o construtor, que mordia o próprio bigode. – Não falaram com Cyprien sobre as regras, como pedi?
-- Não, mas escrevemos. Deixamos um aviso bem claro sobre o livro de registro em cada canto do galpão. Não dá na mesma? – disse o outro, em tom de desafio.
Theoddor o encarou sem saber o que pensar, depois olhou para Cyprien, ainda escudado pelos jovens aprendizes. Suas faces morenas estavam avermelhadas, mas, por baixo disso, surgira uma palidez que por si só teria sido capaz de trai-lo. Um fingidor, mortificado ao ser descoberto -- mas que, com toda certeza, não se sentira desse jeito até um momento atrás. Foi isso que fez Theoddor compreender.
Não, Cyprien não tinha roubado nada. Mas também não tinha lido os avisos.
E as leis das Terras Férteis, que os senhores do Castelo das Águias tinham feito cumprir até pelas famílias mais humildes de Vrindavahn, faziam com que os homens nem sequer suspeitassem da razão.
-- Eu... Não sabia das regras – tornou o saltimbanco, após alguns instantes, respirando fundo. – Ninguém me falou, e não... não reparei que aqueles papéis na parede eram sobre isso. Da próxima vez, prometo que...
-- E das outras vezes? – Não foi Ruaridh, nem Ranald que perguntou, mas sim o gesseiro, que segurava o braço como se estivesse numa tipoia. – E tudo aquilo que só começou a sumir depois de você estar na Escola?
-- Sobre isso, já falei: não sei de nada – disse Cyprien, voltando à defensiva; o vozerio recomeçou, mas, antes que os ânimos se elevassem demais, Finn abriu caminho e irrompeu em meio ao círculo de homens zangados.  
-- O que está acontecendo? – perguntou, olhando de um lado para o outro e depois para Theoddor. – Uma das moças da cozinha viu o garoto ir à sua procura, e você sair correndo da horta... e agora todo mundo parece em pé de guerra! Tem a ver com o Cyprien? É aquilo de que Ruaridh nos falou há dois ou três dias?
-- O quê? Você tinha falado com os mestres a meu respeito? – Cyprien se voltou para o construtor, a expressão contraída, fazendo-o parecer mais velho.
-- E se falei? Quem não deve, não teme – retrucou o outro. – Prove que não tirou nada do galpão sem avisar!
-- Prove você que tirei! – Agora, peito estufado, ele também parecia mais alto.
-- Ei, vocês dois, tenham calma. Há um jeito muito simples de resolver o impasse – disse Finn, e se voltou para os aprendizes. – Não sei como vocês não pensaram nisso.
-- Eu pensei – respondeu Elina, e suas faces brancas como neve se tingiram de um tom rosado. – E até tentei... mas não consegui.
-- Entendo. Não é simples, com a comoção. Na verdade, nem para mim – sorriu o mestre, e deu um passo em direção a Cyprien. – Mas veja, para saber se alguém está mentindo, é preciso focar na...
-- Nem ouse!
Finn se deteve em meio ao gesto de erguer a mão e arregalou os olhos. Cyprien estava em pé diante dele, o indicador apontado, uma ameaça muito clara sobre o que o aguardava se cruzasse o limite. Era apenas um saltimbanco, apenas um homem sendo acusado por muitos – mas sua voz, ainda assim, soara cheia de poder.

...

Imagem: Iluminura de códice medieval (séc. XV-XV) retratando um jardim de ervas.

Parte 1

Parte 9

Parte 11



domingo, 8 de março de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 9)

-- Como assim? – Theoddor  encarou o homem, espantado. – Como assim, o sujeito de Pwilrie? O que o faz pensar que a culpa é dele?
-- Só pode ser! – afirmou Ruaridh, com veemência. – Antes de ele chegar, isso não acontecia. Claro, vez por outra alguém se esquecia de anotar uma peça de tecido, levava um martelo para casa por engano, mas não seguidamente, como agora. Várias coisas sumiram só neste último quarto de lua! E, se a gente não viu... 

-- Calma, homem. Muita calma. – Theoddor ergueu as mãos. – Diga, em primeiro lugar, o que sumiu. Lona e pregos, foi isso? E alguém viu Cyprien mexer nessas coisas?
-- Na nossa frente, não – admitiu o construtor, aborrecido. – Ah, já o vimos pegar ferramentas, mas essas ele pôs de volta antes de ir embora. Eram para consertar o banco da carroça do Hector.
-- E a lona e os pregos, para que seriam? Se ele ensina malabarismo e ensaia uma peça de teatro?
-- Isso é aqui no Castelo. Em Vrindavahn, tem a oficina de bonecos – lembrou Ruaridh. – Talvez ele use essas coisas lá.
-- Coisas da Escola? Hector não permitiria – disse Theoddor, e coçou a barba; aquilo lhe parecia no mínimo estranho. – E me diga uma coisa: tem certeza de que Cyprien foi avisado sobre as regras? Alguém explicou a ele que deveria anotar, lá naquele calhamaço de vocês, a retirada de qualquer material de trabalho?
-- O velho Hector deve ter explicado. Foi ele que o trouxe para cá.
-- Mas Hector não tem vindo ao Castelo. Nem o sobrinho – disse Theoddor.  – Talvez Cyprien tenha pegado alguma coisa no galpão e deixado de registrar, simplesmente por desconhecer essa prática. Isso se tiver mesmo sido ele que fez isso.
-- Se tiver? Só pode ter sido ele! – exclamou o artesão, bufando pelas narinas. – É a única pessoa nova por aqui, entrando e saindo do galpão feito um gato: mais de uma vez me virei e dei com ele lá dentro, sem ter escutado um ruído sequer. Além disso – baixou a voz, assumindo um ar cúmplice --, ele veio de Pwilrie, não foi? Aquela cidade é cheia de trapaceiros.
-- Agora você disse uma asneira! – Algo se eriçou dentro de Theoddor. – É tão absurdo como quando os elfos de família nobre fazem questão de casar entre si, achando que os outros valem menos e os humanos não valem nada. Ninguém é trapaceiro só por ter nascido em determinada cidade.
-- Mas eles são, os de Pwilrie. Todos dizem isso!
-- Eu sei, e estão errados. É injusto acusar alguém com base nessas crenças. Aliás, é injusto acusar sem provas quem quer que seja. Quanto às regras do galpão, pelo que vejo, ninguém falou delas a Cyprien.
-- Bom... É, a gente não fala muito com ele – admitiu o outro, reticente.
-- Então, devem fazer isso, ao menos para que fique informado. Mas, por favor, sem forçar, sem acusá-lo. Vai ver como tudo se resolve – disse Theoddor.
Ruaridh fez cara feia, mas teve que concordar. Logo havia se despedido e voltado ao trabalho. Theoddor suspirou e se voltou para Finn, que ouvira tudo em silêncio, de braços cruzados.
-- Década vai, década vem, e as coisas não mudam – desabafou. – Um rapaz talentoso, prestativo, simpático... Era de se esperar que tivesse feito camaradagem com os outros artistas. Mas todos desconfiam dele, simplesmente porque veio de Pwilrie.
-- Nós, não – disse o outro, mas logo um sorriso cúmplice encurvou seus lábios. – Bom, mas o fato é não somos como a maioria das pessoas, e a Escola é além de tudo um lugar de acolhida. Nem todos pensam assim, mas já é alguma coisa educarmos nossos aprendizes nesse sentido.
-- É verdade. E os aprendizes adoram Cyprien. Existe até uma espécie de disputa – riu Theoddor. – Começou com os pequenos, a quem ele ensina malabarismo, fazendo questão de tomar parte na peça. Cyprien sugeriu que aparecessem como os moradores da cidade do tal Guedésio, mas então foi a vez de os outros dizerem que não: que é preciso ter público para o espetáculo, e a vez dos menores de estar no palco chegaria quando passassem ao Segundo Círculo. Pediram que Thalia interferisse, e ela deu razão aos mais velhos; disse que as crianças fariam melhor em estudar os símbolos e aprender a tabela de equivalência. É o que estão fazendo, mas desde então os dois grupos andam meio estremecidos.
-- Mesmo? Não notei nada em meus aprendizes, só que estão entusiasmados com a peça, mas, agora que falou, já tinha percebido que os menores têm estado de cara emburrada. Até Camdell, sempre tão distraído, foi capaz de notar alguma coisa. Finn, você sabe se Linnet e Brenan estão com algum problema?, ele me perguntou. Disse que os viu cochichando pelos cantos, e que Linnet parece mais calada e mais concentrada. Ela que nunca para quieta, muito menos em silêncio.
-- Riverast terá trabalho com nossos pupilos dentro de uns anos – disse Theoddor, sem reprimir um sorriso: por mais justa que fosse a sua causa, e melhores as intenções, a fundação da Escola de Artes Mágicas representava de certa forma uma vingança.
Contra as regras excludentes, não as da Magia, mas aquelas que os mestres haviam criado no passado a fim de manter suas tradições seguras. Contra as próprias tradições, que tinham fechado tantas portas para Theoddor e outros como ele. Contra os julgamentos apressados. Felizmente, desta vez, ele chegara a tempo de evitar o pior... ou assim pensou durante os dois dias seguintes, nos quais não foi ao anfiteatro e não tornou a ver Ruaridh. Cyprien apareceu no refeitório para o almoço, um dia cercado pelas crianças, no outro acompanhado pelos que ensaiavam a peça, sempre parecendo muito alegre e seguro de si. Quem adivinharia o que estava por vir?
...
Imagem: Ferramentas medievais de carpintaria. Imagem livre, encontrada em sites educativos e Pinterest. 

Parte 1

Parte 8

Parte 10

domingo, 1 de março de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 8)


Guedésio era um velho ranzinza, cuja porta jamais se abria para quem necessitasse de abrigo ou alimento. Declarava, alto e bom som, que os pobres só o eram por preguiça, que as crianças deviam aprender desde o berço o valor de meia moeda e que cada um era o único responsável por sua própria ventura ou desventura. Tinha especial aversão pelos saltimbancos, pois não admitia que a arte pudesse servir para ganhar o pão. No inverno, quando os lagos se cobriam de gelo e todos aproveitavam para calçar patins, o divertimento de Guedésio era levar baldes de água fria até a janela do seu sobrado, de onde os despejava sobre qualquer músico ou acrobata que ousasse fazer de sua porta local de espetáculo.


As coisas iam assim quando, no seu septuagésimo sétimo aniversário -- que coincidia com o solstício de inverno --, três jovens, que ele escorraçara daquele jeito, decidiram dar-lhe uma lição. Os três, cujo delito fora apenas passar sob a janela do velho cantando uma canção élfica, eram na verdade aprendizes de uma maga poderosa, e aproveitaram sua ausência para, com a ajuda de artefatos mágicos, transformar em gelo a casa, os pertences e tudo em que Guedésio tocasse. De uma hora para outra, ele se viu envolto em gelo no lugar de roupas quentinhas, viu gelo onde deviam estar as chamas da lareira e os alimentos da despensa; foi rechaçado por seus sócios e pelos supostos amigos, e nem sequer foi capaz de tomar a sopa distribuída no templo da cidade, pois o simples toque de sua boca a convertia em gelo.
Por fim, desesperado e sem abrigo, e depois de muito vagar nos arredores da cidade, Guedésio encontrou a casa da maga, que o fez passar por vários testes e desafios antes de desfazer o encanto dos aprendizes. Com isso, o velho se tornou um novo homem, mudou seu jeito de pensar e de proceder; a partir de agora, os saltimbancos que cantassem sob a sua janela podiam esperar uma chuva de moedas no chapéu.
-- E, ao longo da peça, todos os símbolos, todos os ensinamentos. Não faltou nada – disse Theoddor, satisfeito. – Claro que ele mesmo não os conhece, foi informado pelos aprendizes, mas conseguiu encaixar tudo na história. Desenhou também os cenários, que serão móveis, com entradas e saídas, mas tudo muito simples. Um bom carpinteiro e um bom pintor terão aquilo pronto em três dias.
-- Então não vão precisar de gruas, nada disso, certo? Acho bom – disse Finn, inclinando a cabeça --, porque não dispomos de todo aquele aparato do testro de Madrath.
-- De fato – disse Theoddor. – Mas acho que Madrath não combina muito com nosso amigo Cyprien... não acha?
Tocou o pulso, aludindo às marcas que ambos tinham chegado a ver na pele do saltimbanco. Finn concordou com um gesto: sabia o que elas eram, e o que, possivelmente, significava alguém como Cyprien ter chegado em Vrindavahn com os restos de tinta no pulso. Um anseio, uma busca, um sonho que não dera certo. Ele tentaria levá-lo adiante, do mesmo jeito, noutra ocasião? Ou simplesmente redesenharia seus planos, como fizera o próprio Theoddor, muitos anos atrás?
-- Seja como for, este ano teremos uma peça interessante, não apenas instrutiva; e, se tudo correr bem, já será no novo anfiteatro. Um feito e tanto – comentou o mestre de Magia da Forma. – O Castelo está se transformando, dia após dia. O que diriam disso os seus antepassados?
-- Não sei se gostariam muito... como também não gostariam de saber que eu, o único herdeiro, não levei a linhagem adiante. Mas não estão aqui para ver. – Fez uma pausa, afugentando da memória os olhos tristes de sua mãe, a dureza das palavras de seu pai. – Pelos anos que me restam, vou seguir em frente com meu plano. E veja só! Não está valendo a pena?
Estendeu os braços na direção do anfiteatro, do qual, duas luas atrás, pouco havia além da estrutura em forma de concha. Agora estava quase terminado, e com tempo de sobra antes da festa de solstício. Claro que estavam sujeitos a imprevistos – uma temporada muito longa de chuvas, por exemplo --, mas seu conhecimento de Ciências da Terra quase permitira a Theoddor afastar essa possibilidade.
Com as bênçãos de Bragi, daria tudo certo.
Mãos às costas, seguido por Finn, que observava tudo à volta com interesse, ele caminhou ao longo das arquibancadas, indo em direção à arena onde montariam o cenário para a peça do solstício. Ali, Ruaridh, o mestre construtor, conferia algumas medidas, feições duras apertadas entre a barba e as sobrancelhas esfiapadas.
-- Mestre Theoddor. – O homem se endireitou ao vê-lo. – Fazendo uma inspeção?
-- De forma alguma. Apenas apreciando o bom trabalho. E estava comentando com Finn – prosseguiu Theoddor – que será muito bom, finalmente, vermos uma peça encenada como deveria ser.
-- Ah... sobre isso. – O artesão hesitou, cautela ou desagrado. – Posso ser bem direto com o senhor?
-- Claro que sim, Ruaridh. O que houve? Precisa de alguma coisa?
-- É, bem, vamos precisar de mais tinta, mas não é disso que se trata. O caso é que – esfregou os braços, pouco à vontade -- o pessoal está meio irritado, porque alguém vem usando as coisas do galpão de trabalho sem seguir as regras. Ferramentas ficam fora dois ou três dias; pregos e lona somem, e ninguém deixa um aviso sobre quem pegou, nem pedido para que reponham. E eu sei que o senhor não vai gostar de ouvir, mas... Tudo indica que quem está fazendo isso é o tal sujeito de Pwilrie.

Imagem: Batalha de bolas de neve retratada em afresco do Castello del Buonconsiglio, em Trento

Parte 1

Parte 7

Parte 9

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 7)


-- Viu só, Mestre Theoddor? Eu disse que não ia ficar bom! Até aquele homem, que deve ser um artesão ou coisa parecida, consegue perceber isso!
Cyprien, com as faces em fogo, se voltou para a mesa deles. A pessoa que falava era uma elfa de sangue puro – ele supôs por sua aparência, e teria mais certeza se soubesse quão mais aguçados que os humanos são os ouvidos de um elfo --, e não uma menina como Pardalzinho, mas uma garota mais velha, zangada e de mãos na cintura. Seus companheiros, outra moça e três ou quatro rapazes que deviam ser todos mestiços, e o próprio Theoddor a fitavam, constrangidos, sem saber como fazer frente àquele desabafo.

-- Já no começo eu disse que não daria certo. Ninguém conversa assim! – Ela repetia exatamente o que Cyprien tinha pensado. – Ninguém parte de uma brincadeira, um jogo de palavras, para se exibir com tudo que sabe a respeito de símbolos!
-- Ela tem razão – disse um dos rapazes, coçando a cabeça. – Se meus amigos fossem assim, eu não acharia divertido jogar com eles,
-- Mas amigos não são... Quer dizer, isso é teatro, é algo imaginado. Não é como na vida real – argumentou Theoddor. – Não tem que parecer o que vocês fariam de verdade.
-- Não é a vida, mas tem que ter mais vida – a elfa insistiu. – Foi o que eu li no livro que Mestre Camdell me emprestou. O que se faz num palco tem que ter por trás a emoção dos atores, e provocar também a do público. E nem eu sinto qualquer emoção ao dizer essas palavras, nem acho que o público vai sentir, como aquele homem disse com tanta clareza.
Seus olhos se voltaram para Cyprien, e com eles os de todo o refeitório: mestres e aprendizes tinham parado de comer para prestar atenção àquilo. O saltimbanco baixou a cabeça, respirando fundo, e esperou por uma resposta de Theoddor; esta, porém, não veio, e ele compreendeu que o silêncio não era mais que a sua deixa.
-- Senhoras e senhores, uma vez que sua atenção foi atraída para mim, começo por me apresentar – disse, e se levantou devagar, criando efeito. – Sou Cyprien, um artista de Pwilrie. Estou nas Terras Férteis há uma lua, e faz apenas três dias que cheguei em Vrindavahn. Vim acompanhando um amigo, sobrinho do Mestre Hector, o marioneteiro; essa é uma das artes com as quais trabalho, além de malabarismo, que me fez ser contratado para ajudar no treino dos aprendizes. E, como sabem, o teatro de bonecos tem bastante em comum com o que os atores de carne e osso representam nos palcos, portanto... Com o meu pedido de desculpas, se isso os ofende... Por tudo que sei, o teatro deve agradar ao público, e o que ouvi dificilmente agradaria.
-- Como sabe? – A pergunta veio de longe, dos lábios da elfa mal-humorada que ele supunha ser uma das mestras da Escola. – Pode ter experiência com o público, não duvido, mas certamente só com o público comum, gente que vaia e aplaude os saltimbancos na praça do mercado. Aqui são todos mestres e aprendizes das Artes Mágicas, e as peças não são para entreter a assistência. Elas têm um propósito e um significado, que nem você, nem qualquer outro leigo são capazes de entender.
Thalia de Erchedel

-- Compreendo, senhora – disse Cyprien, trincando os dentes. – Peço desculpas, mais uma vez, pela ofensa. Não cabe a mim dizer como uma história deve ser contada.
-- E ainda assim... – Agora quem falava era o elfo ao lado dela, com a tiara nos cabelos, inclinando-se sobre o prato intocado. – Ainda assim, Thalia, nosso mestre artista tocou num ponto interessante. É verdade, o teatro tem um significado, não se trata apenas de entreter o público ou, como ele disse, de agradá-lo; mas, ainda assim, a peça busca contar uma história. E, como Elina nos fez lembrar, ainda que um pouco exaltada demais, ao ponto de ser rude com Theoddor...
-- Peço perdão – disse a elfa, corando violentamente. – Perdoe-me, Mestre Theoddor, e o senhor também, Mestre Camdell. É só porque desde o início venho insistindo nesse ponto, e ninguém me deu ouvidos. Mas não queria ser rude com ninguém. Eu juro.
-- Nem eu – disse Cyprien.
-- Sabemos. Fiquem tranquilos. – Camdell ergueu a mão esguia, onde brilhava um anel de rubi. – Mas, deixando de lado esse tom um tanto brusco, Elina teve uma boa lembrança. O livro que lhe emprestei foi escrito por um dos maiores mestres que já discorreram sobre a arte teatral, e ele reforça a importância de manter o interesse do público, a fim de transmitir o que se deseja. Faz até menção à Magia – acrescentou, pensativo --, embora seja a praticada pelos xamãs, que passam ensinamentos para a tribo por meio de histórias. Também fazemos isso, mas muitas vezes nos limitamos a explicar, ou apenas ler um livro em voz alta. Já eles, ao narrar, mexem com as emoções, trabalham a Magia... com arte. É isso que eu quero tentar fazer em nossa escola.
-- Escola de Artes Mágicas – disse o meio-elfo ao seu lado, que até então estivera em silêncio. – É só pensar nisso, e o que você disse faz sentido.
-- Ah, é mesmo, Finn? Muito bem, então – disse Thalia, cruzando os braços. – É sua vez de ajudar, porque eu já fiz minha parte, e Theoddor fez o que podia. Quem sabe um mestre de Magia da Forma, que entende tanto de rituais, possa obter mais sucesso?
-- Ou... um mestre de arte? – indagou Camdell, e entrelaçou as mãos sob o queixo, olhando em cheio para Cyprien. – O que acha de ajudar a tornar a peça melhor?
-- Eu? – Foi um choque; ele quase engasgou. – Mas eu não...
-- Sim, sim, sim, sim, sim! – gritou Pardalzinho, pondo-se de pé e ao seu lado num único salto. – Mestre Camdell, Cyprien entende tudo de arte, e é muito divertido. Aposto que a peça vai ficar ótima com ele!
-- Eu também acho – disse Theoddor, abrindo um sorriso calmo. – O que me diz, Cyprien? Os aprendizes sabem tudo que tem de estar na história; você só precisa sugerir um jeito mais interessante de contá-la. Sei que conhece a melhor maneira... de evitar a chuva de nabos – acrescentou, e algumas pessoas ao redor soltaram risadinhas. Finn, o mestre de Magia da Forma, e a meio-elfa ao seu lado também acharam graça, mas Thalia não; e quando Cyprien, sem saber como agir diante daquilo, finalmente concordou em ajudar com a peça, ela se levantou e se afastou com brusquidão.
-- Façam o que quiserem, da minha parte eu sei que cuidei, e espero que não seja conspurcada. E que seja a última vez – advertiu, com o dedo no ar. – Precisamos de um Mestre de Sagas de verdade. Você me autoriza a buscá-lo, Camdell? Já que sua amiga preferiu viver na Floresta dos Teixos?
-- Sim, Thalia. Pode escrever em meu nome; você sabe as condições – disse Camdell, com um suspiro. – Agradeço muito se conseguir alguém.
-- Oh, de nada, de nada – respondeu ela, já de saída do refeitório. Suas longas vestes deslizaram pelo mosaico do chão, produzindo uma espécie de silvo. Cyprien sentiu sua pele arrepiar, mas, no instante seguinte, a voz de Finn o devolveu à verdadeira dimensão daquilo.
-- Acho que Thalia não volta – disse ele, dirigindo-se a Camdell. – E ela nem tocou no pudim. Pode passá-lo para cá?

Cyprien e Thalia retratados por Angela Takagui

Parte 1

Parte 6

Parte 8

***

Pessoas Queridas, vou me ausentar por cerca de dez dias. Nesse meio-tempo, além de passear aqui pelo Castelo, convido vocês a visitar o blog da Editora Draco e saber um pouco mais sobre o processo de criação do Cyprien e as outras histórias sobre ele já disponíveis. Basta clicar aqui.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 6)



Os aprendizes se entreolharam por um momento antes de assentir. Cyprien repassou algumas explicações sobre o manuseio das bolas coloridas, que todos dominavam em teoria, e passou as próximas duas horas corrigindo os erros práticos. Deu uma demonstração também, embora sem os floreios do dia anterior, pois ali o que interessava não era mostrar o que sabia, e sim fazê-los observar e repetir seus movimentos. As crianças se comportaram como o esperado, errando mais do que acertavam, ficando frustradas e irritadas por causa dos erros e se animando quando percebiam ter feito algum progresso. Cyprien as encorajou, até distribuiu um elogio para cada um – neste a concentração, naquela a firmeza do pulso, na pequena, que nunca reclamava das repetições, a atitude --, mas deixou claro que só melhorariam com muita prática e muito esforço, e tinham que treinar um pouco nas horas vagas, de forma a ter o que mostrar quando ele voltasse a vê-los.
-- Vamos treinar, sim. Treinamos todos os dias – disse o menino de rosto comprido. – Não melhoramos muito porque o mestre que tivemos antes não explicou onde estávamos errando. Só disse para a gente praticar até acertar, e mais nada.
-- Onde ele está agora? – perguntou Cyprien, e balançou a cabeça ao ouvir que não estava mais no Castelo. Melhor assim: faria do seu jeito, que transformara dezenas de crianças em artistas pelo menos razoáveis. Nunca tivera um aprendiz só seu, mas os mestres de Pwilrie sempre o preferiam para ajudar a treinar os mais novos. E, ao contrário do que temera, o fato de esses de agora terem sangue de elfo não foi nenhum empecilho.
Um sino badalou, duas, três, inúmeras vezes, de forma que ninguém deixasse de saber que era meio-dia. Os operários interromperam o trabalho e começaram a se retirar, enquanto a aluna menor de Cyprien o puxava pela mão.
-- Vamos comer! – Suas faces estavam coradas, e ela continuava a saltitar feito um pardalzinho. – Se a gente chegar logo ao refeitório, todo mundo consegue sentar junto!
-- Todos aqui comem no mesmo lugar? – perguntou ele, só para confirmar; não era assim tão estranho, era inclusive a prática nos castelos do Norte, onde senhores e servos comiam juntos no mesmo salão. Esperava encontrar algo parecido no Castelo das Águias, mas o refeitório ao qual os aprendizes o guiaram era, como logo percebeu, mais semelhante àqueles que se encontravam nos templos: em vez de uma mesa grande, com assentos elevados para os castelões, e outras laterais para acomodar os convivas em ordem de importância, aqui havia duas fileiras de mesas paralelas, com bancos onde cabiam quatro pessoas de cada lado – ou cinco, se fossem crianças – e uma pouco maior na lateral. Estivessem num templo e essa mesa pertenceria ao Preste Superior, ao Mestre do Coro e aos demais religiosos graduados; aqui, porém, era o lugar onde se sentavam os mestres da Escola de Magia, todos do mesmo lado, de frente para os aprendizes, artesãos e trabalhadores do Castelo.
Cyprien deu uma olhada discreta enquanto passava por eles, a certa distância, para ocupar uma mesa junto com Pardalzinho e seus colegas. Dois eram elfos: uma mulher carrancuda, que nunca terminava de passar manteiga num pedacinho de pão, e um sujeito de cabelos compridos usando uma tiara de bronze. Esse tinha à frente um prato cheio de verduras, que não estava se animando a comer. Ao lado estava um casal de meio-elfos, entretidos um com o outro e também sem muito apetite, ao que parecia. Faltava Theoddor – mas o primeiro relancear de olhos pelo salão bastou para vê-lo, sentado com um grupo de aprendizes mais velhos, enquanto um rapaz e uma moça se revezavam para declamar poemas em voz alta. Se é que eram poemas. Depois de algum tempo, tornou-se claro, para Cyprien, que se tratava de uma peça de teatro.
E, embora os dois tivessem boas vozes, as falas eram incrivelmente ruins. 
A comida chegou: travessas de verduras, grãos cozidos e carne já fatiada trazidas por duas mulheres. Cyprien se serviu, aceitou uma caneca de cerveja fraca e comeu em silêncio, prestando atenção à peça com as falas forçadas e praticamente sem história. Tratava-se de um mestre – de Magia, ele supôs – cujos aprendizes deviam cuidar da casa na sua ausência, mas que, em lugar de fazer uma festa ou qualquer coisa divertida, preferiam passar o tempo com um jogo de adivinhações. O jogo era pretexto para desfiarem conhecimentos sobre símbolos mágicos e a natureza do inverno. Era tão aborrecido que, a certa altura, o artista não foi capaz de disfarçar o que sentia.
-- Que cara é essa? – indagou Brenan, o menino de rosto comprido. – O pudim até que está gostoso.
-- Está mesmo. Fiz essa cara por causa do ensaio, ali no fundo. Para que estão fazendo aquilo?
-- Para a festa de solstício de inverno. Sempre tem uma peça – explicou o garoto.
-- Sim, vejo que a ideia é ser uma peça, mas parece mais uma aula ou coisa parecida. Se estão representando um grupo de jovens, de aprendizes, por que falam desse jeito? E o público, o que vai achar? Em Pwilrie, se alguém apresentar uma peça assim, pode esperar uma chuva de nabos podres – disse Cyprien, terminando a cerveja. Tinha falado em voz baixa, para ser ouvido apenas por Brenan ou, no máximo, pelas outras crianças na mesa, por isso levou um momento para ligar suas palavras àquilo que se seguiu.
Primeiro, uma espécie de vácuo, um corte brusco em meio à fala de uma das garotas.
E, logo após, a voz da mesma garota, cheia de acusação.

Imagem: Refeitório de um monastério franciscano em Katovice, Polônia (Wikicommons)

Parte 1

Parte 5

Parte 7

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Um Artista no Castelo (Parte 5)


A expectativa de trabalhar na Escola de Artes Mágicas manteve Cyprien acordado boa parte da noite. Era a segunda na casa de Hector, numa cama confortável, ainda que improvisada, que já levara embora a fadiga da viagem. No dia anterior, pela manhã, ele fora se apresentar ao Conselho, acompanhado por Tomas e família; fizeram muitas perguntas, mas no fim lhe entregaram uma permissão de residência e trabalho, selada com as duas trombetas de Vrindavahn e com uma assinatura cheia de volteios. Dali foram almoçar com velhos amigos de Tomas, e todos se mostraram cordiais, mas Cyprien não conseguia tirar da cabeça a ideia de que o julgavam em silêncio, por sua origem, por seu ofício, pela cor de sua pele. Tinha uma dúzia de respostas na ponta da língua para dar a quem o insultasse. O julgamento, porém, ficou apenas nos olhos das pessoas, e ele aprendera muito cedo as duas maneiras possíveis de reagir a isso. Podia sustentar o olhar, permanecer altivo, manter-se sério ou até fechar a cara, de forma a deixar claro que não estava para brincadeira; ou, ao contrário, podia sorrir, mostrando que era um bom sujeito, sem nada a esconder, e não fazia jus à fama que acompanhava os saltimbancos de Pwilrie. Na verdade, todas as pessoas de Pwilrie, quando se vinha para as Terras Férteis. Pelo que vira em Madrath, até o prefeito de sua cidade seria olhado com desconfiança ao cruzar a fronteira.
O senhor do Castelo das Águias não se mostrara desconfiado, embora houvesse demonstrado alguma surpresa ao conhecê-lo. Cyprien se inclinava a pensar que era um homem bom, ou pelo menos decente, e algo lhe dizia que voltariam a se ver dentro em breve. Quanto às pessoas a quem ensinaria malabarismo, eram uma incógnita; vira alguns jovens no Castelo das Águias, mas não sabia se eram aprendizes, e estavam distraídos e distantes demais para sequer reparar nele. Toda a experiência ficara para o dia seguinte.
Hoje.


Quando os sinos do templo de Bragi anunciaram a nona hora, Cyprien se pôs a caminho, calculando o tempo que suas pernas jovens levariam em comparação ao passo descansado da égua de Hector. O velho artesão tinha ficado em casa, empenhado em organizar o anexo que lhe servia de oficina a fim de que Tomas reassumisse seu antigo lugar. Stela preparara o desjejum para todos e fora ao mercado com duas vizinhas, cada qual com um filho pequeno e mais que dispostas a acolher e aconselhar a moça estrangeira. Por sua vez, ela parecia contente em se ocupar apenas de Aryan e das tarefas de uma dona de casa. Talvez nem mesmo ajudasse nos próximos espetáculos, isso se chegassem a fazer algum, já que o trabalho no Castelo das Águias tinha rendido algumas economias. Um inverno tranquilo, pensou Cyprien, olhos presos às torres enquanto caminhava. Um inverno sem contar cada moeda, sem ter que passar o chapéu. Até onde se lembrava, essa seria a primeira vez.
-- E o amigo, quem é? – Os portões do castelo estavam abertos, e uma carroça entrou, carregada com sacos de trigo, enquanto o porteiro assentia ao ouvir seu nome. – Ah, sim, o artista que começa hoje a ensinar malabarismo. Sabe onde deve ir?
Cyprien fez que sim e rumou pelo caminho que fizera na véspera. Com o sol da manhã, o castelo parecia mais claro, mas o espaço exterior estava quase vazio, a não ser por umas poucas pessoas ocupadas em cuidar de uma horta. Ele passou por um tanque de peixes e um cercado de aves domésticas antes de virar à esquerda e chegar à ala tomada por tijolos e operários, além de um grupo de crianças praticando malabarismo diante do galpão de trabalho. Faziam-no muito mal, mesmo o garoto louro que era o único a conseguir manter três bolas no ar; nunca haveria uma quarta se ele não aprendesse a economizar os movimentos. A menina a seu lado mal conseguia cruzar duas bolas na altura do nariz. Era a menor de todas, onze ou doze anos talvez, com traços élficos bem pronunciados, como aliás todo o resto do grupo. Cinco pares de olhos oblíquos, cinzentos ou azulados, que não tardaram a perceber a presença de Cyprien.
-- Ih, olha. – O lourinho tocou o amigo mais próximo com o cotovelo. – Acho que ele chegou.
-- Você é malabarista? – perguntou, sem cerimônia, a menina mais nova; tinha uma voz bem infantil, e saltitou sobre os pés ao falar, fazendo-o pensar num passarinho. – Se for, é o nosso novo mestre. Somos do Primeiro Círculo.
-- Sou malabarista – disse Cyprien, sorrindo para ela. – E acho que sou seu mestre, mas não sei o que significa Primeiro Círculo.
-- Aprendizes iniciantes. Que ainda não praticam Magia, só fazem exercícios preparatórios e estudam muito – esclareceu um garoto de rosto comprido. – Até o Terceiro Círculo, se é considerado aprendiz. Sairemos da escola como magos, iniciados do Quarto Círculo, mas para ir adiante precisaremos achar um mestre, ou ser aceitos na Escola de Magia de Riverast.
-- Outra das Onze Cidades, não é? Bom, eu venho do Leste, de uma cidade chamada Pwilrie – disse Cyprien. -- Não entendo nada de Magia, mas – fez um gesto, pedindo que lhe entregassem as bolas pintadas --, de arte entendo bastante, pelo menos algumas. Vi a prática de vocês, enquanto me aproximava, e vamos ter que corrigir certos problemas na base, voltar um pouco atrás nos exercícios. Se não, irão em frente cometendo erros, e logo será quase impossível progredir.
-- Mas a gente... – o de rosto longo começou, mas fechou a boca, parecendo envergonhado.
-- A gente o quê? Pode falar – Cyprien o encorajou.
-- A gente não precisa progredir na arte. Com todo respeito – acrescentou o menino. – Não vamos ser malabaristas. Isso é só para aprendermos concentração.
-- É? Como assim? – Cruzou os braços, disposto a ouvir; talvez não tivesse entendido. – O Mestre Theoddor disse que vocês fazem outros exercícios, que aprendem com os magos, ao mesmo tempo que praticam. Mas mesmo assim têm que se aperfeiçoar nisso aqui, certo?
-- Certo. Precisamos fazer isso sem pensar – disse o de cabelos louros. – A ideia é que nos concentremos tanto que não pensemos mais nas mãos. E depois não vamos precisar das mãos. Só da vontade mágica.
-- Vontade mágica? A... a Magia vai mover os objetos para vocês? – Cyprien franziu a testa; parecia difícil de crer, mas todos estavam assentindo com entusiasmo, como se o cumprimentassem por ter entendido rápido. – Querem fazer malabarismo sem usar as mãos?
-- Isso mesmo! Mestre Finn consegue – disse o lourinho. – É o mestre de Forma e Pensamento aqui da Escola. Ele ainda não dá aula para a gente; antes disso, entre outras coisas, temos de aprender a jogar três bolas sem errar.
-- Logo, progredir na arte – disse Cyprien, com alívio; tinha encontrado o fio da meada, e não iria perdê-lo. – Se têm de fazer malabarismo com perfeição, não importa se é para ser magos ou artistas, devem parar de cometer erros. E eu estou aqui para ajudá-los. Vamos lá?

Imagem: Crianças dançando em livro medieval (cerca de 1500)

Parte 1

Parte 4

Parte 6

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Um Artista no Castelo (parte 4)

O velho marioneteiro estava de costas para a porta e mostrava alguma coisa ao rapaz arruivado, que olhava atentamente para suas mãos. Assim, só o moreno viu o senhor bem-vestido entrar no galpão de trabalho, e na mesma hora assumiu uma postura defensiva. O sorriso apareceu no instante seguinte, um sorriso claro e fácil de artista, de quem depende da simpatia do público para comer. Esse rapaz deve ter passado maus bocados na vida, pensou Theoddor.
-- Mestre. – O jovem tocou o ombro de Hector, alertou-o com os olhos.
-- O quê? Ah, Theoddor! – O artesão se voltou, sorrindo, ele também, porém sem reserva. – Não imagina a alegria que o dia de ontem me trouxe! Veja, este é meu sobrinho, Tomas... Já lhe falei sobre ele, não?
-- Sim, sim! Sobrinho e aprendiz de ofício, certo? – Estendeu a mão para o ruivo, que a apertou com firmeza, a expressão séria. – É um prazer conhecê-lo. Vai ficar na cidade?
-- Ele não sabe – Hector respondeu pelo rapaz --, mas vai passar o inverno, e me dará uma boa mão na oficina. Se decidir ficar, talvez possa me auxiliar na Escola. Já o amigo dele está vindo hoje porque, além de trabalhar com fantoches, é malabarista. Ouvi, por esses dias, os aprendizes dizendo que precisavam de um.
-- Pois precisamos – disse Theoddor, e olhou dentro dos olhos do rapaz. Estavam inquietos, mas eram límpidos e sustentavam seu olhar: ele não escondia nada além da desconfiança. E, ao perceber os traços de tinta em seu pulso, Theoddor teve uma boa ideia do motivo.
-- Cyprien de Pwilrie – repetiu, ao lhe apertar a mão. – Veio de longe, Cyprien. É sua primeira visita às Terras Férteis?
-- Pode apostar – disse o rapaz, e completou com um instante de atraso: -- Senhor Theoddor.
-- Hum, bom, não vou dizer para me chamarem pelo nome, como Hector, porque vocês são quase crianças perto de nós. Mas, se é para ter cerimônia, prefiro que me chamem de Mestre. É o que sou, na Escola de Artes Mágicas... onde, suponho, você pretende trabalhar.
-- Sim, meu tio pensou nisso, mas só se houver trabalho para mim – disse Tomas, com seu jeito sério. – Se não, ficarei na oficina, em Vrindavahn, e ajudarei nos espetáculos. Não se incomode conosco.
-- Não é incômodo! Seu tio Hector é excelente artesão; combinamos que ele voltaria logo após o solstício, e se você estiver com ele será bem-vindo. Já seu amigo... Bem, malabarismo é uma das artes mais usadas para ajudar na concentração, e nossos meninos e meninas mais novas continuam precisando de um mestre. Alguém que seja paciente e bom no que faz.
-- Cyprien é muito bom – afirmou Tomas, e se voltou para o amigo. – Mostre a ele.
-- Oh, não. Isso pode ficar para... – começou Theoddor, mas se calou ao ver o rapaz moreno se pôr em movimento. Ele nunca estivera naquele galpão, mas foi direto a um canto onde ficavam algumas bolas usadas no malabarismo e, mesmo agachado, atirou cada uma para cima e as sopesou nas mãos para escolher as que lhe convinham. 


Ao se levantar – aos poucos, com movimentos fluidos como os de um gato --, já tinha começado sua demonstração, as bolas de madeira pintada saltando sem esforço de suas mãos e girando no ar, cinco seis, sete, um círculo completo que se repetiu três vezes antes que Cyprien introduzisse uma variação. Suas mãos não hesitavam, o olhar agora suavizado, atento às bolas que fazia cruzar sobre sua cabeça, passar por baixo do braço ou da perna, quicar no chão antes de retomá-la e devolvê-la ao círculo multicor que girava à sua volta, como se o artista fosse o sol. Perfeito, preciso, concentrado, pensou Theoddor. O que Camdell não poderia ter feito por esse rapaz, se ele fosse dez ou doze anos mais jovem?
-- Er... Cyprien, acho que já chega. – A voz de Hector quebrou o encanto. – Mestre Theoddor já viu que você é bom nisso.
-- Sou? – Um sorriso encurvou os lábios do rapaz, as bolas ainda no ar, os olhos voltados para Theoddor.
-- Certamente! O melhor que já vi – foi a resposta sincera. Cyprien assentiu e, a partir daí, foi retendo as bolas coloridas e as deixando uma a uma sobre uma mesinha, enquanto Theoddor voltava a falar.
-- Se quiser trabalhar conosco, e espero que queira, sua função será orientar tanto iniciantes quanto jovens que já têm alguma prática. Esses, durante o treino, vão fazer alguns exercícios propostos pelos Mestres de Magia, e você deve ser tolerante com o tempo e as necessidades deles. Pagamento, seis peças de bronze a cada quarto de lua, e todas as refeições no castelo. Temos um trato?
-- Seis de bronze, mais a comida? Nem tenho o que pensar – sorriu o rapaz. Parecia outro, mais confiante, mais aberto, mais amigável, como se mostrar o que sabia o houvesse feito baixar suas defesas. Se lhe perguntassem, Theoddor diria que tinha gostado dele.
-- Então está certo. Pode vir amanhã cedo, ao nascer do sol, se quiser tomar o desjejum; ou pela décima hora, se preferir dormir um pouco mais e só chegar para o treino. Os aprendizes serão avisados para vir à sua procura. E, Tomas, após o solstício, você é bem-vindo para se juntar a nós, na qualidade de ajudante de seu tio. O pagamento dele aumentará em três bronzes, e eu tenho certeza de que ele será justo com você.
-- Serei, sim! Vou até puxar a orelha dele como antigamente – brincou o velho.
-- Posso apostar que ele merecia – Theoddor riu junto. – Bem, tudo encaminhado. Mandem dizer se precisarem de alguma coisa.
Os três assentiram, deixando claro, pela expressão em seus rostos, que nada tinham a acrescentar para o momento. Um pouco mais e ficariam constrangidos, por isso Theoddor se despediu e deixou o galpão de trabalho. Continuou a caminhar pela ala, inspecionando as obras do anfiteatro e tomando notas para futuras providências, mas volta e meia se descobria pensando nos recém-chegados. Ou melhor, em Cyprien de Pwilrie, que na verdade não vinha de tão longe, mas cuja presença nas Terras Férteis era no mínimo inusitada.
Fosse quem fosse, ele devia ter boas histórias para contar.


*****

Imagem: malabarista, retratado no Gradual de Saint-Etienne de Toulouse, coleção Europeana da British Library.

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Parte 3

Parte 5